Piolets… Contigo ou sentigo?!

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Encomendámos mais um fim de semana de Inverno. Na verdade, o ultimo fim de semana de Inverno.

 

Está na hora da "Bjeca"!

 

 

Apesar da encomenda, o que nos saiu foi algo um pouco diferente das verdadeiras condições Invernais. As temperaturas subiram bem mais alto que a modesta altitude de 1925 metros do Cântaro Magro (por direito de honra, o verdadeiro cume da Serra da Estrela) e atingiram valores acima dos 10 graus. No entanto, o clima esse deixava brilhar o Sol e, o céu de um azul intenso obrigava a escalar qualquer coisa. Algo teria de sair, neste magnifico dia de horizontes longínquos.

 

O cume de honra da Serra da Estrela.

 

Fomos então à caça de faces norte, a única orientação que poderia permitir alguma escalada mista digna desse nome. ,

Desde a estrada, observámos atentamente todas as paredes sombreadas que íamos descobrindo no vale do Covão do Ferro, imaginando vias a interligarem escassas linhas de neve ainda entalada entre os diedros e blocos de granito.

 

Os Cântaros.

 

Abandonámos o carro num pequeno estacionamento que antecede a arqui-famosa “Curva do Cântaro” (inteiramente ocupada por viaturas que se esqueceram de estacionar em “espinha”, de forma a deixar lugar para mais alguém) e decidimos ir dar uma vista de olhos ao “Cântaro Raso”, mesmo ali ao lado.

 

Aproximação ao Cântaro Raso. Está muito longe… são mais de dez minutos a andar!

 

Há uns dias, o grau de humidade era tão elevado que fomos obrigados a abandonar ali uma cinta à volta de um bloco, deixando para trás, via “rapel”, uma linha que nos pareceu interessante. Agora, merecia a pena uma nova vista de olhos. ,

Uma pequena linha elegante de neve subia um diedro evidente.

A sombra mantinha as temperaturas frescas. “Mmm… isto parece prometer!”

 

No inicio do primeiro lance. "A coisa promete!"

 

Ainda no primeiro lance.

 

Para cima não avistávamos a continuidade. Tratava-se de um erro de perspectiva provocado pela proximidade. As paredes de rocha vertical impedem a visão das “colagens” da neve, instalada em ângulos menos verticais. Desde baixo, colados à parede, parecia “tudo rocha”. ,

Uma “piolada” confirmou a consistência aceitável. Pena as temperaturas altas que impediam a congelação perfeita da neve, agora devidamente transformada.

 

Vistas da face sul do Cantaro.

 

 

No entanto, a linha apresentava boa pinta. Merecia uma tentativa.

De imediato, o terreno empinou e, apesar das dificuldades nunca se elevarem a valores insuportáveis, a escalada manteve uma continuidade surpreendente.

 

A chegar à primeira reunião.

 

Perspectiva da primeira reunião.

 

Fomos interligando placas de neve, entrecortada por passos um pouco mais desafiadores. As protecções, colocadas em fendas perfeitas ofereciam o grau de confiança necessária para arriscar um pouco mais, nalgumas curtas secções em que os crampons elevavam-se apenas em neve efémera.

 

No final do segundo lance.

 

Ainda no final do segundo lance. Erva tracção… do melhor!

 

A curiosa entrada na segunda reunião.

 

Os piolets eram traccionados ora em neve suspeita, ora em gancheios precários, ora… em nada de nada, sendo nestes casos relegados para segundo plano, inúteis, naqueles passos em que era mais eficiente utilizar as mãos para progredir. Era o “with or without you” relativamente ás ferramentas de alpinista ou, traduzindo como deve ser: “Contigo ou… sentigo!”

 

Piolos para quê, se…

 

… basta ir em oposição!?

 

 

O Sol radioso, saudou-nos no topo do Cântaro Raso.

A partir desse momento, as sombras da parede norte albergavam uma estética via de escalada mista, num terreno mais aéreo que a primeira visão fez supor. ,

A Serra da Estrela sempre a surpreender!

 

A Daniela prestes a realizar a ultima parte da via.

 

 ,

 , Visão para o vale.

 

Pouco tempo depois, a uns quilómetros de distância para sul, tínhamos à frente um belo prato de Mexilhões e uma alegre sangria para celebrar a nova escalada. E nos pés… umas sandálias de Verão… sim, porque afinal, o Inverno já terminou!

 

Inverno!!

 

 

Paulo Roxo

 

Esta foto foi tirada no ano passado.

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Sobre o autor

Daniela e Paulo - Colunistas

Daniela Teixeira e Paulo Roxo é uma dupla portuguesa que pratica escalada (rocha, gelo e mista) e alpinismo. O que mais gostam? Explorar, abrir vias! A Daniela tem cerca de 10 anos de experiência nestas andanças e o Paulo cerca de 25. A sua melhor aventura juntos foi em 2010, onde na cordilheira de Garhwal (India - Himalaias), abriram uma via nova em estilo alpino puro na face norte da montanha Ekdante (6100m) e escalaram uma montanha virgem que nomearam de Kartik (5115m), também em estilo alpino puro. Daniela foi a primeira e única portuguesa a escalar um 8000 (Cho Oyu). O Paulo é o português com mais vias abertas (mais de 600 vias abertas, entre rocha, gelo e mistas). Daniela é geóloga e Paulo faz trabalhos verticais. Eles compartilham suas experiências do velho mundo e dos Himalaias no AltaMontanha.com desde 2008. Ambos também editam o blog Rocha Podre, Pedra Dura (rppd.blogspot.com.br)

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