Quantas montanhas há no Parque Nacional de Itatiaia?

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Recentemente apresentei um artigo comentando o Índice de Dominância, que é um conceito matemático utilizado para definir o que é uma montanha. Aplicando este Índice no Parque Nacional do Itatiaia, pudemos ter uma noção sobre o que é e o que não é uma montanha em um dos locais mais interessantes da Serra da Mantiqueira.

:: Leia o artigo abaixo: O que faz uma montanha ser uma montanha? O índice de Dominância

O que faz uma montanha ser uma montanha? O índice de Dominância

Sei que muita gente não vai gostar deste artigo, pois o que montanhas fazem parte de nossa vida, nosso sentimento e cultura. Dizer que um pico conhecido não é uma montanha não quer dizer que ela tenha sido rebaixada. Afinal, chegar em seu cume será a mesma coisa.

No entanto, quando começamos a pesquisar quais eram as montanhas com mais de 6 mil metros de altitude nos Andes, fomos obrigados a ter um conceito do que é uma montanha e o Índice de Dominância foi o mais justo. Então para começar, preciso rever estes dois conceitos:

Proeminência = distancia altimétrica entre o cume e o colo mais alto que separa essa montanha de uma adjacente.

Dominância = Índice que mensura a porcentagem do destacamento topográfico de um cume em relação a um adjacente.

Índice de Dominância(%) = proeminência / altitude x 100

Como o índice de Dominância é relativo, uma montanha de baixa altitude pode ser considerada como tal mesmo com proeminência mais baixa. Com isso é mais justo para cadeias de montanha menores, como é o caso da Serra do Mar ou Mantiqueira, que tem paisagens montanhosas muito interessantes, mas não tem altitude.

O consenso é que para uma montanha ser uma montanha, a dominância precisa ser superior a 7%.  Este foi o valor médio mais baixo obtido de uma série de mensurações de montanhas inegavelmente tidas como tal no mundo todo, como Everest, Aconcágua, Kilimanjaro, Mont Blanc, Matterhorn, etc. Na Geomorfologia, a ciência do relevo, uma montanha é considerada como tal quando tem uma Proeminência igual ou superior a 300 metros. Na Dominância, a depender da altitude, a Proeminência pode ser menor, como veremos adiante.

Como é um índice matemático, de antemão já serve para negar a afirmação de que no Brasil não há montanhas.

Aplicando este Índice para o Parque Nacional do Itatiaia, onde estão algumas das mais famosas montanhas do Brasil (montanhas que são inegavelmente montanhas), ficamos com dúvida. Quais delas são de fato montanhas e quais são subcumes das montanhas principais.

O cerne desta questão é que o relevo de Itatiaia é complexo. Apesar do relevo montanhoso e dos picos rochosos, dos quais Agulhas Negras é que mais se destaca, há na região um planalto, com relevo colinoso, localizado numa altitude média de 2300 metros de altitude. Este planalto, cuja origem é tida na literatura geomorfológica como sendo um remanescente da Palesuperfície Sulamericana, uma forma topográfica com origem bastante complexa a qual tenho um livro publicado sobre o tema (Ver Paleosuperfícies de Erosão na Serra do Mar do Paraná).

Como o Planalto de Itatiaia é o nível de base regional do qual há vários ressaltos topográficos, evidentemente acima dos 2 mil metros que são tidos pelo IBGE como montanhas, que pela altitude estão entre as mais altas do país. Mas será que estes ressaltos topográficos são montanhas, morros, cumes? Será que tem independência topográfica para isso?

Picos com mais de 2 mil metros em Itatiaia. Fonte Tacio Philip e IBGE.

No Anuário Estatístico do IBGE diversos picos do Parque do Itatiaia figuram entre os mais altos do Brasil. Em 2010, o montanhista Tacio Philip Sansonovski levantou outras topografias semelhantes às citadas pelo IBGE e fez uma lista de 17 picos que está no link abaixo:

Montanhas esquecidas do Parque Nacional do Itatiaia

Agora vamos ao que interessa. Quais Picos do Itatiaia são e quais não são montanhas!

Não são montanhas:

Pedra do Sino de Itatiaia (2670m)

A Pedra do Sino tem um desnível topográfico em relação ao maciço de Agulhas Negras de apenas 75 metros. Não é considerado montanha pelo conceito geomorfológico e nem mesmo pelo Índice de Dominância, pois é de apenas 2,8%. É um morro.

Pedra do Altar (2665m)

Apresenta um desnível topográfico de apenas 100 metros em relação ao maciço de Agulhas Negras. A Dominância é de apenas 3,75%. É um morro.

Asa de Hermes (2641m)

É um subcume do Maciço de Agulhas Negras. Para ser considerada montanha, deveria ter um colo entre Agulhas de 2450 metros, porém o colo está a 2610 metros de altitude, sendo assim não é uma montanha, mas sim um subcume das Agulhas.

Prateleiras (2551m)

É uma das formas de relevo mais impressionantes e bonitas do Parque do Itatiaia. Para Sudoeste apresenta um paredão gigantesco que cai em direção ao vale do Paraíba, mas forma um espigão com pouco desnível a noroeste que se conecta com o Morro do Couto. A Proeminência de Prateleiras com o Couto é de apenas 106 metros, com Dominância de 4,15%. É um morro.

Pico das Prateleiras. Foto de Pedro Hauck

Morro do Massena (2609m), Morro da Antena (2584m), Pedra Assentada (2453m), Morro do Camelo (2318 m), Morro do Urubu (2270m), Pedra Cabeça de Leoa (2483m), Pedra Cabeça de Leão (2420m), Pico da Cara de Gorila (2281m).

Todas os picos citados acima citados, que são menos conhecidos e menos destacados na paisagem apresentam baixa proeminência e consequentemente não tem dominância superior aos 7%. São todos morros.

São montanhas:

Pico das Agulhas Negras (2791,5m)

É a montanha mais alta do Parque e uma das mais altas do Brasil (certamente galgará mais posições, pois aplicando o Índice de Dominância, diversos picos deixarão de ser classificados como montanhas). Agulhas Negras se destaca na paisagem e não é por menos. Ela tem uma proeminência de 441 metros e Dominância de 15,8%, sendo uma montanha em qualquer critério.

Agulhas Negras. Foto Pedro Hauck

Morro do Couto (2680m)

É uma montanha, apesar de ter o “morro” no nome. O colo entre o Couto e Agulhas Negras está numa altitude de 2350 metros, portanto ele tem 330 metros Proeminência e Dominância de 12,3%, sendo montanha em qualquer conceito.

Pico da Maromba (2619m)

Menos conhecido dos turistas, a Maromba se destaca na borda leste de Itatiaia. O colo entre esta montanha e Agulhas Negras está situado na cota dos 2325 metros, possuindo então uma proeminência de 294 metros, estando no limite para ser considerado uma montanha pelo conceito geomorfológico (embora os dados altimétricos possam ter erros). No entanto a Dominância é de 11,2% e assim, por este critério é sim uma montanha.

Pedra Furada (2589m)

Pico conhecida e fora da área principal e mais turística do parque, esta montanha de fácil acesso tem seu colo chave, que a separa do Morro Massena, numa altitude de 2390. São então 199 metros de Proeminência. Insuficiente para ser uma montanha pelo critério geomorfológico, mas com 7,6% de Dominância, neste ultimo critério, é sim uma montanha, ainda que com pouco destaque.

Pico Serra Negra (2572m)

Se destaca ao norte do Planalto de Itatiaia, numa região onde ele é mais dissecado, por isso, o colo chave que o separo do resto do planalto está numa altitude de 2255 metros. Assim, a Serra Negra tem uma proeminência de 316 metros e Dominância de 12,2%, sendo montanha em qualquer conceito.

Conclusões:

Este ensaio, o primeiro que produzo fazendo uma revisão sobre o que é e o que não é uma montanha no Brasil nos mostra o tamanho da problemática. Nele verificamos que várias “montanhas” clássicas, que são tradicionalmente frequentadas e que tem importância no cenário do montanhismo, na verdade não são montanhas no conceito da palavra, mas sim picos acessórios ou morros.

A aplicação do conceito geomorfológico da Proeminência reduziria ainda mais a lista, fazendo que esta importante região da Mantiqueira tivesse apenas 3 montanhas. No entanto, como a Dominância é um conceito relativo valorizando formas topográficas destacadas, mesmo em altitudes menores, neste critério passamos a ter 5 montanhas.

Também podemos notar que a lista apresentada pelo IBGE não segue um conceito do que é uma montanha, limitando-se a informar formas de relevo com seu topo situado em altitudes mais elevadas. Assim, aplicação de conceitos poderia refazer a lista das montanhas mais altas do Brasil.

 

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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