Queime o seu mas não queime o montanhismo

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Deixo claro que não consumo, jamais consumi porém de certa forma respeito esportistas que optam em consumir drogas ilícitas. A intenção desta coluna não é a de criticar ou discriminar o número cada vez mais crescente de escaladores de rocha brasileiros que consomem cannabis, mas sim alertar sobre a imagem do esporte que está sendo denegrida pelo alto de consumo de tal droga em locais populares de escalada.

Quando você diz à um brasileiro comum que você é corredor, ele automaticamente assume a imagem de que você é uma pessoa sadia, trabalha duro e não consome drogas. A grande maioria da população brasileira tem essa imagem sadia dos maratonistas, corredores de 100 metros ou praticantes de outras modalidades de corrida.

Porém, quando você diz que é montanhista ou escalador, automaticamente é tachado de drogado e maloqueiro. Porquê?

Existem pouquíssimos brasileiros que terão a imagem de esportista sadio quando ouvem que você é praticante de escalada. A coisa piora quando esta grande maioria de praticantes do esporte consome a droga à vista, para que todo mundo possa vê-lo.

Jim Bridwell – Cena do Filme Valley Uprising

Ocorre uma grande contradição. Pessoas associam a cultura do montanhismo com a cultura da maconha devido ao único ponto em comum ente elas: a Liberdade.

Coincidentemente, a grande maioria dos locais de escalada do Brasil fica no interior, onde os habitantes rurais tem um conceito totalmente proibitivo da droga. Para um habitante rural que trabalhou dezenas de anos numa fazenda, a maconha é uma droga e é ilegal. De fato é uma droga ilegal, mas o que quero evidenciar aqui é o pensamento dessas pessoas simples do campo.

Infelizmente, muitos desses trabalhadores rurais são donos de terra e acabam proibindo o acesso desses “consumidores de drogas” à sua propriedade. Para piorar mais ainda, grande parte dos locais de escalada de rocha no Brasil fica em áreas particulares.

Muitos dos que consomem essas drogas em locais de escaladas são pessoas cultas de cidade. Muitos tem educação superior e trabalhos bem pagos. O conceito que eles tem da droga é totalmente diferente de um trabalhador rural. Existem diversas pessoas que inclusive querem liberar o uso da droga e acreditam que consumir cannabis, assim como consumir álcool, é o mesmo, ou ainda mais saudável.

Concordo em certos aspectos que beber cachaça com 40% de teor alcoólico regularmente não é nada saudável, e é exatamente isso o que a maioria dos trabalhadores rurais brasileiros fazem. No entanto, a intenção desta coluna não é a de discutir se o uso do cannabis é saudável ou não, ou se deveria ser liberado ou não.

O fato é que a opinião do leigo sobre o montanhista, aos poucos é distorcida por aqueles que insistem em consumir a droga à vista.

Outro aspecto importante é que muitos locais de escalada não são somente frequentados por montanhistas, mas também por famílias e visitantes que não necessariamente praticam algum esporte. Muitas vezes eu mesmo testemunhei famílias inteiras afugentadas pelo cheiro de maconha vinda de uma rocha ou pico que além das possibilidades de escalada, oferece uma vista inigualável na região.

Aos poucos, a opinião do leigo vai se distorcendo até o ponto que hoje em dia a opinião de um político é refletida diretamente pela opinião do leigo. Estamos num país onde o esporte mal existe legalmente, mal podemos conseguir um seguro para praticar o nosso esporte, áreas estão sendo fechadas e parques estão sendo fechados para nós.

Muitos praticantes do esporte acham isso injusto porém não pensam que o consumo de drogas ilícitas em montanha é um dos fatores que levam à situação absurda que a escalada em rocha enfrenta hoje.

A coisa piora ainda mais quando percebo que boa parte dos representantes do esporte em federações e clubes, que defendem o montanhismo com unhas e dentes com seu trabalho voluntário, também consomem a droga e pouco fazem para alertar outros esportistas sobre o impacto em consumir essas drogas em locais públicos.

Acredito que se algo começar a ser feito hoje, com muito trabalho e conscientização, a opinião do leigo possa começar a mudar em uma geração e não menos que isso.

Queime o seu, mas não queime o montanhismo.

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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