Reflexões inquietantes das montanhas

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Minha última escalada nos “andes” tinha para mim mais atrativos que a altitude


Minha última escalada nos andes tinha para mim mais atrativos que a altitude, por si própria.

A magia e encanto que exerce um lugar tão único como um acampamento base de alta montanha, ou como um simples trekking pelas morainas e vales congelados, as travessias dos rios congelados e a água que corre pelas rochas, o vento seco e gélido de encontro ao rosto, as desproporcionais paredes eternamente congeladas de uma das montanhas mais altas e lindas que pude contemplar.

Tendo também o fato de que sempre gostei muito de escalar e caminhar sozinho, criar minha própria rota, enfim meu próprio estilo de encarar o desafio de vencer os limites ainda não ultrapassados.

Tudo isso revela uma série de abstrações lógicas que só poderiam ser entendidas vivenciando o mesmo momento, pois não há comparativos padronizados que remetam a uma mesma linha de pensamento o qual eu não conseguirei realmente expressar ou explicar aqui.

A sensação de liberdade é o mais forte dos ingredientes, a solidão das alturas, um momento de meditação completamente absorto naquele ambiente que parecia durar dias, meses, nos poucos minutos em que se consegue integrar corpo e mente na busca por este equilíbrio, uma paz espiritual muito intensa toma conta e absorve a poderosa energia local, como se quisesse te dizer algo muito importante, te passar esperança e confiança, quietude e paciência. O ambiente montanhoso é sagrado para alguns povos, nas crenças de deuses que dominariam e protegeriam a região dos males e que vivem no topo das mais altas montanhas.

Porém, nem só as paisagens que se descotinam do alto de uma encosta montanhosa andina são espetaculares. O fascínio de enxergar o mundo do alto, perceber através destas imagens o quanto somos pequenos e tão curta permanência teremos neste mundo de surpresas e maravilhas ocultas ainda para nós, e a cada passo que damos adiante um novo horizonte se abre, uma nova possibilidade de compartilhar o sentimento de outras pessoas que vivenciaram momentos similares.

A montanha tem seus atrativos, suas belezas, sua presença marcante e estar intimamente ligado a ela significa se atrelar a uma corda muitas vezes e afrontar pendentes empinadas em gelo, rocha e neve. Atividade que por si só não representa grande perigo, pois tudo depende de uma análise mais profunda e questionável nos momentos de decisões que devem ser totalmente acertadas.

Conhecer o terreno, suas limitações técnicas e físicas, dominar a utilização do melhor equipamento disponível, saber se adaptar facilmente a uma nova situação, convivência e companheirismo. Alguns dos fatores imprescindíveis para um bom desempenho nestes territórios tão complexos.

Mas a montanha também é exigente, ela cobra o seu preço, e conhecer os riscos e saber como enfrentar os momentos difíceis como se fossem corriqueiros é um trabalho de longa experiência adquirida somente com as inúmeras situações enfrentadas no terreno técnico, e se atender todos os requisitos se poderá sempre ter a quase certeza de retorno.

Certamente, quem não queira assumir risco algum, não deverá escalar.

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Sobre o autor

Redação - AM

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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