Retorno à Mantiqueira pt2: Pico do Papagaio 2.105m

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Depois do nosso ataque com sucesso ao cume da distante e desconhecida Mitra do Bispo, ou Pedra do Bispo de 2.200 metros de altitude, pedimos informações ao Betinho, nosso sorridente anfitrião mineiro, de como chegar a Aiuruoca de onde estávamos. Da propriedade onde ele mora saía uma estrada de terra que nos levaria direto lá, sem dezenas e dezenas de quilômetros como os que rodamos pra chegar a Alagoa. Dali nos custaria só 17km. Beleza, a aventura continua…

Antes de tudo, uma rápida explicação.

 
Rodamos e rodamos sempre olhando o Pico do Papagaio, que rapidinho foi crescendo de tamanho no pára-brisa do carro. O engraçado é que ele não é uma montanha, aliás, é o “sub-cume” mais baixo de toda a Serra do Papagaio, mas tem um formato exuberante, chama atenção a dezenas de quilômetros de distância, e não deixa de ser reconhecido pela maioria arrasadora dos montanhistas brasileiros como “Pico do Papagaio”, mesmo que não seja tecnicamente uma montanha. O ponto culminante do “PP da Mantiqueira” fica a 2.105 metros (online é possível encontrar até altitudes muito erradas como de 2.200 metros, 2.293 metros é a mais comum) conferido com o garmin 60cx do Tácio sobre a pedra de algumas toneladas que jaz no seu cume.
 
Não é uma montanha, pois o ponto mais baixo da crista onde ele está, justamente onde se sai da mata e há o encontro de trilhas em um “Y” com a que faz a travessia passando por toda a crista até o Morro da Canjica na outra extremidade, não chega a dois mil metros, está a 1.980 metros de altitude. Isso dá ao papagaio uma proeminência de 125 metros verticais somente.
 
Para muitos que não sabem, o ponto culminante da Serra do Papagaio é o Pico da Bandeira, ou Morro da Bandeira, com 2.370 metros de altitude e homônimo do nosso tão amado e idolatrado Pico da Bandeira do Parque Nacional do Caparaó, com 2.893 metros de altitude, terceiro ponto culminante da terra tupiniquim. Ao longo da crista há pontos mais altos que recebem nomes, dentre eles o Morro do Tamanduá de 2.180 metros, formação curiosa de rochas sobrepostas que mais parece uma mão apontando para o céu, mais ou menos no meio do caminho entre o Papagaio e o Bandeira, e logo depois do Bandeira na outra extremidade da serra jaz o Morro da Canjica, que chega aos 2.240 metros, também maior do que o Pico do Papagaio. Mesmo assim, o único com projeção no nosso meio é o Pico do Papagaio, até porquê é o mais fácil de ser identificado, podendo ser visto até mesmo desde o Parque Nacional do Itatiaia a 38 kms de distância.
 
Agora sim vamos em frente
 
Enquanto nos aproximávamos da cidade de Aiuruoca, que por sinal escutei falar por anos a fio, mas nunca havia pisado antes, tínhamos a visão um pouco nublada da Serra do Papagaio, ainda bem que as nuvens eram altas então toda a serra estava limpa, sem sol, mas limpa. Fomos ficando mais e mais impressionados com o tamanho da ponta do Papagaio e por isso até entendo que seja conhecido, ou reconhecido como um pico por puro merecimento, por pura beleza. Quer saber? Eu concordo, Pico do Papagaio! :^)
 
Chegamos na cidade até cedo, por volta das 16:30h, então tivemos tempo de fazer um lanche e depois procurar uma pousadinha tranqüila pra lavar o corpo e dormir em uma cama de verdade antes de ir ao Papagaio na manhã seguinte. Normalmente não faço isso, mas devido a novas circunstâncias de força maior, meu corpo precisa de uma cama confortável e um banho quente, além de uma farmácia por perto…rs
 
Depois de comer passamos em um mercadinho pra comprar umas coisas e durante todo o tempo, da rua mesmo, dá pra admirar o Pico do Papagaio com sua enorme parede, como um sentinela da pequena cidade de Aiuruoca, que montanhas belas são aquelas da Serra do Papagaio!
 
Encontramos por indicação da atendente da lanchonete a Pousada e Restaurante Dois Irmãos, que fica desde já indicada. Ao preço modesto de R$ 40,00 oferece quarto muito bom com cama de casal e solteiro, banheiro limpo com água quente, vista da cidade desde um terraço e café da manhã muito bom, com variedade de pães, bolos, geléias e suco de laranja fresco da fruta, não de caixa. Barato. Muito indicado, se você passar pela cidade não irá se arrepender, mas sugiro reservar antes, basca procurar no google que encontrará.
 
Nos acomodamos, e depois que todo mundo tomou seu banho descemos pra jantar na própria pousada e depois pra uma caminhada rápida e infrutífera em busca de sorvete. Cidade do interior de Minas tem disso, tudo fecha com o pôr do sol mesmo…Voltamos pra pousada logo em seguida e cada um foi pro seu quarto, vi um pouco de notícias e dormi com a tv ligada.
 
De manhã antes do nascer do sol eu já estava de pé, bem descansado e com a adrenalina já correndo pelas minhas veias querendo galgar as encostas do Papagaio, mas eu sou apressado mesmo, então fiquei ali vendo o calor da luz do sol começar a iluminar as esquinas quietas da pacata vila, e enquanto dava uns cliques esperava pelo casal levantar pra tomarmos café junto antes de sair. Foi o que fizemos e depois disso arrumamos todas as tralhas na Defender e fomos embora.
 
Chegar na entrada de uma das diversas trilhas do Papagaio é muito tranqüilo, e perto da cidade, mesmo sendo via estradinha de terra que está em boas condições, só meia hora dá pra chegar lá. Na verdade não sei se há diversas trilhas, mas a trilha principal começa com certeza em mais de um lugar e vai se juntando mais acima em uma única, bastante erodida pela popularidade do Papagaio, que atrai nos finais de semana de inverno dezenas de montanhistas, campistas, aventureiros, amigos, e tudo mais buscando o visual do seu cume.
 
O acesso que pegamos não era com certeza o principal, o que entra diretamente na trilha, é um dos secundários, mas em apenas 100 metros de trilha encontramos a bifurcação da que parece ser a principal. Paramos o carro a 1.320 metros de altitude em uma pequena fazendinha que fica no final de uma estrada. Uma pequena propriedade que ao lado tinha uma pequena plantação de milho, e um grande descampado com diversas subdivisões de arame farpado. Ali começamos a andar e atravessamos perpendicularmente uns 600 metros de terreno, o que já deu algum trabalho por causa dos arames, até entrar na trilha que o Tácio via no GPS. Começamos a subir.
 
Apesar de muito batida e erodida, a trilha praticamente só sobe o tempo todo, não tem enrolação, em alguns momentos é pra frente, pouquíssimas descidas, mas em geral toca pra cima o tempo todo. Combinei com o casal que subiríamos bem, bem devagar, já que com anemia profunda minha taxa de glóbulos vermelhos, células responsáveis por carregar e distribuir o oxigênio pelo corpo, está muito baixo. Resumindo meu corpo não está se oxigenando corretamente então isso me deixa mais sonolento, mais cansado, mais preguiçoso, tudo isso.
 
Subimos sem pressa, sem alarde, o tempo estava completamente diferente do dia anterior, absolutamente limpo, céu tão azul e sol tão brilhante que estava até difícil calibrar a câmera da Lili que levei comigo, a Sony NexC3 (minha Canon G12 deu pau e está encostada). Logo logo, depois de dez ou quinze minutos já chegamos a uma clareira, e dali a trilha sobe até quase 1.800 metros de altitude sem proteção nenhuma contra o sol, no zigue zague erodido e exposto ao astro-rei. Ali sofri bastante. O calor drenava minhas energias e eu sonhava com a sombra de uma trilha protegida que estava por chegar logo depois dessa parte, bem perto.
 
Depois desse sofrimento inicial entramos na mata bem na base da parede do Papagaio, que neste lado tem mais ou menos 400 metros de altura, onde fica a via “Nirvana”. É bem, bem grande, e em uma parte a trilha literalmente passa a só três ou quatro metros da parede, que fica impressionante de se ver do ponto da trilha. O céu azul só ajudou na foto! Ali fiquei mais tranqüilo, cansava menos e tudo ficou mais agradável. Sempre, a cada quinze minutos, o Tácio e a Aline precisavam me esperar um pouco. Me sinto um pouco inconveniente com isso, mas não posso fazer nada…Não enquanto não descobrir o que tenho e me curar.
 
Em uma dessas paradas nos separamos, Aline e eu avançamos um pouco e Tácio ficou pra trás por uns minutos, e ali Aline e eu vimos uma florestinha de cinema. Uma parte da trilha que realmente parece um bosque, um lindo bosque. Tácio se juntou a nós e fotografamos uma orelha de pau enorme que vimos em uma árvore. Seguimos adiante e a trilha apesar de belíssima e muito, muito freqüentada, é limpa. Não vi nada de sujeira a não ser um pequeno pedaço de papel higiênico usado que o dono não enterrou direito, só isso. Fiquei surpreso, pela popularidade esperava uma porcalhada total, o que não vimos.
 
Enfim, seguimos circundando a trilha que dessa vez saiu em um descampado enorme, e quando eu digo enorme é enorme mesmo, quilômetros quadrados. A única coisa que quebra a monotonia desse descampado é alguns cupinzeiros desativados espalhados pelo lugar. A trilha sai ao ar livre, mas não avança pelo campo, segue a direita por uns cinqüenta metros em linha reta e entra novamente na mata. Sempre bem aberta, bem marcada, sem nenhuma possibilidade de alguém se perder, pra um fulano se perder ali ele deve ser completamente inexperiente e provavelmente ter a visão muito reduzida.
 
Em seguida a trilha sai novamente em uma clareira, entra na mata de novo, e nessa hora dá pra olhar pra traz e a cara do Papagaio já muda, vira um morrão bem, bem próximo, pois a parede já foi circundada. Depois sai novamente, já na crista da serra, onde há o “Y” que encontra com a trilha da travessia, que também é muito bem batida e sem erros. Pra ir só ao Papagaio basta seguir a direita e entrar de novo na mata. Foi o que fizemos, de novo a trilha sai em uma clareira curta e atravessa um mato baixo e com trilha erodida como sempre. Entramos de novo na mata e dali começa uma sessão meio impressionante. A trilha se transforma em um conto de fada, uma parte quase inacreditável dentro da floresta muito bem preservada:
 
>Folhas secas forram o chão pra caminhada se tornar confortável e cênica…
>A trilha passa a ser quase uma estrada, com mais ou menos três metros de largura…
>A luz do sol penetra em lugares específicos, então a iluminação dá ao lugar um ar meio que cinematográfico…
>Não há bambuzinho, não há teia de aranha, não há raízes pra passar por cima ou por baixo…
>As árvores são altas e de copa alta também, o que facilita a visão de uma distância muito boa dentro da mata.
 
Caçamba, só faltava duas dúzias de Orcs entrarem atravessando tudo correndo atrás de nós, e cada um de nós estar portanto respectivamente uma espada, um machado e um arco e flecha, e estaríamos no elenco de Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel. Cacete que trecho lindo da trilha…
 
Pena que dura pouco o encanto, esse trecho dura uns cem metros em linha reta, é uma parte baixa na trilha, é preciso descer um pouco e subir do outro lado onde o encanto acaba. Mais acima a trilha fecha mais, volta a ser normal, mas continua muito bem marcada, limpa, só normal, perdeu a graça rs. Daí em diante é só pra cima e ganha altitude rápido já que ali se está bem próximo do topo, mas começa a fazer uma verdadeira casquinha do McDonalds (apelido mais que apropriado que o Tácio criou), a trilha roda e roda, roda tanto que se você for um montanhista rápido chegaria a ficar tonto. Fica meio chato isso.
 
Chegamos a 2.060 metros de altitude e saímos pela penúltima vez da mata, aqui há uma sessão de trepa pedra típico de proximidade de cume da grande maioria das montanhas da Mantiqueira inteira, e eu conheço muitas delas. O trecho dura pouco e logo chegamos a um lajeado de pedra com um totem bem grande que pediu por fotografias. Eu estava meio cansado, mas nada demais, conseguia mais ou menos acompanhar o casal até ali. Contornamos o lajeado pra esquerda, seguindo o padrão da casquinha do Mc, e entrando pela última vez na mata.
 
Mais alguns metros de subida e quando saí da matinha já atrás do Tácio e da Aline uns três ou quatro minutos cheguei ao cume onde eles já estavam com cadeira de praia, guarda sol, piercing pro alto e coquetel na mão. Caramba, que visual bonito dali…Nem sentei pra descansar, enquanto eles se bronzeavam eu comecei a andar pelo cume fotografando, fiz um vídeo, e fui até a borda procurando por vista do carro, se fosse possível é claro. E não é que dá pra ver? O carro estava a só 1.000 metros em linha reta de nós, mas 805 metros verticais abaixo. Isso em matemática pura, simples e chula resultaria em uma trilha contínua em linha reta de mais ou menos 40° de inclinação de 1km de extensão. Mas a trilha é longa, 6,2 kms até ali. Deu pra entender a casquinha?
 

Daí sim, sentei, relaxei, comi minha sardinha enlatada com molho de tomate, me hidratei. Estava tão relaxado que o cansaço e a anemia passaram longe e nem notei. Tácio e Aline fizeram seus lanches, batemos papo, mais fotos, daí sim resolvemos voltar. Nessa hora o Tácio disse: “O Bandeira está a 4.7 kms daqui, vamos tentar ir até lá, vc acha que dá?”. Nem pensei duas vezes, respondi: “Opa, vamos até lá, acho que rola sim!”. Foi assim que eu decidi, fui inconseqüente e descobriria isso pouco tempo depois, no meio do caminho.
 
Recolhemos nossas coisas e começamos a descer, passamos pelo zigue zague irritante, passamos pelo bosque incrivelmente bonito Sr dos Anéis onde o Tácio filmou e eu fotografei, chegamos ao trepa pedra, passamos, entramos, saímos, entramos, saímos da mata até o “Y” de novo. Pegamos em linha reta seguindo a crista em um descampado bem bonito, que segue semperteando os morros o tempo quase todo, evitando subir nos cumes e descer do outro lado. Passamos por uma rocha rachada ao meio de onde saía uma árvore, bem interessante. Dali em diante o cansaço me pegou. Foi como um “BUM!”, caiu. Acabou, zé finit, kaputt. Parecia que minha energia tinha acabado. Comecei a caminhar muito lentamente e isso só aumentou o número de vezes que Tácio e Aline precisavam parar pra me esperar. Tácio me perguntou: “O que você acha, quer voltar? Ainda falta 3.2kms”. Minha resposta foi engraçada e mais impensada ainda: “Tá louco?”, e ri. Aí a Aline se ofereceu pra pegar minha mochila, que mesmo leve fazia diferença, e eu aceitei, não é vergonha. O que eu posso fazer se meu corpo não acompanha minhas vontades? 😛
 
Dali era só questão de tempo até eu chegar ao meu limite. Mesmo assim segui. Entramos em uma matinha, atravessamos, saímos do outro lado já de frente pro Morro do Tamanduá, uma linda formação rochosa com formato de mão. Ali já estávamos bem mais alto que no Papagaio, já que o topo do morro chega a 2.180 metros. A trilha fica mais erodida e atravessa outro descampado, passa por uma sessão pequena bem erodida e profunda, chega a outro descampado e vira a esquerda e onde há um pequeno trepa pedra até chegar a uma laje bem de frente pro topo do Tamanduá, já a 2.150 metros.
 
Ali paramos uns 2 minutos, bem eu 2 minutos e eles uns 7, pois me esperaram. Lentamente galgamos os metros finais até passar ao lado das rochas do Tamanduá, atravessamos aquela parte e saímos do outro lado, tendo uma visão curiosa, um muro de pedra. Mas que coisa, alguém fez um muro de pedra ali! Quando cheguei em casa pesquisei e encontrei uma informação muito interessante. O muro de pedra supostamente foi erguido 300 anos atrás por Jesuítas que freqüentavam a Serra do Papagaio, dá pra acreditar? O local tem até um nome, “Retiro dos Pedros”. História na montanha, tem coisa melhor pra mim? Não, não tem. Não sei da veracidade da datação dos muros, nem detalhes mais precisos, mas vou pesquisar com calma esses dias.
 
Descemos a pequena colina, erramos a trilha um pouco, voltamos, e subimos o trepa pedra do morrinho rochoso logo após o Tamanduá, onde há um bouquet natural de Hippeastrum morelianum, a linda flor vermelha normal de ser vista ao longo de toda Mantiqueira, em especial no Itatiaia. Quando cheguei no topo do domo rochoso, Tácio me esperava sentado olhando o Pico da Bandeira, já mais perto, enquanto a Aline tinha avançado mais pra avaliar a descida que estava adiante. Tácio me perguntou: “Olha o que falta, tá longe ainda, quer continuar?”. Avaliei, olhei e respondi: “Putz, ainda tem dois vales pra atravessar???”. Tácio confirmou e me disse que ainda faltava 2km em linha reta até o topo da serra. Então rapidamente respondi: “Cara, não dá mais, estou arrasado, vocês continuam e eu volto daqui, não vou sabotar o cume de vocês por minha causa.”. Era exatamente 14:30h.
 

Eu até conseguiria chegar lá, mas não teria forças pra voltar toda a trilha, afinal de contas estávamos fazendo o que ninguém faz, estávamos fazendo a travessia pra desfazer ela no mesmo dia, mesmo fácil, fica cansativo e muito. Eu tinha conseguido fazer mais ou menos 60% da distância entre o topo do Pico do Papagaio, que já estava longe olhando pra trás, e o Pico da Bandeira. Esgotei as energias, parecia que eu estava a mais de seis mil de altitude em hipóxia em uma pendente de gelo, cansado, com frio, e com fome. Meu corpo me decepcionou. Tinha que voltar, sem lanterna, sem comida extra, e tinha pela frente mil metros verticais pra descer distribuídos e cerca de 7.5 kms de trilha.
 
Tácio concordou, peguei de volta a mochila com a Aline, e seguiram em frente, eu comecei minha romaria de retorno. Como foi longa essa descida…
 
Olhei o que me esperava de retorno, e como eu desejei ter um pára-quedas…Pulava de qualquer encosta e chegava bem perto do carro e sem desnível pra descer. Fiz algumas fotos porque o importante é não deixar de curtir a vida na montanha, por mais adversa que ela se apresente. Comecei a voltar. Antes de nos separarmos, Tácio me disse que eles iriam o mais rápido que pudessem pra ver se me alcançavam na volta. Então resolvi andar bem, bem devagar, pra ver se eles chagavam e me faziam companhia. Estávamos em plena quarta-feira então não havia mais ninguém na trilha, só nós, isso é parado até demais. Pro meu estado de exaustão, até perigoso. Oras, a quem quero enganar? Eu não andei devagar propositalmente pra esperar por eles, andei devagar porque não tinha mais força mesmo! Ahahahaha…
 
Bom, na medida do possível tentei cobrir essa travessia mais rápido e aproveitar a luz do sol, e algum tempo depois, não sei quanto, cheguei ao “Y” pela terceira vez. Tomei a direita e peguei a trilha principal novamente em descida, a 1.980 metros de altitude. Nossa, eu estava acabado…Não sei como conseguia andar, creio que eu devia estar parecendo um morto-vivo me arrastando, já que eu não tinha nem força suficiente pra levantar as pernas apropriadamente, e por isso meio que arrastava os pés pela trilha movendo o sedimento do solo da floresta por onde passava. Subir uma raiz? Vixe, longo processo de licitação com coxas, quadríceps, cérebro e pulmões…
 
Lentamente fui perdendo altitude, que descia tão lentamente quanto meus passos de tartaruga já que a trilha é longa e perde altitude muito devagar. Depois de sei lá, o que me pareceu ser quatro dias e quatro noites, eu não pensava mais direito de cansaço, cheguei ao riacho da trilha. Lembrava-me de ter comentado com eles “olha que legal, um riacho bem providencial na metade do desnível de subida!” enquanto subia. Olhei meu relógio e estava a 1.800 metros de altitude, sentei e fiquei parado uns bons quinze minutos me refrescando com a água fresca, fazendo hora pra ver se eles chegavam, mas nada, eu não ouvia sequer passarinho, daí me lembrei que não tinha luz e recomecei a andar. Daí em diante comecei a contar metro a metro o desnível até o carro, que estava a 1.325 metros. Quando eu começo a contar os metros sei o quanto estou cansado, e eu nunca havia contado os metros no Brasil antes, nunca. Contei os metros no San Pedro de 6.145 metros onde estava sozinho e de bivaque e contei os metros no Sairecabur de 6.000 metros onde passei muito frio, aqui, nunca…
 
Já era 16:35h e a luz do sol era quase nula quando cheguei ao primeiro zigue zague, aquele que desce de frente pra parede do Papagaio. Ali eu sabia que estava perto, então tentei me apressar um pouco, pois logo depois dele tinha duas bifurcações e eu não podia me perder no escuro, não tinha lanterna! Na tentativa de me apressar escorreguei e caí sentado algumas vezes, mas nada sério, e assim fui meio que tropeçando e escorregando na trilha inclinada perdendo altitude. Passei pelas bifurcações já praticamente sem luz, com visibilidade de nada mais que cinco metros, e desci, e desci, até que cheguei na porteira que pulamos no começo da trilha. Ali sabia que era praticamente o fim!
 
Tudo que eu queria era sair da mata com luz do sol ainda e meio que consegui. Saí da mata onde já estava quase que totalmente escuro e cheguei no descampado que me separava do carro às 17:10h onde a luz era infinitamente mais forte. Ali, atravessei o mato rasteiro, ao invés de pular as cercas de arame farpado que não tinha força, eu passava por baixo que exigia menos energia, daí mais cinco minutos e eu cheguei no carro, onde eu literalmente caí no chão, me virei, tirei a mochila e fiz de travesseiro, deitei sobre ela. Senti frio, tirei meu fleece de dentro, vesti, e voltei a deitar. Depois descobri que quando me joguei sobre a mochila quebrei meu óculos julbo.
 
Passou exatamente 25 minutos e eles não chegavam, então me levantei e comecei a andar em direção a estrada pra tentar ver se eles chegavam, foi aí que o Tácio me disse “E ae!” já em total escuridão. Entramos no carro e voltamos apressados pra pegar a janta na pousada que só ficava disponível até 19:30h. Eu estava tão cansado que nem participava das conversas direito, dava respostas monossilábicas, me limitava a isso. Depois de dez minutos eu simplesmente nem falava mais ahahahahahah….
 
Acabou que o desnível total e distância acumulados pra nós ficou assim mais ou menos:
 
Parofes:
Distância percorrida entre subida e descida: 15.4kms.
Desnível acumulado de subida e descida: 1.015 metros de subida, mesmo pra descer.
 
Tácio e Aline:
Distância percorrida entre subida e descida: 20,5kms.
Desnível acumulado de subida e descida: 1.420 metros de subida, mesmo pra descer.
 
Eu sei, o meu não impressiona muito, mas vai mostrar isso pra minha hematologista pra ver o que ela vai falar, provavelmente vai me dizer “Tá tentando se matar seu idiota, pra que vem nas minhas consultas então?!” rs. É sério, eu não deveria, nunca, ter seguido adiante. Deveria ter descido do Papagaio mesmo pro carro. O certo mesmo seria nem ter subido até o topo dele com 800m de desnível. Forcei meu fraco e profundamente anêmico corpo ao limite.
 
A aventura poderia ter tido um final trágico, eu poderia ter apagado na trilha sozinho durante o retorno e não teria ajuda por pelo menos uma ou duas horas. Eu poderia ter sofrido algum ferimento, um corte mais profundo durante uma queda por desequilíbrio já que estava tão cansado, e de fato caí algumas vezes, por sorte não me cortei. Problema sério seria, pois com as plaquetas baixas como estão, eu poderia perder muito sangue.
 
Aprendi a lição, vou ficar quieto em casa, não vou sair de casa pra nada com mais de 500m de desnível pra não forçar mais, preciso me recuperar e cuidar da minha pele, afinal de contas ela cobre meu frágil e falho corpo.
 
Voltamos á cidade, comemos e encontramos outra pousadinha pra dormir, a Pousada Ajuru, boa também, mas perde no café da manhã que é muito fraquinho. Saímos cedo e pegamos a estrada alterando o retorno, seguindo rumo a Fernão Dias. Olha, foi uma ótima decisão já que inesperadamente passamos por uma plantação de Girassol e isso significou estacionar e passar meia hora fotografando! Tácio parecia uma criança se divertindo já que era vontade dele fotografar girassóis fazia dez anos, baita sorte!
 
Daí seguimos o retorno só parando pra almoçar no caminho e pra comprar uns quitutes em uma loja que ele sempre freqüenta, e em seguida chegar em São Paulo pra todo trânsito maligno e inacabável da maior metrópole da América do Sul.
 
A viagem foi muito proveitosa, finalmente chegamos ao topo da Mitra do Bispo e do Pico do Papagaio, que adiamos por anos só porque havia coisa mais importante na lista de prioridades, e agora com a lista praticamente acabada, é hora de buscar novas montanhas…
 
Bem, hora de descansar.
 
Abrazos!
 
Parofes
Para ver as fotos do Tácio, acesse: http://www.tacio.com.br
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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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