Rio dos Patos

0

Ano 2014 e 2015: Alex Pacheco, Alisson Cotrim Wozniak, Bárbara (Bábi) Pereira, César (Índio Sexta Feira) Sales, Henrique (Vitamina) Paulo Schmidlin, Pedro Hauck, João (Johny) Carlos de Andrade, Juliano Santos, Julio Cesar Fiori, Kellen Yoko Nakao, Luiz Antoniutti Neto, Marcelo Brotto, Moisés Lima, Ollyver Rech Bizarro, Rafael Rosenstok Voltz, Rossana Reis e Vinicius Ribeiro.

A coisa toda começou despretensiosamente em conversas entre o Alex Pacheco e o Henrique (Vitamina) Paulo Schmidlin. Histórias de pescarias e caçadas nos cafundós de Guaraqueçaba que evoluiu para implantação de uma serraria no meio do nada, algo bem próximo de uma saga romanesca envolvendo seus antepassados diretos. A princípio parecia até daquelas historinhas do vovô urso, mas então começaram a surgir velhas fotos p&b muito danificadas. Por detrás de um humilde barraco apareceu a imponente imagem do Bico Torto que há muito assombrava os sonhos do Vita, que de imediato me encarregou de organizar uma expedição para enfrentar esta fera.
 
O Bico Torto do Rio dos Patos é daqueles morros que podemos caracterizar como "baixinho e invocado”. Do alto de seus míseros 530 metros rivaliza com outros dois bicos tortos bem mais próximos e conseqüentemente mais altos aos olhos do observador, consegue até mesmo eclipsar os três grandes da Serra Gigante situada bem perto. O segredo de tanta personalidade pode ser explicado tanto pela forma icônica emergindo da planície litorânea, como por sua localização central convenientemente afastado de um cinturão de serras que o circundam respeitosamente, quase reverentes a sua figura majestosa.
 
Encontrar uma estratégia de aproximação tornou-se tarefa cabeluda devido ao isolamento geográfico e novamente a história dos parentes do Pacheco auxiliou para encontrar o “fio da meada”. Sabia-se que os irmãos gêmeos Oscar, advogado e delegado de polícia, e Ernesto Pacheco dos Santos, na época residentes em Curitiba, empreenderam uma expedição de caça no ano de 1953 em que ficaram hospedados na comunidade caiçara de Rio do Costa, habitada exclusivamente pela família Pereira que também ocupava a comunidade vizinha de Rio dos Patos. A garimpagem na internet forneceu o elo entre o Rio dos Patos, o fandango, os Pereiras e o Bico Torto num documentário em vídeo postado no YouTube
 
O vídeo de 1990 retrata os últimos suspiros da comunidade e o Bico Torto aparece exatamente na mesma posição e distância da foto de 1953. Assim conhecemos como e onde vivia o casal Leonildo e Cleuza, últimos guardiões do genuíno fandango, antes de serem expulsos de suas comunidades tradicionais para implantação do Parque Nacional de Superagui. As cartas planialtimétricas do Serviço Geográfico vinculado ao Ministério da Defesa poderiam completar o mosaico, mas as velhas mazelas brasileiras ainda nos dariam muita dor de cabeça antes de calçar as botas e iniciar a picada.
 
Todas as informações disponíveis eram velhas e defasadas. Da família Pacheco a notícia mais recente vinha de 1967 quando Antonio Alfredo e Antonio Henrique Donni, respectivamente pai e padrinho do Alex Pacheco, com o amigo Natalino Slomp Rodrigues passaram um mês caçando e pescando na região. Encontraram a serraria ainda em condições razoáveis sob a guarda do primo Nenê que depois se casou com uma prima do Seu Leonildo e abandonou o local. As imagens do vídeo documentavam apenas um passado remoto depois da implantação do parque em 1989. As cartas topográficas do Exército haviam sido desenhadas em 1997 e nunca mais atualizadas. Então tudo que sabíamos provavelmente estava sepultado pela selva e continuávamos no mato sem cachorro.
 
Mas como sorte nunca atrapalhou ninguém, descobrimos que a Bárbara (Bábi) Pereira, que não toca rabeca nem dança o fandango, fez várias expedições na região para sua tese de mestrado quando se hospedou na residência do casal Agostinho e Tânia Pereira. Conheceu as comunidades caiçaras de Saco da Rita, Porto Velho e Abacateiro onde fez contato com Seu Leonildo e numa incursão pela floresta chegou ao Rio do Costa, comprovando a existência de uma trilha e um último barraco na antiga vila abandonada.
 
As peças do quebra cabeça estavam todas sobre a mesa e agora só uma expedição ao local às ajustaria nos seus devidos lugares. Estávamos prontos para partir na manhã de 12/10/2014 com o Henrique (Vitamina) Paulo e Dulcinéia Schmidlin, Moisés, Berenice e Daniela Lima, Julio César e Solange Fiori descendo a Paranaguá e deixando os automóveis aos cuidados do César (Índio Sexta Feira) Sales para tomar a barca para Guaraqueçaba onde encontramos o Luiz Antoniutti Neto com o Pedro Hauck e Alex Pacheco que seguiram pela estrada. Convenientemente hospedados na Pousada Chauá do Sr. Amadeu, tratamos de fretar uma canoa com piloto que nos levasse ao Porto Velho a procura do Agostinho na manhã seguinte.
 
Deixando as mulheres ainda dormindo na pousada partimos com a maré enchente por entre um labirinto de canais rasos e ilhotas de mangue até a Baía dos Pinheiros onde seguimos para a entrada do Canal do Varadouro, na extremidade nordeste. Em Porto Velho não encontramos viva alma e mais adiante, em Abacateiro, travamos contato direto com Seu Leonildo cheio de vontade para nos vender uma rabeca artesanal por ele fabricada em madeira de Caixeta. Rabeca para tocar no velório da sogra! O primeiro contato com os caiçaras tem todo um cerimonial a ser cumprido e enquanto o Vita e o Pacheco distraiam o “chefe” da comunidade relembrando e confirmando a história da serraria, pude negociar tranquilamente com quem realmente mandava no pedaço. 
 
Orientados pela prévia experiência da Bábi levamos roupas e brinquedos para as crianças e assim ganhamos a simpatia de Dna. “Creuza” que simplesmente ordenou ao filho mais velho que buscasse o facão e nos guiasse pela mata apesar da incredulidade deste último.
 
          – Hoje ocês não chegam nem no pé do morro, inda mais com este velhinho – se referindo ao Vita.
 
Mas não tinha opção além de obedecer à matriarca e nos enfiamos numa trilha costeando o morro que cedo se transformou num tênue rastro em meio à mata densa, e pouco tempo depois nos colocou de frente com a saga da família Pacheco. Semi enterrada no lodo e entregue a ação da ferrugem encontramos a máquina a vapor que movia a serraria. Fabricada em Colchester (Inglaterra) no ano de 1918 pela Deavy Paxmann (depois incorporada pela Mann Diesel), desembarcou primeiramente em Santiago do Chile e agora apodrecia no sertão de Guaraqueçaba. No auge de sua vida útil rendia 4 cavalos de força (menos que uma Honda Biz) e 600 RPM a pressão de 150 PSI vapor. A fornalha agora servia de ninho para uma colônia de abelhas Tubunas (Scaptotrigona bipunctata), muito agressivas apesar da ausência de ferrão. 
 
Era o Alex Pacheco reencontrando seus antepassados que na década de 1930 saíram de Monte Negro no Rio Grande do Sul para fornecer dormentes para a ferrovia de Percival Farquhar em Santa Catarina e nos anos 50, depois de encerrado o auge do ciclo madeireiro, se fixaram em Pitatuba na criação de porcos. A caçada de 1953 acabou servindo como reconhecimento das riquezas da região e logo após seu retorno, o Delegado Oscar descobriu que as terras a esquerda do Rio dos Patos eram devolutas e imediatamente convocou os parentes, onde ainda pulsava sangue de madeireiro, para tomar a posse do lugar.
 
Matias, Joaquim (pai do Nenê que cuidava da serraria em 1967), Oto (com síndrome de Dow), Angelina (que ganhava a vida enchendo lingüiça num frigorífico) e Helmuth (avô do Alex que negociava automóveis e ainda mantinha contatos na Rede Viação Paraná – Santa Catarina na qual havia trabalhado), todos os Pacheco dos Santos juntaram suas economias para apoiar os irmãos gêmeos de Curitiba no novo empreendimento em sintonia com a vocação familiar. De Santa Cruz do Sul trouxeram a velha locomóvel de 1918, compraram um trator de esteira FIAT modelo C, (hoje equivalente ao Caterpilar D6) ano 1956 e carregaram tudo em barcaças no Porto de Paranaguá para descarregar no Abacateiro junto com o técnico (ou seria arqueólogo) para montar esta encrenca toda. Ao dar partida no trator, todos os caiçaras que se aglomeravam para assistir ao espetáculo, correram se esconder no mato com medo do barulho e a máquina infernal abriu um rasgo na mata até o local onde as abelhas estabeleceram sua colméia. Combustível, ferramentas, peças de reposição, mantimentos e tudo o mais, até a falência do empreendimento, vinham de Paranaguá em barcaças que retornavam carregadas com dormentes para a estrada de ferro.
 
O tamanho do passivo ambiental deixado na época é impossível de imaginar devido a rápida recuperação da floresta. O rastro segue contornando o terreno alagadiço até alcançar o leito de areia branca do Rio dos Patos num lugar denominado Portinho, ainda sob influencia das marés. Com o rio em seu nível mais baixo não foi difícil atravessar e tomar a trilha que o acompanha pela margem direita. Fácil notar que os caiçaras chegam até o Portinho embarcados em canoas porque, a frente, a trilha avança forte  no centro de um aceiro com 3 a 4 metros de largura. A trilha segue paralela ao rio por vários quilômetros nos quais chega a encostar nas barrancas por diversas vezes. É praticamente uma linha reta passando por pinguelas escorregadias sobre riachos e estivados de troncos deitados sobre os brejos. 
 
A vegetação é luxuriante como numa aquarela de Willian Michaud, com árvores imensas dentre um emaranhado de trepadeiras, cipós pendentes e bromélias. A vida selvagem pulsa em cada centímetro do terreno percorrido. Desenvolvíamos uma boa velocidade carregados apenas com mochilas de ataque e num último encontro com o rio tomamos a direita na bifurcação. Em frente, acompanhando o rio, a trilha segue ao que sobrou da comunidade de Rio dos Patos, a nordeste avançamos para Rio do Costa. A paisagem luminosa sede lugar a um bosque sombrio e profundo, coberto por árvores retas e altas que bloqueiam a luz solar. O solo úmido é coberto por vegetação rasteira que avança bosque adentro. A trilha, igualmente reta e larga, torna-se monótona e escura, sem muitos atrativos até a clareira onde ainda existe uma casinha de tábuas serradas a moto serra e uma cozinha de pau a pique com piso de chão batido a menos de 50 metros do leito sinuoso do Rio do Costa. 
 
No entorno da clareira existem várias palmeiras Jussara de grande porte, algumas árvores frutíferas e bananeiras. Inúmeros ninhos de tecelões pendem dos galhos secos de uma árvore morta e por detrás do rancho se vislumbra as paredes verticais do Bico Torto apontando para o céu. Ao chegar na clareira um segundo caiçara nos alcançou com a gravata vermelha, lambendo o chão. Depois de alguns minutos de descanso nos perguntou se voltaríamos dali.
 
          – É cedo ainda Juari, temos muito tempo.
          – Poxa, ôceis andam! – indignou-se.
 
Atrás do rancho nascia uma trilha tênue penetrando a floresta sombria, seguindo a esquerda da montanha pouco distante. Ainda próximo da casa desprezamos uma trilha a direita e nos enfurnamos bosque adentro com energia redobrada para bem mais a frente encostar novamente no Rio do Costa e seguir seu curso. Algumas vezes por dentro e outras pelas margens, varando mato e bananais nativos, até que o leito arenoso se transformou em pedras redondas e já subíamos uma encosta montanhosa lateral ao paredão granítico. Lentamente a encosta mudou para crista com desníveis abruptos para ambos os lados e ouvíamos o murmurar do rio a esquerda enquanto a direita, por aberturas na copa das árvores, podíamos ver bem próximos os paredões a prumo do Bico Torto. Cruzamos um último riacho descendo a esquerda e finalmente chegamos ao que chamam de Casa de Pedra. Trata-se na verdade de um pedregulho imenso que faz o teto para uma ampla gruta na beirada da encosta. Lugar perfeito para um bivaque se o piso fosse plano e por ali ficamos. Beirava as 13:30 horas e calculamos mais 2 boas horas de caminhada pesada até o cume sem esperança de encontrar algum rastro guia. Tínhamos encontro marcado no Portinho com o canoeiro as 16:00 horas e ninguém cogitava a hipótese de chegar atrasado. 
 
A missão estava concluída e tínhamos pressa em voltar, navegar no tuc-tuc e comer camarão em Guaraqueçaba. Com o cérebro no automático restava apenas seguir a linha que o Vita pacientemente esticou até o rio onde terminava a trilha. Por muito pouco não encerramos a questão num só ataque e o assunto acabou no esquecimento até que passado quase um ano o Luiz Antoniutti desenterrou este defunto. Tanto insistiu que recoloquei o assunto em pauta para sentir a temperatura da fervura e choveu candidatos, mas o clima andava pavoroso e os preparativos se fizeram com olho atento na previsão do tempo. Por fim surgiu uma janela de oportunidade para os dias 12 e 13/09/2015 depois de duas semanas de chuvas intensas no litoral.
 
Na tarde anterior ao embarque, alegando excesso de carga e outras baboseiras, o canoeiro contratado me ligou aumentando em 25% o valor antes combinado. Palavra de caiçara vale quanto pesa! Ao amanhecer de sábado descíamos a serra em três automóveis quando recebi outro telefonema do canoeiro querendo cancelar a viagem porque estava chovendo em Superagui.
 
          – Assim não dá, Lelo, você não é feito de açúcar!
 
E o pessoal perguntando se o barco tinha cobertura enquanto minha maior esperança era que pelo menos tivesse um casco sem buracos. As oito horas da manhã já havíamos deixado os automóveis na casa do César (Índio Sexta Feira) Sales e aguardávamos no ponto de encontro. Alex Pacheco, Alisson Cotrim Wozniak, Henrique (Vitamina) Paulo Schmidlin, João (Johny) Carlos de Andrade, Juliano Santos, Julio Cesar Fiori, Kellen Yoko Nakao, Luiz Antoniutti Neto, Marcelo Brotto, Ollyver Rech Bizarro, Rafael Rosenstok Voltz, Rossana Reis e Vinicius Ribeiro já estavam na décima xícara de café quando chegou a canoa com atraso de uma hora, abasteceu e começamos a nos acomodar. Um curioso guarda municipal veio inspecionar se haviam coletes salva vidas para todos, descobriu que não tinha para ninguém e muito menos licença para transporte de passageiros. Começou um bate boca danado que terminou com o guarda gesticulando e xingando sozinho no cais do porto. Já começamos bem!
 
Pessoal animado com o vento no rosto, os respingos na roupa e o barco se entortando todo cada vez que alguém trocava de lugar. Três horas e meia depois desembarcamos com as bundas quadradas em Abacateiro para iniciar nova jornada de negociações com a Dna. “Creuza”. Uma hora inteira para acertar o preço do pernoite no rancho e no final negou-se a me dizer onde escondia a chave. Por fim acertamos um extra para o Juari Aparecido Pereira nos escoltar até o Rio do Costa. Fiquei tranqüilo quando o canoeiro Lelo se decidiu a nos acompanhar até o cume, assim posterguei o pagamento e no retorno tínhamos a garantia de encontrar o barco nos esperando ancorado na enseada.
 
O mato estava uma beleza depois de duas semanas de chuva e a lama lambendo os tornozelos. A primeira parada encantou os calouros e o Pacheco precisou recontar a história da locomóvel a vapor outras tantas vezes sem que isto o desgostasse. A maré estava alta e represava os rios, as chuvas transformaram os atoleiros em lagoas e as poças de lama viraram brejos medonhos. No primeiro obstáculo a água chegava aos joelhos e os cascas grossas molharam as botas, mas nem todos, como eu alguns penduraram as botas no pescoço e seguiram descalços por aproximadamente um quilômetro chafurdando na água, no barro e num espesso colchão de folhas mortas misturadas aos espinhos de tucum. Tudo maravilhoso até chegar no Rio dos Patos com água pelo pescoço. Sorte nossa encontrar uns caiçaras carregando areia em canoas e que gentilmente nos transportaram até a outra margem. Sete viagens levando, de dois em dois, os treze mochileiros, três cachorros e o Juari a salvo e a seco. Divertido ver o pânico do Vinicius em cima de uma canoa de um só pau rebolando instável sobre a água, mas a verdade que se diga, o Cascão não se deixa intimidar pelo medo.
 
Só então dei pela falta do Lelo, o canoeiro, e descobri que a lama fez sua primeira baixa logo de saída. Três intermináveis quilômetros com incontáveis atoleiros, pinguelas escorregadias e estivados podres na cola do Rio dos Patos, sem esquecer os tombos cinematográficos. O Vitamina protagonizou o melhor deles pisando numa estiva solta, rodopiou no próprio eixo e mergulhou de prancha na lama, quase matando a Rossana de rir. Então uma guinada para o norte em direção ao Rio do Costa e mais do mesmo por outros tantos quilômetros lamacentos. Finalmente as 17:00h preparávamos o rancho para o pernoite, uns esticando os isolantes, outros rachando lenha, buscando água no rio e todos esvaziando as mochilas de onde surgiam variadas guloseimas, muitas e muitas garrafas de vinho, grappa e cachaça.
 
Neste ano que passou houve progresso no lugar, na cozinha externa substituíram as velhas paredes de pau a pique por tábuas brutas e até assoalharam metade do piso, mas o telhado permaneceu com as folhas da palmeira Guaricana e metade do piso continuou em terra batida. Um palácio comparado com nossos habituais acampamentos onde dormir numa barraca já é considerado luxo excessivo. A luz da fogueira começou a comilança e a beberagem e só então notamos a falta de outro companheiro, um dos cachorros sumiu no mato e não apareceu mais, a segunda baixa do dia. A farra se estendeu pela noite até acabar a vontade de comer e a capacidade de beber, enquanto baratas pré diluvianas iniciavam um banquete com as sobras das panelas. A Rossana, acostumada a dormir com as galinhas, foi a primeira a capotar. O Vita foi logo depois e assim, um a um, foi se enfiando dentro dos sacos de dormir na medida em que o assunto minguava e o álcool subia pra cabeça. Noite agitada para os cachorros que soavam o alarme a cada vez que alguém retornava das moitas após um passeio aliviante.
 
A agitação retornou com a aurora e as 7:30 já estávamos em marcha pesada dentro da mata, apesar da ressaca generalizada. O Juari que no dia anterior se recusava a nos acompanhar até o cume, estava animado e falante a frente da coluna.
 
            – Já foi ao topo, Juari?
          – Não, não, fui só até um pouco adiante da Casa de Pedra, mas o meu irmão foi  e tem uns caras que vem aqui todo ano pra subir o Bico Torto.
            – E sobem?
          – Uma vez subiram, sim. É que no ano passado tava chovendo, no retrasado o sol tava muito quente e … meu irmão deixou lá uma camiseta branca pra gente ver do Abacateiro, mas os urubus tiraram pra fazer ninho.
          – E você, Juari, porque não foi junto?
      – Até que fui, mas o morro ficou muito em pé e faltava ar pra respirar, então desci.
          – Tá certo, Juari, tem que ter cuidado no ar rarefeito da montanha.
 
Com uma hora e trinta minutos de caminhada chegamos a Casa de Pedra, lugar de parada obrigatória pela beleza cênica, mesmo que o corpo ainda não exija descanso. 
 
Os engenheiros florestais formaram uma tribo diferenciada nesta pernada. Possuídos pelo espírito da floresta conversavam numa língua morta e de suas bocas saíam palavras incompreensíveis, permeadas por outras de origem tupiniquim. Veja uma Endlicheria! Euterpe edulis e Ocotea. Será que morde, pica ou assopra? Guaricana, guaricicas e caetés. Em dado momento apareceu o Rafael todo empolgado com um tufo de mato nas mãos e imediatamente se reuniram em conferência. Concluíram tratar-se de uma legítima Lophophytum mirabile conforme Schott & Endl. Em tradução livre Fel-da-terra, uma espécie de planta que vive nas raízes das árvores e se alimenta de matéria orgânica em decomposição, sendo percebida apenas (por eles) quando floresce.
 
A luminosidade matinal acima da copa das árvores nos renova as esperanças de encontrar visão desimpedida no cume, pelo menos do litoral. Até a Casa de Pedra seguimos nossos próprios rastros e a linha que o Vita esticara no ano anterior, mas não esperávamos maior dificuldade a frente. Bastava subir orientados pela crista por debaixo de um bosque magnífico e intocado, até um pequeno cume lateral onde se deu meia dúzia de passos em terreno plano antes de descer poucos metros até o selado e encostar no Bico Torto. A rampa é bastante inclinada no trecho intermediário, mas o bosque oferece inúmeros apoios para mãos e pés com troncos e raízes na medida certa. Na reta final aparecem os bambus que levam as primeiras facãozadas e o cume é tomado pelas terríveis taquaras, então o facão corre solto. 
 
Por debaixo de um teto escuro de nuvens pesadas pudemos visualizar todo o canal do Varadouro e a ilha de Superagui até oceano e céu se fundirem no horizonte cor de chumbo. Alegria contagiante de crianças que receberam nota azul nos boletins escolares sem a certeza de que eram merecedores. Só a Kellen, que veio de Maceió especialmente para este momento, ficou sem entender a razão da festa. Muita racionalidade não faz bem nestas horas. De fato, a vista prejudicada pelo colchão de nuvens e a insignificância da altitude não justificavam todo o esforço desprendido para permanecer ali pouco mais de meia hora. Esforço dobrado para suas pernas curtas que davam dois passos para vencer a mesma distância que a girafa do Alisson avançava com apenas um. Complicado explicar a compulsão pelo montanhismo para quem teve uma iniciação tardia, mas é forçoso admitir que não estávamos ali unicamente pela vista ou pela facilidade de chegar. Muito pelo contrário, enfrentamos mar, rios, lama, cobras e cansaço exatamente porque é difícil, complicado e cheio de surpresas. As paisagens, as flores e tudo mais são bônus e o que realmente importa é o caminho e a companhia dos amigos.
 
O Alex Pacheco trouxe um tubo de PVC e uma caderneta para marcar o cume e coube ao Vita inaugurá-lo com sua inconfundível escrita barroca: 
 
"Nem sempre os Everest significam a sublimação montanheira maior. As pequenas altitudes e atitudes nos proporcionam significantes avatares existenciais com a compartilhança da cultura caiçara. A nossa "conquista" ao Bico Torto é a prática do montanhismo puro, sem competição, franca harmonia, solidariedade e amizades" 13 de setembro de 2015.
 
Descer é uma belezura acompanhando a linha esticada pelo Vita, mas antes o Rafael, o Ollyver e o Marcelo tiveram verdadeiro orgasmo coletivo quando este último encontrou uma Ocotea lanata (conforme Nees & Mart.). Segundo eles é uma espécie de Canela muito rara de encontrar no Paraná e seu único registro no Estado remonta o ano de 1970 pelo botânico Gert Hatschbach, no município de Guaratuba, bem próximo das fronteiras com Santa Catarina. Descobertas que demonstram a importância destas regiões de difícil acesso para a conservação da biodiversidade e exigem estudos mais aprofundados da flora antes que os ogros Juari, Johny e Alisson, com suas sensibilidades afloradas, descasquem o facão sobre o matagal. 
 
Duas horas e vinte para retornar ao rancho apesar da lambança da Rossana que novamente torceu o tornozelo. Meia hora para ensacar a viola e o Vita saiu na frente para ninguém rir se mergulhasse na lama uma segunda vez, só parando no Portinho para esperar os retardatários. O rio estava cheio até a boca e desta vez não tinha nenhum canoeiro para salvar o dia. Era travessia no vau ou se esperava sete horas até a maré baixar, decisão difícil e engraçada. Por aclamação, elegemos o Alisson com seu metro e meio de pernas, para boi de piranha. Fez umas curvas e encontrou uma passagem com água pelo umbigo, só que o umbigo dele equivalia quase no pescoço da Kellen e da Rossana. Tirei as botas, coloquei a mochila sobre a cabeça e fui fondo, até a água subir pelo rego da bunda. Gelaaada! Os últimos serão os primeiros já dizia um velho deitado e os primeiros a atravessar o rio tomaram um caminho errado. Outro quilômetro inteiro atravessando rios, lagoas e mangues com os pés descalços até a locomóvel, mas agora ninguém mais queria saber dela. 
 
Chegamos ao Abacateiro cansados, sujos e fedidos, as quatro e quinze para o temido choque de realidade.
 
          – Cadê o barco e o piloto? – perguntei ao Leonildo.
          – Cansou de esperar e foi pro boteco na Vila Fátima.
 
Ainda bem que não paguei o bagre. Aprendi na Bolívia, a duras penas, que poder é dinheiro no bolso. Todo mundo tomou banho gelado de mangueira, trocou de roupa e arrumaram as mochilas para o retorno, e nada do tigrão. Um dos filhos do Leonildo se propôs a atravessar o canal de canoa para chamar o safado. Meia hora depois voltou com cara de desânimo.
 
          – Ele está vindo? – perguntamos ansiosos.
          – Não senhor, o Lelo diz que não viaja a noite e só vai levar vocês amanhã cedo.
 
E agora, quem poderá nos defender? A Kellen, o Antoniutti e o Juliano tinham avião marcado para a manhã seguinte, outros já temiam pensando no patrão, celular sem sinal e os demais tremiam só em pensar no pau que levariam das patroas. Pedi carona para atravessar o canal e convoquei o Juliano e o Alisson para leões de chácara, e o Johny pra nos tirar da cadeia depois da refrega. A regra para fazer negócios com os caiçaras é sempre guardar o dinheiro no bolso, manter um largo sorriso no rosto e um bom porrete nas mãos. Encontramos o pinguço miando sobre uma mesa de bilhar. O Juliano e o Allison tomaram posição sem mostrar os dentes, um de cada lado da vítima.
 
          – Vamos Lelo, feche a conta que a tigrada está esperando.
          – Tratamos que vocês estariam de volta até uma da tarde.
     – Não Lelo, dissemos que faríamos o possível para voltar antes das quatorze horas.     Combinamos que você nos traria de Paranaguá ao Abacateiro no sábado e nos levaria de volta no domingo. Simples assim.
          – Então tá, mas é perigoso viajar a noite no mar.
 
Largou do taco e foi saindo. Desconfiei da facilidade com que concordou.
 
          – Onde cê vai, Lelo? E o nosso jogo? – perguntou outro cachaceiro.
          – Pera aí que já vorto.
          "Xiii Marquinho – pensei comigo mesmo – aí tem coisa!".
          – Eu e o Alisson vamos na tua canoa, Lelo. – e pulamos dentro.
 
O Johny e o Juliano se acomodaram na canoa de escolta. O Lelo sentou a pua no motor, fez a canoa quase decolar, corcoveou e empinou mais que potro xucro. Queria nos jogar na água e no meio do canal as mangueiras se romperam e o motor explodiu em vapor. Nem para disfarçar o caiçara mamado se mostrava competente.
 
          – Motor tem que testar! Já desconfiava disso, e se quebrar no meio do mar?
 
A canoa de escolta jogou uma corda e nos rebocou até Abacateiro. Motor fervendo e todo mundo com cara de enterro. 
 
          – Pacheco, o motor é teu – distribuí as tarefas – Alisson "ajude" o Lelo e todo mundo pra dentro com mala e cuia antes que a maré baixe ainda mais e a canoa encalhe.
 
Começou um frenesi danado com gente carregando mochilas, outros trazendo galões de água e o Pacheco com o motor aberto, drenando a água fervente enquanto despejava água gelada para refrigerar. Outra meia hora perdida com a canoa a deriva e a noite se aproximando. O Pacheco ditava suas ordens e ninguém mais dava um pio até que deu-se a partida e todo mundo respirou aliviado. Mas alegria de pobre dura pouco e apesar do monitoramento constante, uma hora depois, o motor voltou a explodir em vapor. Desta vez no meio da Baía de Pinheiros na mais completa escuridão.
 
          – Lelo, ligue as luzes antes que algum desavisado colida com a gente neste breu.
          – Os bicos de luz (lâmpadas) tão queimados. – foi a resposta.
          – Pessoal, lanternas! – resolvido.
 
E recomeçou a novela com a canoa a deriva, motor fumegando e sem água doce pra trocar. Feitas as contas só restava deixar a maré vazante nos levar pelo canal até Superagui. Muitos já ensaiavam a desculpa que dariam no dia seguinte e o clima era de velório. Mas o próprio Lelo sugeriu usar água salgada e como o motor era dele mesmo, o Pacheco não se fez de rogado. Sangrou tudo e fez circular água do mar pela mangueiras. Outra meia hora perdida, mas o que menos interessava no momento era o tempo. Bateu na partida e funcionou, mas então não sabíamos se as luzes da margem eram de Guapicu ou Bertioga, se íamos a Superagui ou Paranaguá. Uma hora depois as bóias de sinalização do canal de Paranaguá piscavam a nossa frente e o porto crescia a olhos vistos. Em questão de meia hora estaríamos salvos, mas sempre tem um mas nesta altura do campeonato. Foi quando a canoa arrastou a barriga na areia pela primeira vez, e houveram mais duas depois. O Vita e seus conhecimentos de navegação eram a última carta na manga, determinando a profundidade pela altura e forma das ondulações se o piloto pinguço ameaçasse jogar a toalha novamente. Fizemos longo e demorado contorno a procura de águas mais profundas e só respiramos aliviados ao entrar pela foz do Rio Itiberê.
 
Ancorados de frente para a Ilha de Valadares, o capitão de canoa ainda me extorquiu um pixuleco para passar a noite no puteiro. Pra isto tudo bem, se me pedisse dinheiro pra comprar pão ou outra mentira não daria. Deve-se sempre premiar a honestidade! 
 
Santa Esther se atrasou no emprego para nos resgatar no porto e liberar os automóveis no pátio de sua casa. Lhe seremos eternamente gratos. Mas graças ao cachaceiro manhoso e seus boicotes, não encontramos restaurante aberto em Paranaguá nem banca de pastel na estrada. Naquela noite tensa todo mundo foi pra cama dormir com a barriga vazia, esperar dois dias sentindo os micuins coçarem e depois arrancar os carrapatos bem gordinhos. 
 
Paranaguá, 49km, Abacateiro,1000m, Locomóvel, 900m, Rio dos Patos, 5750m, Rancho no Rio do Costa, 2750m, Casa de Pedra, 1400m, Cume do Bico Torto, Vila Fátima, Porto Velho e Guaraqueçaba.
 
Compartilhar

Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

Comments are closed.