Serra Fina: Com saúde não teria graça pt II

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Amanheceu na Serra Fina, a temperatura era muito mais amena às 06:01h da manhã, 1°C. Saímos da barraca, rápido café da manhã, empacotamos tudo e seguimos pro nosso (na verdade meu) primeiro objetivo do dia, culminar o Pico do Avião pra registrar a medição utilizando o aparelho de GPS de mão. Melhor ainda, pois tínhamos dois aparelhos diferentes. A subida não reserva grande segredo, basta fazer a descida da Pedra da Mina até a cota dos 2.550 metros de altitude, sem chegar ao fundo do Vale do Ruah onde a altitude varia pouco e fica por volta dos 2.515/ 2.518 metros de altitude. Do colo, onde há um pequeno cume piramidal, contorná-lo pela esquerda e começar a trepar pedra até o cume, onde se chega em não mais que vinte minutos.

Leia a primeira parte aqui:

 
Carambolas, que vista! A face sul da Pedra da Mina reserva um segredo impressionante, chegando à beirada do cume do Pico do Avião, olhando pra baixo, se tem a visão da assustadora subida pouco freqüentada da rota sul, classificada como muito difícil, dividida em dois dias, partindo de Queluz. O desnível é grotesco, quase 2.000 metros verticais desde a propriedade privada. Poucos a fizeram e me parece que está fechada temporariamente, pois o dono da propriedade não está permitindo o ingresso em suas terras.
 

Note uma gota de sangue na lente de minha câmera!

Mas a melhor visão está a leste, o Pico Cabeça de Touro muda um bocado, se tornando uma verdadeira coleção interminável de ranhuras profundas, falhas na montanha. Sem dúvida, uma das mais belas da serra, e eu diria uma das dez mais impressionantes do Brasil. Inclusive, ele tem um sub cume bem mais abaixo do seu topo, um pequeno morro que é idêntico ao Pico do Escalavrado da Serra dos Órgãos, que curioso!

 
Enquanto o Flávio trabalhava, eu media a montanha esperando os aparelhos de GPS estabilizarem, e, obviamente, fotografava também.
 
Garmin Etrex Vista Parofes: Variou de 2.704 a 2.706 metros ao longo de seis ou sete minutos.
(precisão informada pelo GPS de 7 metros)
Garmin 60 csx Flávio: Variou de 2.703 (cota que apareceu por 2 ou 3 segundos e nunca mais deu as caras) a 2.708 metros ao longo do mesmo tempo. (precisão informada pelo GPS de 7 metros)
 
Baseado nisso, no tempo claro, na pressão atmosférica estável, tomei como medição a menor das altitudes encontradas e mais constante: 2.704 metros. Observem que, a uma precisão de sete metros (que também não é muito segura com gps de mão), isto pode variar de 2.697 metros a 2.714 metros. Só mesmo com um geodésico pra tirar a “prova dos três” (considerando a minha escolha de 2.704 metros). Putz, é grande! Eu esperava algo em torno de 2.675 metros e foi a altitude que usei quando criei a página da montanha no summitpost dois anos atrás.
 
Gastamos uma meia hora ali no topo da montanha, mas não fomos até os destroços do mono-motor, eu não queria me desgastar mais, pois o trajeto do dia eu já conhecia em 80% de sua totalidade, faltando apenas a subida do Pico dos 3 Estados. Sabia que uma longa e quente caminhada nos aguardava. Além do mais, meu estado físico era uma dúvida constante em um cantinho de meus pensamentos. Descemos.
 
Chegamos na base da Pedra da Mina a 2.515 metros de altitude, na extremidade do Vale do Ruah, às 09:00h. Entre sair da Pedra da Mina, descer, culminar o Avião, medir e fotografar, descer até o Ruah, gastamos 1h15min. Rápido até. Seguimos com a travessia do vale que felizmente foi muito mais fácil já que colocaram fitas adesivas, facilitando a orientação em meio ao caótico complexo de capim anta de dois metros de altura.
 
Mais um presente, o vale estava todo congelado, havia sincelo pra todo lado, cristais de gelo de 10 cms de altura em toda sombra e já passava das 09:00h, com uma temperatura aproximada de 20°C. O dia seria muito quente.
 
Passamos pelo vale muito rápido, em uns dez minutos chegamos ao Rio Verde, e continuamos acompanhando sua margem até chegar ao ponto onde há uma “pequena praia”, onde Tácio e eu matamos a sede dois anos atrás durante o ataque ao Cabeça de Touro, uma laje de pedra com as águas cristalinas do rio ao lado da seqüência de pequenas quedas d’água. Sentei ali enquanto o Flavio foi trabalhar, comecei a lavar meu rosto, nariz, cabeça, quando notei que a poça de água sob a grande rocha que jaz sobre a “pequena praia” estava congelada. Uma poça grande, que estava coberta por uma camada de 2 cms de gelo, filmei e me diverti.
 

Abasteci meu reservatório com três litros de água, meu pequeno cantil de 400ml, e esperei pelo Flávio. Bebemos o máximo que conseguimos e seguimos rumo ao Pico dos 3 Estados, onde terminaria nosso terceiro dia. Checando no GPS, haveria outro ponto de água após o 3 Estados na cota dos 2.025 metros de altitude, o que não parecia ser tão distante já que o desnível era relativamente pouco, quase nada aquém dos 600 metros verticais. Fomos tranqüilos achando que nossa água daria.
 
Seguimos na consecutiva subida e descida de morrinhos após o final do Vale do Ruah, o que desgasta bastante e leva tempo. Avançamos bem até que chegamos à crista do Morro Cupim do Boi, belíssima formação da Serra que na verdade não é uma montanha, mas é tratada como tal por todos que ali passam, e só pela beleza visual que proporciona, merece o tratamento dado!
 
Ali vimos indícios de incêndio recente, com a vegetação ainda se recuperando. Encontramos a descida e acompanhando os totens chegamos à florestinha de bambu na base do Pico dos 3 Estados, a mais ou menos 2.450 metros de altitude. Resolvemos fazer uma parada para banheiro. Nossa, que parada, ficamos ali por meia hora no total. Preguiçosamente reerguemos as mochilas e começamos o ataque ao Pico, um pouco cansados, mas com tempo de sobra pra culminar a montanha com luz do sol por horas a fio.
 
Ganhamos altitude e em mais ou menos quinze minutos terminamos a primeira parte. A subida do 3 Estados é dividida em dois escalões e uma crista, o primeiro escalão faz o caminhante recuperar a altitude perdida durante a descida do Cupim do Boi, chegando novamente a cota dos 2.550 metros. Depois há a crista que lentamente ganha altitude e que faz pouca diferença, ao longo de cerca de trezentos metros de crista só se ganha mais ou menos trinta metros de altitude. Então, ao final da segunda fase do ataque, a altitude é de cerca de 2.580 metros, e o mais exigente está por vir, os 85 metros verticais finais.
 
Começa pela travessia de mato alto novamente e depois se inicia o trepa pedra alternado com mato alto bem inclinado. No final do dia, isso cansa pra caramba. Erguer o corpo e a mochila em partes cuja inclinação mais parece escalada é cansativo, tudo isso a 30°C de sol, sem uma nuvem sequer, e economizando água, com sede.
 
Lutando contra o altímetro do GPS e contra minha narração que só arrancava expressões carrancudas do rosto do Flávio (Rah! Risos), finalmente, às 14:57 horas, chegamos ao tripé de vergalhão do cume do Pico dos 3 Estados, a 2.665 metros de altitude (meu gps deu 2.666m). Há também no cume um alto “mastro” que suspeito fora um dia suporte de uma bandeira, não sei da História da estrutura.
 
Mais uma vez, mantivemos a média de sete horas de caminhada, desta vez minutos antes de completar-se o ciclo da sétima hora, incluindo a subida ao Avião, sessão de fotos, parada no Rio Verde de meia hora, mais fotos, parada para banheiro de meia hora na base da montanha. Olha, fomos muito bem viu! Um quarentão e um doente de medula óssea às beiras de completar 35, que dupla de arrasar a Serra…rs
 

Montamos a barraca, e durante o próprio processo já estávamos bem descansados. Gastamos um tempo escolhendo já que praticamente todos os pontos têm pedras no chão. Acabamos ficando bem ao lado do tripé de vergalhão. Fizemos um lanche, e aguardamos a hora do pôr do sol pra fotografar mais uma vez as cores sobre todo o maciço do Itatiaia, além é claro de registrar o nascer da Lua Cheia. Pronto, lá se foi uma hora só fotografando e filmando.
 
Do lado oposto, o sol se pôs ao lado da Marins – Itaguaré em um formato curioso, eu não podia ver a “bola” propriamente dita do sol, mas um formato curioso que me lembrou a fumaça de charuto de desenhos animados do Pica Pau. Um espetáculo. Entre nós e o astro rei, camadas e mais camadas de montanhas…
 
Logo anoiteceu e fomos dormir pensando na quantidade de água e na longa descida que tínhamos até a civilização. Do topo da montanha podíamos ver a subida do Alto dos Ivos. Aliás, eu nunca havia apreciado uma foto sequer da montanha e piamente acreditava em uma crista que alguém deu nome, mas o formato é muito belo, piramidal, de montanha mesmo! A subida está toda marcada e é visível mesmo a quase dois kms de distância de onde estávamos, tendo a Pedra do Picú como fundo.
 
A noite foi menos fria, nem negativo deu, sem vento e límpida. Quando amanheceu fazia 3°C e havia algumas cirrus sobre nós, de grande altitude, e no geral o tempo parecia muito estável, o GPS mantia a mesma pressão, inalterada. Seria mais um dia quente pela frente, e longe da água! Detalhe, a marcação do Tácio deste ponto de água dizia “água fraca”, então sequer certeza de que teríamos água lá rolava. Na hora que arrumávamos as coisas notei dentro da barraca um bicho pau (Clonopsis gallica). Segunda vez que isso me acontece, a primeira vez foi em 2009 no acampamento Alsene, Parque Nacional do Itatiaia. Sessão de fotos do bichinho intruso e divertido.
 
Procuramos sair bem cedo, e depois de arrumar tudo partimos. Mais uma vez, a rota era clara e sem dúvidas, perdemos altitude rápido chegando ao cumezinho que há mais abaixo, um sub cume do 3 Estados, passamos por ele, descemos a baita piramba oposta inclinada até o colo que liga o maciço do 3 Estados com uma crista oposta composta por três pequenos cumes antes do Alto dos Ivos. Foi realmente duro galgar cada um dos morrinhos sob o sol forte. Rosto, braços, nuca já bastante queimados e sem proteção alguma. Eu pensei que haveria alguma proteção de nuvens mesmo com tempo bom e por isso não levei protetor solar pra economizar peso. Combinação muito, muito ruim…
 
Descemos até o fundo do vale que separa os três “cuminhos” do Alto dos Ivos, chegando a altitude de 2.390metros, bem baixo já. Agora o pior, teríamos que subir tudo de novo pra chegar ao topo da montanha, pois a descida só começaria a partir de lá. Dureza! O sol maltratava mesmo, a água estava em economia, a temperatura estava facilmente em torno de 32°C ou 33°C, e a sensação térmica por causa da ausência de vento e exercício físico, o que aquece o corpo, lá pelos 40°C. Gente, que isso…terrível…
 
A subida foi menos penosa que pensávamos ser, e ainda nos demos ao luxo de soltar as mochilas no alto dos 2.524 metros do cume do Pico Alto dos Ivos pra fotografar. Só que dessa vez, por causa do calor absurdo, ficamos só uns dez minutos e não meia hora. Retomamos o longo caminho de descida.
 
Descemos o tempo todo pela crista rochosa até a altitude de 2.300 metros, quando entramos em alguma vegetação de que? Bambus novamente. Mas que saco que esses bambus não acabam nunca! Felizmente ali já era o limite deles, e pouco mais abaixo acabaria essa ladainha de puxar as mochilas. Chegamos ao vigésimo não sei o que acampamento a 2.252 metros. Parecia que agora iríamos começar a perder altitude, nesse momento a água do Flávio acabou.
 
Agora só tínhamos a minha água que estava no final também. Quando partimos do 3 Estados ele tinha 2 litros de água e eu 1.4 litros. Quanto mais eu teria? Não sei e não olhei pra não me preocupar. Seguimos descendo.
 
Descendo? Mas que descida é essa que tem mais subida que descida? Tudo que descíamos voltávamos a subir do outro lado, uma seqüência de alguns morrinhos, onde há um monte de arame farpado espalhado pela serra. Depois de algum tempo chegamos a descer um pouco chegando à altitude de 2.100 metros e nos mantendo nela por uma eternidade, pelo menos nesse momento a trilha era bem aberta e agradável, nos protegendo do terrível sol. Minha água acabou, e o Flávio não quis beber nenhuma vez todas as vezes que perguntei se queria. Eu sabia que ele estava com muita sede.
 
Olhei o GPS, faltavam 650 metros em linha reta até o ponto “água fraca”. Lá fomos nós rumo ao filete. Andamos um tempo relativamente longo sem alterar um metro de altitude e cheguei a brincar com o Flávio: “Cara, daqui há pouco vamos nos registrar na portaria da parte alta do Itatiaia, porque estamos chegando lá cacete!”. Uma leve descida se iniciou, a trilha acabou e se tornou uma estrada antiga sem uso com vegetação rasteira a mais ou menos 2.050 metros. Pouco depois chegamos ao filete de água, e tinha água! Ufa…matamos quem estava nos matando…
 
Ainda tínhamos quilômetros de caminhada à frente sem nem saber, os piores, em estrada. Depois do final da trilha, seguimos pela antiga estrada até que perdemos altitude em cada curva chegando a um local que acredito ser o Sítio do Pierre propriamente dito, algumas construções ao redor de um enorme gramado verde a 1.830 metros. Ali finalmente consegui sinal de celular (a TIM está com os dias contados comigo, chega dessa porcaria que não pega em lugar nenhum!) e liguei pro taxista Antonio nos pegar. 
 
Só que o carro do bonitão não sobe até o Pierre, tínhamos mais entre 2 e 3 kms de estrada abaixo até chegar na estrada que sobe de Itamonte até a Garganta do Registro. Foram os piores quilômetros, muito, muito sol. Meus braços e rosto estavam já tão maltratados que o simples relance de luz solar me arrepiava os pelos de tanta sensibilidade. Hoje sei que sofri queimadura de altitude no rosto, que está muito, muito pior. Parece que fui vítima de um incêndio acidental ateando fogo em carvão pra churrasco, narinas, nariz e bochechas torrados.
 
Descemos reclamando do sol e da falta de proteção, nossa culpa, seres humanos que desmatamos tudo indiscriminadamente. Passamos o tempo todo sem encontrar uma pessoa sequer. A única casa que vimos uma pessoa, esta tratou logo de entrar ao nos ver, provavelmente evitando ter que dar água ou algum contato indesejado com os montanhistas que, aos olhos dos locais, podem ser na maioria das vezes farofeiros baderneiros. Infelizmente, muitos são, então não os culpo.
 
EU gritava com o GPS que não tinha sinal até com céu azul, já sem a esportiva, procurando quanto faltava pra finalmente chegarmos na estrada asfaltada quando de repente, após uma curva, ali estava, a 1.580 metros de altitude. FIM! Depois de 6h45min andando terminamos nosso quarto e último dia.
 
Sentamos na única parte de sombra que havia. Ali finalmente entreguei os pontos pro cansaço hematológico, psicológico, geral. Desabei no gramado depois de aumentar meu rendimento dia a dia, andando cada vez melhor que o dia anterior. Coube ao Flávio a missão de se preocupar com qualquer coisa, eu não funcionei mais por algum tempo.
 

Antonio chegou com companhia no carona, estacionou, e logo em seguida saiu com o carro. Não nos viu! Como cabia ao Flávio se preocupar porque eu sangrava no gramado, levantou e começou a andar pela estrada com meu celular na esperança de ter sinal. Nada. Porcaria de TIM! Daí eu voltei a funcionar, e enquanto o Flávio descia a estrada eu comecei a subir, só precisei andar vinte metros, Antonio voltou com o táxi.
 
Entramos e pegamos a estrada. Fizemos uma parada em um restaurante/ hotel onde dormi em 2008 antes de subir pro Itatiaia, contra meus princípios bebi uma coca-cola, meu corpo pedia açúcar e foi a primeira coisa que pensei. Voltamos pro táxi e continuamos até chegar em Passa Quatro depois de 55kms de estrada, no Hotel Serra Azul, de frente pra antiga estação da linha férrea de Passa Quatro, hoje desativada. Só funciona mesmo o passeio do Maria Fumaça, trem turístico que sobe a uma certa altitude da mantiqueira dentro das florestas, de quinta a domingo. Passeio que quero levar a Lili pra fazer!
 
Antes mesmo de sairmos da serra decidimos dormir em Passa Quatro pra lavar o corpo, fotografar um pouco a cidade e comer uma refeição decente. Aliás, eu não iria querer sentar ao meu lado em nenhum ônibus, meu cheiro era uma combinação de suvaco fedido de velho + sangue + mau hálito de fome. Um lixo humano. Eu não queria incomodar ninguém com isso.
 
Nos registramos de forma bem simples: “Meu nome é Paulo e o dele Flávio”. Pegamos a chave e subimos pro quarto. Eu não queria contaminar o ambiente com meu cheiro  ahahahaha…
 
O quarto era o mais simples possível, o banheiro não tinha sequer cortina pro box. Flávio foi tomar banho enquanto eu contabilizava as feridas e tirava as placas de sangue do nariz, acabando com meu terceiro e último rolo de papel higiênico. No primeiro dia dei uma topada em um toco de bambú mau cortado e fiquei com um hematoma terrível na canela, que já estava bem melhor felizmente. Meus dedos dos pés doíam um pouco, mas nada demais. O pior era as queimaduras, que só pude me dar conta da cagada em casa já, pois a coisa tá feia.
 
Depois da limpeza generalizada, saímos pra buscar comida em pleno domingo, em Passa Quatro. Ah! Piada não? Tudo fechado, as únicas pessoas na rua estavam arrumadas, como para uma festa de peão de boiadeiro, mas pro que seria um comício político, onde? Na porta do hotel. Passei pela pensão onde comi quando cheguei na cidade, “Pensão Dona Filhinha”, estava fechada. Por sorte, a Soraia, dona da pensão, gentilmente nos fez entrar pela sala da casa e nos atendeu pra que não ficássemos com fome. Comemos feito leões um prato de operário que parecia nunca acabar, mesmo depois de uma centena de garfadas.
 
Voltamos pela cidade e depois de passar pelo hotel pra buscar minha câmera, fotografamos até o sol se pôr. Passamos algum tempo no hotel só relaxando e conversando sobre a travessia e diversas coisas enquanto a multidão tomava conta da frente do hotel, onde já havia um caminhão com equipamento de som esperando a hora pra começar a politicagem.
 
Por volta das 20:20h saímos novamente pra comer, e tinha espaço na barriga! Procuramos até que encontramos uma lanchonete que vendia sanduíches, sorvete, sucos. Pronto, foi ali mesmo. Ao som de motocicletas sendo destruídas, fogos de artifício, som alto dos carros com canções de propaganda, e a cidade inteira desfilando de salto alto e penteados emo, cada um comeu seu avantajado sanduba que, pelo menos, estava suculento. Bebi dois sucos de laranja, líquido com o qual sonhei durante os dois últimos dias. Em seguida voltamos pro palanque pra dormir.
 
Ao contrário do que pensamos, que seria impossível dormir com tanto barulho e cercados de discursos inflamados sobre falha de uns e erro dos outros, o rabo alheio, em dez minutos o Flávio já roncava e eu fui pro mesmo longínquo planeta dez ou quinze minutos depois.
 
Despertamos cedo, antes das sete. Flávio saiu pra fotografar, trabalhar mais um pouco, e eu fiquei preguiçoso deitado até quando ele voltou, quase uma hora depois. Daí foi arrumar tudo, tomar café da manhã (que foi melhor do que o esperado!), e deixar o hotel. Nos despedimos na rodoviária e o Flávio seguiu seu caminho no ônibus de 08:40h pra Cruzeiro, só o primeiro de uma seqüência de três até chegar em casa na cidade de Petrópolis.
 
Eu esperei dar nove da manhã, peguei minhas mochilas e comecei a andar pela cidade procurando um presentinho pra Lili, o único jeito de matar a saudade da patroa…rs. Encontrei uma lojinha de artesanato de frente pra pracinha que aceitava débito, que milagre! A dona era simpatia em pessoa, batemos papo por uns dez minutos enquanto eu escolhia os adornos e pagava. Voltei pra rodoviária faltando dez minutos pro meu ônibus e no caminho ainda fotografei uma bela flor na praça.
 
Bem, é isso. Longa aventura, uma das melhores que eu já tive nas montanhas do Brasil, nosso país que, ao contrário do que os gringos pensam, tem montanha pra caramba. Em relação ao título do relato, brincadeira com assunto sério à parte, a Serra Fina não é tão dura quanto o boato que corre. Mesmo com meu sangue oxigenando a 60% do normal, o que faz com que a 2.500m eu me sinta como a 4.500m, com falta de oxigênio, fiz a travessia completa sem maiores complicações. A Serra Fina não é um passeio, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças.
 
Gostaria de deixar registrado dois agradecimentos importantes:
 
Primeiro ao Flávio, que provou exercer uma parceria tremenda na montanha, me deixando confortável como me sinto quando ando com meus outros companheiros Pedro Hauck e Tácio Philip;
 
Segundo ao Tácio, cujas marcações de pontos nos deu certeza de cada passo durante a travessia, marcações perfeitas, precisas. Cara, de novo, você deveria ter ido!
 
Termino com uma única frase: “No dia 7, vote 45!
 
Parofes
 
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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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