Serra Fina para poucos – parte 2

0

Antes mesmo de começar o retorno sabíamos o que teríamos pela frente. No primeiro dia encaramos 8,3km e 1.258 metros de desnível com mochilas pesando pelo menos 15kg cada por metade do caminho, peso que foi aumentado após a coleta da água para quase 20kg cada. No segundo dia já havíamos caminhado 6,6km só para chegar ao cume da montanha objetivo. Agora teríamos que fazer o mesmo para voltar, não seria fácil mesmo sem o peso do dia inicial.


Descemos a inclinada face norte da montanha até a base. Felizmente conseguimos passar pelo mesmo caminho que fizemos na ída, isso diminuiu em pelo menos 50% o esforço para passar pelo matagal, foi fácil até. Chegamos na base do Cupim do Boi, escalaminhamos a subida até seu topo onde contemplamos uma cena que sempre é bela de se ver, nuvens represadas pela crista desta montanha, parte da rota Pedra da Mina – 3 Estados. Fotos, água para refrescar a garganta seca. Ops, notamos que todos tínhamos pouca água, começamos a racionar. Ainda tínhamos pelo menos duas a três horas até o riacho e com certeza não daria.

Escoriações diversas banhadas ao suor salgado tornam a caminhada extremamente desconfortável, dolorida. O cansaço aumenta a medida que adversidades se acumulam, porém isso não era novidade para nenhum de nós. Aliás, estamos ficando profissionais em montanhas de difícil acesso e desconhecidas. Que tal abrirmos uma agência e guiar deficientes pelo mato alto? Sim, pergunta retórica, seria imprudente não?

Quando chegamos ao último cucuruto depois da subida do vale, onde tivemos nossa primeira visão do Ruah, estávamos exaustos. Não tínhamos mais nem uma gota d´água, sorte que racionar garantiu água até ali, a apenas centenas de metros do riacho. Nos demos ao luxo de caminhar até a cachoeirinha mesmo, sem precisar pegar água antes. Começava a anoitecer, já era 17:45h. Fizemos uma pausa merecida no filete de água, abastecemos para a caminhada de subida da Mina, cozinhar e beber a noite toda, e ainda alguma sobra para o começo da caminhada da manhã seguinte. Resultado, quatro quilinhos de água para cada um pelo menos. Éramos em quatro porém só tínhamos duas lanternas de cabeça, Paula e eu. Assim, ela foi na frente e eu em terceiro para garantir uma iluminação dinâmica.

A noite caiu, o frio veio. Avançando pelo mato alto do Ruah víamos diversas lanternas andando pelo vale e outras diversas descendo o quarto ponto culminante brasileiro. Paramos para fotos noturnas. Alguns minutos ali e seguimos para completar a travessia do vale. Passamos pelo camping e nele uma multidão de cerca de quarenta pessoas acampadas, diversas barracas, falatório, luzes.

Para o alto e avante, passamos pelo camping e começamos nosso último obstáculo para chegar às barracas e nossa comida, prêmio do dia: Vencer os 270 metros de desnível para chegar aos quase 2.800 metros da Mina. Já no começo da subida passamos por dois guias, um deles ajudando um deficiente a descer a montanha! Gente, pera lá…Ganhar dinheiro tem limites. Uma visão rápida me sugeria que o cliente sofrera um derrame pois seu lado direito tinha sequelas. O guia o segurava pelo braço montanha abaixo. Imprudência pura. Reconheço, todos precisamos de uma sensação de vida após um problema de saúde tão grave, mas acredito que a própria gravidade de um banho de sangue não programado no cérebro, suficiente para sequelar 50% de seu corpo, é um segurança de dois metros de altura por um de largura que não me deixa entrar em algumas festas, inclusive em uma travessia de dezenas de quilômetros e tanto desnível como a Serra Fina. Me desculpem, não concordo e vi ali uma cegueira pelas verdinhas. Muito errado. Meses atrás postei no meu blog fotos da feira para deficientes físicos que visitei aqui em São Paulo, vi lá equipamentos adequados a deficientes inclusive para espeleologia! O que vi lá era correto e ideal, o que vi na Serra Fina neste feriadão era errado, muito errado. Nem acredito que os guias sejam culpados pois estavam ali representando uma agência, que é a responsável pelo fiasco.

Enfim, subimos, subimos, e subimos…O cansaço a essa hora já era total, que dia! Que pernada! Parecia não terminar…Finalmente, já quase 19:30h da noite, na escuridão total, chegamos ao topo da Pedra da Mina, 12,5 horas depois de começar a andar no início do dia, com o total aculumado de 13,2km de caminhada. No cume, encontrei o amigo Carlos Levi, batemos um rápido papo e fui pra minha barraca, estava a beira da exaustão completa. Dois meses parado pesaram muito forte sobre mim que, sem dúvida, era o mais cansado do grupo. Entrei na minha barraca, me deitei por dez minutos e durante esse tempo, não consegui sequer me virar pro lado para alcançar a cartela de dorflex. Tive tontura, minhas costas doíam e os ferimentos ardiam. O corpo todo arrepiado evidenciava a hipersensibilidade à temperatura por causa do esgotamento físico. Precisava me alimentar rápido.

Fiz um esforço, em câmera lenta fiz uma vitamina C efervecente, bebi com 2 comprimidos de dorflex. Fiz suco de laranja com acerola (tang), fiz a janta e comi, já no final da refeição comecei a me sentir melhor. Levei uma hora pra fazer isso tudo, parecia que estava em alta montanha. Aliás, me lembro que em algum momento o Tácio me disse “Cara estou tão cansado que me sinto andando num cinco mil!”. Eu concordei, como esse dia foi cansativo…

Depois da comida e bebida o mal estar passou e meu corpo estacionou dando boas vindas ao sono e ao saco de dormir. Me aninhei ali e fechei os olhos. Nem saí para fazer fotos e vídeos, para dar boa noite ou congratular os companheiros. Ouvi alguém me chamando lá pelas 21:00h e depois que ouvi meu nome umas 4 vezes respondi algo que não me lembro. Apaguei. Só acordei às 03:00h, fiz o pipi da madrugada e voltei a dormir, acordando umas cinco e meia. Já me sentia 50 ou 60% renovado, mas ainda cansado.

Resolvi combater o cansaço com uma boa alimentação, fiz outro pacote do macarrão supra citado e mais suco, um café da manhã que mais parecia almoço. Comi, saí da barraca quase seis e meia, fiz fotos e um vídeo. Já estávamos sozinhos no cume, todos tinham deixado a montanha continuando a rota da travessia. Melhor assim.

Poucos minutos depois todos acordaram e começaram sua rotina de café da manhã. Eu me afastei, fui ao banheiro, enterrei o resultado e esperei o pessoal se arrumar para o nosso novo objetivo, o morro do Tartarugão diretamente a Oeste da Pedra da Mina, não muito distante, representava um obstáculo de longe mais acessível do que o do dia anterior. Começamos a andar só às 08:15h, tarde e sem pressa.

O tempo já não era lá as mesmas maravilhas dos dias anteriores mas ainda não havia alteração de pressão, nuvens se aproximavam bem de longe então tínhamos uma boa janela de tempo ainda. Descemos a face oeste da Mina pelas lajes seguindo os totens. Ao longe um outro grupo de travessia se aproximava, quatorze pessoas, provavelmente dois guias e os outros clientes. Passamos e começamos a procurar um jeito de atravessar o mato alto até a base do Tartarugão, que estava a cerca de quinhentos metros à nossa frente.

Lá se vai mais mato. Não sei se era pior ou se era cansaço acumulado do dia anterior, pegamos mais dois trechos de vara mato, o segundo mais longo e difícil de transpor, até que finalmente conseguimos atravessar revezando a dianteira entre eu e Tácio, até chegar a uns lajeados de pedra que faziam uma verdadeira avenida natural até a base da montanha. Perfeito. Seguimos e começamos a subida final, neste momento toda a energia recuperada durante a noite já tinha ído por água abaixo e já estávamos cansados de novo. Lentamente seguimos e fomos vencendo o desnível. A subida é bem óbvia e fácil, para descansados é claro.

Chegamos lá e pudemos contemplar um marzão de nuvens bem bonito, o Capim Amarelo se erguia como um vulcão no topo da crista inicial da Serra e nos dava boas vindas, diretamente a norte tínhamos a belíssima visão do morro do Melano, uma linda montanha de 3 cumes (com cerca de 2.500m de altitude) e que não é reconhecida pelo IBGE (vou te contar, essa lista é mais do que furada!). No cume, ainda sem alteração de pressão, medi 2.631 metros de altitude, consultei o Tácio e o GPS dele mediu 2.632 metros, mudando para mais alguns metros minutos depois. A lista do IBGE dá o cume como tendo 2.595 metros.

Video no cume do Morro do tartarugão

O topo do tartarugão é simples, possui um totem e dentro dele um pote de alho desses de mercado, que aparentava estar ali ha diversos anos. Dentro dele um pedaço de papel cujo texto era impossível ler. Fotografei. Fizemos fotos de cume e aproveitamos a vista por uns bons quinze minutos. Satisfeitos começamos a descer, o que foi bem mais rápido já que sabíamos a rota para voltar a trilha tradicional.

Sem pressa, calmamente fizemos nosso retorno, com última parada de descanso na cachoeira vermelha para fotos. Depois de uma breve parada ali seguimos voltando curtindo o leve vento que secava o suor, iniciamos a subida da Pedra da Mina com a bela visão de sua face sul rochosa e praticamente vertical, mais fotos.

Depois disso fomos direto até o cume sem pausas, chegando lá pouco depois de 13:00hs. O total deste trecho de caminhada foi de cerca de 7kms. Quase metade do dia anterior. Mas ainda não acabou, decidimos descer direto até a fazenda, pernoitar por lá, assim poderíamos sair cedo e fugir do engarrafamento esperado do retorno do feriadão. Arrumamos tudo e já sendo cercados por nuvens de todos os lados, começamos a descer quase 15:00hs, mesmo sabendo que chegaríamos na fazenda a noite.

Fomos embora, trilha que não acaba mais. O começo é mais complicado pois deveríamos descer a Mina até a sua base no vale que a separa da montanha sem nome, seguir pela crista até este cume, e dali o negócio só cansa mais. As pernas já estão tão desgastadas que tremem e não respondem corretamente aos comandos da placa mãe na caixola. Não confio nelas e uso as mãos para mais segurança. Descemos, passamos por um solitário conhecido do Tácio, Peter, que veio da Bahia especialmente para passar uma noite na Mina. Seria uma noite solitária pra ele já que estávamos sós lá, o grupo pelo qual passamos seguiu direto pela Mina e certamente acampou no Ruah. Passamos e subimos a crista chegando ao cume sem nome de aproximadamente 2.650 metros. Descemos a inclinada face oposta por onde viemos até chegar ao fundo do vale, naquele bosque mágico, lugar de tantas reflexões.

Continuamos, subimos o último dos pequenos cucurutos, fizemos o sobe e desce até chegar ao primeiro, mas antes dele a Paulinha avistou um casal de jovens tarantulas discutindo a relação, aproveitei e renovei minha foto de aranha, o que já queria fazer ha tempos. Dali descemos o mais forte desnível do paiolinho de 400 ou 450 metros até chegar ao capim elefante. Passamos por ele até chegar ao último ponto de água de ída para a Mina. Uma pausa para lanche, refrescar e continuar. Já começava o pôr do sol e o tempo já estava perfeito novamente, a noite seria estrelada e sem vento.

Já preparei a lanterna pois iríamos precisar. Levantamos e tocamos para baixo. Eita trilha inacabável, quando pensávamos estar próximos parecia miragem, não estávamos e mais quase um quilômetro se passou ainda até que passamos pela última cerca e o Tácio disse que faltava apenas cem metros, que na verdade foram trezentos hehehe…

Chegamos ao carro às 19:30h. Muito cansados, minha canela tinha um novo roxo de uma topada em um pequeno tronco daqueles que ficam no meio da trilha, estava muito cansado mas não como no dia anterior, e neste dia somente caminhamos no total 15,3kms! Caramba!

A janta foi servida e comecei a me arrumar pro novo bivaque na fazenda. Dessa vez tive que mudar de local porque onde havia dormido no primeiro dia formigas alienígenas gigantes ameaçavam me comer na calada da noite, movi meu bivaque para a lateral do carro do Tácio e ali dormi. Mais tranquilo e ao som do mestre Basil Poledouris. Acordei diversas vezes durante a noite o que é normal em um bivaque, lá pelas quatro da manhã o tempo começou a mudar definitivamente, ameaçando chuva.

Todos acordamos as sete. A idéia era descer rápido e comer um café da manhã em alguma padaria em Passa Quatro e foi o que fizemos, neste momento o tempo mudou total, todo nublado e eminência de chuva para o alto da serra, onde apostávamos já estar pelo menos garoando. Ao chegar em Passa Quatro encontramos uma padaria bem simples, comemos o café da manhã e ainda paramos uns dez minutos para assistir e fotografar o desfile de sete de setembro da cidade. Muito legal. Passa Quatro é uma cidade que está crescendo muito com o turismo já ha alguns anos, o capricho nas ruas é evidente. É um lugar onde eu gostaria de morar quando envelhecer, calmo e com aquele sotaque mineiro que tanto gosto…

Voltamos pro carro e viemos pra São Paulo sem nenhum trânsito. A viagem foi extremamente proveitosa, para todos nós. Continuo sem ter em meu currículo de montanha a travessia da Serra Fina, nunca pisei no cume do Alto do Capim Amarelo, do Morro do Melano e do Pico dos 3 Estados, mas fiquei muito feliz em chegar ao cume de montanhas esquecidas pela comunidade montanhista brasileira, onde só alguns pisaram e registraram como puderam sua presença lá.

Na próxima visita garanto, faço a travessia hehehe…

Não deixe de ler a primeira parte deste relato: Parte 1.

Para ver um álbum completo de minhas fotos da viagem acesse: Fotos em summitpost.org
Para ver o álbum completo de fotos do Tácio, acesse: Tácio Philip – Fotos para Serra Fina
Para ler a versão do Tácio do relato, acesse: Tácio
Philip – Relato para Serra Fina

Abraços a todos!

Parofes

Compartilhar

Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

Comments are closed.