Terremoto nas montanhas!

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Já pensou sentir um terremoto enquanto você escala uma montanha? Poucos sabem, mas a maior tragédia da história do montanhismo também foi causada por um terremoto. Foi no Pik Lenin, no Tadjiquistão, em 1990. Uma avalanche causada por um terremoto acabou cobrando de uma só vez com a vida de 43 pessoas.

Geleiras em montanhas e camadas de neve são estruturas extremamente instáveis, e muitas vezes fatores como uma brisa, luz do sol ou mesmo estrondos sonoros são suficientes para desencadear uma avalanche. Agora imagine o impacto que tem um terremoto numa montanha!

Lembro muito bem da minha primeira experiência com terremotos. Foi numa curiosa expedição há 5 anos nos Montes Pamires, no Tadjiquistão. A temporada tinha sido muito conturbada e havia nevado bastante. Muita coisa tinha dado errada, e parecia que nada mais poderia sair errado. Engano!

Vídeo de minha viagem ao Tadjiquistão em 2006.

A primeira vez que você passa por um terremoto numa montanha é como perder a virgindade: aparece uma tremedeira que você não sabe de onde vêm; você fica curioso, porém com medo, e geralmente tudo acaba muito rápido. A minha primeira vez não foi diferente.

Durante uma visita ao banheiro do lugar, que fica a mais de 5000 metros de altitude, notei como as pedras ao meu redor começaram a se mexer e rolar encosta abaixo. Ali agachado e ainda usando o banheiro, contemplei a situação piorando e comecei a observar como avalanches começavam a se desprender das encostas mais altas. De certa forma foi muito bonito ver oito avalanches simultâneas caindo de todas as direções.

Uma dessas avalanches se desprendeu atrás de mim. Minha posição, no entanto, não me permitia olhar para trás e ver o tamanho do fenômeno natural. Eu conseguia escutar a avalanche e sentir o vento causado pelo deslocamento de ar que vinha desde uma montanha chamada Pik Chapayev.

A ficha caiu, e então a palavra CORRER estalou na minha mente! Fiquei de pé rapidamente e, ao olhar para trás, vi uma grande nuvem branca mexendo-se diretamente para meu banheiro. Ela estava realmente perto, e comecei a correr ainda com as calças na mão. Acabei sendo atingido em cheio pela nuvem e caí de cara no chão e calças arriadas. Não sofri nenhum dano fora a humilhação e mais duas semanas de piadas vindas dos meus companheiros de escalada.

Aquele terremoto tinha sido apenas um número 5.5 na escala Richter. O meu primeiro nível 6 foi na China, em 2008. Ano de Olimpíada e época muito conturbada para os que estavam conduzindo expedições comerciais naquela área. Nossa expedição não foi atingida na montanha, mas sim no caminho de descida. Rochas do tamanho de casas acabaram bloqueando a estrada e tivemos um trabalhão para conseguir sair do Tibete.

Grace Mc Donald caminhando sobre escombros de avalanche no Shishapangma em 2008

Agora o primeiro nível 7 a gente nunca esquece! Esse foi no monte Shishapangma (8.027 metros), também localizado na China, no dia 18 de setembro deste ano. Por volta das 6 da tarde, eu estava acampado com a minha expedição a 6.500 metros de altitude. Após um lindo entardecer, entrei na minha barraca para começar a derreter neve e preparar o jantar (saiba mais sobre esse episódio específico aqui).

Era comum ali ouvir avalanches, pois uma grande e acidentada geleira se localizava há menos de 200 metros da barraca. Como de costume, uma avalanche de gelo causou um tremor ao cair e, como de costume, eu ignorei-a completamente. Esse tremor, no entanto, durou muito mais do que o normal, e a água da panela acabou sendo despejada sobre os infelizes habitantes da barraca. Aquilo sem dúvida não era uma avalanche comum. Veio-me à cabeça aquela cena ridícula de eu mesmo correndo com as calças na mão em 2006.

Imediatamente coloquei a cabeça do lado de fora da barraca para ver o estrado. Inacreditavelmente, duas avalanches simultâneas caíam de cada lado do nosso acampamento. Por sorte ninguém saiu ferido.

O estrago veio no dia seguinte quando começamos nossa subida aos 7.100 metros de altitude. A rota tinha sido totalmente modificada. Blocos de gelo do tamanho de geladeiras se espalhavam entre 6.500 e 6.800 metros de altitude. Algumas cordas que tinham sido fixadas anteriormente acabaram levadas junto com o gelo. Outras se encontravam enterradas.

Quando será que vou pegar o meu primeiro nível 8?

Ps: Maximo pegou seu terremoto nível em 2015 no Nepal, em um dos piores terremotos daquele país

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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