Trans Mantiqueira em etapas

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Por sugestão do geógrafo Mauri Santos, guia de montanha de Itatiaia, começamos a considerar por volta de 2006 (ou talvez antes) um percurso que atravessasse a Serra da Mantiqueira. Nossa inspiração foram as grandes trilhas americanas, das quais existem onze. Elas recebem o nome coletivo de national scenic trails.

Em particular, pensamos nas três mais antigas, que datam de 1968-78. São chamadas Appalachian, Continental Divide e Pacific Crest – esta última apareceu no recente filme Wild (Livre). Elas têm de 3.500 a 5.000 km, sendo percorridas em cerca de meio ano, se bem que geralmente de forma descontínua.
 
Nosso conceito era fazer a TransMantiqueira pelos vales e não pelas cristas, usando a estrutura turística existente nas vilas do interior, de forma a facilitar a orientação e a acomodação. Seria um trajeto meio social, voltado para o excursionista médio, não para o montanhista – em princípio sem necessidade de barraca, saco de dormir e fogareiro.
 
Poderia ser percorrido de forma intercalada, em fins de semana e feriados. Cada trecho poderia ficar sob responsabilidade dos guias de cada localidade, a quem caberiam suas sinalizações. Minha estimativa foi de 380 km ao longo de quase vinte dias – algo como 22 km/dia, compatível com a experiência americana.
 
Junto principalmente com Hamilton Miragaia (nosso grupo tinha composição variável), começamos por Monte Verde e prosseguimos no rumo da Pedra do Baú e do Horto Florestal de Campos do Jordão. De lá, seguimos para as vilas do sul de Minas e, assim esperávamos, a partir de Itamonte no sentido do Parque de Itatiaia. Nele existem três longos caminhos que chegam a Visconde de Mauá, onde terminaria nossa trilha (falarei deles em outro artigo).
 
Mas os rapazes que caminhavam comigo eram guias de montanha e, ao terminar o verão, acabaram se dispersando. Os dois últimos trechos acabei fazendo sozinho, alguns anos depois. Parei finalmente no Sertão dos Martins, já à frente do Itaguaré e acima de Passa Quatro. Talvez eu volte a caminhar pelos vales, subindo depois para as encostas do Parque de Itatiaia. Ao todo, percorri 240 km em 11 dias.
 
O tempo passa e estou neste Carnaval em Monte Verde, quando encontro meu amigo Zelito, incansável ciclista. Comenta comigo que um rapaz chamado Pablo Bucciarelli estava procurando atravessar a Mantiqueira em tempo recorde. De fato, descubro que percorreu 400 km de Monte Verde a Aiuruoca em apenas seis dias, com o apoio de dez amigos especialistas. Foi algo como 66 km/dia, ainda mais sozinho e de forma contínua!
 
Seu conceito foi atravessar as cristas, ao longo de serras como Baú, Marins, Fina e Papagaio. Quem já caminhou por lá conhece as asperezas destes caminhos, com fortes desníveis, longas distâncias e difíceis orientações. Mas também suas belezas, com vistas radicais daquelas absurdas cumeeiras.   
 
Isto me fez lembrar dos restaurantes que começaram a promover o que chamavam de slow food, numa culinária mais aperfeiçoada, que contrastava com a prática expedita do fast food. Pois é assim que entendo a natureza, a ser apreciada com a lentidão do prazer, e não com a pressa da conquista.
 
Mas é claro que o desempenho do Pablo foi excepcional – acho eu que bem menos pelo recorde do que pelo percurso, que encarou com coragem, conhecimento e criatividade cristas difíceis em solitário, sob o horrível clima do verão.    
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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