Travessia Oeste da Mata dos Godoy

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A menos de 20km de Londrina, o Parque Estadual Mata dos Godoy preserva um dos poucos fragmentos que restaram da floresta nativa, abrigando inúmeras espécies de plantas e animais. Parte integrante da antiga Faz. Sta Helena, de propriedade da família Godoy, hoje o PEMG é um dos maiores pontos turísticos da cidade, reconhecido como maior patrimônio natural norte paranaense. Como apenas 10% do parque é liberado a visitação (relatado noutra ocasião), desta vez fui percorrer parte dos 90% restantes numa puxada travessia de 20km que singrou seu quadrante oeste e teve de tudo: estrada de chão, trilha, banho em cachoeira, subida de rio, perdidos e muito rasga-mato. Pernadinha de responsa nesta pouco conhecida unidade de conservação situada no Terceiro Planalto Paranaense.

Após rodar a cidade e saltar no Terminal do Shopping Catuaí, não tardou pra eu e a Lau embarcar no “Regina – São Luiz (211)”, de horários bem irregulares. Partindo pontualmente as 8:30hrs deixamos a cidade pra trás, tomando rumo inconfundivelmente pro sul, em linha quase reta, pela Rod. Est. Álvaro L. Godoy (PR-528). O cinza e verticalidade tipicamente urbanas dão logo lugar à horizontalidade esmeralda duma paisagem rural, emoldurada pela janela do coletivo sob a forma de roças, lavouras de cafezais, soja e trigo de perder a vista. Tudo isso espremido no horizonte pelo firmamento de espessa nebulosidade opaca. 
 
Viagem breve, os 18km passaram quase que desapercebidos e após cruzar o minúsculo vilarejo rural de Vila Regina, pouco antes das 9hrs saltávamos a beira do asfalto, mas não na portaria principal do parque. Ao invés de desembarcar logo após o primeiro portal de madeira que dá as boas-vindas à unidade de conservação, esperamos o latão descer mais um pouco pelo parque adentro, pra então deixar o coletivo no outro pórtico do parque, ou seja, aquele que o delimita em seu quadrante sul, já na divisa com a fazenda ao lado.
 
Pois bem, dali basta passar sorrateiramente por uma porteira e seguir por um estradão de chão que bordeja o limite sul do parque. Uma casinha e um cocho são logo deixadas pra trás, sob o olhar perplexo dos cavalinhos que ali pastam, pra depois a caminhada tomar rumo em meio a baixa morraria daquele quadrante. Chovera os dias anteriores, mas não o suficiente pra deixar o céu despido de nuvens e sol brilhando a pino. Ao invés disso, deixou a estrada palmilhada um lamaçal só, transformando nossas botas em verdadeiras massas compactas (e pesadas) com placas de terra avermelhada.
 
Apesar do detalhe da precariedade do caminho, a paisagem alternando a rusticidade dos plantios de soja se mesclava ao das encostas de mata secundária e nativa, esta última já do lado do parque. O rumorejo de água correndo a nossa direita imediatamente denunciou o manso Ribeirão Apertados, divisa natural do parque. No caminho, lamentamos não ter trazido repelente dada a voracidade dos minúsculos sanguessugas alados. No entanto, esta queixa logo se dilui com a descoberta de inúmeras pegadas na lama, que vão desde aves, pequenos roedores e até de pesados mamíferos, no caso, de antas e capivaras.
 
Após cerca de tortuosos 5kms o caminho desemboca num enorme descampado tomado por abauladas colinas forradas de soja. Ali a estrada vira pro sul, sempre acompanhando o rio á distancia, mas agora se distanciando do parque. Não tem problema, pois me mantenho na via palmilhada por mais um km, cruzando um pequeno foco de mata mais fechada, onde o caminho simplesmente termina. Agora basta acompanhar o rugido de água a nossa direita e logo encontro um rastro partindo no meio dum bambuzal. Pronto, a vereda inicialmente desce suave mas logo empina, mas por pouco tempo. Sempre indo em direção ao ruído de água, que aumenta conforme se avança.
 
Num piscar de olhos caímos nas lajotas rochosas do Ribeirão Apertados, onde o basalto se empilha graciosamente num trecho que afunila o rio. Sim, o espreme pra depois transformar numa enorme cachoeira que despeja as águas do ribeirão num enorme lago que ganha tons avermelhados por conta das chuvas recentes. Logicamente, donos absolutos daquele lugar paradisíaco nos brindamos com uma merecida pausa as 11hrs, quando o sol já começava a despontar por frestas no céu. Um refrescante banho e um delicioso lanche apenas complementam nosso pit-stop, assim como as trocentas borboletas coloridas que apenas adicionam beleza àquele bucólico remanso.
 
Pois bem, revigorados, ao 12:30hr retomamos nossa marcha em direção á travessia propriamente dita. Pra isso retrocedemos tudo pela estrada até o ponto onde ela se afasta do parque. Ali, abandonamos a via de chão e mergulhamos no mar de soja em direção ao pé da serra. Avalio o trecho de mata cerrada mais estreito e num piscar de olhos caímos novamente as margens rasas e pedregosas do Ribeirão Apertados, que é cruzado cautelosamente com água logo abaixo do joelho. Do outro lado procuro uma suposta vereda que toca na direção norte mas não encontro vestígio algum (provavelmente fechou por conta dos últimos temporais) e decido simplesmente acompanhar um pequeno afluente do Apertados que vai na direção desejada. Simples assim.
 
E tome subida de rio, literalmente falando, sempre tocando pro norte. Ganhando altitude aos poucos, fomos chapinhando ora pelas pedras, margens arenosas ou através da água mesmo. E assim nosso avanço foi relativamente desimpedido e compassado, não fosse por uma ou outra mata tombada no caminho. Como de praxe, o trajeto nos brindou com muitas banheiras naturebas e pequenas cascatinhas, tornando a ascensão dinâmica e nada enfadonha. O momento mais adrenado foi quando tivemos que subir uma queda maior, onde tivemos que nos agarrar na vegetação ao lado duma enorme rampa de pedra de inclinação acentuada.
 
Dessa forma fomos vencendo mais e mais terreno, até que o riacho não apenas se espremeu á condição de fiapo d’água como também mudou de direção. E agora? Dali não nos restou opção senão sair dele e começar a rasgar mato na diagonal, a nossa esquerda. E assim começamos a ganhar mais altura em meio a espessa vegetação, onde a cada passo dado galhos e cipózinhos teimavam cada vez mais em nos segurar. Em tempo, estava sem bússola e, portanto, fui presumindo estar na direção certa, uma vez que na subida do sinuoso rio não houve alteração significativa da rota.
 
Suados, sujos e ligeiramente cansados, desembocamos no que me pareceu uma antiga e precária estrada. O corte vertical na encosta corrobora minhas suspeitas, e daí logo me veio a mente que aquela ali poderia ser a tal “Trilha do Peter”, uma velha picada que ouvira falar que singrava o interior do parque. Bem, se aquela era a picada não sei afirmar pois nela o avanço progrediu mais, apesar de muitos deslizamentos e arvores caídas forçarem a gente a rastejar pela vegetação afim de vencer o obstáculo, que pareciam não ter fim. Pois é, basta chover com mais intensidade que qualquer trilha fica totalmente descaracterizada.
 
No entanto, a suposta picada não tardou em sumir em definitivo, nos obrigando outra vez a rasgar mato a nossa frente. Foi aí que atingimos um suposto cume ou alto da serra, onde bambus e gravatás se mesclavam a improváveis pés-de-limão. Pensei que não tardaria em achar os descampados de plantios, sinônimos de estar no limite oeste do parque, mas só encontramos baixadas sucessivas de floresta mais fechada. Foi ai que lamentei não ter trazido bússola, que me daria uma referência mais precisa de nossa localização, uma vez que era certo que havia desviado demais da rota; a preocupação de chegar tarde em casa (e deixar a mãe da Lau preocupada com nosso eventual atraso) começou a nos assombrar de forma mais séria. Ta bom, aqui não chega a ter a imensidão duma Serra do Mar, mas ao fato de olhar pros lados na floresta fechada, sob a penumbra do alto arvoredo, e não saber discernir norte de sul já era sinal pra levar em consideração.
 
Só respiramos aliviados quando investimos num leve desvio de rota e, após tropeçar com uma cerca baixa, emergimos na claridade dos supracitados descampados intermináveis de soja. Uffaaa! Uma vez em rota segura, bastou apenas ladear o perímetro do parque naquele quadrante. Melhor um caminho certo que o incerto, ne? O sol a pino das 14:30hr castigava sem dó nossas cacholas tornando aqueles finalmentes em terreno aberto bastante desgastantes. Vez ou outra ao invés de ladear o parque cortávamos no meio da soja pra avançar mais rápido, e assim sucessivamente.
 
Não demorou a trombar com o final da “Trilha dos Catetos”, uma das veredas oficiais do parque e que se resumia a um enorme retão de 2,5kms e sem desnível algum, que nos fez novamente adentrar na mata, mas desta vez com a devida segurança e certeza de onde nos levaria. E tome mais chinelada pela dita cuja, em meio a floresta agradável onde a copa do arvoredo filtrava o sol da metade da tarde. No meio do caminho um marco de concreto tomado de musgo chama a atenção por indicar que estamos pisando no Trópico de Capricórnio, linha imaginaria abaixo do Equador que atravessa o PEMG.
Uma vez no final (ou seria início?) da trilha, nos pirulitamos imediatamente pro banheiro, afim de dar um trato no visual pois estávamos sujos, cobertos de mato e ralados. “Ei, como vocês entraram que não vimos?”, pergunta uma jovem na guarita, na saída do parque, pouco antes das 16hrs. “Não entramos.. estamos vindo do sul!”, respondemos, pra espanto da mocinha. “Nossa, vocês andaram pra caramba! Nem guia daqui faz isso…”, emenda ela. Nos despedimos e ficamos estatelados a margem da PR-538, a espera do busão, que só passaria meia hora depois. Uma vez no coletivo demos conta que havíamos trazido outros souvenires da mata… carrapatos! Mas e daí? Faz parte da aventura!
 
Como foi mencionado logo no inicio deste relato, o PEMG tem aproximadamente 10% de sua área liberada pra visitação, que conta com portais, três trilhas interpretativas (incluindo a “do Cateto”) e áreas de lazer. O restante da mata tem seu acesso restrito á pesquisa ambiental. No entanto, os horários de funcionamento do mesmo continuam sendo esdrúxulos, inclusive nos finais de semana, demonstrando o pouco incentivo á visitação. Pra preservar é preciso conhecer, e pra isso investir em divulgação é essencial. Resta ao andarilho decidido conhecer as florestas por conta própria, mas de forma responsável e consciente. Só assim pra manter ainda vivos os ideais dos irmãos pioneiros Olavo e Álvaro Godoy, numa região onde as opções de lazer são já escassas. Ou seja, sendo permanente (e indiretamente) guardiões da Mata dos Godoy.
 
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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