Travessia Velha Raposa – 50 horas de atividade, quase 1000 metros de escalada e muita umidade na Serra do Mar Paranaense!

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Sexta-feira, 11 de maio de 2018, tento me concentrar no trabalho, mas meus pensamentos estão na Serra do Mar Paranaense. De quando em quando as imagens da última tentativa frustrada me vêm à memória, procuro desconectar-me sem sucesso.

17H – Faz-se o silêncio com a saída dos últimos funcionários da empresa, coloco água na cafeteira e vou revisar aquela lista de equipamentos e mantimentos. O parceiro Willian Lacerda chega e discutimos sobre os últimos detalhes. Pegamos a estrada. No caminho, contamos para o Valdesir Machado para onde estamos indo e este diz querer nos levar. De 4X4 se chega mais longe e não dispensamos a carona. De Curitiba partimos para Antonina, rumo ao distrito de Cachoeira de Cima, até onde a estrada de asfalto acaba e vira de terra, para depois tornar-se trilha.

22H – Iniciamos a caminhada com garoa. A umidade era tanta que em 10 minutos de caminhada estávamos encharcados, o que seria uma constante nos próximos 2 dias. Nosso objetivo da noite: chegar à base da via Musguenta, na montanha chamada Ferraria, este imponente cume que se ergue de forma triangular a 1745 metros de altitude. Tenho vivo na memória o ar feito fumaça saindo pela minha boca, o ritmo forte da marcha e o cheiro acre do lodo formado pelos muitos milímetros de chuva acumulados durante o verão. A caminhada rende e em pouco tempo deixamos a Trilha da Conceição e entramos na mata. Seguimos as fitas refletivas que amarramos nas árvores anteriormente, até um ponto que elas somem e aí só o Google Maps na causa. Erramos feio e já estávamos subindo a parede por alguma língua de mato, voltamos e tropeçamos na base.

2H da madrugada, sábado, 12 de maio de 2018, encharcados de suor e de orvalho, sentamo-nos sobre nossas mochilas pesadas e agradecemos por estarmos ali naquela plataforma plana e úmida aonde passaríamos a noite. Não tínhamos tempo a perder e enquanto o Willian fazia a janta, eu montava nossa barraca ultraleve, de apenas um quilo, que havia projetado para esses perrengues. Comemos o sopão, penduramos as tralhas e pedimos aos deuses da montanha que a parede estivesse seca.

Equipos na base

6H 30min – Foram 3 horas de sono inquieto, sonhos loucos e uma ventania que parecia que ia derrubar as árvores. Acordamos com um dia magnífico. Enquanto o parceiro fazia café, fui dar uma espiada na rocha. Seca, seca, seca, não estava, mas nossa gana de subir era maior que o medo de escorregar. Enchi a cadeirinha de equipamentos até ficar bem pesada, para diminuir a carga do parceiro, e me lancei pedra acima.

7H 30min – De cara, já comecei a enfrentar um problema que é irritante quando há umidade: cada vez que pisamos numa touceira de mato, a sapatinha molha e temos de secá-la, passando a sola na calça ou magnésio no bico da mesma. Aos poucos fui ganhando altura até que cheguei ao mesmo problema da vez anterior, uma faixa de rocha aonde escorria água. Não tinha como escalar em livre, ou seja, usando os pontos de apoio naturais da pedra. Como eu mesmo havia aberto aquele esticão, resolvi fazer furos de cliff para transpor o obstáculo, até pensando em outras cordadas que se aventurassem por ali. Os esticões foram se sucedendo, vários perrengues devido à pedra molhada, mas de repente chegamos ao grande platô de mato. Faltou-nos um facão para cortar o matagal, mas como era peso demais para levar montanha acima, o jeito foi avançar no braço mesmo.

Enfiada com rocha suja.

Ed e William na parada.

Na chaminé

A meu cargo ficou a cordada número 6 da via, a qual nunca havia guiado nas duas vezes que passáramos por ali. Esta inicia-se numa placa, que vira chaminé, para tornar-se oposição, para transformar-se numa aresta que deve ser montada a cavalo, a qual acaba numa touceira que deve ser dominada no mais puro estilo foca, para finalmente alcançar uma fenda verde de vegetação! Muitos estilos em uns 40 metros de emoção 🙂

13H – Willian inicia a guiada da cordada chave da via, um artificial demorado que cruza pequenos tetos para depois tornar-se uma bonita fenda, por vezes um pouco suja. Eu já estava ali há quase duas horas, em alguns momentos cochilando, só desperto pelos puxões “delicados” de corda, quando o parceiro gritou: quando acaba a fenda faz o que? Confesso que fiquei por uns momentos tentando imaginar o que ele queria dizer com aquele questionamento, mas racionalmente respondi: domina o platô e costura a chapa. Ao que me contesta: qual platô? O platô inteiro de mato havia caído e para agilizar as coisas o inventor que estava na ponta da corda me pediu um bambu de 3 metros, para agilizar o processo. Como “el que guia és Dios”, rapelei uns metros, cortei o clipstick natural e mandei pela corda auxiliar. Em alguns minutos estávamos na parada da via. Mais dois esticões com muitas emoções e…

Atravessando os tetos

Atravessando os tetos

No headwall

17H – Cume!!!! A primeira parte da travessia estava vencida e agora entrávamos no desconhecido, tínhamos de encontrar o caminho que nos conectasse à base da próxima via, a Deus e o Diabo, que fica numa outra corcova da mesma montanha. Passamos por um labirinto incrível de blocos, buscando um caminho que não fosse interrompido pelas gigantes rachaduras do solo, até que chegamos a um local mais plano, com a visão do Pico Paraná sendo devorado pelas nuvens. Foi uma das imagens mais bonitas de toda a travessia. Caminhamos meia hora e tropeçamos na Trilha Crista Leste, que é uma trilha que sobe a montanha até o topo; pegamos o sentido morro acima. Não conhecíamos esta trilha, mas nossas pesquisas indicavam que estaria por ali, e foi providencial. Passamos por alguns locais bons para acampar, mas eu, teimoso como sempre, sugeri que seguíssemos mais pra cima. Foi uma péssima decisão, pois quanto mais pra cima, menos locais planos e mais umidade.

18H 30min – Montamos nossa micro barraca literalmente na lama. Nossa situação era crítica: apenas dois litros d’água para jantar e tomar café da manhã. Comemos um sopão meio seco e às 8 horas da noite já estávamos nos escondendo da neblina e do frio. Minhas pernas e braços estavam doloridos devido aos trechos de vara-mato. Na noite anterior havíamos dormido muito pouco, então foi só fechar os olhos e desmaiar.

 

No cume do Ferraria

Pico Paraná entre nuvens

Acampamento

6H 30min – Vejo a hora no celular, mas parece que é noite ainda, pois o sol não consegue atravessar a espessa nuvens que nos engole. Fazemos um esforço para sairmos da barraca quente. As paredes de nylon estão encharcadas pela condensação da transpiração. O café nos desperta, colocamos as botas molhadas, mas não ligamos, pois sabemos que dali a pouco estaremos até com as almas encharcadas.

8H – Incrivelmente, dormimos exatamente na boca do vale que devemos de descer, que é uma gigantesca fenda que corta a montanha em duas e que passa na base da via que queremos escalar. A visão inicial é tenebrosa: chegamos a um abismo que não sabemos se é o “nosso” abismo, pois a neblina não permite o reconhecimento, passamos a corda numa árvore e nos lançamos ao vazio. Rapelo num negativo até achar outra árvore à qual me ancorar para esperar pelo parceiro que vem em seguida. Sucessivos rapéis vão nos desgastando física e psicologicamente, pois a fenda úmida se transforma em rio e vamos ficando cada vez mais encharcados. Depois de 3 horas de descida, aportamos na base da via Deus e o Diabo completamente destruídos.

Começo da Deus e o Diabo

12H – Encho a cadeirinha de equipamentos e arregaço a calça para ela não molhar a sapatilha, a qual calço sem meias, pois elas estão muito encharcadas. Não gosto de escalar sem meias, mas é o que tem pra hoje. Havia esquecido quão longe estão umas das outras as proteções da Deus e o Diabo, “méu déus”!!!! A gente era muito corajoso quando abriu essa via…rsrs. Brincadeiras à parte, a Deus e o Diabo é uma rota muito elegante, segue uma linha natural, exigente e bem variada de estilos. Vou guiando e meu parceiro vem jumareando a mil em seguida, quando vejo estou na P8. Falo pro parceiro guiar as 3 que faltam, mas ele guia a nona e me engana dizendo pra eu entrar na décima, que pelo meu conhecimento prévio, adiantarei o processo. Lá vou eu, seguindo a fenda linda em diagonal, deixando os friends (equipamentos móveis que colocamos na fissura da rocha para proteger-nos de uma possível queda) para trás. De repente a fissura dá lugar a uma placa cheia de bolas de granito, as quais servem de apoio para a improvável progressão. Pela minha cabeça passa a ideia de fazer em livre, mas os furos de cliff são muito convidativos, e com a desculpa de agilizar o processo, penduro-me nos estribos. Sem prévio aviso os buracos somem, olho para todos os lados e não encontro nada (a subida em artificial por buracos feitos na pedra se dá com a utilização de pequenos ganchos ou cliffs, os quais são colocados em furos de um centímetro de profundidade. Conectados a esses cliffs, usamos estribos, que são como escadas de fita. Com 2 cliffs e 2 pares de estribo a ascensão é relativamente rápida).

Headwall da Deus e o Diabo

Subindo.

Um dos crux da via.

Procuro o maldito furo de cliff e não encontro. Busco pra cima, pra baixo, pro lado e nada. O sol quase se pondo e eu ali enroscado. Até que tento uma última solução, subo em livre um trecho e consigo enxergar um buraco, estico o braço e coloco finalmente o pequeno gancho e salvo o dia. Continuo até o final do esticão de corda e meu parceiro vem voando. Congelo na parada, o frio está vindo.

17H 30min – Topo da Via!!!! Chegamos ao final da via. A alegria está estampada em nossas faces. As últimas luzes estão avermelhando as nuvens, nosso corpo está cansado, mas o visual espetacular enche de energia os nossos espíritos. Como duas crianças, apertamos as mãos e comemoramos aquele feito, que, para nós, foi muito gratificante. Mas a aventura não acaba por aqui, ainda tem os rapéis. Como conheço bem a via, vou adiante. Pego umas fitas, cordelete, instalo a lanterna sob o capacete e deslizo pelas duas cordas de 60 metros. E assim, sucessivamente, sem percalços, quase até o final. Mas quando tento encontrar o último ponto de rapel, nossa companheira inseparável, a neblina, fica tão espessa, que não acho a parada. De um lado a outro, vou fazendo uma inspeção minuciosa da parede, até perceber que desci demais. Torno a subir no braço pela corda. Meu parceiro me pergunta o que ocorre e digo que não consigo encontrar a parada de rapel. Quando olho para frente ela surge, como num passe de mágica. Rio, ancoro-me e grito: corda livre!!!

20H – Iniciamos a caminhada de retorno. A descida é sofrida pelo leito – que deveria estar seco – do rio. Muito escorregões e alcançamos a trilha marcada com fitas refletivas que nos deposita na trilha da Conceição. Maravilha, agora é só descer até o carro. Lá pelas dez e meia da noite chegamos à ponte sobre o rio Cotia e o Val e o Mateus nos esperam com muita animação e sanduíches. Como é bom encontrar os amigos depois de tantas horas de esforço físico e psicológico.

Meia Noite – Chegamos novamente ao ponto de partida, após 50 horas de rock’n roll. Batizamos nossa epopeia de Travessia Velha Raposa, em homenagem ao mestre Edson “Du Bois” Struminski, que sempre foi um grande desbravador da Serra do Mar Paranaense. O grande parceiro Du Bois, que faleceu há um ano, certamente estaria feliz por nosso feito; talvez até tivesse nos acompanhado na empreitada, pois de um perrengue dessas proporções era o que ele mais gostava 😉

Escaladores: Edemilson Padilha e Willian Lacerda

Texto: Edemilson Padilha

Edemilson Padilha tem apoio das empresas: Conquista, Território, Snake, Alumisistem, Bonier, Campo Base, Sea to Summit e Azteq

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