Travessias Litorâneas

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Acho que vou surpreendê-lo ao incluir algumas travessias litorâneas, que usualmente não são consideradas como tal.

A mais conhecida delas é talvez a da Joatinga, entre Laranjeiras e Parati, no Estado do Rio. É muito apreciada pelos franceses, que costumam percorrê-la nas suas férias de verão. A Joatinga é uma larga península que limita o lado sul do Saco do Mamanguá. Este é um dos mais paradisíacos dos nossos cenários litorâneos: imagine um cânion (na realidade um fiorde) de encostas retilíneas e verdejantes, repleto de água do mar, pouco conhecido e habitado, devido à sua posição escondida. É nele que você terminará seu percurso.

Saco do Mamanguá, Joatinga, RJ

São três dias para vencer 42 km. Você começará a caminhar a partir do condomínio burguês de Laranjeiras. A orla marinha irá levá-lo da Praia do Sono à Ponta Negra, onde existe uma vila caiçara. Se este primeiro dia é tranquilo, com menos de 10 km, prepare-se para atravessar transversalmente a península, subindo e depois descendo de forma interminável dentro da mata, até o Pouso da Cajaíba, outro povoado caiçara. Acredito que serão perto de 20 km. De lá, voltará no terceiro dia à orla, agora já ocupada por algumas casas, até atravessar a dura encosta que o separa do Mamanguá, após cerca de 12 km.

Picos da Jamanta e do Cairuçu, Joatinga, RJ

Sim, você acaba de atravessar a Joatinga! Você visitará locais maravilhosos como o tranquilo Sono, a rochosa Galhetas e a deliciosa Martim de Sá – fora o paraíso do Mamanguá. Se você tiver um ou dois dias disponíveis, aproveite para subir na Jamanta ou no Cairuçu (1.100m), que ficam na Joatinga, serão pelo menos 6 a 7 horas ida e volta pelo espigão da serra. Ou ainda no Pão de Açúcar (400m), uma subida fácil com linda vista do Mamanguá.

Praia das Galhetas, perto da Ponta Negra, Travessia da Joatinga, RJ

Um outro trajeto longo e interessante é o da Ilha Grande, nos mares de Angra dos Reis. A volta à ilha percorre 60 km e demanda pelo menos quatro dias. O centro turístico fica no Abraão, uma pequena praia convidativa do lado continental, sob a sombra do Pico do Papagaio (quase 1.000m). É daqui que você iniciará sua volta no sentido leste. Durante boa parte do percurso, você encontrará habitações, pois o litoral é esparsamente construído. Naturalmente, existem pequenas vilas, como Araçatiba e Provetá, onde se quiser poderá pousar.

Pico do Papagaio, Ilha Grande, RJ

As trilhas são razoavelmente (mas nem sempre) sinalizadas dentro de um mesmo padrão e belamente sombreadas, sendo em alguns casos bem largas. Seu objetivo deve ser chegar em dois dias até o Aventureiro, já do lado oceânico, onde existem vários campings. Daí em diante, coragem, terá de percorrer rumo oeste as proibidas, desertas e intermináveis Praias do Sul e Leste, chegando depois até Parnaióca, vagamente povoada. No dia seguinte, depois de um longo trecho na mata, completará a volta, chegando à maravilhosa praia de Dois Rios. Depois dela virá finalmente o Abraão por uma longa estrada – este será o percurso mais difícil. Isto tudo é bem mais viável na baixa estação.

Praia de Dois Rios, Ilha Grande, RJ

Acho banal o lado continental e espetacular o oceânico, exatamente como acontece com Ilhabela. As praias de fora são grandes, vazias e claras – as de dentro apresentam tamanhos acanhados, com areias amareladas e habitações feiosas. Não deixe de conhecer as deslumbrantes areias de Lopes Mendes e de Dois Rios, a enseada mágica do Caxadaço e as tristes ruinas do Aqueduto e do Presídio.

Circuito de Ilha Grande, RJ

Fica em Ubatuba o maior, o mais belo e o mais recortado litoral paulista. Lá você pode emendar dois percursos num só, caminhando por talvez 20 km de muito encanto, de preferência no inverno. Comece pela trilha das Praias Desertas: assim chamada por percorrer praias de difícil acesso, que não foram povoadas, sendo raramente visitadas. Seu início fica à sombra das amendoeiras da Praia da Caçandoca. A trilha passa pela vizinha Caçandoquinha e, ao subir, você avistará as pequeninas Praia da Raposa e Saco das Bananas. Sugiro você visitar pelo menos uma delas, pois são muito bonitas no seu isolamento. Voltando á trilha, você chegará à extremidade esquerda da Praia da Lagoa, onde de fato existe uma formação de água doce, grande, escura e deliciosamente fresca. O percurso total é próximo de 9 km.

Saco das Bananas Ubatuba SP

Agora você partirá para a Ponta Aguda, atravessando toda a Praia da Lagoa. Você percorrerá a delicada Praia Mansa e chegará a um amplo pontão rochoso, debruçado sobre o mar. É a Ponta Aguda, um local bonito e diferente. Neste caso, você não precisará subir, como na travessia anterior, para alcançar as areias seguintes: a bela e calma Praia da Figueira e a pequena formação das Galhetas. A trilha termina próximo ao mar manso da Tabatinga, onde existe um condomínio, depois de 10 km de caminhada, se as extensões das praias forem consideradas.

Sugiro que você também conheça as Sete Praias: na realidade, você apenas perceberá cinco delas, pois existem dois trechos mínimos chamados de praias, sem que você nem note. Ela é normalmente feita no sentido Lagoinha-Fortaleza (duas enseadas de Ubatuba), sendo seus atrativos principais as cênicas Praias do Bonete Pequeno, Grande do Bonete e, sobretudo, do Cedro. Pessoalmente, prefiro fazê-la no sentido oposto, apesar da forte rampa entre estas duas últimas praias, e por duas razões: atravessar no início a trilha desnivelada até o Cedro e desfrutar no final o caminho sombreado até a Lagoinha, talvez o mais bonito deste litoral, com abundantes fontes de água. Serão 8 km de percurso.

Praia do Cedro, Ubatuba, SP

Mas evite o verão (este conselho acho que vale para todas as praias), para evitar o calor úmido e o barulho da muvuca. Lembro-me do dia absurdamente quente em que mergulhei num rio, ao final de uma travessia. Luvinha, meu fiel cão, diligentemente cruzou o rio e ficou me esperando na outra margem. Mas meu destino era seguir em frente e o chamei. E lá veio ele nadando de volta, parecia um pato mecânico: só se via sua imóvel cabeça fora d´água, pois nadava com tanta delicadeza que era imperceptível o movimento de suas patas.
Numa próxima coluna, vou comentar sobre a maior travessia litorânea que conheço, entre Porto Seguro e Prado na Bahia. Mas existem maiores, um dia talvez eu as faça, pode ser que de bike.
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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