Um curso em alto estilo (alto mesmo!)

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Já faz muitos anos que queria fazer um curso avançado de escalada em rocha e aprender como progredir artificialmente, big wall e sobre abertura de novas vias, mas nunca tive a oportunidade.

Há algumas semanas atrás meu amigo Leonard Moreira sugeriu um curso com um tal de Bito. Durante uma passagem por Curitiba ouvi falar muito do tal escalador que abriu centenas de vias no Brasil e que já havia escalado nos Andes e Patagonia e USA… o Bito isso, o Bito aquilo…

Finalmente tive a chance de conhecer o humilde Bito Meyer e entender porque as pessoas falam tanto dele. Li sobre uma de suas conquistas, a Cria Cuervos na Pedra Riscada. A história é uma daquelas de arrepiar os pêlos do braço. Se trata de uma via com grau de exposição E5 de 1200 metros!

Também li sobre suas escaladas em Chaltén, Patagonia – como ele mesmo diz – “na época que só os deuses escalavam na Patagônia”. Na época pessoas como Casimiro Ferrari ainda escalavam na região. As escaladas de Bito na época foram pioneiras. Com pouquíssima experiência em gelo, Bito e sua equipe escalaram o Fitz Roy, a agulha Poincenot e o Torre.

Com 40 anos de atividade, Bito tornou-se um escalador completo e conquistou centenas de vias esportivas, tradicionais, big walls, e muitos boulders. O mais impressionante é o fato dele ainda estar na ativa, conquistado vias novas. Como ele mesmo sugere: “seja da ativa, deixe a discussão para os outros”.

No primeiro dia de curso pegamos chuva mas ainda assim pudemos ter aula na casa do Bito,  pois ele construiu uma parede artificial com direito a fendas para entalar peças, agarras, fendas de dedo e crash pads.

Fiquei um tanto preocupado em saber sobre o acidente que Bito teve há 15 anos na qual quebrou sua perna e mesmo após várias operações ele perdeu totalmente a flexibilidade do joelho direito.

Bito porém parece não estar nem um pouco preocupado com sua deficiência. Com 51 anos de idade ele sobe a trilha de muletas na mesma velocidade ou até mais rápido que qualquer moleque de 25 e ainda por cima carregando mochila! Por não poder dobrar sua perna, Bito improvisou um gancho para colocar a sapatilha e um protetor de perna para poder guiar e não quebrar a perna (mais ainda) em caso de queda. Mesmo com todas estas dificuldades adicionais, Bito consegue guiar  e abrir vias de grande dificuldade técnica, abrangendo todas as modalidades da escalada, como por exemplo a “Cães e Caravanas” (conquistada com Karina Filgueiras) e guiar com facilidade vias de 9 grau. É realmente impressionante como o acidente parece não ter atrapalhado sua carreira!

Depois da parte teórica do primeiro dia era hora de transportar água, equipamento e comida até a base da Pedra do Baú. Parte do curso foi com o Bito  do meu lado jumareando e me dando segurança e dicas, enquanto eu “guiava” em top rope um A3. Nesta parte do curso foi onde eu aprendi a progredir artificialmente, a lidar com passadas delicadas em cliff, usar estribos e a colocar e “testar” proteções delicadas  e aprendi também , como me mover num terreno novo e desconhecido e todas aquelas nuances que compõem uma escalada delicada. Cada passada ou situação, era explicada por Bito desde poucos metros de distância e eu experimentei assim “dependurado num abismo” com toda a segurança, os segredos da escalada de big wall e da abertura de vias, com direito até a colocar proteções fixas
no martelo e a um cafezinho na via.

No último dia do curso com Bito e Karina pude participar e colaborar na conquista do “O Arco do Baú”, uma via nova, que liga a  via “Distraídos Venceremos” 5 VI A3  a “Cães e Caravanas”6VIIb(A1+ ou VIIIb)E3, vias extremamente trabalhosas no Baú, ambas conquistas do Bito. Pude aprender muito vendo o Bito lidar e se mover com terreno virgem. O grau sugerido da via “O Arco do Baú” é 6+ A2+ E3.

A razão pela qual escrevi esta coluna foi para valorizar um pouco mais sobre este tipo de riquezas que o montanhismo brasileiro tem. Pouco sei sobre os montanhistas do Brasil, mas estou bem impressionado pelo que vi. É realmente inspirador ver como alguém que nós acreditamos ter tantas dificuldades para escalar, levar tudo com tanto bom humor e humildade como Bito Meyer. Há muito o que aprender com pessoas como ele e para ele ainda há muito o que
ensinar!

Karina e Bito são responsáveis pelo site BrasilVertical.com.br onde dividem o seu conhecimento com o público, disponibilizam croquis e informações sobre cursos.

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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