Uma revisão sobre nós de união de corda

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Recentemente houveram dois acidentes que resultaram na morte de escaladores. Estes acidentes não ocorreriam se os escaladores envolvidos soubessem ou tivessem feito um nó de união de cordas corretamente.


Há pouco tempo a escaladora chinesa radicada em São Paulo, Chang Wei, veio a falecer quando numa situação de emergência fez um rapel numa chapeleta usando um cordelete de abandono. Depois de instalar o cordelete e começar a descida na pedra da Ana Chata, o nó do cordelete se abriu e ela levou uma queda de dezenas de metros.

No Rio, uma situação semelhante. Duas cordadas se reuniram numa parada de via no morro da Babilônia, eles decidiram unir as cordas para fazer um rapel mais rápido. Primeiro desceu o escalador mais experiente e em seguida duas pessoas se engataram, um em cada corda, e começaram a fazer um rapel simultâneo. O nó que unia as cordas correu e se desprendeu, fazendo que os dois escaladores sofressem uma queda enorme. Um deles morreu.

Apesar de situações diferentes, estes acidentes ocorreram quando os escaladores empreendiam o rapel e o que teve em comum entre estes casos foi que em ambos, os nós de união de corda não foram corretamente confeccionados, embora um caso tenha ocorrido em um cordelete e outro numa corda dinâmica de escalada.

Estes incidentes me levaram a uma indagação sobre qual é o melhor nó para unir cordas. Pesquisando na web eu vi diversas interpretações. Pelo que vi existem certos vícios e preconceitos e não há um nó que seja o melhor. Acho que a opinião que eu li no site Mundo Vertical é a mais válida: O melhor nó é o mais fácil de fazer, mais fácil de desfazer e que seja seguro.

Eu aprendi, há muitos anos atrás, que o único nó que serve para unir cordas era o Pescador Duplo. Quando eu morava em Rio Claro, no interior de São Paulo, e ia com freqüência ao Morro do Cuscuzeiro, eu usava bastante este nó para rapelar a via Paredão, que é uma via de duas enfiadas com 50 metros de extensão.
Todas as vezes que eu e meus amigos descíamos o Paredão com duas cordas, gastávamos mais tempo para desprender o Pescador Duplo do que para rapelar. Daí começou minha birra com este nó que além de ser chato para desfazer, ainda é ruim para fazer, pelo menos eu acho.

Certa vez eu estava fazendo uma escalada em parede com um amigo que fez o curso de resgate no Cosmo e quando eu ia fazer o Pescador Duplo para unir as cordas, ele as tirou de minha mão e fez o nó Zelha. Eu nunca tinha visto este nó para unir cordas, mas depois desta experiência comecei a gostar dele. O nó Zelha tem outros nomes. Em inglês ele é chamado de nó Overhand ou Half Hitch, na escalada é comum vê-lo como Nó Simples, Direito, Zelha ou popularmente Nó Cego, isso mesmo…

Existe nó mais e fácil que o Nó Cego? Surpresa maior é que descobri através do site da Petzl que este nó é ideal para paredes, pois ele não fica travado em superfícies irregulares. E ele é seguro? Sim. Segundo o site do Davi Marski, ele é o melhor nó para unir duas cordas para realizar rapel.

Outra opção é o popular e também fácil nó Oito Duplo. Já vi muitas pessoas falarem muito mal deste nó, dizendo que ele não é próprio para unir cordas, isso é mito. Se você tiver duas cordas de mesmo diâmetro o Oito Duplo pode ser utilizado sem problemas para uni-las. É o que diz o site Mundo vertical . Se ele é seguro para unir cordas de mesmo diâmetro, este nó é recomendado para fechar cordeletes.

Existe o problema de quanto o nó reduz a resistência da corda. No site do Davi Marski ele transcreveu uma pergunta que um escalador fez ao presidente da comissão de segurança da UIAA. Ele disse que em 35 anos de pesquisas nunca houve um caso de ruptura de corda em um nó, mesmo numa corda com 15 anos de idade. Mesmo assim ele passou uma tabela da porcentagem de redução da resistência da corda com o nó, na qual o resultado é: Nó Zelha: De 40 a 30%. Nó Oito: De 35 a 25%. Nó Pescador Duplo: 30 a 25% (Por isso muitos dizem que o nó pescador duplo é único nó que serve para unir cordas).

Agora o maior problema dos nós é que apenas em situações específicas, usamos nós específicos . Ou seja, acabamos esquecendo como se faz os nós menos usados, como o Pescador Duplo, que é um nó que serve somente para unir cordas.O que não é algo que fazemos nos treinamentos em academia e nem mesmo nas escaladas esportivas cheias de vícios…

O que eu quero demonstrar aqui é que numa situação de emergência você pode usar um nó que você esteja mais habituado a fazer, desde que seja corretamente confeccionado e que haja também uma sobra na ponta para que o nó não corra.

Agora um alerta! Aprender a fazer um nó olhando por figuras de sites na internet somente, é arriscado. Se você deseja aprender melhor como fazer os nós de escalada, peça instrução para uma pessoa experiente e qualificada. Entretanto não caia nos vícios de um instrutor que goste de coisas difíceis. Aprenda todos os nós e pratique aquele que você ache mais fácil, pois quando você mais precisa daquele nó específico, você pode esquecer e faz um errado. Será que não foi isso o que aconteceu nestes acidentes recentes?

Pedro Hauck, colunista do
Altamontanha.com é também dono e editor do site Gentedemontanha e
tem apoio de Botas
Nômade.

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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