Vias novas e urso!!

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Por causa de insônia, finalmente fui ler a última edição da American Alpine Journal, que é a publicação internacional mais prestigiada que fala das escaladas mais significantes do mundo em cada ano, e vi a descrição de duas vias novas abertas por brasileiros, além de uma minha.


João Cassol (Florianópolis) e Wagner Machado (Curitiba), abriram junto com o canadense David Trippett uma linha de 320 m na Torres del Brujo, graduada em 5.10+, batizada de “A Última Dama”. Isso fica a cerca de 120 km ao sul de Santiago do Chile.

Em Cochamo, também no Chile, o Roberto Sponchiado e o chileno José Ignácio Morales abriram a “La Hora es Ahora”, de 400 m, graduada em 5.11b/c C1+, situada na parede conhecida como El Espejo. O livro também faz menção a uma repetição de uma cordada brasileira na “Mate, Porro y Todo los Demas”, nova via do Fitz Roy aberta pelo Gariboti. Deve ter sido o Nativo.

Lendo esta publicação é que você se dá conta da quantidade incontável de paredes virgens que existem no mundo, com boas linhas para serem conquistadas. E aí vem a pergunta: – Repetir via prá quê?

Comecei lendo a American Alpine Journal vendo uma matéria sobre um americano que passou 34 dias sozinho e pendurado, abrindo uma via nova no Cerro Escudo (Torres de Paines), que primeiramente achei estúpida. Pensei – “Mas que americano idiota!!” – Mas depois me dei conta que a via tem 1200 m e é graduada como VII 5.9 A4+. Logo depois vi a foto do sujeito e o nome (Dave Turner), e a ficha caiu!!

Ele, com apenas 26 anos, faz parte da nova geração americana de grandes escaladores de parede. Ele “adotou” e ensinou as técnicas de escalada artificial em big wall para o brasileiro Nicola Martinez.

Em 2005, no Acampamento 4 do Yosemite, o Dave costumava dormir ao relento, ao lado da minha barraca para não precisar pagar. Certo dia ele me agradeceu muito por ter deixado a mãe dele bêbada de uísque!!! Eu não entendi nada. Mas lembro que um dia acordei de madrugada com o Dave falando sozinho. Abri o zíper da barraca e vi que o maluco não estava sozinho. Estava dentro do saco de dormir e falava calmamente com um URSO enorme que quase lambia seu rosto. Ele apenas dizia – “Qualé companheiro, vai procurar comida em outro lugar e me deixa dormir” – E o urso foi embora. Imagine você acordar com um bicho daquele tamanho cheirando o seu rosto, e você preso dentro do saco de dormir apenas com o rosto do lado de fora!!! Mas acho que eles já se conheciam.

Antonio Paulo Faria

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Sobre o autor

Antonio Paulo Faria - Colunista

Antonio Paulo escala há tanto tempo que parece que já nasceu escalando... 30 anos. Até o presente, abriu mais de 200 vias no Brasil e em alguns outros países. Ele gosta de escalar de tudo: blocos, vias esportivas, vias longas em montanhas, vias alpinas... Mas não gosta de artificiais, segundo ele "me parecem mais engenharia que escalar propriamente". Além disso, ele também gosta de esquiar, principalmente esqui alpino no qual pratica desde 1996. A escalada influenciou tanto sua minha vida que resolveu estudar geografia e geologia. Antonio Paulo se tornou doutor em 1996 e ensina em universidades desde 1992. Ele escreveu sobre escalada para muitas revistas nacionais e internacionais, capítulos de livros e inclusive um livro. Ou seja, ele vive a escalada.

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