Vinson – A Escalada da mais alta montanha da Antártica

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Acordei com o despertador às 6 da manhã e me surpreendi por ter dormido tão bem. Normalmente em dias como este acordo de meia em meia hora com medo de perder a hora.

Tudo estava pronto, mas uma estranha sensação de ter esquecido algo me perturbava há vários dias. Uma vez mais abri meu enorme duffle bag e chequei se tudo estava lá. Antártica não é um bom lugar para ir sem alguma peça de roupa ou algum equipamento faltando. Tudo que estava lá era fundamental, nada era extra. Cada grama contava já que iria carregar tudo isso montanha acima. No total, estava com 50 quilos contando roupas, equipamento, barraca, comida, combustível.

Mas, o horário da chamada telefônica veio e foi e nada. O combinado era que poderíamos ser chamados para ir para o aeroporto as 6:30 e se não, a cada duas horas. Fiquei na cama lendo, ou tentando me concentrar na leitura e as horas foram passando. Finalmente às 13 horas me ligaram. Tinha chegado o grande momento. Depois de mais de um ano sonhando com a Antártica, isso para não falar com o desejo de anos…) estava finalmente embarcando.

Embora por fora o Iilyushin II-76 não seja muito diferente de um avião convencional, por dentro a história era outra. Apenas duas pequenas janelas deixavam o fraco sol de Punta Arenas iluminar a escuridão do interior. Apesar dos assentos tradicionais, ao redor de 50 ocupando metade do avião, não havia dúvidas de que estávamos em um avião de carga russo. Nenhuma concessão tinha sido feita à estética. Cabos por toda a parte, guindastes presos no teto e um comissário de bordo russo, careca e gordo…

Dentro do vôo uma babel de rostos, línguas, nacionalidades e sonhos. Ao redor de 50 pessoas suando com seus trajes de Antártica com grossos casacos de pena, botas triplas, gorros e echarpes. A maior parte rumo ao Pólo Sul para a comemoração dos 100 anos, uns para esquiar o último grau (dos 89 aos 90 graus de latitude sul, o chamado Last Degree), outros para simplesmente voar até o pólo pela módica quantia de US 65.000 para o prazer de passar uma noite por lá. Quatorze de nós íamos escalar o Vinson, a mais alta montanha do continente branco. Um privilégio nos dias de hoje ter apenas 14 pessoas em uma montanha.

Nos dias anteriores aos poucos fomos nos conhecendo. Somos, em nossa expedição, apenas seis. Dean, o chefe da expedição tem 47 anos e trabalha como guia profissional há 20 anos. Já escalou o Everest sete vezes, o Vinson duas além de inúmeras outras montanhas. De sorriso fácil, como a maior parte de seus compatriotas da Nova Zelândia, transmite imediatamente confiança e simpatia. Peter de 52 anos, australiano, de físico normal para um homem de sua idade surpreende ao contar que já fez 32 iron man inclusive duas vezes o iron man de Hawaii. Normalmente programa suas férias para coincidir com competições ao redor de mundo. Está vindo agora de duas, uma nos Estados Unidos e outra no México. Nunca escalou montanhas de 8000 metros, mas tem em seu currículo o Ama Dablam e o Mt. Cook. David, também australiano, de 30 anos, o mais jovem do grupo também parece o mais forte. É corredor de ultra maratonas e veio para a Antártica para fazer uma prova de 100 km e como já estava aqui decidiu escalar o Vinson embora montanhismo seja algo muito novo para ele. Como experiência anterior tem apenas o Kilimanjaro. Marion, 40 anos é francesa e escaladora muito experiente. Além de inúmeras montanhas nos Alpes escalou o Pumori no Nepal, o Cho Oyu, o Shishapagma, o Ama Dablam e várias outras nos Himalaias. Karsten tem 58 anos, é piloto em seu país, a Noruega, e tem cinco dos Sete Cumes inclusive o Everest no ano passado. Apesar de simpático é extremamente calado e durante toda a expedição deve ter falado não mais do que poucas frases. Como o grupo parece ser uniformemente forte, me questiono se estarei a altura deles, já que nos últimos dois meses não treinei muito na minha viagem aos parques nacionais americanos, pelo menos não no nível que estou habituado.

Logo que pousamos na pista de gelo azul nos comunicam que dentro de 3 horas estaremos embarcando para o campo base do Vinson para um vôo de 45 minutos em um avião de 10 assentos. A base da ALE, a empresa americana que organiza os vôos para a Antártica, impressiona. Aos poucos vou compreendendo o porque do custo de US 35.000 por esta escalada. Ao redor do campo tratores se movimentando levando equipamento de um lado ao outro, ao redor de 40 staff trabalhando para deixar a visa dos escaladores o mais confortável possível, uma máquina de US 400.000 nova para soprar a neve da pista e deixá-la de gelo puro.

Saio do avião como que em transe olhando ao meu redor enquanto caminho cuidadosamente para não escorregar no gelo. A paisagem é grandiosa, deslumbrante. O frio arde no rosto descoberto, mas é um frio bem vindo após a sensação de claustrofobia dentro do avião. Está 20 graus negativos, mas não quero ir para dentro da barraca refeitório, tudo é muito bonito…

Já são 1 da manhã quando finalmente decolamos rumo ao campo base, mas com o sol constantemente como se fosse 4 da tarde é difícil manter uma noção de tempo. O sol roda ao nosso redor sem nunca mudar de altura. Quando entra atrás de uma montanha a temperatura desaba mais de 20 graus. O vôo é deslumbrante e constantemente me lembro da minha escalada no McKinley no Alaska em 2008. Também aqui o pequeno avião quase toca com suas asas o topo das montanhas. Surpreendo-me com a quantidade de montanhas, sempre imaginei a Antártica praticamente plana. E quase às 2 da manhã chegamos ao nosso campo base, a última ilha de civilização por duas semanas. O lugar não poderia ser mais espetacular. Um pequeno platô cercado de montanhas por 3 lados desabando para uma planície de gelo que se estende por milhares e milhares de quilômetros.

Montamos nossas 3 barracas e nos entocamos dentro de nossos sleeping bags para nossa primeira noite no continente. Como eu e Marion estávamos com casacos azuis e o restante estava com vermelhos resolvemos o impasse de divisão de barracas usando este critério. Fiquei feliz, a Marion foi uma excelente companheira de barraca.

Os próximos dois dias foram de descanso, preparo de equipamento e espera pela melhora do tempo que desde que a gente chegou não andava muito bom. Podíamos ver no topo das montanhas um forte vento movimentando velozmente grossas nuvens. A temperatura se manteve ao redor de 25 graus negativos e resolvemos esperar no campo base ao invés de subir para os campos mais altos onde com certeza a situação seria mais difícil.

No terceiro dia recebemos uma previsão de tempo com diminuição do vento para os próximos dias e finalmente nos sentimos seguros para subir. Montamos nossas mochilas, carregamos os trenós e com 50 kg de peso seguimos em duas cordadas rumo ao campo 1 à nove quilômetros de distância e 700 metros acima. Apesar do frio constante, rapidamente tive de tirar várias camadas de roupas já que o esforço de arrastar o trenó era bastante grande.

Por oito horas escalamos rumo ao campo 1 e quando cheguei estava exausto. Mas, neste tipo de montanha, a escalada é apenas parte do esforço. Ainda nos esperava montar o acampamento fazendo plataformas no gelo, cavando um enorme buraco para montar nossa barraca cozinha e montando as barracas. Aí, derreter neve, cozinhar o jantar e finalmente dormir. Como complicador, quando chegamos ao campo entrou uma ventania muito forte com rajadas de até 50 km/hora o que dificultou muitíssimo todo o trabalho de montar o acampamento. Com ventos deste tipo a sensação térmica desaba facilmente para ao redor de 40 graus negativos e montar as barracas sem o uso de luvas grossas é quase impossível pelo risco de congelamento de extremidades. Por outro lado, manusear com alguma habilidade qualquer coisa com as luvas grossas é quase impossível…

Apesar da ansiedade em relação ao meu estado de preparo, chegamos todos mais ou menos no mesmo estado de cansaço, inclusive o Dean. Acho que mesmo sem um treino mais intenso, como tenho uma base muito boa de preparo físico, acabo dando conta.

No dia seguinte tivemos um merecido descanso e não fizemos outra coisa do que hidratar e comer e nos preparamos para outro dia difícil, o da subida das cordas fixas.

Com 24 horas de sol, não temos pressa de sair a uma hora determinada. Acordamos com calma, tomamos nosso café da manhã que nunca dura menos de 2 horas e desmontamos o acampamento. Nos espera um dos dias mais difíceis da escalada, a subida das cordas fixas entre o campo 1 e o campo 2. Saímos ao redor de meio dia e após uma subida suave, desta vez só com a mochila pesando ao redor de 30 quilos, chegamos a base das cordas fixas. São 700 metros de subida com ângulos de ao redor de 45 graus. Colocamos os jumares (ascensores que deslizam corda acima e travam corda abaixo) e começamos a infinita repetição, deslizar o jumar, colocar o ice axe, perna direita perna esquerda. Mais uma vez, apesar do frio tenho de tirar várias camadas, operação nada fácil em uma parede tão inclinada. Fazemos duas paradas para descanso e aos poucos o Peter vai ficando para trás. Ele está preocupantemente lento e sinto que todos os outros estão pensando o mesmo. Se ele no dia de cume for assim também, pode por em risco o cume de todos. Temos apenas um guia e se alguém tiver de descer, todos tem de fazer o mesmo. No topo da corda fixa esperamos o Peter por uma hora. Penso de forma otimista que pode ser apenas que ele esteja em um dia ruim, mas sei que não é isso. Da corda fixa até o acampamento são mais ou menos uma hora e eu, a Marion e o David, chegamos bem antes dos outros e começamos a montar o acampamento.

O frio está imenso com um vento que dificulta tudo. O lugar me parece desolado embora mais tarde já descansado e com menos vento possa apreciar o quão belo ele é. Quando o Peter chega ele está mais do que exausto, está com frio, sem energias e não consegue fazer nada sozinho. Deixo o que estou fazendo e vou cuidar dele. Coloco ele dentro de uma das barracas, tiro suas botas, faço ele entrar dentro de seu sleeping bag e lhe dou dois envelopes de gel energético. Volto para a montagem do acampamento.

No dia seguinte o céu está quase sem nuvens e o vento desapareceu. A previsão estava certa e vemos com muito otimismo nossa chance de cume para o outro dia. Passamos o dia descansando e trocando histórias de montanha, a maior atividade de qualquer expedição.

Acordamos as 7, super cedo para nossa rotina de dormir até a hora que dá vontade. Em duas horas nos preparamos e estamos prontos para partir para o grande dia. Eu, a Marion e o David estamos prontos antes e o Dean nos pede para irmos a frente. Após meia hora de caminhada a Marion percebe que deixou seu casaco de pena de ganso na barraca e ficamos esperando por ela ir até lá. Agora não está tão frio, ao redor de 25 graus negativos, mas a previsão é de 32 graus negativos no cume. A outra cordada nos ultrapassa, mas posso ver que o Peter está super lento. Vendo que ele não chegaria no cume o Dean coloca suas coisas na mochila dele e o Peter segue mais leve. Mais adiante mesmo isso não é suficiente e o Dean segue puxando o Peter pela corda. Não haveria outra maneira…

Finalmente, após 6 horas de escalada dura chegamos ao pequeno platô que antecede a crista final. Sento na neve para descansar e após um acesso de tosse vomito grande quantidade de líquido. Apesar do Vinson ter “apenas” 4900 metros, por causa da extrema latitude e do frio ele se comporta como uma montanha de quase 6000 metros e a altitude finalmente está me afetando. Nada novo para mim…

A escalada desta crista é deliciosa, apesar do cansaço extremo. Ambos os lados desabam centenas de metros de forma super íngreme. Caminho entre trechos de rocha, gelo e neve e a colocação precisa de cada pé é fundamental. Os crampons deslizam na rocha. As pernas cansadas não ajudam muito nessas manobras. Aos poucos avanço rumo ao cume. Uma subida, um pequeno platô, outra subida. O cume sempre está mais além. Finalmente ouço o grito de vitória do Dean. Apesar de já ter subido outras duas vezes, esta é a primeira vez que ele pode ver a vista do cume, antes só nuvens. Em mais uns minutos chego lá. A emoção até então reprimida finalmente extravasa e choro sem parar. Estou no cume do Vinson e um projeto de 20 anos se concretiza.

Em 1990 o Kosciuszco na Austrália, em 2002 o Aconcagua na America do Sul, em 2005 o Kilimanjaro na África, em 2007 o Elbrus na Europa, em 2008 o McKinley na América do Norte, em 2009 o Everest na Ásia e agora a Antártica. Completei os Seven Summits!!! O segundo brasileiro a fazê-lo!!

Nos abraçamos, tiramos as clássicas fotos e ficamos meia hora vendo a lindíssima paisagem. A temperatura realmente está ao redor de 30 graus negativos, mas sem vento nos damos ao luxo de ficar no cume por mais tempo.

A descida, apesar de longa, não é difícil. Aos poucos vamos respirando um ar mais rico em oxigênio e nos sentimos progressivamente melhor apesar do longo dia. Eu, Marion e David vamos à frente para derreter neve para o outro time que chegou mais de uma hora depois. O restante da noite foi de grandes risadas onde cada um contou sua versão das dificuldades e alegrias.

Mais um dia de descanso, mas já que escalamos o Vinson em razoavelmente pouco tempo, porque não aproveitar que estamos aqui e fazermos algo mais. O Peter e o David estão fora, dizem que para eles o Vinson basta. A nossa frente uma linda pirâmide de neve e rocha nos atrai como mariposas à luz. O Mt. Shinn tem 200 metros a menos que o Vinson e é a terceira mais alta montanha da Antártica. Apesar disso é um tanto mais técnica do que o Vinson e o restante do grupo não pode resistir. O único problema é o vento. A previsão de tempo diz que os ventos iriam aumentar de intensidade durante o dia e mais ainda no dia seguinte. Concordamos que valia a pena tentar e marcamos a saída para o dia seguinte as 9 da manhã.

Acordei com o ruído do vento chacoalhando a barraca, mas com o sol brilhando. Juntei-me aos outros 3 na barraca cozinha e decidimos que apesar do vento iríamos tentar. A escalada começou com uma pequena subida de 100 metros seguida de uma descida de 200. Ao descer pensei que na volta, cansados, teríamos esta subida pela frente. Cruzamos um trecho onde o vento havia deixado a superfície de gelo puro onde caminhamos com cuidado para não escorregar. Em seguida contornamos a montanha nos aproximando da rota que nos levaria ao cume. O vento estava ao redor de 20 km/hora e o frio intenso. Paramos muito pouco já que com qualquer parada esfriávamos rapidamente. Um gole de água morna, uma mordida de uma barra de cereais e já estávamos a caminho novamente. Após 5 horas chegamos a base da pirâmide final de rocha e gelo. O desgaste pelo frio se fazia notar e apesar de já melhor aclimatados, estávamos cansados. Os últimos 100 metros verticais foram bem difíceis por causa da superfície de rocha com gelo, mas após 6 horas de escalada chegamos ao magnífico cume tão afilado que tivemos de nos sentar “a cavalo” nele. A visão era espetacular com o Vinson, diversas outras montanhas e nosso campo ao longe. Mas, ao contrario do Vinson, o vento não nos deixou ficar por lá muito tempo. Tiramos fotos e rapidamente começamos a descida. O vento tinha aumentado terrivelmente e com ao redor de 40 km por hora a sensação térmica era de 50 graus negativos!

No colo entre o Vinson e o Shinn senti minha bochecha queimar. Achei que era apenas o frio, mas a sensação foi piorando e resolvi dar uma olhada. Ao colocar o dedo senti uma elevação de meio centímetro de altura por uns 5 centímetros de comprimento. Pedi para a Marion dar uma olhada e ela confirmou que estava com um princípio de congelamento. Rapidamente cobri o rosto com um buff. Tinha tirado a face mask pouco tempo antes porque estava um pouco sufocado por ela. Em poucos segundos de exposição e pele tinha congelado. Bastante preocupado segui rumo ao campo. Quando passei pelo Karsten vi que ele protegia seu rosto com a mão na direção do vento que estava cada vez mais forte.

Para meu alívio, quando cheguei no campo vi que protegi a tempo meu rosto e apenas uma vermelhidão marcava o lugar onde antes estava como que uma cicatriz. Já o Karsten não teve esta mesma sorte. Sua bochecha estava em carne viva e a ponta de seu nariz apresentava uma palidez preocupante. No dia seguinte vimos que ele realmente tinha tido um congelamento superficial e tanto a ponta do nariz quanto a ponta de um de seus dedos estava negra. Mas, como não apresentava bolhas vimos que realmente eram queimaduras superficiais.

Saímos do acampamento 2 com mochilas super pesadas e a descida das cordas fixas foi muito cansativa. Desmontamos o acampamento 1 e seguimos diretamente para o base. A expedição tinha acabado e agora era só esperar o avião nos pegar. Com o dia 14 sendo o aniversário da conquista do pólo ao redor de 120 pessoas tinham voado para lá e os vôos estavam sendo direcionados para buscá-las e nós acabamos presos no campo base por 4 dias.

Esses dias transcorreram de forma arrastada, com muito tempo em nossas mãos e pouco o que fazer. Fizemos um concurso de escultura em gelo, tivemos um jantar com as 14 pessoas das 3 expedições, eu me diverti aprendendo a me equilibrar em uma slack line (corda bamba), mas após o terceiro dia já estávamos ansiosos para voltar para o Chile. A comida estava acabando e tínhamos que ter criatividade para compor menus com o que tínhamos.

Finalmente dia 18 ouvimos com alívio o ruído do pequeno avião e na madrugada do dia seguinte pousávamos em Punta Arenas.

Uma das mais lindas experiências de minha vida tinha terminado!
 

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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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