Visão de Maximo da palavra extremo

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Muita gente se pergunta o que acontece com o corpo humano quando você fica exposto por muito tempo à altitudes extremas. Eu também me perguntei isso por muitos anos e foi só em 2010 que eu fui testar o que realmente acontece.


Em 6 meses, guiei 4 expedições comerciais para montanhas de 8000 metros seguidas. Fora isso 2 montanhas de 6000 metros técnicas ainda dentro dos 6 meses.

O resultado veio na terceira montanha, o Hidden Peak, Paquistão, com 8080m. Quando cheguei a 7100 metros, o meu corpo simplesmente decidiu rejeitar água e comida. Não conseguia manter nada no estômago por mais que alguns minutos. Tomei a sábia porém triste decisão de descer após uma noite nesta altitude. É claro que tudo teve que dar errado durante a descida e nada foi como eu esperava.

Para começar eu não tinha energia no corpo pois estava naquela condição há 3 dias e descer um corredor técnico de 400 metros de desnível acima de 6500 m não foi nada prazeroso.

Tive que iniciar uma série de rapéis em ancoragens bastante precárias. Esta porém era a última coisa na minha cabeça considerando o meu estado de saúde. Em 3 das ancoragens parei para admirar a paisagem e aproveitava para vomitar o que restava de água no meu estômago. Lindas montanhas como o Masherbrum, o Gasherbrum IV, Chogolisa e Mitra emergiam no horizonte. Era interessante olhar para as montanhas de uma forma um tanto entorpecida. A exaustão era provavelmente responsável por isso. Fiquei indiferente ao frio de -10 C, ao vento e a possível queda fatal para o meu panorama norte. A China estava a apenas alguns quilômetros dali e uma grande tempestade que se desenvolvera no dia anterior tomava conta dos cumes superiores a 8000 metros.

Demorei pelo menos 2 horas em perder 600 metros e chegar ao acampamento 2 (6500 m) onde pelo menos se pode ficar de pé. Meu companheiro naquela escalada, um sueco chamado Fredrik, tinha descido em aproximadamente meia hora e me esperou no local. Eu parecia mais um zumbi e quase desmaiei de exaustão ao chegar a 6500 m para encontrá-lo. Lembro cair e ficar deitado de costas na neve, com mochila e tudo. O cansaço bateu em segundos e acabei dormindo por alguns instantes.

Fredrik na tão sonhada sombra de serac – Autor: Maximo Kausch

Acredite ou não, o local mais quente que eu estive em toda minha vida não foi a Arábia Saudita nem o Brasil, mas foi aquele glaciar no Paquistão! Eram 11 da manhã e o sol aquecia a região cada vez mais. A evaporação da superfície da neve liberava vapor que ficada preso no próprio vale. O vento inexistente criava uma sensação de estar numa sauna, mesmo ali, a 6500 metros de altitude!

O forte sol queimando o meu rosto (no qual eu tive preguiça de usar protetor solar) me fez acordar e voltar à realidade: ainda tínhamos 1500 metros para descer.

De tão cansado eu nem tirei o capacete e a preguiça em enrolar a corda fez com que eu me amarrasse na ponta de uma corda de 20 metros. Normalmente quando transitamos em glaciares, limitamos o tanto de corda entre 2 escaladores a aproximadamente 15 metros. Eu porém não dei a mínima para isso e só queria descer.

Do acampamento 2 deveríamos iniciar a descida através de gretas e seracs até chegar aos 5900 metros, onde tínhamos uma barraca instalada (nosso acampamento 1).

Minhas botas triplas, jaqueta de plumas, balaclava e luvas me faziam sentir um alienígena naquele calor de 43 graus positivos! Fredrik e eu chegávamos a lançar gritos aos céus de tanto calor.

Aos 6300 metros decidimos tirar algumas camadas de roupa para não termos problemas de saúde mais tarde. Parar, sentar, tirar a mochila, tirar algo de roupa, colocá-la na mochila, voltar a colocar a mochila nas costas e ficar de pé foi uma tarefa extremamente árdua. Demoramos quase 20 minutos para terminar.

Para talvez sair da situação o mais rápido possível, acabamos tentando acelerar o ritmo. A cada passo porém, parecia ficar mais e mais quente.

Uma nuvem milagrosamente emergiu sobre o horizonte e rapidamente tampou o sol. Aquilo veio como uma benção e ficamos muito aliviados. O prazer porém durou pouco pois a temperatura caiu demais, chegando a -3 C em apenas 5 minutos. Não ficou nada agradável caminhar com uma camisa transpirada pois ela congelou mais tarde.

A preguiça imperou, e tentei esticar o mais que eu podia com uma só camada de roupas. Minhas mãos começaram a congelar e tive que desistir da estratégia da preguiça. Tive que parar, sentar, tirar a mochila, tirar roupa da mochila, colocar algo de roupa, voltar a colocar a mochila nas costas e ficar de pé. Aquilo foi uma odisseia separada. Me sentia como se tivesse acabado de escalar grande montanha cada vez que eu fazia isso.

Contente em haver estabilizado a temperatura e não congelar mais as mãos, começamos a descer. Após poucos minutos a nuvem continuou se movendo e novamente fomos expostos ao calor. Novamente fui obrigado a assumir minha estratégia de preguiça até quando eu pudesse.

Ignorando minha experiência em lidar com calor de 40 graus na neve que vinha de 20 minutos antes, executei minha próxima tarefa exatamente como antes e só tomei uma atitude quando estava passando mal de calor. Novamente tive que parar, sentar, tirar a mochila, tirar roupa da mochila, colocar algo de roupa, voltar a colocar a mochila nas costas e ficar de pé.

Durante nossa descida irrigada de tiras e põe de roupas, avistamos um serac negativo mais abaixo. Um grande estalo veio nas cabeças dos dois: SOMBRA! Dois tiras e põe de roupas mais tarde já estávamos bem perto.

Eu podia ver aquela sombra azul turquesa no gelo e tinha sonhos a respeito de como seria ali naquele paraíso. Imaginava que eu poderia deitar e curtir uma temperatura moderada sem ter insolação ou congelamentos.

Só faltava uma ponte de gelo para atravessar e eu já podia sentir a brisa fria que vinha do local. Lembro do instante em que eu consegui ver Fredrik adentrando o limite daquela sombra. Fiquei imaginando em como ele se sentia e o que estava se passando pela sua cabeça.

Enquanto eu pensava nisso, o chão abaixo de mim simplesmente desapareceu.

No mesmo segundo, um estalo me veio à cabeça e percebi que estava caindo dentro de uma greta. A ideia de estar em um lugar tão cômodo como aquele serac azul me fez perder a atenção e ignorar diversos detalhes técnicos nos quais eu quase paguei com a vida.

A greta que Maximo caiu – Autor: Maximo Kausch

A corda não estava esticada pois meu companheiro que atravessou a ponte primeiro logo virou à esquerda. Ao mesmo tempo que ele virou à esquerda, eu aproximava a ponte pela direita e isso criou uma grande barriga na corda. O cansaço extremo fez com que eu tivesse preguiça de carregar a piqueta na mão, como normalmente faço em terrenos glaciários. Isso poderia ter me trazido um ponto de ancoragem e talvez frear a queda.

Lembro claramente do instante em que eu caía na greta e esperava ser puxado pela corda. Caí com meus dois braços abertos e isso fez com que os pequenos cristais de gelo nas paredes da greta removessem parte da pele de ambos braços. Naquele segundo em que caí, pensei em várias coisas. Pensei no erro que cometi ao não enrolar a corda e ainda cheguei a pensar se Fredrik iria ou não perceber a queda. Talvez aquele segundo foi o momento mais brilhante que tive no meu cérebro mal nutrido durante a toda a descida.

O puxão na corda não veio e invés disso veio o fundo da greta. Caí pelo menos 12 metros e cheguei ao fundo da greta de costas. Fiquei encaixado pela mochila e capacete nas laterais da greta. Milagrosamente, minha mochila (comigo ainda nela) pousou em uma plataforma de gelo que caiu e ficou entalada no fundo da greta. Um metro mais à direita ou esquerda, eu continuaria caindo e provavelmente iria quebrar alguns ossos (sendo otimista).

Tive tempo de olhar para cima e ver um pequeno orifício no teto que era o meu buraco de passagem. As laterais da greta continham 2 marcas de sangue que vieram dos meus braços que até então eu nem imaginava estarem machucados. Neste momento eu estava no segundo 2 do episódio e ao começar a constatar que eu estava vivo, o teto da greta cedeu. Um longo bloco de gelo pesando uns 100 quilos seguiu greta abaixo e quebrou sobre meu corpo.

Ao quebrar-se, um pedaço deste bloco continuou caindo até o verdadeiro fundo da greta. O resto do bloco ficou em cima de mim. Meus braços ficaram imobilizados devido ao peso do gelo e eu só conseguia mexer a mão direita. Gritei 2 vezes desesperado para que Fredrik pudesse fazer alguma coisa.

A situação porém não era nada favorável. Fredrik com certeza não poderia me ouvir sendo que eu estava no fundo de um buraco de 12 metros a 10 metros dele. O som seria totalmente absorvido pela neve e gelo e eu não tinha a mínima chance.

Durante alguns instantes, um desespero tomou conta de mim. Me senti impotente e com um enorme sentimento claustrofóbico. Eu sabia que tinha que relaxar e sair daquela situação com paciência. A cena porém não era nada relaxante. Eu estava entalado no fundo de uma greta de 12 metros e soterrado por um enorme bloco de gelo.

Este campo de gretas por sua vez fica a 3 horas do acampamento 1 (outro enorme campo de gretas a 5900m). Do acampamento 1 são 9km de descida por um glaciar gigante até o acampamento-base. Ali existe todo o tipo de obstáculo em gelo que pode ser imaginado: pontes, gretas de 90 metros, túneis, lagos, trechos com avalanches constantes, etc.

Assumindo que você consiga chegar à base, você vai estar num dos acampamentos base mais isolados de todo o Karakorum. É necessário percorrer aproximadamente 120 km de trilhas por longos vales e glaciares para chegar a uma pequena vila chamada Askoli. Esta por sua vez fica a 9 horas de jipe da cidade de Skardu. Dali são 2 dias de ônibus atravessando por território Taliban até Islamabad. Como eu disse, a situação não era nada relaxante…

Fiquei pensando alguns instantes mas comecei a sentir muito frio. Este vinha do peito, nuca e costas. Minha roupa provavelmente estava cheia de neve e eu teria hipotermia em minutos se não saísse dali. Fiquei com saudades do calor de 43 graus do lado de fora da greta. Imaginava em poder deitar naquela neve fofa sentir o sol na cara.

Aquilo me motivou muito em tentar sair daquela situação miserável. Aos poucos e com calma comecei a mexer a mão e liberar um espaço para o meu braço direito. Fazendo movimentos repetitivos eu consegui liberar o braço e comecei a desenterrar o meu próprio peito. Após liberar o peito e coxas, consegui liberar também o braço esquerdo.

Finalmente eu consegui escapar das alças da minha mochila entalada e sentar. Com muito receio olhei para cima para verificar se mais coisas estariam caindo do teto. Ao levantar a cabeça sentir algo cair e quando olhei para o lado percebi que se tratava do capacete. Este não era mais uma peça só pois quebrou exatamente no meio e as duas metades estavam presas pelas fitas do capacete.

Imediatamente conectei o meu ascensor na corda e amarrei a mochila na ponta da mesma. Peguei uma piqueta da cintura e comecei a escalar a greta empunhando a piqueta em uma mão e o ascensor na outra. No caminho comecei a perceber que não sentia minha mão direita. O frio provavelmente era o culpado mas eu tinha prioridades maiores naquele momento.

Mandando a preguiça e cansaço aos ares, cheguei rapidamente à boca da greta. Esta apresentava um lábio negativo de cada lado e foi uma odisseia a parte quebrar uma das metades para poder sair da greta. Tive que quebrar parte do lábio estando abaixo do próprio. A imprevista chuva de neve não foi nada agradável considerando o fato de que eu estava quase congelado. Através da neve eu conseguia ver o sol do lado de fora.

Quebrando e nadando um pouco mais, eu finalmente conseguira colocar a cabeça para fora e sentir o calor do sol. Olhei para Fredrik e vi sua cara espantada. Ele estava deitado de costas sem mochila e com uma ancoragem instalada no chão que ele montou com sua própria piqueta. Lembro de cair na gargalhada olhando para ele. Aquilo foi um grande alívio. Fredrik gritou: “You crazy f**k !!!” ao me dar as boas vindas de volta ao mundo.

Ao sair da greta realizei o meu sonho que foi o de deitar do lado dela de cara ao sol. Estava com os braços ensanguentados, com uma mão quase congelada, mas estava profundamente feliz por não estar naquele ambiente claustrofóbico que presenciei no fundo da greta.

Demorei pelo menos meia hora em puxar a mochila pois esta ficou presa com toda a neve e gelo que derrubei em cima dela.

Ao dar alguns passos realizei o meu segundo sonho que era o de poder sentar na sombra do serac. Pude até me dar ao luxo de descongelar a minha mão. Ficamos alguns instantes comentando na sorte que eu tive em ter saído vivo daquela. De certa forma a minha preguiça em ter ficado com o capacete na cabeça horas antes me salvou.

Não pudemos conversar muito pois começou a fazer frio novamente. Estávamos num ambiente extremamente hostil onde não havia meio termo na temperatura. Ao estar ali ou você torra ou você congela!

Ainda um pouco abalado por quase ter morrido, tive que reiniciar a caminhada pelo campo de gretas. Enquanto descia o cansaço novamente tomou conta de mim. Dores nas pernas, cabeça, braços e pescoço também começaram a aparecer. Talvez o fato de ter caído 12 metros de costas não foi algo muito saudável.

Ali comecei a perceber o quanto de energia eu teria perdido saindo da greta. Cada passo começou a se tornar cada vez mais exaustivo. Por volta das 2 da tarde adentrávamos um imenso glaciar plano que também continha gretas. Este pelo menos não continha tantas gretas e não apresentava obstáculos. Olhando de cima imaginei que seria extremamente fácil chegar ao acampamento localizado no outro lado do glaciar.

O calor porém nos fez mudar a linha de pensamentos rapidamente. A decida se tornou uma tortura passiva. Começamos a parar a cada 50 metros para descansar. Minhas prioridades mudaram muito e naquele momento eu não conseguia nem sonhar em sombra pois sabia que ela me congelaria. A ideia de chegar ao acampamento-base ainda naquele dia era muito bem recebida, porém isso se tornou um sonho inalcançável.

A intensidade dos raios solares era extremamente alta naquela altitude e a neve branca aumentava esta em 5 vezes. Nenhuma nuvem estava no céu e tivemos que continuar a tortura parando de vez em quando até as 3 da tarde, quando a temperatura piorou. Em determinado momento tivemos que sentar na neve e montar um teto com o isolante térmico. No começo fiquei imóvel, segurando o isolante. A permanência na mesma posição por alguns minutos queimou uma visível linha na parte das minhas mãos que estava exposta ao sol.

Acabei usando o meu bastão de trekking para sustentar o refúgio e fiquei com as mão livres. Ter montado aqueles refúgios provou ser uma grande ideia pois não fazia nem tanto calor nem tanto frio. Finalmente após horas naquele inferno branco tínhamos desvendado o mistério do tão inalcançável e desconhecido até então: meio-termo. O problema foi que não podíamos nos mover e decidimos esperar a intensidade solar diminuir ou o vento começar a soprar.

Seguimos assim até as 4 da tarde. O sol estava quase desaparecendo atrás da grande cadeia do Gasherbrum e tínhamos que nos apressar para não congelar. Um belo pôr do sol com tons de roxo e laranja apareceu no céu. O sol ficou atrás de uma longa linha de nuvens densas ao sul e vários andares de nuvens de outras cores enfeitavam o espetáculo.

Pôr do sol no Karakorum – Autor: Maximo Kausch

A caminhada se tornou muito fria e exaustiva. Preferia contemplar o sol do que prestar atenção nos detalhes técnicos da descida. Fiquei indiferente à tudo. Demoramos uma eternidade em alcançar o pequeno ponto laranja sobre o glaciar onde iríamos dormir.

Já de noite acabamos chegando exaustos à nossa barraca. Durante a noite, num frio de pelo menos -20 C dentro da barraca, tive que derreter neve para hidratar. Meu corpo milagrosamente não rejeitou a água. Talvez a altitude de só 5900 metros fez com que meu metabolismo melhorasse e começasse a se comportar melhor.

A exaustão fez com que dormíssemos instantaneamente ao deitar. Ambos tivemos sonhos repetitivos com água e comida e deliramos a noite toda. Lembro de acordar com o despertador por volta das 4 da manhã e fingir que não estava ouvindo nada. Fredrik fez o mesmo.

Após um dia tão cheio de adversidades como aquele, estar dentro de um saco de dormir quentinho era um verdadeiro paraíso e custava muito tomar uma atitude para começarmos a nos mover.

O peso na consciência manteve ambos acordados, porém sem movimentos, até as 5 da manhã. Tínhamos um glaciar de 9 km pela frente e a experiência de sofrer com o calor e quase ter morrido numa greta me obrigaram a fazer o primeiro movimento do dia. Tínhamos que enfrentar o glaciar enquanto este ainda estava firme e forte após o frio da noite.

Começar a me mexer foi bastante dolorido pois comecei a sentir as sequelas da queda logo de manhã. A pele dos braços, ou o que sobrava dela, acabou grudando na jaqueta e removê-la me fez ficar bem acordado.

Tivemos que desmontar a barraca no primeiro acampamento e pegar tudo o que havíamos deixado ali. Isso adicionou mais peso nas mochilas o que as deixou beirando os 40 kg.

Passamos por dezenas de gretas e várias delas exigiam mais do que um pulo para chegar do outro lado. Em várias delas não conseguíamos pular com as pesadas mochilas nas costas. Tivemos que tirar as mochilas e jogá-las ao outro lado para depois atravessar.

Maximo jogando a mochila sobre greta – Autor: F. Strang

Glaciares do Karakorum não são como o Khumbu no Everest onde usamos escadas de alumínio para atravessar as gretas. No Karakorum usam-se longos bambus, que muitas vezes nem estão presos do outro lado da greta.

Confesso que atravessar uma greta que eu nem conseguia ver o fundo usando um bambu velho era um tanto assustador. Ainda mais considerando o fato de que eu tinha caído numa dessas no dia anterior.

Ao passar do dia o sol começou a aparecer e tornar tudo infernal. Evitamos ao máximo o trabalho matinal e não derretemos neve suficiente para descer. Colocamos toda a esperança em beber água na parte baixa do glaciar onde ela corre em canais no gelo.

Atravessando greta sobre bambus – Autor: F. Strang

Eram mais ou menos 2 da tarde quando encontramos água pela primeira vez. Ignorei todos os problemas que eu tinha com a digestão e bebi 1 litro inteiro daquele precioso líquido. Quando a água é obtida através do derretimento de neve ou gelo, esta fica com um gosto muito particular.

Imaginei que provar água sem gosto pela primeira vez em dias iria cair muito bem. Meu estômago pensou diferente e vomitei toda a água instantes depois de ter bebido. Insisti novamente, mas desta vez foi gole por gole. A estratégia funcionou.

Chegamos ao acampamento-base bastante exaustos e praticamente desmaiamos nas barracas. Meio às vezes que acordei pensei comigo sobre a minha pergunta inicial e no dia seguinte comentei a Fredrik: “então é isso que acontece com as pessoas quando ficam tanto tempo na altitude”

Ao descer depois de 2 meses de expedição encontramos o Paquistão em ruínas devido às enchentes trazidas pela monção. Acabamos sendo evacuados em um avião da ONU. 2 semanas depois eu tive acesso a um médico e este concluiu que tive falha no pâncreas. Ainda tive mais uma expedição a 8000 naquela temporada, além de uma a 6800 metros. Dentro desse período ainda tive cólera e giardíase 3 vezes.

Sempre que alguém menciona a palavra extremo, lembro daquela ocasião nos Gasherbrums.

Maximo bebendo água pela primeira vez em 4 dias – Autor: F. Strang

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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