A saúde das mulheres em altitude

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Com o passar dos anos, houve um aumento significativo da participação de mulheres nas expedições para alta montanha. Como guia de montanha, acompanhei de perto as mudanças no mercado brasileiro de montanhismo e vejo que hoje, em 2020, pelo menos 40% dos brasileiros que vão para a montanha, são mulheres. Apesar delas arrasarem na montanha, existem alguns pontos que trazem um desafio à parte para mulherada.

Aqui vão algumas dicas para vocês enfrentarem grandes montanhas com mais tranquilidade.

Montanhista Paula Kapp comemorando mais um cume!

Este artigo foi escrito, em conjunto com a Dra. Priscila Matsuoka, médica ginecologista especializada em uroginecologia pela USP.

 A PSICOLOGIA DA MULHER

Antes de assustarmos com as adversidades que as montanhistas vão enfrentar lá em cima, tenho que contar o que aprendi observando mulheres e homens nas montanhas. Quando se trata de iniciantes, mulheres têm mais facilidade para ficar completamente indiferentes diante do perigo. Acho as mulheres muito mais resilientes do que os homens na hora de lidar com o caos.

Geralmente, mulheres são muito mais resolvidas do que homens na hora de explicar para elas mesmas porque estão na montanha. Homens tendem a ter algo para provar e muitas vezes vão à montanha com uma “pequena missão social”. Ir para a montanha apenas com o compromisso de provar que você consegue chegar ao cume é na verdade algo totalmente negativo e, provavelmente, fará com que você desista ao longo do caminho. E neste caso, as mulheres levam a vantagem. Pois elas tendem a ser muito mais sinceras com elas mesmas quanto às motivações de ir para a montanha.

Meninas sempre sorrindo durante o trekking.

A SOLUÇÃO PARA O XIXI

Homens são dotados de um equipamento que permite a pontaria (mas acredite, quando faz muito frio, as coisas não são muito diferentes). A dificuldade na pontaria infelizmente obriga que a mulher saia da barraca e se exponha ao frio extremo. Tenho dezenas de anedotas de clientes que tiveram que passar por muitas dificuldades para deixar a neve amarela.

Finalmente acabei com esse problema e escolhi um pequeno funil que dou de brinde às minhas clientes que, assim, não passam mais por esse sofrimento todo. O “Xixi +Fácil” consiste em um acessório plástico que é ergonômico e reutilizável. Ele permite que elas urinem de pé! Desse modo, todo mundo agora pode usar garrafas, e não é mais preciso sair da barraca. A melhor garrafa para a tarefa são as de 1.5L da Gatorade ou similar. Estas permitem que a mulher consiga fazer xixi dentro da barraca.

E SE A MENSTRUAÇÃO DESCE NA MONTANHA?

Outro obstáculo surge no período menstrual. Grandes mudanças de rotina, como alteração da dieta, excesso de exercícios ou estresse psicológico, podem afetar o ciclo menstrual. Como o alpinismo envolve todas essas variáveis, você mulher provavelmente terá algum tipo de atraso ou adianto no período enquanto estiver expedições.[1] Há aquelas que reclamam de grandes mudanças na intensidade do período, e têm mais sangramento ou mais dor quando estão na alta altitude. Contudo, isso parece estar mais ligado ao esforço e a mudança de rotina do que propriamente à altitude.

Há mulheres com cólicas muito fortes, há mulheres com sangramento menstrual intenso, há mulheres com alterações hormonais enormes, o que muitas vezes compromete a expedição. E também há mulheres que não sentem desconforto nenhum e isso não altera uma expedição. Seja como for, já vi dezenas de mulheres corajosas desistirem de um cume por estarem menstruadas.

Escalar montanhas de altitude já é difícil e se a menstruação durante uma expedição for um problema para você, há maneiras de interromper o ciclo menstrual temporariamente de maneira simples e segura. Há sim contraindicações para este tipo de procedimento e isso deve ser acompanhado por um ginecologista. O mais recomendável aqui é a mulher iniciar o tratamento hormonal pelo menos 3 meses antes da expedição para assim pular a menstruação que cai na época da expedição. Existem anticoncepcionais monofásicos (mesma quantidade de hormônios em cada pílula) e multifásicos (a carga hormonal muda em cada pílula). Normalmente a forma mais eficiente para pular um período menstrual é usando monofásicos. Alguns sistemas intra uterinos (SIUs), mais conhecidos como “DIUs hormonais” também podem ser um recurso para suspender ou minimizar seu fluxo. Isso no entanto deve ser discutido com o seu ginecologista e analisar qual opção se adapta melhor à você.

Note que o uso de anticoncepcionais aumenta o risco de trombose. Note que esse risco pode ser minimizado se o uso de anticoncepcionais estiver sendo feito há mais de 6 meses. Em montanhas normalmente já estamos lidando com sangue mais espesso, portanto isso aumentaria ainda mais o risco.[2] Sendo assim, é prudente o uso de pelo menos 100 mg de aspirina diariamente para diminuir esse risco. Além disso, você estará diminuindo o risco de congelamentos em grandes altitudes.

INFECÇÕES E HIGIENE

Outra má notícia é que com o aumento da altitude, também aumenta o frio e isso faz com que a água seja cada vez mais escassa. São raras as montanhas de grandes altitudes que oferecem a possibilidade de tomar banho. Isso dificulta muito a higiene da mulher e aumenta o risco de infecções. Pouca higiene somado ao sistema imunológico baixo, o que é comum na altitude, aumenta muito as chances de infecções.

Os lenços umedecidos são uma possibilidade para higiene mas use sem exageros. Escolha marcas com menos perfume e textura mais seca. O ambiente úmido pode predispor a infecções locais.

É importante você se basear em experiências anteriores já que a maioria dessas infecções são recorrentes e você provavelmente já teve que lidar com sintomas parecidos no passado. Há inúmeros agentes patogênicos que podem causar infecções e cada tipo tem sintomas diferentes. Você deve iniciar o tratamento o mais rápido possível e para isso é preciso diferenciar o tipo de infecção. Estas são as principais na ordem de importância:

DOENÇA CAUSADOR CORRIMENTO OUTROS SINTOMAS CHEIRO TRATAMENTO
Gardnerella Bactéria Gardnerella vaginalis e Gardnerella mobiluncus Cor branco-acinzentado homogêneo e pode ser bolhoso Coceira ocasional Peixe Metronidazol  12 em 12 horas por 7 dias
Trichomonas Protozoário Trichomonas Branco-amarelado (ou esverdeado), bolhoso, abundante Coceira ocasional Cheiro intenso 2000mg Metronidazol (dose única)
Candidíase Fungo Candida Albicans Tom esbranquiçado e não tem bolhas COCEIRA PODE SER INTENSA

ARDOR AO URINAR

INCHAÇO

VERMELHIDÃO LOCAL

Não tem Fluconazol 150mg (dose única)

 

INFECÇÃO URINÁRIA

Este tipo de infecção pode acontecer em qualquer momento de uma expedição, no entanto notei que é bem comum após a expedição terminar. Aparentemente o quadro de desidratação severa, que é comum no fim de uma expedição, é o que desencadeia este tipo de infecção.

Geralmente causadas por bactérias, este tipo de infecção se caracteriza pela forte ardência ao urinar e uma sensação de querer urinar mesmo após o xixi. Outro possível sintoma deste tipo de infecção é urinar frequentemente em pequenas quantidades.

Com os precários métodos de diagnóstico que temos em grandes altitudes, é necessário escolher o antibiótico mais adequado possível para esta infecção. A droga que abrange a maior quantidade possível de bactérias que causam este tipo de infecção é a Ciprofloxacina (500 mg a cada 12 horas por 7 dias) que provavelmente acabará com a infecção.

Deixo claro que não sou médico ou farmacêutico. Estas recomendações são das experiências que tive com as minhas clientes. Antes de adquirir qualquer medicamento, você deveria consultar o seu ginecologista.

Uma das melhores formas de prevenir as infecções vaginais e urinárias é mantendo os níveis de hidratação bem altos, mantendo assim a urina fluindo. Se você está fazendo trekking em altitudes ou escalando uma montanha, isso é algo que já deveria estar sendo feito, já que é recomendada a ingestão de pelo menos 5 litros de água diários para melhorar a aclimatação em grandes altitudes.

Também é necessário que você use o seu conhecimento com infecções prévias e continue com o sistema que melhor funciona para você. Algumas mulheres por exemplo, levam uma troca de calcinha por dia para cada dia em altitudes extremas.

GRAVIDEZ E A ALTITUDE

BEBÊS JÁ NASCEM EM ALTITUDES: Temos que considerar que, por exemplo, quase 1 milhão de pessoas residem em El Alto na Bolívia, a 4100 metros de altitude e milhares de gestantes levam uma vida normal por lá. Portanto é possível qualquer outra gestante, que aclimatou corretamente, ir lá.[3]

GESTANTES QUE JÁ RESIDEM NA ALTITUDE: Bebês nascidos de mães já aclimatadas e já residentes na altitude, geralmente tem um peso menor comparando com bebês nascidos, no entanto isso também acontece com mães fumantes.[4]

EXPOSIÇÃO REPENTINA FAZ MAL PARA QUALQUER UM: Se estamos falando de exposição repentina à altitude, outro fato é que se qualquer pessoa – gestante ou não – for exposta à grandes altitudes, isso provavelmente será prejudicial.

GESTANTE JÁ ESTÁ SOBRECARREGADA:

Durante qualquer exercício físico, temos que considerar que todo o sistema musculoesquelético e sistema respiratório da gestante estão sujeitos a muita tensão.

RISCOS DE TORÇÕES: Os hormônios da gravidez (especialmente no final da gestação) tornam os ligamentos e articulações flexíveis preparando para o parto. Isso pode aumentar o risco de uma torção em ambientes montanhosos que são muito irregulares, por exemplo. [5] Também há que considerar que o aumento do volume uterino pode mudar seu centro de gravidade. Isso pode expor a gestante ao maior risco de quedas.

LITROS À MAIS: Uma mulher não gestante precisa de 3 a 4 litros de água por dia para aclimatar. Dependendo da semana de gravidez, esse volume teria que subir para 5 a 6 litros devido aos 4 a 8 quilos extras.[6]

RISCOS DE TROMBOSE: Toda gestante tem um risco maior de apresentar trombose devido às alterações hormonais. Na altitude esse risco pode ser ainda maior se ela não estiver bem adaptada.[7]

POSSIBILIDADE DE COMPLICAÇÕES: Não podemos esquecer que com ou sem altitude, complicações como o aborto espontâneo, por exemplo, já são um risco de pelo menos 20% numa gravidez.[8] Partos sem assistência em altitudes normais também podem ter seu risco.[9] Portanto percebemos que em locais remotos, a gestação em qualquer etapa pode apresentar várias complicações e é necessário ter isso em conta na hora de fazer qualquer tipo de viagem ao ar livre.

PORTANTO

Em linhas gerais, minha experiência me mostrou que uma gestante pode ir para altitudes de até 4000-4500 metros, sem grande exigência cardiovascular e se ela tiver todos os fatores acima em conta. Contudo, quero lembrar que não há estudos científicos sobre gestantes não aclimatadas que evidenciam isso.

No entanto, se uma gestante superar altitudes de 4000~4500 metros ou for praticar exercícios em grandes altitudes, não é seguro nem para ela nem para o bebê. Estudos presentes evidenciam que a sobrecarga vascular na altitude é transferida para a mãe para poupar o feto. Estes estudos, no entanto, foram feitos até altitudes de 4500 metros.[10] Há que lembrar que essa altitude já pode ser mortal para uma pessoa qualquer não aclimatada.

CADEIRINHAS FEMININAS

Mulheres e homens podem usar a mesma cadeirinha desde que o tamanho seja adequado. No entanto como estamos falando de altitudes e precisamos urinar bastante, é mais fácil para as mulheres usarem uma cadeirinha que facilite o xixi. O melhor candidato aqui é o Alpine Bod da Black Diamond que permite a escaladora soltar as perneiras e facilmente fazer xixi. Mas existem outras marcas e modelos que não tem um loop na cadeirinha, o que permite as perneiras da cadeirinha de serem soltas.

PRÓTESES MAMÁRIAS NA ALTITUDE

Já ouvi relatos de próteses de mama deslocadas pelo mau uso da fita peitoral de uma mochila. Se você fez uma mamoplastia recentemente, consulte o seu cirurgião antes usar uma mochila pesada. Explicarei abaixo alguns cuidados extras sobre a escolha de tops e mochilas para evitar isso.

Há descrições de mulheres com mamoplastias recentes que sentiram sensações estranhas na região do implante durante voos longos ou viagens para regiões de altitude. Isso se deve ao fato de qualquer gás se expandir em grandes altitudes (Lei de Boyle[11]). A presença de espaços de gás ao redor do implante é normal, e geralmente absorvida em algumas semanas. A expansão destas bolhas de ar na altitude, portanto, é normal, e parece não trazer maiores problemas fora a sensação estranha.[12]

MOCHILAS FEMININAS

Mochilas femininas diferenciam-se pela forma da barrigueira mais cônica e que acompanha a forma da cintura feminina. As alças são mais estreitas e acolchoadas para respeitar a anatomia feminina. A fita peitoral que liga as duas alças deve ser usada cuidadosamente utilizada. A maioria dos modelos requer que a fita seja usada por cima das mamas. A fita deve ser ajustada de forma que ela não fique muito alta e aperte o seu pescoço e não fique muito baixa e apertando as mamas.

É de extrema importância que você saiba regular a sua mochila de forma que as artérias torácicas laterais que irrigam parte da mama, não sejam comprimidas. Isso inclui as alças da mochila (regulagens superiores e inferiores).

Certifique-se que fita peitoral esteja na posição correta acima das mamas. Lembrando que a função da fita peitoral é manter as alças na posição certa e não é um acessório para realçar o tamanho das mamas! O elástico nesta fita serve para acompanhar a expansão e contração da caixa torácica somente.

Caminhando tranquila no gelo com sua mochila – Foto: Gustavo Jordaky

TOP PARA MONTANHISMO DE ALTITUDE

Seu foco na escolha de um top ideal para este esporte deveria ser em proteger as mamas da umidade e frio por consequência, além de dar suporte às mamas protegendo o ligamento mamário. A estética não deve ser prioridade aqui já que estamos lidando com dezenas de graus abaixo de zero e a diferença entre um mamilo congelado ou não, pode estar ligada à um top um pouquinho mais anatômico que outro. Aqui vão alguns critérios para escolher o top:

  • Tamanho exato, nem maior e especialmente que não seja menor
  • Foque na anatomia e não em estética
  • Prefira alças largas
  • Prefira tops que não atrapalhem a circulação, prove junto à mochila
  • Tecidos sintéticos adequados, que sequem rápido

 

Referências

[1] “Effect of physical activity on sex hormones in women: a … – NCBI.” 5 Nov. 2015, https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26541144. Accessed 5 Jun. 2020.

[2] “Oral Contraceptives and the Risk of Venous Thrombosis | NEJM.” 17 May. 2001, https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM200105173442007. Accessed 5 Jun. 2020.

[3] “Bolivia – Natalidad 2018 | datosmacro.com.” https://datosmacro.expansion.com/demografia/natalidad/bolivia. Accessed 7 Jun. 2020.

[4] “[Altitude exposure and staying at high altitude in pregnancy ….” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/3765945. Accessed 7 Jun. 2020.

[5] “The occurrence of strain symptoms in the lumbosacral region ….” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20605556. Accessed 30 May. 2020.

[6] “Pulmonary diffusing capacity in pregnancy at sea level … – NCBI.” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12609477. Accessed 30 May. 2020.

[7] “Deep venous thrombosis in pregnancy: incidence … – NCBI.” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29399535. Accessed 9 Jun. 2020.

[8] “Management of Spontaneous Abortion – American Family ….” 1 Oct. 2005, https://www.aafp.org/afp/2005/1001/p1243.html. Accessed 7 Jun. 2020.

[9] “Unassisted childbirth: why mothers are leaving the system ….” https://jme.bmj.com/content/40/12/817. Accessed 7 Jun. 2020.

[10] “[Altitude exposure and staying at high altitude in pregnancy ….” https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/3765945. Accessed 7 Jun. 2020.

[11] “Lei de Boyle-Mariotte – Wikipédia, a enciclopédia livre.” https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Boyle-Mariotte. Accessed 9 Jun. 2020.

[12] “Periimplant Breast Gas at High Altitudes: Prevalence … – NCBI.” 21 Aug. 2015, https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26295536. Accessed 7 Jun. 2020.

 

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Nascido na Argentina e criado no Brasil, Maximo Kausch é atualmente um dos mais experientes montanhistas de nosso continente. Famoso mundialmente pelo projeto de escalar todas as montanhas acima de 6 mil metros dos Andes, considerado um dos mais difíceis e ousados projetos no montanhismo. Ele escala desde 1997 e desde 2009 é colunista do AltaMontanha, contribuindo com a publicação de inúmeros artigos técnicos. Atualmente Maximo trabalha como guia de montanha nos Andes e Himalaia. É sócio proprietário do GenteDeMontanha, uma das mais importantes agências de expedições e cursos de montanhismo no Brasil. Instagram @maximokausch

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