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Entre a ciência e a montanha

Contribuições de Humboldt para o montanhismo


Categoria: História

O príncipe alemão Alexander Von Humboldt é conhecido mundialmente por suas contribuições para a ciência ao ponto de seu nome circular como o mais célebre pesquisador da época dos naturalistas. Humboldt foi além de cientista, um explorador e aventureiro e em sua viagem à América do Sul entre 1799 e 1804 realizou a primeira ascensão européia à uma montanha andina de grande porte.

Por Pedro Hauck

Humboldt nasceu em Berlin, em 1769, filho de uma família nobre que lhe deu totais condições de educação. Humboldt estudou História, Línguas, Matemática, Economia, Física, Química, Comércio, Anatomia, Astronomia, História Natural, Geologia e finalmente Geografia, ciência que o considera patrono, pois Humboldt é chamado de o “pai” da Geografia Moderna.

Ainda na Europa, Humboldt desempenhou importantes cargos públicos em instituições mineiras e universidades na Alemanha. O conhecimento gerado por Humboldt, no entanto, advém de sua experiência como viajante naturalista e neste aspecto, as inúmeras ascensões e vivências nas montanhas andinas o levou a formular importantes hipóteses e teorias e mais tarde o influenciou a redigir, no final de sua vida, sua grande obra prima: O Cosmos.

Humboldt foi um grande precursor do montanhismo em uma época em que subir montanha era coisa para poucas pessoas. Não havia o montanhismo esportivo como existe hoje. A influência do montanhismo de Humboldt advém das primeiras ascensões ao Mont Blanc, na França, que marca inclusive o surgimento do montanhismo moderno, em uma época de grande ebulição cultural e intelectual da humanidade.

O século XVIII foi marcado pelos ideais iluministas, a ascensão da burguesia ao poder e uma retração dos ideais religiosos que perduraram durante a idade média. Ideais estes que persistiram nos rincões mais distantes da Europa e que muitas vezes entravam em conflito com as novas idéias. Era a ciência e os velhos costumes.

Humboldt e as primeiras ascensões à montanhas

Em 1760, o geólogo Horace Benedict Saussure chegou à Chamonix, pequena vila aos pés dos Alpes franceses para assentar sua base para pesquisar as geleiras e as montanhas. Nesta época a Geologia era uma novidade no mundo e este Geólogo suiço provocou estranheza ao povo local. Nem mesmo uma recompensa em dinheiro que seria dada à quem se atrevesse escalar a montanha mais alta dos Alpes, o Mont Blanc, para fazer seus experimentos, foi o suficiente para um corajoso se meter em subir a montanha.

Foi preciso 25 anos até que um criador de cabras, Jacque Balmat, se perdesse nas encostas do Mont Blanc e passasse uma noite por lá. Ficou à espera de demônios e dragões, mas eles não vieram. Balmat desceu a montanha e acompanhado do médico Gabriel Paccard escalaram o Mont Blanc em 1785, levando um ano mais tarde o famoso geólogo até o cume, que não somente pagou a recompensa, como fez medições e pesquisas lá em cima.

Saussure registrou dados sobre os fatos biológicos no cume, verificou a altitude do Mont Blanc, mediu a umidade atmosférica, velocidade do vento, observou a formação de nuvens e compreendeu o processo de geração de geleiras e sua dinâmica.

A viagem de Humboldt à América do Sul, anos depois da aventura científica de Saussure, foi planejada por anos e inclusive influenciada por ela. Neste processo, Príncipe alemão fez amizade com o geólogo e se encarregou de estudar e melhorar diversos instrumentos de medição e pesquisa utilizados por ele, que ultrapassam mais de 40 tipos, entre bússolas, altímetros, barômetros entre outros.

A pesquisa deste ilustre príncipe sempre esteve relacionada, por um lado, com a quantificação de fenômenos naturais e por outro por uma visão romântica da natureza. Foram estes valores os que permearam os primeiros montanhistas modernos. Todos eles ilustres homens da ciência e muitos de ascendência nobre, que davam condições à eles a fazer longas viagens e não precisar trabalhar, já que nesta época quase não existia a classe média e só pessoas assim podiam praticar montanhismo.

O currículo de montanha de Humboldt foi extenso e conquistado ao longo de sua expedição ao novo mundo: O Pico do Teide em Tenerife (Ilhas Canárias), La Silla de Caracas, na Venezuela,  Volcão de Puracé e de Pasto, na Colômbia; os vulcões de Antisana, Guagua e Rucu Pichincha, Cotopaxi, Tungurahua, Chimborazo e Cerro del Chicle no Equador; o Nevado de Toluca e o Cofre de Perote, no  México. Muitas delas montanhas que ultrapassam os 5 mil metros, o que superou em muito a maior ascensão à uma montanha conhecida na época, a do Mont Blanc.

Como adicional às façanhas montanhísticas de Humboldt há que se adicionar o total desconhecimento dos efeitos de altitude no organismo humano, o desconhecimento do ambiente de montanha em si e ainda mais o efeito de ter sido o pioneiro em diversas destas ascensões. Além disso, vem o fato notável de uma de suas ascensões, pois na época acreditar-se que o Chimborazo era a montanha mais alta do mundo.

Apesar destes feitos extraordinários, motivação maior de Humboldt em subir montanhas não era montanhística, mas sim científica, pois sempre tinha o intuito de fazer suas medições, coletar rochas, minerais e plantas. No entanto, Humboldt sinalizou em muitos de seus relatos uma relação que ultrapassa a formalidade da ciência dele e as montanhas, em retratos românticos da vida selvagem.

Apesar de Humboldt receber o reconhecimento de ser o maior dos naturalistas, todos os valores herdados em Humboldt foi diretamente influenciado por Saussure, que esteve diretamente ligado com a conquista do Mont Blanc e o surgimento do montanhismo moderno, um montanhismo que neste momento inicial se fazia indissociável à ciência. No relato da ascensão do Chimborazo, maior conquista de Humboldt, o cientista alemão faz uma homenagem ao amigo:

"O ponto onde paramos para observar a indicação da agulha magnética, parecia maior do que qualquer outro homem havia chegado nos topos das montanhas excedido em 1.100 metros, o cume do Mont Blanc, onde o mais sábio e corajoso viajantes, De Saussure, teve a audácia de vir, a luta contra grandes dificuldades para aqueles que tivemos de superar, perto do cume do Chimborazo "

Humboldt e os vulcões do Equador

A maioria das montanhas ascendidas por Humboldt foram no Equador. Esta tarefa se deu pelo fascínio de Humboldt por vulcões, uma vez que ele via em sua energia as forças que criaram o universo, e também pelo fato de Humboldt achar que ali ficavam as maiores montanhas do mundo.

Para cumprir com este objetivo, o cientista alemão enfrentou um grande desafio, pois não ali o local de melhor acesso à uma montanha de altitude e nem mesmo o local de melhor clima para isso. Fez falta nas ascensões de Humboldt roupas, óculos, barracas e outros equipamentos, além de bons guias que conhecessem as montanhas e também tivesse comprometimento com as expedições.

Humboldt fixou residência em Quito, onde viveu por três meses a fim de fazer da cidade uma base para escalar o Antisana, Rucu e Guagua Pichincha e o Cotopaxi. Depois fez o mesmo em Riobamba, onde lançou investidas ao Sangay, Tungurahua, Carihuayrazo, Yana  Urcu e Chimborazo.

Em cada excursão Humboldt carregava as ferramentas para fazer as medições relevantes, o que é feito sob tropas de mulas. Somente nos metros finais das montanhas ou quando se depararam com a neve nas geleiras, ele desce dos animais e caminha, o que muitas vezes lhe rendeu problemas com a aclimatação, já que com animais, chegava rápido em altitudes elevadas.

Em geral, o cientista realizava uma investida à campo, para ter uma noção geral do território, calcular as posições geográficas das populações e destacar elementos importantes e fazer um mapa.Em seguida, estabelecia uma base num local estratégico para realizar medições precisas da altitude das montanhas e melhorar a cartografia e depois partia rumo ao cume.

Não havia uma seqüência lógica em suas subidas, que eram realizadas segundo critérios de proximidade e oportunidade. Para o Antisana, por exemplo, o primeiro da série e no centro de uma grande propriedade, se aproveitou da amizade com o proprietário para usar uma construção que servia como abrigo por alguns dias, localizado há 4.000 metros, "lugar habitado mais alto do mundo", de acordo com seus registros.

Montanhismo e romantismo

A montanha é um elemento típico das paisagens românticas, assim como o mar e extensas planícies. São espaços alheios à intervenção humana e também, conseqüentemente desabitados. Paisagens como estas são muito associadas à sensação de liberdade e de certa forma, pessoas que acessam estes locais, seja aventura, conhecimento ou loucura acabam por transmitir esta sensação. Foi o que ocorreu com Humboldt, Saussure, Bonpland (parceiro de príncipe alemão na América) e até mesmo o famoso poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe.

Nas montanhas está a liberdade. As fontes de degradação  não chegam a regiões com ar puro. O mundo está bem nos lugares onde o ser humano não o polui com suas misérias”. Disse Humboldt certa vez.

Como não podia deixar de ser, Humboldt freqüentou as mesmas rodas sociais e intelectuais que Goethe, que também tinha grande vocação naturalista. Ambos tinham muitas coisas em comum, como destacar a natureza acima dos homens, a valorização da paisagem inacessível e trágica, a constante referencia à história natural e humana. Para eles, a natureza era o centro da atenção e o ser humano, dentre os quais incluíam eles mesmos, adquirem uma dimensão de meros expectadores. No paisagismo romântico, há uma obsessão por espaços nada ou pouco humanizados e frente a eles os seres humanos desaparecem e frente à isso, Humboldt atua como um “louco”, um “aventureiro” que reporta aos europeus não somente as riquezas naturais do ultramar, como também sua magnificência.  Valorizando a estética, o lúdico e o subjetivo. Valores até hoje embutidos na visão de natureza da sociedade ocidental.

Humboldt eterno

Como resultado de suas explorações, Von Humboldt descreveu diversos aspectos geográficos e espécies que eram até então desconhecidos dos europeus. Espécies denominadas em sua homenagem incluem:

    Spheniscus humboldti - Pinguim Humboldt
    Lilium humboldtii - Lírio de Humboldt
    Phragmipedium humboldtii - uma orquídea
    Quercus humboldtii - Carvalho sul-americano
    Conepatus humboldtii - Espécie de cangambá (inglês:Hog-nosed Skunk)
    Annona humboldtii - Espécie de arbusto
    Annona humboldtiana - Espécie de arbusto
    Utricularia humboldtii - Planta carnívora (inglês: bladderwort)
    Geranium humboldtii- um gerânio
    Salix humboldtiana - salgueiro (árvore)

Aspectos e acidentes geográficos denominados em sua homenagem incluem a corrente de Humboldt, o rio Humboldt, a cadeia de montanhas East and West Humboldt Range, os condados estado-unidenses de Humboldt County, na Califórnia, e Humboldt County, no Iowa e o parque Humboldt no lado oeste de Chicago, a segunda maior montanha da Venezuela (Pico Humboldt) e uma corrente Marítima. Além disso, o mar lunar Mare Humboldtianum foi assim denominado em sua homenagem, bem como o asteroide 54 Alexandra.

Após sua morte, seus amigos e colegas criaram a Fundação Alexander von Humboldt (Stiftung em alemão) para manter o generoso apoio de Humboldt a jovens cientistas. Apesar de a dotação inicial ter se perdido durante a hiperinflação alemã dos anos vinte, e novamente após a Segunda Guerra Mundial, a fundação tem recebido apoio do governo alemão e tem um papel importante na atração de pesquisadores estrangeiros à Alemanha, possibilitando também a pesquisadores alemães trabalharem no estrangeiro por um determinado período.

Muitas vezes, a experiência de Humboldt é lembrada como sendo parte do campo das ciências. Porém é preciso lembrar que o montanhismo como conhecemos hoje não existia naquela época. O montanhismo como esporte surgiu décadas mais tarde, principalmente a partir de 1850 com os britânicos.

O montanhismo por motivações naturalistas e científicas de Humboldt fez dele uma das personagens mais famosas e reconhecidas da Europa, ficando atrás somente de Napoleão Bonaparte.

Em Humboldt temos um interessante capítulo em comum tanto na história da ciência, quanto na história do montanhismo.

Alexander Von Humboldt faleceu no dia 6 de maio de 1857, aos 89 anos. Seus restos mortais, antes de serem enterrados no mausoléu de seu castelo familiar em Tegel, foram transportados em funerais nacionais pelas ruas de Berlim, e recebidos pelo príncipe regente, a cabeça descoberta, na porta da catedral. O primeiro centenário de seu nascimento foi celebrado em 14 de setembro de 1869, com igual entusiasmo no Novo e Velho Mundo, e os numerosos monumentos erigidos e as novas regiões descobertas denominadas em sua honra testemunham a difusão universal de sua fama e popularidade.

Fonte: Humboldt en los Andes de Ecuador: Ciencia y romanticismo en el descobrimiento cientifico de la montaña - Pedro Sunier Martín (ver na íntegra) e Wikipedia.

Veja mais:

:: Como os Britânicos criaram o montanhismo moderno
:: Mathias Zurbriggen: O conquistador do Aconcagua
:: Reinhard Maack – Geocientista e aventureiro
:: História do montanhismo
:: Walther Penck. O Kaiser dos Andes

 




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