Victor Carvalho conta como foi incêndio em base brasileira na Antártida - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Entrevista com Victor Carvalho

Victor Carvalho conta como foi incêndio em base brasileira na Antártida


Categoria: Entrevistas

O Montanhista Victor Carvalho, sócio do Clube Alpino Paulista (CAP) e bombeiro, era o montanhista responsável pela segurança de pesquisadores na base Comandante Ferraz na Antártida. Ele contou ao AltaMontanha como foi sua experiência e um pouco sobre o convênio entre o Clube Paulista e o projeto Pro Antar.

Victor Carvalho é montanhista há mais de 5 anos e também é 1º Tenente do Corpo de Bombeiros de São Paulo. Vitão, como é conhecido entre amigos, também é instrutor de escalada do curso recomendado pelo AltaMontanha, foi o montanhista escolhido pelo CAP (Clube Alpino Paulista) que há 30 anos mantêm convênio com o Programa Antártico brasileiro, prestando diversos serviços aos pesquisadores. Ele esteve na fatídica noite em que boa parte da estrutura da Estação Comandante Ferraz foi consumida por chamas, matando dois militares e destruindo boa parte da estação. Veja como foi.

1) Vitor, como é feito a seleção dos montanhistas do CAP que se dirigem à Antártida auxiliar os pesquisadores no Projeto ProAntar? Sua profissão (de bombeiro) ajudou em sua escolha para o programa?

A seleção dos alpinistas é feita através da análise de curriculum e da obediência a certos requisitos mínimos na área de montanhismo além da obrigação de formação em um curso de primeiros socorros. Sobre minha experiência como bombeiro, não ajudou. Todo o critério é da área de alpinismo, com exceção deste curso de primeiros socorros. 

2) Quanto tempo você ficou na Antártida e quais foram suas funções por lá. O que você conheceu e fez na ilha?

Iniciei meu embarque no dia 6 de fevereiro e pisei de volta no Brasil no dia 27 de fevereiro. Efetivamente na Antártica foram 18 dias. Minhas funções foram auxiliar os pesquisadores da Estação nas diversas tarefas de pesquisa que necessitaram de trabalhos de técnicas verticais e de acesso à locais difíceis.

3) O que aconteceu na noite da tragédia? O que você acha que provocou o incêndio na estação?

Estava dormindo quando por volta da 01h00 houve uma variação de energia que me acordou. Me dirigi até a sala de estar onde tomei ciência do incêndio e então fui até o amário de incêndio onde o pessoal do Grupo-Base (efetivo da Marinha) estava se equipando. Perguntei se precisavam de ajuda e disseram que sim. Daí parti para o auxílio onde permaneci até as 09h00. Em determinado momento me afastei do combate ao incêndio para ver como estavam os pesquisadores e ajudei a organizar um grupo para buscar artigos de primeiros socorros, mantimentos e agua no refúgio 1 e levá-los até o módulo de química; que era onde estavam a maior parte dos pesquisadores. O mais importante foi que o pessoal da Marinha isolou rapidamente a Estação colocando os pesquisadores em total segurança, desde o começo. Sobre o que provocou o incêndio é impossível dizer. Somente a perícia poderá afirmar qualquer coisa.

4) Você se feriu durante as chamas? Está tudo bem contigo?

Não me feri e estou bem.

5) Você, como bombeiro, ajudou nos trabalhos de extinção do fogo? Quanto tempo durou as chamas?

Ajudei desde o início do incêndio até o momento de minha retirada por volta das 09h00. Os combates começaram por volta da 01h00. Ajudei no combate durante 8 horas.

6) Como ficou a estação depois do incêndio? Houve muita destruição?

Todo o corpo principal foi destruído. Sobraram os tanques de combustível, que foram isolados durante o incêndio; o heliponto (que possui um grande depósito abaixo da mesmo), o refúgio 1 e 2, os módulos de química, meteorologia e a estação de rádio-emergência.

7) Como foi o resgate de vocês na estação. Quanto tempo tiveram que esperar para a chegada do Hercules e como foi o retorno ao Brasil?

Nosso resgate foi feito por três helicópteros chilenos (2 da Marinha e 1 da Força Aérea) que nos levaram até a base de Eduardo Frei. De lá um Hércules da Força Aérea Argentina nos levou até a cidade de Punta Arenas onde um outro Hércules da Força Aérea Brasileira nos conduziu de volta para o Brasil. Desde a chegada em Frei até o retorno para o Rio foi tudo muito rápido. Chegamos em 40 horas, aproximadamente.

8) O que precisava ter na estação para evitar uma tragédia deste porte?

Primeiro é preciso ver o que diz a perícia.

9) Você acredita que a presença de montanhistas pode melhorar a eficiência dos trabalhos de campo na estação brasileira na Antártida e a evitar tragédias como esta?

Sim, não tenho a menor dúvida disso. Efetivamente, o único não-integrante da Marinha a participar dos combates ao incêndio e a ajudar a organizar o suporte à vida dos pesquisadores após a tragédia foi o alpinista. Um pesquisador mergulhador também ajudou nos trabalhos de instalação de uma bomba de agua, no mar.

10) Qual foi a lição que você tirou desta experiência? Pretende retornar à estação mais vezes?

A lição mais importante é que devemos sempre acreditar que tragédias podem acontecer e que devemos estar sempre preparados para isto. E sim, pretendo voltar muitas vezes se for possível.




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