A Serra do Voturuna - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Novos horizontes

A Serra do Voturuna


Aventura de:

Situada entre os municípios de Santana do Parnaiba e Araçariguama, o Serra do Voturuna (tb conhecida como Boturuna) é facilmente identificada tb por quem trafega pela Rod. Castelo Branco (SP-280) como a escarpada cadeia montanhosa q se espicha no sentido leste-oeste. Se antigamente a visita ao Voturuna era pra retirada de ouro e ferro de suas encostas, hj as investidas são por um motivo menos extrativista: patrimonio tombado pelo Condephaat pelo seu valor paisagístico, arqueológico, biodiversidade e refugio da fauna regional, o acesso aos 1100m do topo do seu contraforte leste se dá mediante picada íngreme de 3kms q, breve e com direito a cachuzona no caminho, termina numa linda panorâmica da região.

A Serra do Voturuna era um rolê antigo q queria efetuar e sempre deixei pra lá por algum motivo. Ficou então esquecido durante um tempão, engavetado no baú da memória, até q olhando o blog duma amiga, a Aline, soube de suas intenções de visitar a referida serra. Foi o q bastou pra reascender a idéia, colocar a trip em prática e matar de vez essa desfeita. Chamei a Aline pra me acompanhar na trip, q infelizmente não teve disponibilidade naquele fds e sim no próximo. Ah, mas eu não quis nem saber. Tinha q ser naquele fds mesmo. Queria riscar de vez essa pendência pq senão ficaria engavetada novamente sabe-se lá por qto tempo mais. Busquei rapidamente na net as infos q precisava de acesso e mandei ver. Ah, e fui sozinho mesmo, pois a medonha previsão meteorológica desestimulou o resto da galera a sair das cobertas.
 
Pois é, a manhã fria e cinzenta daquele domingo gelado desestimulava incursão onde quer q fosse, e faltou pouco pra cama não me segurar tb. Mas praquelas bandas havia realmente havia q sair cedo justamente pra otimizar o dia, em gde parte devido á escassez e irregularidade de transporte local. E assim, após madrugar e percorrer duas demoradas baldeações pela linha Esmeralda e Diamante da CPTM, saltei em Barueri por volta das 6:30hrs. 
 
Uma vez no Term. de Barueri bastou tocar no sentido contrario ao do terminal rodoviário e, passando por um pequeno túnel sob a linha do trem, me prostei no pto de bus da Av. Anhangüera a espera do coletivo. Os busos pra Santana do Parnaiba passam de hora em hora, mas felizmente são 3 as linhas q servem. No caso, as 7hrs tomei o “082 -Pirapora/Barueri (Via Santana)”, da Viação Osasco. A trip foi relativamente rápida e curta, e num piscar de olhos o cinza de Barueri deu lugar ao verde daquela região noroeste da Metrópole, assim como um inconfundível mau cheiro logo invadiu minhas narinas. Olhando pela janela do buso o mesmo vinha bordejando as águas do reservatório Edgar de Souza, abastecido por um fétido e espumante Rio Tietê.
 
Saltei no pacato terminal de Santana do Parnaiba as 7:20hrs, enqto vi o coletivo seguir sua trip sentido Pirapora do Bom Jesus, seu destino final. Sabendo q a próxima condução tardaria passei numa padoca local afim de tomar um desjejum reforçado, mandando ver um pingado bem sarado e engolindo um salgado q me pareceu “salgado” demais no preço. Distante 40kms de Sampa, Santana do Parnaiba  foi fundada às margens do Tietê e remonta ao séc. 16. Devido a sua posição estratégica, era daqui que zarpava a maioria dos bandeirantes rumo ao sertão. A cidade tb reúne em suas ruas um dos maiores patrimônios arquitetônicos e históricos do Estado, o q se reflete nos belos casarios espalhados em volta.
 
Após esperar um tantão no terminal, tiritando de frio, as 8:40hrs finalmente embarquei no “800 – Suru (Via Cururuquara)” q serpenteou as estreitas ruas da cidade pra depois deixa-la pra trás e seguir inipterruptamente sentido oeste, pela sinuosa e bucólica Estrada Turistica do Suru. Não demorou e logo surgiu ela diante de mim, emoldurada pela janela do coletivo, a Serra do Voturuna elevando-se elegantemente a noroeste da planície. A partir daqui já é preciso prestar atenção onde descer pra não passar batido. No caminho haverão algumas chácaras, lagoas de ambos lados e um par de simpaticas capelinhas.
 
Saltei então as 9hrs no pto onde a Estrada do Suru (aqui tb conhecida como Estrada Capela Velha) tangencia a Rua Nhambu. Como referencia existe um bonito lago com uma placa indicando “Sitio Sta Isabel” e outra com as inscrições “Rancho Tucson”. Daqui abandonei o asfalto e toquei pela estrada de chão da tal Rua Nhambu até o fim. Não tem erro, basta se manter sempre na principal e ignorar bifurcações. Em caso de duvidas, no caminho há um punhado de sítios e chácaras com a numeração (e nome da rua) indicada, além de estridentes cães q farão a gentileza de anunciar sua presença.
 
Pois bem, seguindo sempre pela estrada de terra e sem gde variação de desnível - inicialmente tocando pra oeste mas depois virando abruptamente pro norte - os destaques do trajeto são um pequeno riachinho q nos acompanha no começo mas q logo abandonamos, uma casa (ou tocaia) de caçador a direita mocada na mata, um simpático bosque q oferece alguma sombra e uma cerca pitoresca de enormes bambus perfilados.Resumindo, uma caminhada sussa e desimpedida.
 
Ao final dos bambus perfilados, emergimos da mata pra finalmente ter primeiro contato visual (e próximo) com a Serra do Voturuna,  as 9:50hrs, q exibe seus elegantes contrafortes espichando-se de oeste pra leste em suaves corcovas. Daqui nossa rota toca pra leste pelo alto duns morros pra então  desviar lentamente pro norte outra vez. Uma descida forte vem na sequencia, onde tangenciamos um campinho de futebol, pra depois subir td novamente, desta vez em definitivo rumo a serra almejada. A estrada de chão passa então pelas últimas chácaras pra começar a se afunilar de vez após o Sitio Sta Odelia e, subindo cada vez mais, finalmente terminar numa clareira cercada de voçorocas de samambaias ao pé da serra, as 10hrs.
 
Pois bem, olhando bem ao redor da clareira veremos uma obvia e evidente picada mergulhando na mata, tocando pro norte. E é por ela q finalmente metemos as caras, inicialmente descendo mas depois se mantendo em nível, como q bordejando a encosta serrana, forrada de vegetação típica de Mata Atlântica. Alguns troncos surgirão atravessados no caminho, mas nada q um desvio ou agachada não resolva a contento. Alem disso, o inconfundível som de água correndo nalgum canto, no fundo do vale a nossa esquerda, é sinal q a vereda basicamente acompanha este pequeno ribeirão ate suas nascentes, já no alto da serra.
 
Após a trilha subir suavemente pela encosta florestada, mediante um trecho q pareceu erodido e relativamente salpicado de água, eis q as 10:20hrs desemboco na Cachu Voturuna. Mesmo com a estiagem de inverno, a queda impressiona pela água sendo despejada dum alto paredão de mais de 20m de altura, formando um poço raso q deve ser um espetáculo a parte no verão. Em tempo, é preciso andar com muito cuidado pelas pedras rente o ribeirão e a cachoeira. O limo visguento depositado nelas as deixa terrivelmente lisas feito sabão, o q pude constatar com dois tombos q por sorte não tiveram maiores conseqüências. Pausa pra breve descanso, cliques e contemplação daquele belo lugar, claro.
 
Pois bem, retrocedendo um pouco pela trilha é possivel avistar uma ramificação dela q se enfia mata adentro, encosta acima. Tinha então inicio o trecho de maior declividade e dificuldade da trip, q naturalmente é vencido na base da escalaminhada. Braços e mãos ganham a mesma importância dos pés e se firmam no q estiver disponível, seja tronco, mato, rocha, agarra ou raizes expostas! Não se enganem, a subida é forte e será vencido um desnível de quase 300m só nessa íngreme piramba, onde alguns degraus rochosos tem ate 1,30m de altura! Felizmente a trilha é bem batida e algumas captações de água nos lembram q a picada basicamente acompanha o curso do ribeirão da cachu. Não tem como fugir dela.
 
Vale mencionar q durante td trajeto piramba acima há pequenas ramificações q levam a lindos e bucólicos remansos do encachoeirado ribeirão. Alguns patamares e niveis superiores da cachu revelam pequenos cânions afunilados na dobra serrana, sendo cavados cada vez mais pelas águas q insistem em despencar do topo da montanha. Há tb alguns belos poços q no verão devem encher o suficiente pra propiciar belos mergulhos, mas com o devido cuidado tendo em vista as pedras escorregadias. Mirantes no topo das sucessivas quedas descortinam paisagens q indicam o qto já foi ganho em altitude, assim como garantem mais e mais cliques da beleza daquele lugar improvável. E o melhor, sem sinal de lixo algum!
 
As 11hrs finalmente dou no alto da serra onde a vegetação muda totalmente. Da espessa e fechada Mata Atlantica desemboco no aberto de descampados q remetem a paisagem de cerrado, onde as poucas touceiras remanescentes de samambaias dividem espaço com capim e pequenas árvores de galhos retorcidos. Tocando em nível pro norte enfim dou numa larga clareira capaz de comportar 3 barracas confortavelmente, bem ao lado das nascentes do ribeirão ate então acompanhado. Um pequena piscininha natural é outro atrativo deste lugar fantástico q merece decerto visita com pernoite. Sinais de fogueira e quase nenhum lixo corroboram esta assertiva. Preciso voltar aqui pra acampar!
 
Da clareira nascem varias (e discretas) picadas em varias direções, mas meu foco daquele dia é o contraforte leste do Voturuna. Felizmente a vereda mais batida é a q segue no sentido desejado, e toca pra leste quase q em linha reta acompanhando um pequeno brejo, q no verão deve se tornar afluente do córrego principal. A pernada é tranqüila e desimpedida, cercada de capim e arbustos baixos e algumas poucas árvores retorcidas. Há tb sinais de pisadas e sujeirinhas de cavalos, o q me deixou meio ressabiado da presença de carrapatos. Bem, a primeira vista não achei nenhum. Tomara q fique assim.
 
Após quase 1km palmilhando a cumieira pra leste já avisto o duplo cocoruto q tipifica o pto culminante do setor leste do Voturuna. Mas antes é preciso descer uma suave depressão e atravessar uma florestinha, cujo interior apresenta sinais de facão no arvoredo e vestígios de acampamentos rústicos (caçadores?). Contudo, a trilha é bem batida e segura. Apenas no miolo do bosque há algumas ramificações, mas me mantenho sempre na picada q for sentido leste e q saia logo da mata.Menos mal q trouxe minha bússola naquele dia, ufa! Uma vez no aberto a picada rasga o capinzal restante ate sumir de vez. Mas não tem erro, pois a crista serrana ta próxima e basta apenas interceptá-la, cruzando o capinzal dourado dançando ao vento na altura das canelas. Uma vez na crista reencontro a picada oficial (q devo ter perdido nalgum pto da florestinha) e por ela sigo ate o final, subindo suavemente o restante da montanha.No caminho observo restos dum modesto acampamento mocados atrás duns arbustos, como q protegidos do vento.
 
As 11:30hrs enfim alcanço os 1092m do alto do contraforte leste da serra. Na carta aparece como Morro Voturuna embora haja outro pico com o mesmo nome (tb chamado de Morro Negro), no extremo oeste. O cume daquele mirante é marcado por uma pequena clareira, onde pedras amontoadas sugerem totens ou alguma outra marcação. A vista é soberba e abrange: ao norte, a pacata Pirapora do Bom Jesus e, bem atrás, o recorte escarpado da Serra do Japi; a leste, o espelho dágua da Represa de Pirapora, a geometria de Cajamar e Santana do Parnaiba, e o Pico do Jaraguá, na rabeira; e ao sul, o cinza de Barueri seguido pela horizontalidade de Osasco e São Paulo. E a oeste? Bem, naquela direção observo td trajeto efetuado ate então, alem da continuidade da crista do Voturuna, onde o corte vertical duma inconfundível pedreira macula parte do contraforte norte daquela bela serrote doméstico.
 
Missão cumprida, enfim, mas não o rolê. Decidido a não retornar pelo mesmo caminho decidi seguir em frente, e descer pela cumieira descendente da crista. Avaliando previamente pela carta e comparando com o terreno q se apresentava a minha frente, vi q era possivel prosseguir adiante, se mantendo na estreita crista e depois descer por onde fosse possivel, uma vez q as curvas de nível alentavam essa possibilidade. Resumindo, na minha frente eu tinha uma “Serra Fina” em declive, guardadas as devidas proporções com a famosa cadeia da Mantiqueira. Enqto matutava minha rota o sangue já havia esfriado e um vento frio cortante me obrigou a trajar anorake, q felizmente resolveu a parada.
 
Foi o q fiz, comecei a palmilhar piramba abaixo pela estreita crista e logo reparei uma discreta picada q acompanhava a cumieira. Pra reforçar q o trajeto era seguro haviam marcos e dejetos de eqüinos ao longo do caminho. “Se cavalinhos sobem por aqui, então deve dar pra descer tb!”, foi o pensamento q logo me veio a mente. E assim foi, perdi altitude num piscar de olhos ate ganhar um selado de ligação q, por sua vez, encontrava-se coberto de mata mais espessa, principalmente capim alto e um samambaial medonho. Apesar disso, a vereda era patente e bastou apenas um pequeno trecho de afastar o mato com as mãos pra, logo adiante, abrir novamente e a pernada voltar a ser sussa e desimpedida. 
 
Após o selado me deparei com uma estradinha precária ao sopé do morro sgte da crista. Havia uma trilha q contornava o morro pela esquerda, mas me mantive na cumieira subindo o supracitado morro acompanhando uma cerca. A picada sumia e aparecia, e assim sucessivamente. Olhando pra minha direita via perfeitamente um fundo e abrupto vale coberto de mata, enqto do outro lado era reservado de reflorestamentos por onde havia um emaranhado de estradinhas de terra. A caminhada se manteve nesse naipe ate terminar num cruzeiro, q sinalizava o fim da serra. Estava no extremo leste do Voturuna e agora so havia uma rota: pra baixo. Mas por onde? 
 
A piramba a minha frente era íngreme demais, porém contornando o cruzeiro por trás era possivel encontrar degraus de encosta com menor declividade e, entre o arvoredo, encontrei um rastro de trilha deixado por cavalinhos, q bastou acompanhar. Em menos de 5min já havia perdido altitude suficiente ate me deparar com dois pocotós pastando, q se assustaram ao me ver. Daqui em diante encostei na borda da serra, avaliei o terreno e decidi descer pela mata mesmo, no peito, onde apenas uma encosta de capim e um estreito trecho de mata fechada me separava duma estradinha de terra. 
 
Mas não rasguei mato nem 1min trombei com uma trilha q ia no sentido desejado, e assim logo cai na estradinha avistada e por ela segui por coisa de 15min ate desembocar no bairro rural do Recreio dos Bandeirantes, ao 12:30hrs. Dali andei ate o asfalto e, ao invés de tomar condução, voltei caminhando mesmo os 5kms restantes ate Santana do Parnaiba, onde cheguei as 14hrs. Destaque deste trecho o gde numero de gente atropelada, tendo em vista a abundancia de capelinhas e cruzes na margem da estrada. Antes de embarcar no buso de volta, logicamente passei no supermercado e abasteci a mochila com latas de “isotônico de cevada gelada”, q degustei o resto da viagem pra Sampa. Foi ai q senti uma coceirinha na canela. Droga..carrapatos! É, nem td são rosas.
 
A Serra do Voturuna foi a grata surpresa, a apenas 40kms da maior metrópole da America do Sul, um serrote domestico pouco conhecido q reúne trilha, escalaminhada, cachoeiras e picos pra ninguém botar defeito. Noutras, uma serra q reúne os pré-requisitos essenciais pra se tornar Parque, embora nem td sejam boas noticias. A presença de queimadas, de vestígios de caça predatória e até de cavalos (carrapatos) são sinais de descaso do Poder Publico perante uma área tão promissora em termos de turismo como essa. Bem, esta foi a apenas minha primeira visita ao Vuturuna e mal arranhei o lugar. A serra ainda possui outras trilhas q serão oportunamente percorridas, principalmente a q leva a face montanhosa voltada pra Pirapora do Bom Jesus. Mas esse, claro, será assunto pra outro vindouro e iminente bate-volta nestas bandas do Alto Tietê.
 
Jorge Soto
http://www.brasilvertical.com.br/antigo/l_trek.html
http://jorgebeer.multiply.com/photos



Publicidade:


Publicidade

Publicidade