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Jorge Soto

Volta na Serra do Itaberaba


Aventura de:

A Serra de Itaberaba é um enorme espigão desgarrado da Cantareira cujas escarpas erguem-se majestosamente ao norte da cidade de São Paulo. Repleto de picos, mananciais e fragmentos de Mata Atlântica q passam por Guarulhos, Mairiporã, Arujá, Nazaré Paulista e Santa Isabel, td esta biodiversidade esta supostamente assegurada pela criação do Pq Est. Serra do Itaberaba, uma unidade de conservação q por ora está apenas no papel, infelizmente. E foi nesta grata surpresa de potencial “outdoor” q tivemos uma agradabilíssima caminhada de 15kms através cristas e em formato de "U", puxado desnível de quase 400m e muito visual.

Minha primeira incursão a Serra do Itaberaba data de ano atrás, na ocasião em q estive no Pico do Gil, por sinal pto culminante da cidade de São Paulo q muitos equivocadamente acreditam ser o Pico do Jaraguá. Foi ali q pude observar q aquela gde elevação se espichava no sentido leste até perder a vista. Diferentemente dos serras tradicionais – compactas, uniformes e homogêneas – o Itaberaba é uma formação geológica irregular composta por picos e morros, cristas escarpadas e abauladas, contrafortes suaves e abruptos, e não raramente é cortada por estradas ao largo de seu relevo aparentemente descontinuo.

E foi buscando infos dela q acabei tropeçando com o Rafael Morais (http://turismodeaventuraeecoturismo.blogspot.com.br/), “santaisabelense” da gema q conhecia aquela serra como ninguém, pois além de guiar caminhadas de forma autônoma e voluntária ajudava tb a divulgar as belezas da própria cidade. Trocando figurinhas com o cabra foi q este acabou formalizando um convite pra visitar o lugar, q prontamente atendi, claro. Afinal, já q tava indo pra lá de uma forma ou de outra, se fosse na companhia q conhece cada recanto do Itaberaba, melhor.

Dessa forma madruguei e me dirigi ao Metrô Armênia, mais precisamente a Rua Guaporé, onde embarquei as 6hrs no primeiro intermunicipal rumo a Sta Isabel, no caso, o “219 – Santa Isabel (Monte Serrat)”. A viagem q imaginei q fosse ser pra lá de demorada (2hrs, segundo o site da EMTU) na verdade foi até q rápida, vai ver pela ausência de transito nas marginais. Uma vez q tomou a Rod. Pres. Dutra (BR-116) e passou os limites entre Guarulhos e Arujá, o latão deixou o cinza urbanoide p/ janela imediatamente emoldurar morros forrados de verde, salpicados aqui e acolá pelas tradicionais vendinhas e ranchos da pamonha.

O fato é q saltei em Santa Isabel as 7:30hrs e me dirigi ao pto de encontro, na padaria Ismael, situada no centro. Terra natal do criador da Turma da Mônica, Santa Isabel tem esse nome em homenagem à Santa Isabel de Aragão, Rainha de Portugal, sua origem data de 1770 e está ligada indiretamente a conquista do ouro em MG.  Aliás, a cidade até lembra uma cidade mineira já q está enfiada no meio de morros. Hj Sta Isabel vive apenas do comercio local e de algumas gdes empresas instaladas. O fato é q o lugar é um ovo e não tive maiores dificuldades em me situar.

Encontrei o Rafa na padoca situada na av. República, tomamos um rápido desjejum - regado a pão-na-chapa e um delicioso pingado - e zarpamos rumo o Itaberaba naquela manhã q começara envolta em brumas, mas q lentamente iam se dispersando conforme a temperatura se elevava. Foi qdo tomamos a estrada sentido Igaratá e, na sequência, a Estrada do Ouro Fino, q finalmente tivemos um vislumbre do Itaberaba a noroeste, na forma daquela extensa cumeeira escarpada se espichando ao largo de td aquele quadrante. Por volta do km 4,5 da estrada, enfim encostamos o veículo no Mercado Nigiba´s (ex-Berinacci), na altura do número 4500.

Começamos oficialmente a pernada por volta das 8:30hrs, na cota dos 620m de altitude, tocando por uma estrada de chão q nasce da principal, sentido pé da serra. É a chamada Estrada “Jaguari-Pedra Branca”, q inicia bordejando reflorestamentos, chácaras e sítios. No caminho tropeçamos com uma placa escancarando “Ibirapitanga - RPPN Rio dos Pilões”, a direita. “É o Condomínio Reserva Ibirapitanga”, diz o Rafa. “É um loteamento fechado q tem o diferencial de ser tb reserva ambiental, além de ter isenção fiscal”, completa. É, pelo visto a iniciativa privada ao menos funciona no quesito preservação da natureza.

A pernada prossegue até uma bifurcação, marcada por uma decrépita capelinha, onde tomamos a esquerda. “Indo pela direita daríamos na Estrada da Pedra Branca!”, explica Rafa. A capelinha, por sua vez, é habitada por uma família. Aliás, foi invadida. Esses serão exemplos recorrentes por td trajeto. Invasões e apropriação irregular de terreno. Isso numa área em tese quase limítrofe com o suposto parque, cuja criação é justamente pra evitar este tipo de avanço fundiário, seja ele irregular ou não.

Nossa rota prossegue ainda pelo estradão por um tempo, agora pra oeste, até q finalmente o abandonamos (senão daríamos em Arujá!) em prol dum picadão a nossa direita. Este sobe forte a encosta do morro ao lado, sempre sentido noroeste, envolto na fragrância inebriante das damas-da-noite q margeiam o caminho. Ao começar a palmilhá-lo imediatamente me dou conta q esta picada nada mais é uma antiga estrada de manutenção das torres de alta tensão, q agora acompanharemos um bom tempo e cujo zunido eletrostático já havíamos cruzado lá embaixo. Mas é somente após adentrar mais no vale, andar em nível em meio a um belo trecho repleto de exuberante mata ciliar e passar por uma convidativa bica é q a subida aperta de vez. Aqui vale novamente salientar a presença humana irregular. “Opa, este alambrado não estava aqui da última vez q vim!”, aponta Rafa no sentido duma fundação de tijolos sendo construída no meio do mato. Não bastasse, um pouco antes vimos perfeitamente um acampamento montado no meio do mato, ao lado duma nascente. “É, aqui tb tem caçadores!”, lamenta Rafael, apontando tb pruma encosta queimada recentemente.

E tome piramba acima, sempre no aberto, onde não tarda pro suor começar a escorrer farto pela ponta do nariz! A picada é larga, avermelhada e não raramente erodida pela presença de motos. E se antes a mata era ciliar aqui ela se apresenta como enormes e compactas voçorocas de samambaias, q preenchem ambos lados da encosta. A subida é forte e ininterrupta, sempre acompanhando as torres de alta tensão, onde algumas paradas pra retomada de fôlego são necessárias. Mas a recompensa de td isso é q a medida q ganhamos altura os horizontes se ampliam a nossa volta, possibilitando avistar os espigões serranos laterais, sob a brisa fresca daquela manhã ensolarada. Olhando com atenção, não demoro em identificar o Pico do Gil, coroado pelas onipresentes Torres da Embratel, no extremo oeste do Itaberaba.

A subida arrefece e suaviza por volta da cota dos 900m, onde aparentemente nivela numa espécie de pré-crista florestada onde somos abençoados pela presença de sombra. Por incrível q pareça, aqui em cima a cobertura vegetal é basicamente composta de reflorestamento de eucaliptos. Isso q estamos num parque estadual. De repente ouvimos a inconfundível algazarra de bugios nalgum vale lateral. “Nunca tinha ouvido eles por aqui! Vai ver migraram por algum motivo da Cantareira pra cá!”, explica Rafael.
No alto, caímos numa estradão onde tocamos pra direita, subindo suavemente, ignorando a ramificação q desce e provavelmente nos levaria até Guarulhos, Nazaré Paulista, Pedra Branca e, se bobear, Atibaia e Piracaia. Mas não andamos nem coisa de 5min q finalmente damos num mirante a beira de estrada com bela panorâmica do quadrante norte, as 10:30hrs. A paisagem descortina principalmente o maciço da Pedra Branca até os abruptos contrafortes da serra do mesmo nome. Td isso entremeado duma sucessão de vales forrados de verde, onde os tons lilases das quaresmeiras se fundem aos amarelos, dos ipês. A trilha sonora daquele momento, pra variar, resumia-se a brisa soprando na copa do arvoredo somado à bagunça promovida pelos bugios nalgum vale próximo, além do chiado dum gavião reclamando quiçá da nossa intromissão no seu habitat. Pausa pra breve descanso e lanche neste belo local, situado na cota dos quase 996m de altitude.

Daqui em diante é só descida! E coloca piramba nisso! Não demora a cair numa visível estrada de extração de madeira q tangencia a “Trilha do Matão” (uma q sai atrás da capelinha) p/ finalmente desembocar no chamado “Fundão” as 11:24hrs, q nada mais é um bucólico vale encaixotado entre as montanhas, na cota dos 750m. Um belo e improvável laguinho divide espaço com farta vegetação q se alterna entre ciliar e eucaliptos. Além disso, restos duma cabana abandonada e uma deliciosa bica completam um panorama jogado ás moscas, q poderia muito bem ser aproveitado pro turismo.

Do “Fundão” nossa rota é só subida, afinal temos q sair daquele vale de algum jeito. O modo encontrado é através duma picada tomada parcialmente pelo mato q sobe a encosta montanhosa de forma vertiginosa e implacável, q tanto nos encharca o rosto de suor como nos deixa repletos de “picão” grudado a roupa. A vereda logo adentra em meio a farta mata ciliar onde exemplares de palmeira-juçara enchem os olhos e finalmente desemboca no alto descampado da montanha, onde novamente as vistas se ampliam e o rosto agradece a brisa soprando do leste.

É exato meio-dia e agora nossa rota se dá por um espigão serrano descendente, paralelo ao da subida, q na verdade se revela uma faixa descampada capim por onde correm dutos enterrados da Petrobrás. E assim vamos perdendo altitude sentido sudeste, com larga vista de Guarulhos e Arujá, destoando da horizontalidade ao sul. Meia hora depois temos mais um breve pit-stop na cota dos 850m, desta vez na beirada dum enorme muro concretado de contenção q serve de mirante. Ali avisto o recorte escarpado inconfundível da Serra do Itapeti (Mogi), a sudeste, assim como td o caminho palmilhado naquele dia.

Dali basta tomar uma evidente e obvia picada trilha q desce a encosta bem forte, margeando a serra. Num piscar de olhos damos noutra estrada de chão, q nada mais é aquela q vai pra Pedra Branca. Tomando a direita quase q em nível, bordejamos as matas do limite norte do Condomínio Ibirapitanga até dar finalmente na capelinha do início da jornada, por volta das 13:30hrs. Dali até o veículo foi mais meia hora de chinelada sob sol escaldante. E dali até o Pesqueiro do Caçula foi apenas um punhado de minutos, onde entornamos uma trinca de litrões de Skol pra bebemorar aquela tão agradável pernada pelo Itaberaba, além de divagar sobre as contradições do Parque Estadual ali integrado.
A conservação de td aquela região (Cantareira, Itaberaba e Itapetininga) está ligada à produção de água no final do século 19, qdo o governo do Estado iniciou desapropriações de fazendas para frear o desmatamento estimulado pela expansão da cafeicultura. Hoje, em tempos de aquecimento global e blábláblá, a floresta se destaca também como importante sequestrador do gás de efeito estufa e como fonte de ar puro. Tds aqueles parques foram criados pra garantir a produção de água com qualidade para a Região Metropolitana de Sampa, conforto climático, belas paisagens, lazer e preservação da biodiversidade. O caso do Itaberaba é um caso à parte, repleto de contradições: invasões, extrativismo e queimadas batem de frente com a proposta original. Isso sem falar na poluição das nascentes q deveriam abastecer SP, na mão de esgotos irregulares das invasões. E por ai vai.

Me despido do Rafael prometendo breve retorno, já q neste breve visita mal arranhei as possibilidades q vi do Itaberaba e, de quebra, em Santa Isabel: escalada em paredões de Pouso Alegre, montanhismo no maciço da Pedra Branca e Pedra Preta, pedaladas em Vargem Grande, etc. É estranho q o Estado não tenha interesse em estimular o potencial "outdoor" q a cidade oferece de bandeja, mas é legitimo exigir dele coerência na sua proposta de preservação do Itaberaba. Nessa batalha desigual, onde se bate com td sorte de interesses (e descaso) envolvidos, Rafael ao menos faz a sua parte em promover o ecoturismo pela serra q sempre o encantou, dando-lhe o destaque e relevância q merece. Quem sabe assim a serra faça jus ao próprio nome, uma vez q Itaberaba significa, em tupi-guarani, "pedra que brilha".
 




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