Montanhistas Amputados

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Quando chegamos a um acampamento base carregando todas nossas tralhas que pesam dúzias de quilos, fazemos porteio, vários acampamentos montando e desmontando barraca noite após noite, pensamos, e estamos certos, que nossa vida é difícil. Escolher o montanhismo de altitude como esporte não é pra qualquer um. Agora imagine todas essas dificuldades pra um montanhista amputado, pior ainda não?

Vamos refletir um pouco sobre estes seres humanos que sem muitas opções decidiram não ceder face à terrível vicissitude imposta pelo entrelaçar de suas vidas. Um momento tão horrendo que quase pôs um fim definitivo ao seu corpo de modo que a única saída foi a amputação, cortar fora o pedaço inoperante pra continuar vivendo como um deficiente físico. Agora vamos imaginar isso na vida de um montanhista, alguém que não consegue ficar em casa, que é super ativo pela própria natureza de seu perfil psicológico, pelo esporte que pratica que mais é um estilo de vida do que esporte, deve ser de fato arrasador. Bom, eles existem, não precisamos imaginar.

Selecionei alguns casos interessantes. Alpinistas, montanhistas que perderam quase tudo, que perderam pedaços de si, e um caso em que o alpinista perdeu as duas pernas ainda com cinco anos de idade por defeito genético, e outro caso em que realmente desafia o significado da palavra “possível”: Um rapaz que nasceu sem os braços abaixo do cotovelo e sem as pernas abaixo do joelho. Inacreditável? Prepare-se para mudar de opinião, vamos às feras…
Aron Ralston

Aron Ralston – Fonte: myfourteenforty.com

Vamos começar com o mais famoso de todos eles, e o caso mais “ameno”. Aron é norte-americano e hoje tem 37 anos de idade, mas quando tinha 28 anos passou por uma provação assustadora. Caminhando sozinho na região do Grand Canyon caiu em uma fenda. Quando caiu causou uma pequena avalanche de rochas e uma delas bem grande caiu sobre seu braço, que ficou preso.

Ele resistiu por cinco dias até que decidiu cortar seu braço usando um canivete cego que carregava consigo. Toda sua estória acabou por lhe tornar muito famoso, sendo um ícone de perseverança outdoor, que gerou frutos. Ele lançou um livro e em 2010 um filme foi produzido contando sua infeliz aventura, “127 horas”.
Aron continua escalando, possui próteses diferentes para cada ambiente, rocha, gelo, trilha, e cobra uma grana alta para suas palestras. Caso uma empresa em território norte-americano queira que Aron fale para seus funcionários, terá que desembolsar USD 20.000 doletas. Para palestras internacionais ele cobra quase o dobro disso, USD 37.000.
A vida de montanhista não parou, em 2008 escalou o Ojos Del Salado, vulcão mais alto do mundo, e o Monte Pissis, uma das montanhas mais altas da Argentina. Em 2009 chegou ao topo do Kilimanjaro na África.
Ranimiro Lotufo Neto

Ranimiro Lotufo – Fonte: marcosabino.com

Um brasileiro? Sim, Ranimiro é brasileiro, hoje tem pouco mais de 40 anos de idade. Passou boa parte de sua vida trabalhando como modelo internacional e há vinte anos salta de parapente e praticava vôo livre. Tudo mudou em sua vida no ano de 1995.

Neste terrível ano, enquanto participava de uma competição de parapente em Andradas, sul de Minas Gerais, durante sua descida não viu um fio de alta tensão e ficou agarrado nele. Recebeu duas descargas de aproximadamente 60.000 volts cada, o que causou que sua perna direita (parte de seu corpo que ficou presa no cabo de alta tensão) ficasse em chamas. O resultado foi triste, amputação da perna acima do joelho.
Somente três anos após o acidente Ranimiro conseguiu efetivamente retornar às passarelas como modelo profissional, e fez diversos trabalhos.
Depois daí sua vida não parou mais. Retornou a voar, participou de desafios e estabeleceu o record de vôo entre Vila Valério (ES) e Conceição do Capim (MG), 122 kms de vôo. Participou de uma competição de rafting que até então nunca tinha sido sua praia, no Nepal!
Bom, o legal mesmo é que ele voltou às montanhas por causa do seu amor pelo parapente. Ano passado ele escalou o Dedo de Deus no Rio de Janeiro pra poder saltar do cume. E pra quem pensa que ele jumareou até o cume, negativo, ele escalou mesmo. A decolagem não foi perfeita e ele quase se chocou com a parede do Dedo, mas no final deu tudo certo!
Stephen Ball

Stephen Ball – Fonte: dailymail.co.uk

Stephen é britânico e não teve muita sorte na sua tentativa de escalar o Denali, montanha mais alta da América do Norte, com 6.194 metros de altitude, em 1999.

Stephen caiu nada mais nada menos que seiscentos metros enquanto estava na montanha. Foi encontrado depois de diversas horas com congelamento de terceiro grau em ambas as mãos. Infelicidade para Ball.
Foi resgatado, hospitalizado, mas era tarde pra salvar completamente suas mãos. A mão esquerda foi amputada quase que completamente e a mão direita perdeu todos os dedos. Pouco? Continua…Ele perdeu também parte do nariz e a perna esquerda, que sofreu 12 fraturas em diversos pontos e por causa de tantas lesões congelou. Depois de tanta provação na montanha seu corpo teve que ser retalhado.
Azarado mas não derrotado! Ball passou por muito tempo de fisioterapia, provou diversas próteses até que chegou à fase final, depois de escolher as próteses, ele literalmente adaptou as próteses das mãos com piquetas pra escalada em gelo.
Parar que nada, Ball escala até hoje e já passou dos cinquenta anos de idade!
Eross Zsolt

Eross zsolt – Fonte: blikk.hu

Eross não é menos desconhecido que muito oitomilista que há por aí. Pra quem não sabe, foi o primeiro Húngaro a culminar o Everest. Bem, não precisamos ir muito mais longe do que isso, Eross já culminou 9 dos 14 picos com mais de oito mil metros, as maiores montanhas do mundo.

Em 2010 sua vida nas montanhas mudou radicalmente em circunstâncias muito parecidas a de Mark Inglis que veremos abaixo, uma avalanche terrível o acertou e isso resultou em amputação da sua perna direita logo abaixo do joelho. E não pense que foi em grandes montanhas não, foi nos High Tatras, cujo cume mais alto tem apenas 2.655 metros de altitude, pouco menor que o nosso Pico dos 3 Estados na Serra Fina.
Seu acidente ocorreu em janeiro de 2010 e sua recuperação foi impressionante, em Junho do mesmo ano, já com uma prótese na perna, tentou escalar o Cho Oyu, e provavelmente teria culminado se não fosse por condições climáticas adversas, ficando a 7.100 metros de altitude.
A infelicidade no tempo não o abalou, usando sua prótese Eross culminou o Lhotse na primavera do ano passado, 2011.
Não é brincadeira não! O Sr. Zsolt tem apenas 44 anos de idade, portanto está na idade de ouro do oitomilismo, tem muitos anos pela frente de escaladas e sucessos!
Um filme foi produzido sobre sua carreira nas montanhas, chamado “The Snow Leopard Stands”.
Mark Inglis
Talvez você já tenha escutado falar deste cara, pois ele foi o primeiro amputado de duas pernas a escalar o Everest. Quando o fez, usava próteses nas duas pernas que foram aputadas abaixo do joelho.

Mark Inglis – Fonte: artrabbit.com

O acidente do Inglis já foi relacionado ao montanhismo. Ele perdeu as suas duas pernas abaixo do joelho em 1982, por congelamento, quando escalava no Monte Cook, o ponto mais alto da Nova Zelândia, e ficou preso no meio da escalada por causa de fortes tempestades. Inglis ficou nada mais nada menos que duas semanas numa caverna no gelo, lutando pela sua vida, juntamente com o seu companheiro de escalada, Phil Doole.
Por mais que tenha sido devastador e sofrível, a experiência não afastou o neozelandês das montanhas. Em 2004 Mark escalou o Cho Oyu pra treinar, montanha de 8.201 metros de altitude. Vinte e quatro anos depois de perder as pernas, Inglis encarou um dos maiores desafios de qualquer alpinista e partiu para a expedição no Everest com o auxílio de próteses de fibra de carbono.
O ano de sua conquista pessoal foi 2006, uma das temporadas mais vorazes no Everest e em todo Himaiala. Mesmo assim Inglis superou as adversidades e culminou o Everest, marcando um novo capítulo na História do Oitomilismo. Só um detalhe, depois de fazer cume ele conseguiu descer até o acampamento quatro, mas de lá não conseguia mais de dor. Teve que ser carregado e arrastado montanha abaixo. Chegando em casa foi hospitalizado, passou mais algumas semanas internado se recuperando depois de perder mais 5 centímetros de cada perna por congelamento, de novo!
O documentário: A Discovery produziu um documentário chamado “Everest, o preço da escalada”, que registra as dificuldades de onze pessoas de uma expedição na tentativa de escalar a montanha, inclusive registra a escalada de Inglis. O documentário é dividido em três temporadas com diversos episódios cada e Inglis está na primeira temporada.
Hugh Herr
A vida de Herr mudou ainda bem cedo, quando tinha somente 17 anos de idade. Com um amigo como parceiro foram a New Hampshire para escalar e acabaram isolados e presos por causa de tempestades. O resultado foi infeliz, ambas as pernas amputadas.

Hugh Herr – Fonte: whosaysicant.org

Hoje Herr tem 47 anos de idade, é cientista renomado e trabalha no Massachusetts Institute of Technology (o famoso MIT), onde ele mesmo participou no desenvolvimento de diferentes próteses que utiliza no seu dia a dia, mas não só em casa, escalando também!
Herr nunca parou de escalar, continua sua paixão até hoje e recomenda a quem quiser o esporte que lhe deu forças pra continuar a vida o mais próximo do normal possível.
Para Herr, a escalada é mais do que um esporte, é prazer, é meio de vida, e uma forma de ele mesmo aprimorar as suas próteses em prol de outras pessoas que precisem, em suas palavras: “Como todos os processos que interferem imperceptivelmente no corpo humano em cada passo, torção ou salto, poderiam ser comandados por um computador?” Ele sonha com próteses que permitam a vítimas de acidentes, amputações e guerras reconquistar sua liberdade de movimento.
Em frente” são as palavras que se escuta de Herr depois de concluir seus cálculos de como escalar a rocha, tirar uma chave Allen do bolso da calça e completar: “Só preciso aparafusar as minhas pernas”.
Kyle Maynard

Kyle Maynard – Fonte: gwinnettdailypost.com

Esse aqui realmente impressiona. Kyle sofreu amputação congênita. Nasceu sem metade dos braços e sem as pernas abaixo do joelho. Tronco, quatro “cotocos” e cabeça. Mesmo assim, isso não foi motivo de limitação para o atleta. Desde moleque se jogou no mundo, tornou-se lutador mixto de artes marciais, lançou um livro, é modelo fotográfico e vive palestrando sobre temas motivacionais.

Além de ter uma vida exemplar, ganhou o prêmio Espy ESPN como melhor atleta com deficiência de 2004, com apenas 18 anos de idade! Apesar de não ser montanhista, engajou-se em uma aventura diferenciada, chegar ao tipo do Kilimanjaro pra provar que seria capaz, além de angariar fundos para a Associação de Militares Veteranos Americanos Feridos.
Isso lhe custou muito treino pesado, mas o sonho foi alcançado sem muita dificuldade. Em janeiro deste ano em apenas 10 dias (o previsto era 16 dias) Kyle fez cume no Kilimanjaro, se rastejando o tempo todo usando pneus cortados como proteção contra ferimentos nas suas extremidades conforme se arrastava. Impressionante não?
Hoje Kyle só está com 26 anos de idade, tem muito pela frente!
Spencer West

Spencer West – Fonte: dailymail.co.uk

Não muito diferente de outros, o gol de West também foi o Kilimanjaro. Em um problema genético similar ao de Kyle, West perdeu as pernas quando tinha cinco anos de idade, completamente, não sobrou nem uma pontinha sequer. Ao olhar para suas fotos, a impressão é que seu corpo é literalmente cortado na cintura. Parece até que ele está dentro de um buraco no chão fazendo uma piada com quem olha, mas ele é assim mesmo.

West se tornou uma figura muito carismática e atrai olhares e entrevistas por onde passa. Não muito diferente dos outros casos apresentados, tornou-se uma celebridade, e uma frase acabou se estabelecendo como o lema do guerreiro: “Redefinindo o Impossível”. A frase também virou o lema de sua campanha de caridade.
Aliás, com a escalada Spencer arrecadou fundos para a instituição sem fins lucrativos Free The Children, que cuida de crianças carentes em todo o continente africano. Toda a missão foi financiada através de crowdfunding, totalizando quase US$ 500 mil em doações, que coisa! Meio milhão de dólares!
Projetos futuros? Pergunte ao próprio Spencer!
Bem, os casos são realmente impressionantes. Aproveitei a época da pouquíssimo comentada Para-Olimpíada pra abordar o tema. Fico triste em ver que a parte mais legal da competitividade esportiva mundial, a Para-Olimpíada, sequer chama atenção das grandes emissoras de TV. De repente não dá tanta grana quanto a olimpíada normal não é mesmo?
A perseverança do ser humano impressiona. Baixo minha cabeça para estes exemplos e me sentiria extremamente honrado se um dia esbarrasse com uma dessas figuras pelas montanhas do mundo…
No começo do texto eu disse pra refletirmos um pouco sobre estas feras. Pode começar a refletir!
Parofes
Fontes de pesquisa:
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Sobre o autor

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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