Aventura Já: História de uma autêntica revista andarilha - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
A revista de Sérgio Beck

Aventura Já: História de uma autêntica revista andarilha

A revista Aventura Já, idealizada e editada pelo renomado montanhista Sérgio Beck, foi mais do que apenas uma publicação de aventura. Ela foi responsável pelo amadurecimento de idéias e valores do mundo da aventura, incentivando toda uma geração de montanhistas e caminhantes.

Fonte: Redação

Por Jorge Soto

Em outubro do distante ano de 2002 quem fosse numa loja de equipos de aventura jamais imaginaria que aquela discreta, despretensiosa e simpática publicação emparelhada a tantos outro títulos inexpressivos da loja se tornaria referência pra toda uma geração de andarilhos. Era lançado o primeiro número da revista “Aventura Já”, de autoria do veterano montanhista Sergio Beck, que dispensa apresentações. De curta e efêmera trajetória, a publicação se caracterizava pela simplicidade e ousadia com que, além de democratizar os esportes de aventura tornando-os acessíveis a qualquer um (em especial, o montanhismo), incentivava seus leitores a andar por conta própria. Como seu próprio autor afirmava: “Tinha conteúdo autêntico.”

Mas para entender a trajetória da revista temos que saber do andarilho Sergio Beck e o contexto em que o montanhismo se situava na virada do século. Rolava a segunda edição da “Adventure Fair” ao mesmo tempo em que a até então desconhecida Serra Fina emergia na mídia como “a travessia mais difícil do Brasil”. O mercado bombava com a ascenção da modinha ecoturista, principalmente agências. Já pros praticantes havia pouco material decente que atendesse satisfatoriamente esta demanda, principalmente no quesito informação. Em contrapartida, Beck já era um renomado montanhista que, apaixonado por dividir experiências (e não tracklogs, algo banalizado hoje), havia publicado de forma quase de forma artesanal o já clássico guia de trilhas “Caminhos da Aventura” - hoje encontrado apenas em sebos - além de uma série de livretos específicos pra iniciantes nos esportes de aventura. Isso em meados dos anos noventa. Com a ótima receptividade de suas publicações num setor tão competitivo quanto restrito, ruminou um projeto mais ambicioso que além de atualizar seu famoso guia – defasado a cada ano – concentrasse todos seus livretos num lugar só!

Mas pra isso precisava ter know-how profissional do meio editorial. Estagiou então em duas revistas como repórter ao promover aventuras pelo Brasil. Primeiro na extinta “Família Aventura”, que fechou as portas antes de sequer completar dois anos de existência; e depois por metade do mesmo período na  respeitada “Aventura & Ação”, como editor. É verdade que ambas as publicações não eram bem o seu sonho. Dedicado e detalhista, desta última desligou-se por pequenas discordâncias editoriais que iam desde a pauta comercial até a mutilação constante de suas matérias. “Lembro de numa reunião discutirmos uma matéria sobre cantis. E o Beck foi categórico que o melhor cantil é garrafa pet. Eu disse que tínhamos que promover as marcas desses produtos pro leitor consumir. Mas ele não arredou o pé, pois o conceito dele era esse e ele não poderia romper com suas crenças e experiências.”, conta Ricardo Contel, publisher da “Aventura & Ação”, não escondendo a admiração que mantém pelo ex-contratado. “O Beck era detalhista demais no conteúdo e os textos (aos nossos olhos) tornavam-se longos e cansativos. Mas aos olhos dele, eram ricos em detalhes e práticos para a execução.”, emenda.  É, Beck teria que ter sua própria revista pra ser dono de seu próprio nariz.

Inteligente, conhecedor do segmento aventureiro e com aptidão de sobra pra tocar sua própria publicação, Beck não desencorajou e meteu, enfim, as caras em terreno pantanoso: o editorial. Buscou parcerias que quisessem bancar a idéia mas todas se esquivavam, afirmando que não havia mercado pra revistas especificas de aventura; e as que haviam tentado sequer tiveram segunda edição. Persistente e teimoso como em qualquer árdua caminhada pela montanha, Beck não entregou os pontos e seguiu em frente.

A coisa ganhou forma mesmo quando o diagramador, designer e escalador Luiz Fernando Machado juntou-se ao projeto. Ele já publicava um pequeno fanzine e também pensava em algo maior. Juntos, então criaram uma revista bimestral em formato pequeno, tamanho gibi - que fosse fácil de dobrar e levar na mochila - e com 80 páginas. Ela seria vendida  por aí, nas lojas de equipamento de aventura. Apesar de tocarem tudo sozinhos, tinham a eventual (e valiosa) colaboração de gente do ramo aventureiro. Tanto que a ex-editora da “Go Outside”, Marilyn Novak, e o supercanoísta Christian Fuchs já passaram por suas páginas.

O conteúdo, por sua vez, era autêntico e merece parágrafo a parte. Além de rica em dicas de “onde e como ir”, tinha profundidade na informação técnica, além de uma visão bem mais genuína do mundo da aventura. Serra Fina e Marins? De jeito nenhum! Beck fugia do lugar comum e ia sempre atrás de novas rotas de modo a dispersar o excursionismo de massa nas áreas naturais, divulgando travessias até então desconhecidas como a Lapinha-Tabuleiro e da Serra do Papagaio, apenas pra citar duas. Não bastasse pela sua seção de cartas já passou gente - na época dando seus primeiros passos - que hoje tem algum vinculo de destaque no mundo da aventura, sejam montanhistas experientes, diretores de centros excursionistas ou com alguma ligação com meio ambiente de uma forma geral.

Além de conteúdo autêntico, havia também o quinhão de material polêmico. Beck pregava o direito de ir-e-vir em nossos parques nacionais, o que não raramente significava adentrar “clandestinamente” em áreas de preservação (sob os olhos da lei), na seção “Zona Proibida”. Claro que esse discurso de rebeldia cativou uma legião de leitores que precisava apenas disso pra meter as caras por ai: uma voz que falasse por eles. Noutras, Beck se dirigia aos aventureiros na sua própria linguagem, o “aventurês”.

A revista então encontrou um publico interessado que sempre aguardava ansiosamente a próxima edição, mas a mesma era lançada a intervalos irregulares que variavam de três a oito meses. Dessa forma, Beck e Luiz Fernando perceberam que depois de seis edições não dava mais pra continuar daquele jeito artesanal. Além de produzir a revista por conta, tinham que distribuí-la praticamente a mão. Na seqüência tinham que recolher tudo novamente, além de cobrar os exemplares vendidos, que era o mais difícil. Tem muita loja devendo até hoje. Nem mesmo o site criado pra dar apoio às vendas e oferecer serviço de assinante dava retorno satisfatório. Foi quando sacaram que, pra crescer, a revista teria que aumentar sua tiragem e ser distribuída nas bancas pra lançar-se de fato ao mercado. Tinha que ser “mais profissional”.
Ambos saíram atrás de anunciantes adicionais. Não os que já os apoiavam desde o começo, mas parceiros maiores como montadoras, barras energéticas, cartões de crédito, etc. Nada.

Foi quando toparam com Paulo Ortiz, que comandava a gráfica onde Beck imprimiu seus livretos, desejoso de lançar uma nova publicação. Os três contataram a Fernando Chinaglia Distribuidora, que possibilitou que a revista chegasse às bancas, mas que vetou logo de cara o formato pequeno. Uma revista pequena corria, nas bancas, o risco de ser jogada no meio dos gibis, horóscopos e palavras-cruzadas. E já que era pra deslanchar, Beck e Luiz mudaram o formato criando uma revista grande, mas com 48 páginas, além de redesenhar o logo e o layout interno. Mudava apenas a cara, mas o conteúdo permanecia o mesmo. Afinal era esse o seu trunfo. Ambos queriam conquistar o mercado, mas aos poucos. “Nós aceitamos (a imposição do novo tamanho) por que achamos que seria bom, mas por que nós achamos´. O que não resultou em melhora nenhuma. A coisa ficou tão ruim quanto já estava e acabou como acabou.”, entrega Luiz Fernando. “Mudamos o layout e outras coisas por que já estava na hora de mudar, de tentar outra vez...”, completa.

Entretanto, a revista teve fôlego apenas pra chegar até sua nona edição, lançada no inicio de 2006, data do seu último suspiro. Beck e Luiz Fernando ainda tocavam a revista praticamente sozinhos, sem nenhum marketing dando apoio. Sobrecarregados, sem divulgação e com vendas em baixa não lhes restou opção senão fechar as portas. “As dificuldades da revista eram as mesma de qualquer publicação (publicidade, anunciante, assinante, distribuição…), não importa onde ela seja feita. Para uma grande editora isso se resolve com dinheiro, coisa que nós não tínhamos. O que tínhamos de anúncios e assinantes mal pagava a gráfica, fora as viagens, hospedagem, alimentação, equipamento, etc e tal. Por essas e outras a revista teve que acabar.”, lamenta Luiz. “O Beck tinha que tocar a vida dele, cuidar dos filhos e eu idem. Ele foi morar em Botucatu e eu fiquei aqui. E a revista ficou na memória. Ainda, as vezes, acho que um dia vai aparecer alguém querendo retomar sua publicação e…”, finaliza.

Luiz Fernando aproveita a oportunidade pra desmentir o boato recorrente em listas e fóruns de discussão de que matérias “polêmicas” teriam afastado anunciantes e, conseqüentemente, decretassem o pontapé inicial pro declínio da revista. “Acho que as matérias do `Zona Proibida nunca trouxeram problemas nesse sentido, inclusive por que o Beck nunca foi notificado ou advertido pelos administradores dos parques. Ele pregava a liberdade do contribuinte, que paga imposto caros, para usar os parques de forma consciente e organizada. Veja na matéria, por exemplo, do Corcovado de Ubatuba, ele fala dos andarilhos/campistas que estão fazendo coisas erradas”, completa.

Sobre a fama de gênio difícil do autor da revista Luiz Fernando não pensa duas vezes: “O Beck é para mim o montanhista mais montanhista que eu tenho o prazer de conhecer. Quem já fez uma trilha com ele ou sabe o que ele já fez como montanhista saberá do que eu estou falando. Ele é um grande amigo. Essas histórias de que ele é um cara difícil e tal, é coisa de quem não o conhece de verdade. Ele tem uma personalidade forte, determinado como todas as pessoas de caráter. Ele não é político, ele é montanhista.”. Ricardo Contel vai além: “Além de uma pessoa altamente prática e técnica, o Beck é um sujeito absolutamente bondoso, apesar de um jeitão por vezes carrancudo. Ele é autêntico e essencialmente dedicado a uma causa na aventura que envolve o simples contato com a natureza, sempre de forma a respeitá-la e interagir com ela.”.
O fato é que o cancelamento, sem aviso prévio, da revista deixou subitamente órfãos uma legião de andarilhos cativos por aquela proposta contagiante, apaixonada e sincera. Eu mesmo me incluo sem pudor nesse balaio. Entretanto, ao contrário de muitas outras publicações de vida curta, a “Aventura Já” deixara sua marca permanente no panteão de leituras obrigatórias do montanhismo tupiniquim. Num país de memória curta, onde a referência bibliográfica decente pra trekkers (ou montanhistas, bikers, escaladores, canoístas, etc) era escassa, a revista  despontou como “Bíblia” segura e confiável pra ser seguida.

Atualmente novas publicações e a própria internet democratizaram ainda mais esta demanda por informação, por sinal muito mais acessível que década atrás. Tracklogs hoje são encontrados de baciada por aí, devidamente mastigados pra qualquer um. É aí que reside o grande mérito da revista: obrigava seus leitores a pensar numa época de poucos recursos. Beck e Luiz Fernando quiçá nem tenham se dado conta que o sonho materializado deles não apenas supriu toda uma geração com material genuíno e verdadeiro. Deu também a ela as ferramentas e o incentivo necessários pra cair no mundo aventureiro, encorajando-a a buscar os grandes espaços selvagens e desfrutar da vida ao ar livre com o pouco que dispomos, bem aqui ao nosso redor. Resumidamente, nos ensinou que podemos ser os heróis de nossas próprias aventuras, nem mesmo que estas se limitem ao final de semana.

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