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Superação: Nosso colaborador Parofes fala em um relato no mínimo emocionante sobre sua doença no blog da Go Outside.

Montanhismo é saúde?

É de conhecimento de todos que esporte faz bem à saúde. Mas será que existe realmente um esporte que faz MUITO bem à saúde, mais do que o normal? Eu digo que sim. Vamos refletir um pouco sobre o assunto e pesar na balança para ver se o lance é mesmo algo digno de pensamento. gooutside.uol.com.br/1863

Fonte: Altamontanha.com/Go Outside

É de conhecimento de todos que esporte faz bem à saúde. Mas será que existe realmente um esporte que faz MUITO bem à saúde, mais do que o normal? Eu digo que sim. Vamos refletir um pouco sobre o assunto e pesar na balança para ver se o lance é mesmo algo digno de pensamento.

Quando eu era bem jovem, dos meus quinze até meus vinte e um anos, praticava vôlei no subúrbio do Rio de Janeiro. Eu era um completo aficionado pela modalidade, praticava todo final de semana, sete horas no sábado e sete horas no domingo, britanicamente. Entretanto, era extremamente magro para minha estatura de 1,79m: pesava somente 57 quilos. O desgaste que eu provocava ao meu corpo não me deixava ganhar peso. Isso era inevitável, e impedia de eu me desenvolver saudavelmente, já que durante a semana pedalava muitos quilômetros todos os dias. Somando-se todas as atividades, eu queimava, em calorias, tudo que eu consumia no dia a dia, e não era pouco.

Eu comia de tudo, feito um leão. Lembro-me perfeitamente que até meus treze anos de idade, ingeria uma bisnaga inteira no café da manhã. Não é muito saudável, mas era o que eu fazia.

Passei por algumas provações na vida, como ver minha mãe sofrer um erro médico e ser enterrada viva (infortúnio que nossa família descobriu somente três anos depois, e os culpados nadam em verdinhas pelo mundo afora). Por causa de outro fato infeliz, acabei por entrar em coma alcoólico e ficar clinicamente morto por cinquenta segundos. Nunca fui um beberrão profissional e, justamente por isso, sofri com o coma alcoólico aos dezoito anos. O fato é que a bebida ocasional não faz mal, a bebida regular faz mal, e a bebida em excesso faz muito mal. Passei a beber socialmente e regularmente, todos os finais de semana. Pelo menos duas cervejinhas com os amigos.

A faculdade veio e, enquanto trabalhava, estudava, e morava sozinho, eu bebia a cada três dias pelo menos uma gelada e, nos finais de semana, nos churrascos na minha casa com os colegas graduandos, rolava um pileque tradicional dos universitários.

A faculdade terminou, um ano novo veio (o ano de 2006) e, neste, eu planejei minha primeira viagem para conhecer a América do Sul, o que aconteceria no ano seguinte.

Até que em janeiro de 2007 minha vida mudou. Por conta do bloqueio que peguei na Bolívia, fui “jogado” no montanhismo e acabei culminando, sem querer, uma montanha de 4.500 metros. E, logo em seguida, já fiz uma de 4.800 metros, voltando para casa com a carreira já iniciada, sem planejar e sem saber no que havia me metido.

Um belo dia, eu e minha esposa (até então namorada) encontramos um amigo nosso em São Paulo e bebemos bastante. Tomei um pileque e uma surra da cana com ele, passei muito mal depois de uma caixa de cerveja e algumas branquinhas. Depois de diversos episódios de refluxo e uma noite de banheiro, resolvi que meu corpo, que já tinha na época 30 aninhos incompletos, não aguentava mais a cana caiana. Decidir largar a birita, e larguei sem dó nem piedade da noite paro dia.

Comecei a me equipar e entrei no montanhismo de cabeça. Depois de oitenta montanhas brasileiras, vinte e duas andinas, e três europeias, meu corpo mudou radicalmente.

Já faz quase dois anos que abandonei refrigerantes e frituras – só não abandonei mesmo um belo de um bife e batatas fritas, que só me permito comer a cada quinze dias ou quando saio de uma recente internação do hospital  por motivos óbvios (Parofes descobriu no ano passado que tem uma deficiência medular que prejudica a produção dos componentes sanguíneos. Leia mais aqui).

Bem, por que contei essa historinha para dormir? Para fornecer dados a quem quer deseja por tudo isso na balança e chegar a uma conclusão óbvia, empírica: o montanhismo traz muita saúde.

Quando comecei a praticar o montanhismo já tinha 29 anos de idade; tarde, portanto, já não tinha mais o vigor de um garoto de 18 ou 19, faixa etária mais comum para ingressar nesse esporte. Assim sendo, precisava ganhar tempo perdido, e só com saúde conseguiria realizar tal proeza. Larguei a bebida e o resultado foi assustador. Consegui fazer coisas em montanha que eu não acreditava que pudesse e, assim, também começou o meu amor pela fotografia.

Ao longo de quatro anos eu fiz praticamente tudo o que tenho no cinturão em termos de montanha até hoje – já que levei quase um ano me equipando para entrar no esporte e, há mais ou menos um ano, estou parado por conta da minha condição. Então, pode-se dizer que tudo aconteceu muito rápido.

Agora vamos entender onde o montanhismo se aplica para o meu sucesso inevitável contra esta irritante LMA, Leucemia Mielóide Aguda:

>Eu não bebo nenhuma bebida alcoólica faz seis anos;
>Eu não como praticamente nada de frituras há quase dois anos;
>Eu não bebo refrigerantes há quase dois anos;
>Nunca fiz uso de drogas e sou completamente contra.

Como isso me ajudou?

Hoje, vejo claramente o resultado positivo de tudo isto. No momento de minha primeira internação, quando desenvolvi a colite (ou tiflite, que mata quase cem por cento dos pacientes de leucemia que acabaram de passar pela quimioterapia de indução, a mais tóxica do tratamento, primeira da luta, justamente por estar sem sistema imunológico por quase três semanas), a morte era certa. A dor era insuportável e, mesmo depois de perder dezesseis quilos e passar oito dias na morfina para aguentar o tranco, eu nunca perdi a esperança, e sempre fui gentil com faxineiras, auxiliares de enfermagem, enfermeiras e médicos. Até mesmo com os dois carinhas que entravam no meu quarto uma e meia da manhã por conta dos raios-X de tórax que eu fazia todos os dias da minha permanência na UTI, para rastrear uma possível infecção respiratória.

Aguentei, e posso dizer que aguentei com honra ao mérito. O ânimo não me escapava por quinze minutos. Negava ajuda para tomar banho, me segurando em qualquer coisa que tivesse um ângulo de noventa graus onde pudesse me apoiar, e chegava ao banheiro onde largava quase meio litro de sangue – quando eu conseguia evacuar. Os médicos temiam pela minha vida. Eu, não.

Quando a aplasia pós-quimio terminou, os médicos não acreditavam na minha recuperação, e tudo que eu pude fazer além de agradecer foi ir até a central de enfermagem da UTI, abrir no computador deles, buscar “Parofes” no Google Imagens e mostrar para o pessoal um Parofes que eles ainda não conheciam: várias fotos minhas que aparecem como resultado na pesquisa para entenderam que não tinham um paciente qualquer, tinham um montanhista.

Um montanhista se cuida, cuida de seu corpo, faz de tudo ao seu alcance dentro dos limites do saudável para reparar quaisquer defeitos que pintem, para que seu desempenho seja bom na montanha, para que atinja seus objetivos e possa compartilhar com amigos e a “comunidade da montanha” seus feitos “heroicos”. Montanhismo é um esporte de ego, isso é um fato inegável.

Depois de reparar tudo, de se sentir “zero bala”, o montanhista vai à montanha e maltrata a carcaça. Não tem problema, aguentamos de tudo e, logo logo as feridas fecham e fica tudo certo. Que venha o próximo. Assim que eu pensei quando semi-congelei o dedão do pé escalando o Mont Blanc na França, ou dormi nas ruas de Zurich, Suíça, por três noites com dores diversas.

Assim foi na Serra Fina, quando fiz a travessia com Leucemia, deixando um rastro de sangue de ponta a ponta na serra. Foi desagradável, entretanto, memorável. Eu e um amigo, fotógrafo de natureza, tivemos a Serra para nós somente, e tiramos fotos a cada minuto da travessia.

Em uma determinada parte de nosso cérebro chamada hipófise são produzidas, nos momentos de gasto de energia, proteínas cujo nome é endorfina. Elas são responsáveis pelo sentimento de euforia, felicidade e, em alguns casos, desprendimento extra de energia, aquela espremida nas pernas e braços que só os montanhistas sabem como fazer na tão sonhada hora do ponto culminante de uma montanha.

A endorfina age gerando sensações e reações em nosso corpo semelhantes à morfina. Claro, de certa forma isto não é muito bom. Mas no nosso caso é uma maravilha. É um tipo de droga lícita, produzida pelo nosso corpo e para o nosso corpo. A sensação pura e simplesmente pode ser resumida em um nome: felicidade.

Pelo fato de que as endorfinas são dizimadas rapidamente, aniquiladas por certas enzimas cuja função é manter o equilíbrio da grande máquina que é o corpo humano, é perfeitamente compreensível que busquemos repetir aquele momento em que nosso corpo identificou uma situação que o agradou, e produziu rapidamente as drogas naturais da felicidade plena, inocente. Por isto o montanhista, assim como qualquer outro esportista, quer sempre mais.

Claro, não é só o esporte que gera as deliciosas endorfinas: sexo, música de seu gosto, relaxamento, alimentos como chocolate, tudo isto libera as danadas e causa aquela sensação gostosa, mesmo que momentânea, de felicidade.

O interessante é que o montanhista de altitude, que sempre exercita a memória do corpo, tem um “quê” a mais quando se trata de evoluir o estado de simbiose. Ele encara a altitude e o ar rarefeito. Fazendo isto, o nosso corpo se acostuma a trabalhar em relativa harmonia quando se encontra em situações de privação parcial de oxigênio, a tal aclimatação, ou uma situação de enfermidade que afete os pulmões, ou o sangue, os tais distúrbios hematológicos, que por sinal são superinteressantes de se estudar e péssimos de se ter como doença.

Um surfista anêmico se priva e toma as providências para resolver a anemia. Um tenista vai buscar o melhor médico da área e resolver o problema. Um montanhista anêmico não se preocupa, ajusta a alimentação, e sobe outra montanha.

Aliás, quando ainda estava em diagnóstico, anêmico, fui até a borda leste do Parque Nacional do Itatiaia com o amigo e parceiro de montanha Tácio Philip, onde em quatro dias e quatro noites, de bivaque, exploramos montanhas que praticamente ninguém visita no parque. Isso foi há exatamente um ano.

Penso, com todo respeito aos profissionais da área, que eu pratico o esporte certo, e que o montanhismo junto do apoio de minha esposa que me causa altas doses de endorfinas com todo companheirismo, amor e cumplicidade que me dá, estão salvando a minha vida, e vão salvar a minha vida. É só uma questão de tempo.

Eu não reclamo das agulhadas, quando uma veia cansa e forma um inchaço, busco outra e é por ali que eu vou orientar a enfermeira a encontrar o caminho e trabalhar no acesso venoso para medicamentos e transfusões de plaquetas e hemácias.

Eu não reclamo da quimioterapia. Temia o tratamento como qualquer pessoa sã depois de tanta literatura escrita e filmada vista pelo mundo sobre leucemia e o tratamento desgraçado que é. Para mim, a quimioterapia só causou cinco episódios de vômito durante a primeira etapa, a indução, e severa perda de apetite.

Na segunda etapa, que foi a primeira da chamada consolidação, eu não tive nada. Entrei rindo e saí gargalhando. Um belo dia cheguei ao hospital com apenas 8 mil plaquetas na contagem, batendo papo com a enfermagem e com pacientes na emergência, de pé, rindo, e jogando Angry Birds no meu celular. Para se entender a gravidade disto, o normal para uma pessoa saudável de minha idade é entre 200 mil e 500 mil plaquetas. Um esbarrão mal dado em uma quina de mesa acertando meu abdômen e eu poderia ter uma grave hemorragia interna, indo a óbito em questão de meia hora se o sangramento não fosse controlado.

Neste dia, passei quase dez horas até que um apartamento fosse liberado para minha internação. Passei o tempo em um puro exercício antropológico de observação comportamental de funcionários do Pronto Socorro, pacientes e impacientes, se é que me permitem o duplo sentido. Foi sensacional. Aprendi mais ainda.

Encaro tudo como uma diferenciada experiência de vida, e do fundo do coração, uma experiência boa, pois aprendi muito com o que acontece comigo nos últimos quinze meses, e de tantos outros por vir. Encaro tudo com positividade, pensamento inteligente, estudado e, acima de tudo, realista. Não sou idiota, se pudesse escolher entre ter ou não leucemia, obviamente escolheria não ter. Tudo que digo é que a experiência provou ser de engrandecimento pessoal e intelectual, para o Parofes é claro. Para a maioria, isso se resume ao sofrimento, desgraça pessoal e familiar. Minha família me apoia em todo momento, e isso é essencial.

A última vez que falei com meu médico sobre quimioterapia, o cara que é o responsável por me colocar em remissão, o diálogo foi no mínimo canastrão:

Dia cinco da primeira quimioterapia de consolidação (última dose de três).

Médico: “E aí Paulo, tudo certo? Tá sentindo alguma coisa?”

Parofes: “Cara, nada, tô me ocupando aqui escrevendo meu livro... Que droga fraquinha, hein!?”

Médico: “Doido[rs]. Bicho, acho que vou te mandar para casa amanhã se tudo estiver bem no seu exame de hoje.”

Parofes: “Boa, assim posso comer um bifão com a ‘primeira-dama’ em casa.”

Médico: “Legal, amanhã cedo vemos então.”

Parofes: “Chego a ter pena dessa tal de Sr. Leucemia. Ela escolheu o cara errado pra brincar.”

Médico: “Vai nessa, doido [garagalhadas].”

À noite, fiz um novo hemograma e, na manhã seguinte, fui para casa comer um bifão de chuleta de meio quilo. Dias depois, voltei em aplasia pós-quimioterapia (período em que a medula óssea entra em estado de “animação suspensa”, para de trabalhar por causa da químio, e portanto transfusões de plaquetas e hemácias são essenciais para manter o paciente vivo e funcional). Retornei para algumas transfusões de plaquetas (o episódio que acabei de citar, cuja contagem era de 8 mil), e fiquei sabendo que, entre todos os doze pacientes no meu andar, onde só ficam hematológicos, uma senhora faleceu, um estava em quimioterapia para transplante passando muito mal e tendo reações alérgicas, e os demais estavam fazendo quimioterapia. Alguns deles com reações amenas e outros colocando os bofes de fora por causa da maldita seleção de drogas. Eu escutando [o compositor norte-americano] Basil Poledouris e escrevendo páginas e mais páginas de meu livro no notebook.

Montanhismo faz ou não faz bem pra saúde? Claro que faz, seu besta! Larga o Facebook e vai para a montanha. Daqui a uns dias volto para o hospital e me interno para a segunda rodada de consolidação. Manda ver, eu aguento.

Abraços a todos, Parofes.

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