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Terceiro cume brasileiro no Ama Dablam

Onde está Wally? No Ama Dablam!

Passados quase dois anos, é hora de resgatar um evento ocorrido em 2011 e que passou quase desapercebido. Em novembro daquele ano, o carioca Antonio Carlos Fernandes de Borja, conhecido por todos como Wally, pisava no cimo do Ama Dablam (o terceiro cume brasileiro naquela montanha).

Fonte: Texto de Rodrigo Granzotto Peron

A MONTANHA
 
O Ama Dablam (6812m), localizado na Região do Khumbu, Nepal, é considerada uma das montanhas mais belas do planeta, por seus contornos dramáticos, em encostas que lembram um ser humano estilizado, com seus ombros e braços pendendo sobre o vale que jaz nas cercanias da vila de Pangboche.
 
Trata-se de um pico tecnicamente interessante, e a sua proximidade com a rota-padrão nepalesa do Everest faz com que seja extremamente popular. Até o final de 2012, foram anotados mais de 3.400 cumes, por aproximadamente 2.800 pessoas diferentes.
 
O BRASIL E O AMA DABLAM
 
As relações de nosso país com a montanha são bastante recentes. A primeira expedição deu-se somente em 2005, e desde então tivemos apenas mais quatro outras. Eis a lista completa de investidas verde-amarelas:
 
2005 Rodrigo de Mello, Arnaldo Ribeiro Pinto e Jadar Simonelli (até 5600m)
2008 Roman Romancini [1º cume], Ana Elisa Boscarioli (até 5800m)
2009 Emilia Yoko Takahashi [2º cume]
2010 Marcelo (Bonga) Santos, Maurício (Tonto) Clauzet, Allir Welner (até 6000m)
2011 Antonio Carlos (Wally) Fernandes de Borja [3º cume]
 
WALLY
 
O personagem enfocado no presente artigo é carioca, nascido em 11 de abril de 1958. Começou a escalar em 1992, a partir de sua filiação ao Centro Excursionista Brasileiro (CEB). Formou-se guia em 1996. Também é filiado ao Centro Excursionista Teresopolitano (CET), ambas entidades federadas à FEMERJ.
 
Em seu currículo, além de múltiplas escaladas no Brasil, também são contabilizadas ascensões ao Aconcágua, Alpamayo Chico, Huayna Potosí, Mt. Roraima, além de outras mais na Patagônia chilena.
 
A EXPEDIÇÃO AO AMA DABLAM EM 2011
 
No outono de 2011, Wally embarcou em expedição ao Nepal tendo como destino o Ama Dablam. A expedição era liderada pelo japonês radicado no Brasil Tatsuo Matsumoto, e composta, também, pelo pessoal de apoio nepalês Nima Sherpa e Phurba Namgyal Sherpa (este, veterano com quatro cumes no Cho Oyu, quatro no Ama Dablam e dois no Everest). Segundo o escalador, “tivemos uma relação de amizade muito bacana com eles. Além da grande experiência na montanha”.
 
No trajeto ao Ama Dablam, culminaram o Kala Pattar (5545 m), o Lobuje East (6119m) e o Island Peak (6173m), montanhas que serviram, também, para aclimatar.
 
Assim, com o organismo já adaptado à hipoxia, Antônio Carlos Fernandes de Borja, juntamente com os demais membros do time, chegou ao cume do Ama Dablam no dia 7 de novembro de 2011, meros quatro dias após a chegada ao campo-base.
 
A conquista transformou-o no terceiro brasileiro – e segundo carioca – a ascender a Jóia do Khumbu.
 
BATE-PAPO COM O ESCALADOR
 
P: Quando e como você iniciou no montanhismo?
 
W: Iniciei a escalar em 1993, e naquela época nem pensava em alta montanha.
 
No início, fazia caminhadas e nunca cogitei ser escalador. Achava que era coisa de louco! Até que um dia fiz o curso de escalada em rocha pelo CEB, para ficar mais seguro nos trepa-pedras das caminhadas. Foi então que comecei a gostar da coisa.
 
Sentia-me bem na pedra e feliz. Passei a trabalhar melhor e mais seguro. Levei para minha vida pessoal as experiências nas montanhas.
 
Então, viajei para a Bolívia para fazer um curso de escalada em gelo, quando tive meus primeiros contatos com montanhas geladas e bem altas. Acho que isso me tocou. Depois do curso, escalei o Pequeno Alpamayo, Huayna Potosí, Aconcágua na Argentina. Escalar o Aconcágua  me deu um pouco mais de experiência, afinal, foram quatro idas ao Sentinela das Américas. Claro que nem todas as vezes consegui o cume. Somente na 3ª vez fiz o cume, aí já bem mais experiente.
 
P: Como surgiu a oportunidade de escalar o Ama Dablam?
 
W: Escalar o Ama Dablam não estava originalmente nos meus planos, por ser uma viagem cara.
 
A história começou no aeroporto, quando fui buscar o Sr. Matsumoto, que tinha feito o Everest e completado os 7 Cumes [N. R. em maio de 2011]. Tenho muita admiração por ele, com seus 72 anos ele é incrível.
 
Foi o Sr. Matsumoto que me convidou para ir ao Nepal escalar três montanhas depois de fazer o trekking ao acampamento-base, como preparativo e aclimatação.
 
Não conseguia nem dormir direito, sempre pensando no convite de ir ao Nepal. Coloquei na cabeça que dava para ir e fui vendendo algumas coisas, tipo: carro, corda, bike, e trabalhando muito para juntar o dinheiro da viagem. Claro que meus amigos me ajudaram no trabalho, pois ficaria muito tempo fora. Foi uma viagem cara, mas valeu cada centavo. Quando dei por mim, já estava em Katmandu com a galera.
 
P: Em linhas gerais, como foi a escalada? E a adaptação à altitude?
 
W: O Ama Dablam é realmente uma montanha muito bonita, mas também perigosa e técnica.
 
Fizemos tudo certo nos preparativos [N. R. culminaram dois 6000 e um 5000 ao longo de vinte dias de marcha de aproximação] e já estávamos bem aclimatados. As maiores preocupações eram a questão do tempo e o vento.
 
Chegamos no campo-base com o clima ruim e muito frio. Nossa programação era descansar um dia. As informações que tínhamos eram de que uma janela de bom tempo iria se abrir e que duraria três dias. Partimos montanha acima ainda com o tempo ruim, mas melhorando gradativamente. A idéia era alcançar o campo de alta altitude no início da janela de bom tempo, para realizar a investida ao cume.
 
Consegui aproveitar bem a integração com os guias locais, seguindo todas as orientações e respeitando muito a montanha.
 
P: Qual o trecho de maior dificuldade (crux)? Como foi o ataque ao cume?
 
W: Passamos por momentos difíceis também, não vou negar.
 
O trecho que senti maior dificuldade foi indo para o cume, depois de sair de nosso acampamento três, por sinal bem perigoso (exposto). Esse campo era bem inclinado e fazia muito frio. Minhas luvas começaram a apertar e não estava sentindo os dedos das mãos. Isso, sem contar o risco de avalanche. 
 
Para piorar as coisas, deixei cair meu piolet na mudança das cordas fixas. Pensei: ferrou! Por sorte, o piolet técnico fincou no gelo e não acertou ninguém. Conseguimos resgatar o equipamento logo depois. Ainda, tive que trocar as luvas por outras mais velhas e mais largas, e com isso acabei me atrasando.
 
Com todos esses percalços, o sirdar me perguntou se, apesar do atraso e da perda do piolet, eu ainda iria querer atacar o cume. Apenas olhei para cima e apontei. Ele entendeu a mensagem e se sentiu ainda mais seguro com a minha confiança.
 
Mantive a calma e as coisas foram se ajeitando.
 
O Sr. Matsumoto já tinha se distanciado à frente. Encontrei-o depois, descendo do topo. Ele falou “Wally, faltam apenas 20 minutos para você chegar lá em cima”. Foram os 20 minutos mais longos da minha vida, o cume parecia não chegar nunca.
 
P: Qual a sensação de fazer cume na montanha mais bela da Ásia?
 
W: Enfim, pisei no cimo às 11 horas e 20 minutos, tendo saído do acampamento de altitude às 6 da manhã. Naquele instante tudo parecia um sonho, o dia estava perfeito, não tinha vento e a vista das maiores montanhas do mundo enchia meus olhos. Fiquei muito emocionado e agradeci a Deus e Buda com todo respeito à montanha. Agradeci mentalmente a todos os que haviam me ajudado, e principalmente ao Sr. Matsumoto, pois sem ele não teria chegado ali. Tirei algumas fotos, filmei um pouco, mas a bateria da minha máquina estava acabando.
 
P: E a descida, como transcorreu?
 
W: Lembrando que o cume é apenas uma parte da montanha e que na descida é que ocorre a maioria dos acidentes, pois os escaladores estão cansados e relaxados, iniciamos a descida. 
 
Ao pular uma greta, pisei muito na beirada, e o sonho do cume virou uma séria realidade. O gelo desmoronou. Se eu não estivesse encordado e o guia não fosse esperto, já teria me transformado em uma estatística negativa da montanha.
 
Passado o susto, descemos com redobrada atenção, com muitos rapéis, com cordas que não eram lá essas coisas.
 
Chegamos no campo 2 exaustos e dormimos direto. No dia seguinte, seguimos para o campo-base, onde fomos recebidos por todos com muita alegria. Ganhamos até um bolo de congratulações, feito pelo nosso cozinheiro.
 
Sozinho na minha barraca, caiu a ficha do que tinha acabado de realizar. Escalar no Himalaia é uma coisa mágica.
 
P: Como tu comparas essa escalada com as outras montanhas de alta altitude que você já fez anteriormente?
 
W: Escalar o Ama Dablam foi a coisa mais bonita que já tinha me acontecido. Diferente do Aconcágua, que é mais seco, havia muito gelo. Ela é realmente imponente e respeitada pelos alpinistas.
 
P: Há no futuro projeto para escalar outras montanhas da Ásia? Algum 8000 no horizonte?
 
W: Tenho alguns projetos e planos em andamento. Tenho vontade de escalar nos Alpes e nos Andes do Peru.
 
Claro que tenho vontade de escalar alguma montanha acima de 8000 metros, mas isso é um outro sonho.
 
 
Matéria escrita e entrevista conduzida por: Rodrigo Granzotto Peron
Finalização do texto: 11-6-2013

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