A alma e a memória

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– Olha, o teu projecto está em condições!
A mais de mil quilómetros de distância conseguia sentir a excitação na voz do Miguel Grillo ao telefone. Nem sequer era necessário dizer-me o nome, para eu adivinhar a que projecto se referia. Estávamos em pleno inverno de 2002, e eu estava “plantado” em Benasque, no coração dos Pirinéus. O Miguel, o João (Animado) e o Hélder Massano encontravam-se na Serra da Estrela. Naqueles dias, tinham-se formado quase todas as cascatas habituais, incluindo a rara e emblemática “Cascata do Inferno”. Mesmo à direita desta ultima “ex-libris”, existe um tecto pronunciado desde o qual se ergue de quando em quando, uma fantástica cascata de gelo inacessível, a quase 30 metros da base da parede. Esta inacessibilidade, esta aparente impossibilidade, foram talvez os verdadeiros motivos que despertaram a minha imaginação, que atraíram os meus sonhos de aventura. Aquele tecto provocador de granito, um tecto que cortava inexoravelmente o acesso à bela linha de gelo imaculado, representava um desafio irresistível.

 

A alma e a memória
 
Olha, o teu projecto está em condições!
A mais de mil quilómetros de distância conseguia sentir a excitação na voz do Miguel Grillo ao telefone. Nem sequer era necessário dizer-me o nome, para eu adivinhar a que projecto se referia. Estávamos em pleno inverno de 2002, e eu estava “plantado” em Benasque, no coração dos Pirinéus.O Miguel, o João (Animado) e o Hélder Massano encontravam-se na Serra da Estrela. Naqueles dias, tinham-se formado quase todas as cascatas habituais, incluindo a rara e emblemática “Cascata do Inferno”. Mesmo à direita desta ultima “ex-libris”, existe um tecto pronunciado desde o qual se ergue de quando em quando, uma fantástica cascata de gelo inacessível, a quase 30 metros da base da parede. Esta inacessibilidade, esta aparente impossibilidade, foram talvez os verdadeiros motivos que despertaram a minha imaginação, que atraíram os meus sonhos de aventura. Aquele tecto provocador de granito, um tecto que cortava inexoravelmente o acesso à bela linha de gelo imaculado, representava um desafio irresistível.
 
A partir de meados dos anos 90 sentia-me altamente inspirado com a escalada em gelo e a “nossa serrinha”, revelara-se um excelente campo de exploração e aventura. Depois de escaladas várias linhas geladas, hoje clássicas frequentes (se é que os termos “clássica” e “frequente” podem ser aplicados ás características extremamente efémeras do gelo na Estrela), uma ocorrência iria modificar, para sempre, a minha forma de ver a escalada invernal. Essa ocorrência foi a visão de uma simples fotografia. 
 
A foto em questão tinha sido publicada na capa da revista espanhola Desnível, em Janeiro de 1995 e eternizava o Jeff Lowe, suspenso num tecto perfeito, com um dos novíssimos (na época), piolets “pulsar”, gancheado numa fissura rochosa e o outro piolet, cravado numa impressionante estalactite de gelo suspensa no vazio. Era uma visão única, mesmo grotesca. Decididamente poderosa. A fotografia testemunhava a abertura da “Octpussy”, em Vail, nos Estados Unidos e tornou-se de imediato o símbolo de uma pequena revolução no mundo da escalada em gelo, o nascimento de uma disciplina tão estranha quanto inquietante: o “Dry-tooling”. Um novo conceito que permitia utilizar deliberadamente as ferramentas típicas para se escalar gelo, em rocha pura. A teoria original advogava que o objectivo principal seria “caçar” colunas e cortinas de gelo inacessíveis de outra forma. 
 
Assim, de repente, diante dos meus olhos, novos mundos se iluminaram. Também a Serra da Estrela iria possuir algum representante dessa disciplina embrionária no mundo. Um dos mais importantes candidatos, o que mais se realçava pela sua estética e lógica, era aquela linha de cristal, a tal inacessível que se erguia do nada, à direita da Cascata do Inferno. Um dia de Inverno de 1997, sozinho e absorto no meu próprio entusiasmo, desci desde o topo e, munido com uma máquina emprestada, equipei as reuniões e coloquei algumas plaquetes no tecto e na placa desprovida de fissuras do primeiro lance. Nascia assim, um projecto ambicioso. Depois, passei noites de olhos abertos, a sonhar acordado, imaginando os movimentos atléticos, que me iriam levar ao sucesso e ao máximo da satisfação pessoal, na minha muito particular “Octopussy”.
 
Entretanto, os anos foram passando e, a cada inverno lá ia surgindo na minha cabeça a imagem daquela linha por escalar, como um fantasma sazonal disposto a atormentar-me o espírito, cada vez que caíam os valores do termómetro acompanhados pelos primeiros flocos de neve. Duas razões principais impediram a concretização de uma tentativa de ascensão digna desse nome: a via teimava em não se formar em condições ou quando se encontrava em condições, eu não estava por lá para tentar. 
 
Um dos factores de sucesso para se escalar gelo na Estrela é, “estar no lugar certo, na altura certa”. Foi o reconhecimento desse factor importante que levou o Miguel a telefonar para Benasque, naquele dia de inverno, não fosse eu desaproveitar uma hipótese de poder finalmente inaugurar a via sonhada. A minha estada pelos Pirinéus coincidiu com o surgimento da disciplina de “dry-tooling” em Espanha e, foi nessa altura que realizei o maior número de vias nesse estilo. Mais do que nunca, estava preparado para enfrentar as dificuldades da nova via na Serra da Estrela. Ironicamente, a distância imensa impedia-me aproveitar aquela oportunidade única. 
 
A título de desabafo, respondi ao Miguel: – Epá! Se está em condições, vão lá! Não deixem escapar essa linha! Secretamente, temia a resposta, do outro lado. Cavalheiro, o Miguel declinou o convite e, irremediavelmente, a via acabou por derreter… literalmente. Entretanto, passaram mais anos e o projecto desejado, a via ambicionada, a “Octopussy” lusitana da minha imaginação, ficaria relegada para segundo plano, destinada a um canto obscuro da memória. A situação de letargia foi apenas interrompida, em Março de 2010, por uma fugaz remexida em top-rope do primeiro lance, que permitiu chegar a duas conclusões capitais. A primeira, foi constatar que aquele primeiro lance era “duro que nem um corno!”. Um “M-Muito!” em termos de dificuldade. A segunda, foi confirmar que o equipamento fixo seria manifestamente insuficiente para manter uma potencial ascensão “à frente”, livre do sério risco de partir as pernas, em caso de queda. Uma vez mais, a escalada do eterno projecto fora adiado para futuras calendas.
 
28 de Fevereiro de 2013
 
Se calhar levo a máquina. Não vá “o projecto” estar formado… – Anunciei, enquanto organizávamos o material para mais uma incursão à Serra da Estrela.
 
No fim-de-semana anterior, a Daniela e eu tínhamos andado a farejar o gelo no sector do Corredor Largo e, desse reconhecimento saiu uma repetição nervosa da comprometida “Canalito” e uma “primeira” de uma pequena cascata que baptizámos com o nome “Micro-coisa”. Também tivemos notícias do Rui Rosado e do António Ferra que resolveram investigar o vale de Loriga, onde acabaram por abrir três novas linhas, das quais se destaca a “Youtube”, uma pequena, mas intensa via, com uma entrada em dry-tooling e uma coluna de gelo de saída – mais info sobre estas e outras aberturas na serra, no post seguinte.
 
A julgar pelas previsões do termómetro, os dias seguintes prometiam. A esperança de encontrar boas condições era tão forte que a Daniela resolveu meter uma folga de forma a aproveitarmos três dias plenos de escalada em gelo. A Sexta-feira revelou-se um dia de tranquilidade absoluta, sem o rebuliço habitual de turistas que invadem a zona alta da serra, durante o fim-de-semana. Abrindo uma trincheira na neve densa, descemos o arqui-clássico “Corredor do Inferno” e, imediatamente descobrimos as paredes que marginam a garganta, pejadas do tão desejado elemento congelado.
 
Ao chegar ao fundo do corredor: Yes! Ali estava a mais desejada das cascatas. A “Cascata do Inferno”, formada e imaculada à espera das primeiras pioladas da época. Os olhos da Daniela brilhavam de emoção. Era uma cascata que desejava muito escalar e agora, surgia a oportunidade, talvez única. Durante as horas seguintes, concentrámo-nos na ascensão dos 70 metros de gelo que constituem esta bela via de rara formação. O dia não podia ser mais perfeito. O azul intenso do céu contrastava com o manto branco pálido da neve. A total tranquilidade do ar frio era apenas interrompida pela respiração profunda, a cada passo vertical mais delicado.
 
Ao chegar ao topo, a satisfação era notória. Impossível ficar indiferente, perante o privilégio de completar uma via daquela qualidade. Sem dúvida alguma, uma das linhas de gelo mais estéticas da Península Ibérica, mesmo ao lado de casa. A descida em rapel, colocou-nos mesmo em cima do antigo “projecto”. Uns pontapés na coluna suspensa no lábio do grande tecto comprovaram as excelentes condições do gelo. Imediatamente, a sensação do “agora ou nunca” atravessou-me os neurónios, como um relâmpago imprevisto. Era tarde para uma tentativa digna desse nome. “Talvez amanhã”. Pensei.
 
Mas, no dia seguinte aquele sector iria estar mais concorrido. Tendo conhecimento das boas condições do gelo na “Cascata do Inferno”, um grupo de escaladores meteu-se imediatamente em fila para, também eles, espetarem ali, os seus piolets e crampons. Recordei uma dolorosa pancada no nariz, fruto de um bloco de gelo lançado por um escalador acima da minha posição, numa cascata demasiado concorrida, durante uma recente actividade nos Pirinéus. Essa memória fez-me vacilar na decisão de retornar ao sector do Inferno no dia seguinte. A Daniela ajudou a quebrar as dúvidas: – Se achas que esta é uma oportunidade em mil, vamos lá! Afinal, vamos estar afastados uns dos outros o suficiente, para não haver perigo.
 
No dia seguinte, de máquina em riste, acrescentei, sem apelo nem agravo, uma série de novas plaquetes na placa exposta do eterno projecto. Escalava em artificial desde baixo e, ao mesmo tempo ia verificando que tal seria se, por um acaso, tivesse a estamina suficiente para realizar aquilo em livre. Fingia tentar os passos em livre, apenas para concluir (uma vez mais) que estava diante de uma via absolutamente futurista na Serra da Estrela.
 
De certa forma, desiludido pela constatação da minha própria fraqueza, a minha cabeça decidiu que iria descer após a colocação do último expansivo, antes de ultrapassar o tecto e meter-me no gelo. Desistiria assim, de abrir a tão desejada via, naquele dia.
 
Coloquei a ultima plaquete mas, num impulso irresistível, estendi o corpo e cravei o piolet no alto da coluna. “Surprise!” O gelo continuava excelente. Era desconcertante. Agora, esgotavam-se as desculpas para não prosseguir.
Atenção, rédea curta na corda porque vou tentar sair para cima! – Anunciei, ainda com algumas reservas. Às primeiras “pioladas”, chegou a certeza imediata que iria conseguir. Relaxei, respirei… alguns minutos depois estava suspenso na reunião, a uns quatro metros do final do tecto. “Uau!” A Daniela juntou-se a mim, após realizar a escalada do primeiro lance também em artificial.
 
No entanto, para considerar a via real e oficialmente aberta, faltava ainda escalar o segundo lance, integralmente em gelo. Esse facto não constituía qualquer problema, antes pelo contrário, dada a excelente aparência do “edifício” congelado que se erguia por cima dos nossos capacetes. O que se seguiu, foi a realização de uma das mais fantásticas cascatas jamais formadas pela natureza, na nossa Serra da Estrela. Uma estrutura com quase 40 metros, ligeiramente mais empinada que a própria “Cascata do Inferno”.
 
No topo, exultantes, celebrámos a primeira ascensão de uma via extraordinária, uma linha realmente singular na nossa geografia. Para mim, algo mais que uma simples escalada. A Daniela e eu resolvemos baptizar a via com o nome “GRÂNDOLA, VILA MORENA”, como uma forma de protesto e contestação, neste período conturbado em que vivemos e, como homenagem singela e improvável ao poeta incontestável que criou esse hino “da malta”.
 
Passado o período de relativa embriaguez pós-realização e, analisando objectivamente a concretização, ao nível técnico, a nova via não representa nenhuma grande novidade. A utilização da máquina reduziu bastante o nível de exposição e transformou o primeiro lance num mero exercício desportivo, com excepção para a primeira parte de cascata fácil e a saída do tecto, para a coluna e reunião. No entanto, em abono da verdade, não existiam outras opções de protecção (pelo menos no inverno, quando as pequenas fissuras de saída se encontram totalmente tapadas de gelo e, inutilizáveis). Por outro lado, nasceu uma via que pode ser escalada em artificial, para ganhar a bela cascata aérea e espectacular. 
 
Finalmente, no campo do dry-tooling ali fica um desafio para o futuro, com óbvias dificuldades técnicas e físicas. Para mim, abrir esta via representou o culminar de um sonho. Não um sonho impetuoso e fanático, mas sim um desejo em água morna, que ia e vinha ao longo de todos estes anos, por vezes com um pouco mais de intensidade, outras vezes, sob a forma de um breve pensamento, um ténue recordar. Este sonho, este desejo, este pensamento, acompanhou uma parte importante da historia da escalada invernal na Serra da Estrela e, acompanhou também os companheiros e amigos aos quais me encordei durante este longo período.
 
Uma velha ideia concretizada. Uma ideia com mais de 15 anos.
 
Para mim… uma escalada com alma.
 
Uma ascensão com memória.
 
Paulo Roxo
 
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Sobre o autor

Daniela e Paulo - Colunistas

Daniela Teixeira e Paulo Roxo é uma dupla portuguesa que pratica escalada (rocha, gelo e mista) e alpinismo. O que mais gostam? Explorar, abrir vias! A Daniela tem cerca de 10 anos de experiência nestas andanças e o Paulo cerca de 25. A sua melhor aventura juntos foi em 2010, onde na cordilheira de Garhwal (India - Himalaias), abriram uma via nova em estilo alpino puro na face norte da montanha Ekdante (6100m) e escalaram uma montanha virgem que nomearam de Kartik (5115m), também em estilo alpino puro. Daniela foi a primeira e única portuguesa a escalar um 8000 (Cho Oyu). O Paulo é o português com mais vias abertas (mais de 600 vias abertas, entre rocha, gelo e mistas). Daniela é geóloga e Paulo faz trabalhos verticais. Eles compartilham suas experiências do velho mundo e dos Himalaias no AltaMontanha.com desde 2008. Ambos também editam o blog Rocha Podre, Pedra Dura (rppd.blogspot.com.br)

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