A Conquista do Cerro Concórdia

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O Cerro Concórdia é um colosso de pedra a elevar-se a pouca distância da cidade e todos concordavam que não seria possível aos homens escalá-lo, pior ainda, em seu cume residia o próprio diabo. Até que um caboclo corajoso desbravou o caminho através da selva inóspita e dos paredões incultos, a partir dai escalar a montanha virou mania nacional para os fortes e destemidos que com isso alcançavam grande prestígio.


Para expulsar o diabo se rezou uma missa no cume que se repetia a cada ano atraindo sempre mais fiéis e os caminhos para o topo se multiplicaram, mas muitas pessoas acabavam por perder-se nestes labirintos na mata. Então se formou a Associação dos Amigos do Cerro Concórdia – AACC – que numa primeira iniciativa para organizar a bagunça tratou de marcar com fitas coloridas cada um dos diferentes acessos a montanha.

A moçada gostou da brincadeira e passaram infinitos finais de semana amarrando fitas nas árvores e por todo o tempo que dedicaram a montanha acabaram sendo chamados de montanhistas, mas um dia o serviço acabou e ninguém voltou a se perder por ali. Assim viram que sua obra era boa e resolveram ampliá-la instalando correntes nas rochas expostas para evitar possíveis acidentes e muito mais pessoas poderiam desfrutar da vista privilegiada no cume.

E assim o número de visitantes aumentou bastante juntamente com o lixo e a erosão. O impacto desagregador de seus milhares de passos aliados as chuvas torrenciais transformavam as trilhas em profundas e escorregadias valetas para infelicidade dos incansáveis montanhistas que passaram a construir pequenos diques com pedaços de madeira para impedir que a água escorra e carregue consigo o pouco de solo existente sobre a pedra. No conjunto formaram extensas escadarias quando os diques se encheram de sedimentos pesados e de lama nos muitos dias chuvosos.

Viram então que a obra poderia ser aperfeiçoada revestindo-a com pedras. Trabalho de formiginha e distração para muitos anos até que todas as trilhas ficaram totalmente calçadas por paralelepípedos, a erosão controlada e o barro definitivamente erradicado. Mas não existe limite para a laboriosidade humana e a AACC que já recebia destaque na imprensa tratou de substituir as arcaicas e escorregadias correntes por escadinhas de marinheiro com seus degraus metálicos firmemente fixados as rochas sob as luzes das câmeras de televisão.

Tudo se passou assim, talvez não nesta ordem rígida e muitas coisas foram executadas intercaladas e misturadas no decorrer de algumas gerações de laboriosos montanhistas, mas há ainda outra história a se contar. Desde o princípio sempre houve dissidentes, indivíduos egoístas que só pensam no próprio prazer. Alguns tomaram uma etapa da tarefa como um fim em si mesmo e passaram unicamente a se dedicar em escalar as pedras por puro esporte enquanto seus pares mais sociáveis dedicavam seus esforços em preservar o acesso e a integridade da montanha.

Estes seres levemente anti-sociais percorreram caminho inverso a AACC e no início cravavam pinos de metro em metro nas rochas que com o tempo e o apuro das técnicas foram ficando cada vez mais espaçados. Também aboliram a prática de cavar apoios artificiais para as mãos e os pés, tornando seu esporte sempre mais elitista e seleto. Agora a moda entre eles é apenas usar proteções móveis que são imediatamente retiradas depois do uso, caras e de difícil compreensão para os não iniciados que por falta de recursos financeiros ou técnicos ficam impedidos de participar da brincadeira.

Conviver com eles não era difícil, uma vez que apreciavam as obras que lhes permitiriam chegar rápido e facilmente até as bases dos paredões e se não cooperavam como deveriam também não incomodavam, mas havia os impertinentes. Caboclos rudes e individualistas que somente se satisfaziam na solidão da mata virgem, incapazes de apreciar o amplo e saudável convívio social. Bichos do mato tinham verdadeiro prazer em pisar na grama e no barro, sempre sujos, imersos na imundície dos piores mocós a procura de problemas. Refratários a toda e qualquer ordenação, circulavam fora das trilhas delimitadas, invadiam áreas de proteção para alcançar lugares remotos e potencialmente perigosos expondo-se a riscos desnecessários.

Um pesadelo para os agrupamentos de socorro na montanha, que nesta época já existiam apesar de docemente ociosos em virtude das rígidas e eficientes regras de segurança previamente estabelecidas para evitar acidentes. Partiram quando o Cerro Concórdia ficou civilizado demais para os padrões anormais destes insubordinados e foram se enfurnar em outras paragens, empenhados na conquista de nova fronteira anárquica no distante Pico “D”. Sumiram sem deixar saudades, uma dor de cabeça a menos para os intrépidos comandos da AACC que já tinham problemas demais organizando a conservação do acesso e a limpeza da montanha cada vez mais freqüentada por peregrinações religiosas de todos os credos, turistas naturebas e farofeiros de fim de semana que para lá se dirigiam desgastando e aporcalhando as trilhas.

A coleta do lixo e a manutenção dos caminhos são executadas em intermináveis mutirões com trabalho braçal e dinheiro de próprio bolso dos associados, gasto em benefício de toda a comunidade emocionada que a tudo assistia pela televisão. Surfando na onda conservacionista foi mérito da pressão e do empenho da Associação para se obter a tutela do Estado e a fundação do parque. Finalmente se estabeleceu o poder de polícia, um cadastro dos visitantes, horários, regras de conduta, zoneamento vocacional e mil proibições. A montanha e a natureza estavam salvas para sempre com os baderneiros cadastrados em milhares de fichas ordenadas por datas e nomes que deram origem a ensaios estatísticos e estudos de comportamento.

Trilhas limpas, calçadas e demarcadas, escadas seguras protegendo os usuários e o ambiente, a montanha domada e protegida pelo onipresente Governo, livre do perigo e dos acidentes, enfim democrática e ordeira. A divina missão empreendida por gerações se encerrava no Cerro Concórdia e os associados puderam enfim gozar de merecida aposentadoria em seus chalés ao pé da montanha, fazendo churrasco na varanda durante os finais de semana e vez ou outra subindo ao cume sem sujar os pés na lama para fumar um cigarrinho artesanal enquanto assistem um lindo por do sol. Não todos, alguns viraram empresários da aventura e montaram suas próprias empresas de turismo ecológico oferecendo escaladas radicais a todos que anseiam por fortes emoções. Outros se dedicaram a escrever memórias dos velhos tempos heróicos e também há os que administram  pousadas a sombra da montanha.

Mas uma boa idéia, que tantos bons frutos produziu, não morre facilmente e pouco tardou em novamente germinar aonde agora se tornava necessária. Inspirado nos altos padrões de eficiência de sua antecessora se fundou o Grêmio de Proteção ao Pico “D” – GPPD – para organizar o acesso e a conservação desta pobre e distante montanha relegada ao abandono, usando recursos do próprio bolso, estes neo-altruístas dedicam seus preciosos finais de semana a tarefa de demarcar trilhas, drenar atoleiros, conter a erosão e guarnecer as perigosas pedras com degraus de aço. Mas então reaparecem das profundezas da mata os insubordinados de sempre, praga perpétua, que só se satisfazem na sujeira e na imundície da anarquia na selva inóspita.

Isolacionistas e parceiros dos bichos selvagens, como tais se comportam trilhando sempre por veredas virgens e solitárias, afastados da lei, da ordem e dos bons costumes. A exemplo dos animais exploram a montanha e a natureza apenas para proveito próprio sem jamais dedicar-lhe qualquer serviço ou cuidado. Uma inesperada reação ao progresso rebatizou a montanha com o nome de Pico da Discórdia, mas dificilmente seu destino será alterado. Em resposta ao desrespeito destes suspeitos da sabotagem é que o GPPD exige a criação de uma UC (Unidade de Conservação) para proteger a montanha e espera que o Estado impeça a livre circulação destes criminosos.

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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