A Natureza do PE da Serra do Mar

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O Parque foi criado em 1977, para preservar os remanescentes da Mata Atlântica. No passado, ela cobria um oitavo de nosso território, mas está hoje reduzida a menos de um décimo do que era. O Parque constitui a maior área contínua de Mata Atlântica do Brasil.

Possui inacreditáveis 330 mil ha – a cada vez que consulto, seu tamanho só faz crescer. Isto corresponde a quase metade do total dos parques de São Paulo. Estende-se por 20 municípios e quase 300 km, desde Peruíbe ao sul (no limite com a Juréia) até Ubatuba ao norte (na divisa com o Rio). Sua largura média é mínima, pouco acima de 10 km.

Mapa dos Núcleos do PE Serra do Mar

Este formato significa que o Parque não tem uma unidade em termos de administração ou de travessia. Para facilitar sua gestão, ele é fatiado em núcleos ao longo do seu comprimento, como mostrado na tabela anexa. E suas trilhas maiores não são longitudinais e sim transversais, ou seja, têm um rumo vagamente norte ou sul, se afastando ou aproximando do litoral, conforme subam as montanhas ou busquem as praias.

Os Núcleos do PE da Serra do Mar

Seu relevo é composto por duas formações, Planalto Atlântico e Serra do Mar. Originaram-se em tempos imemoriais a partir do desmembramento do Continente Gondwana, que reunia a América à África. Esta cisão deixou a cicatriz de uma enorme parede – correndo desde o sul até o nordeste do Brasil, esta verdejante muralha é a escarpa conhecida como Serra do Mar.

Pico do Corcovado em Ubatuba, Núcleo Picinguaba, PE Serra do Mar, SP (Foto Divulgação)

Além da mata atlântica, o Parque apresenta praias, restingas e manguezais nas áreas baixas e, nas altas, pequenos campos de altitude. Sua flora é abundante, com grandes árvores como jequitibás, guapuruvus e maçarandubas, além de palmitos, bromélias e orquídeas. A atividade humana tornou quase extinta a fauna de grande porte, mas capivaras, quatis e jaguatiricas podem ser encontrados, junto com uma enorme variedade de aves e anfíbios. Sua região é rica em cursos d´água, os do planalto integrando a bacia do Paraíba do Sul e os da serra correndo independentemente para o mar.

Gostaria de fazer um comentário sobre a vegetação do Parque. Quando estive na região amazônica, custei a perceber a diversidade da vegetação, que apresentava variados tipos de floresta. Também na Serra do Mar, você a princípio não notará a diferença entre a cobertura secundária, que voltou a crescer após o corte dos colonizadores, e a floresta primária, que existia originalmente no local.

Trilha dos Tropeiros, Núcleo Caraguatatuba, PE Serra do Mar, SP

Assim, as regiões mais baixas do PESM, por exemplo os núcleos litorâneos, mostram uma floresta enfraquecida pela exploração. Já nos núcleos Cunha e Santa Virgínia no planalto, você irá encontrar uma Mata Atlântica mais frondosa, embora mesmo nos topos a floresta continue secundária. A mata original só existe em pequenas manchas ou em locais inacessíveis. Voltarei a este assunto na coluna seguinte.

O mundo talvez tenha hoje apenas 1% das espécies que existiram ao mesmo tempo em qualquer momento da sua história. Considerado o país de maior biodiversidade do mundo, o Brasil é também um daqueles onde é maior o número de espécies ameaçadas, junto com poucos outros como Austrália, México e China.

O estado de conservação de uma espécie depende da sua distribuição geográfica, do nível de ameaça a que está sujeita e do ritmo de queda da sua população. Conforme o risco, as espécies ameaçadas podem encontrar-se em situação crítica, de perigo ou apenas vulnerável. Segundo o IBAMA, há hoje mais de 600 espécies ameaçadas no país.

Como você sabe, a extinção de animais tem sido frequente. Cito apenas o exemplo da ararinha azul, da qual existia um único macho em liberdade no Brasil, no interior da Bahia. Com seu longo canto, procurava atrair uma companheira nas árvores ribeirinhas onde costumava fazer ninho, mas todas as outras ararinhas azuis existentes no mundo já estavam em cativeiro. A história da extinção de animais é dos relatos mais dolorosos que conheço. (Por sorte, a espécie está sendo recuperada, com ajuda do Qatar e da Alemanha.)

Como a Serra do Mar foi historicamente sujeita a desmatamento, extração da flora e caça ou captura da fauna, não surpreende que apresente uma grande variedade de espécies ameaçadas. São exemplos o mono carvoeiro e o bicho preguiça, o pau brasil e o jequitibá, o macuco e o pavão do mato.

Calha do Paraibuna, Núcleo S. Virgínia, PE Serra do Mar, SP

Devido à sua localização, o Parque convive com áreas de antiga história e de densa ocupação. Em especial, em nenhum outro local o desolador impacto do homem é tão visível como em Cubatão, seja na planície nevoenta e industrializada ou na encosta horrendamente construída. Muitos dos trabalhadores da Via Anchieta se assentaram na serra, numa ocupação ambiental e socialmente perigosa.

Ficam também em Cubatão as mais antigas ocupações decorrentes de sesmarias datando da época do Descobrimento. Estas terras foram a seguir doadas aos padres (e também por eles compradas), gerando a Fazenda Geral dos Jesuítas, que foi o maior dos seus latifúndios no Brasil. Com sua expulsão do país nos tempos do Marquês de Pombal, passaram para a Coroa e, depois, para donos privados.

Como aconteceu com outros locais da Serra do Mar, esta região sofreu um irreversível declínio agrícola a partir do século retrasado. De fato, muitas das glebas do Parque resultaram do malogro de antigas fazendas, como Curucutu e Santa Virgínia, de exploração de carvão, e Picinguaba, de cana de açúcar.

Os Campos Nebulares do Núcleo Curucutu, PE Serra do Mar, SP

O Parque abrange talvez uma dezena de comunidades socialmente ameaçadas, seja dos indígenas, caiçaras ou quilombolas. Inversamente, muitas de suas áreas convivem com situações de valorização imobiliária e agitação litorânea, especialmente de São Sebastião a Ubatuba.

Num parque tão grande, com uma natureza tão exuberante, situado numa região tão ocupada, você não deixará de encontrar os mais diversos contrastes, sociais e ambientais. Veja a seguir os caminhos que você poderá percorrer no seu interior.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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