A Resistência

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São dez horas da noite e estamos num dos estados mais quentes do Brasil passando frio devido ao vento patagônico. De repente começa a chover durante os rapéis de retorno do cume. Tento me concentrar para não errar os procedimentos, mas meu cérebro está lento. Estamos desmontando as cordas fixas da mega transversal de 4 esticões que tivemos de conquistar para perseguir a linha de agarras proporcionadas pela parede. Faltam mais alguns rapéis e nossa resistência será testada.

No dia 15 de agosto partimos de Curitiba, sul do Brasil, viajando 1500 quilômetros até a Pedra da Fortaleza, imenso monolito de granito, situado na cidade de Nova Venécia, no estado do Espírito Santo. Dois dias de viagem nos levaram até a base dessa montanha mágica. Lá chegando, fomos rodear o maciço para falar com os proprietários dos terrenos que dão acesso à base da parede e, com binóculo, escolher a linha que iríamos enfrentar. De cara já pudemos ver que a rota seria extremamente vertical. Distinguimos um pináculo em formato de mão que poderia nos proporcionar um bom início de via. De lá pra cima era uma incógnita e havia o receio de que a gigante parede de granito fosse lisa. Nesse mesmo dia montamos acampamento de frente para a Fortaleza, na casa de um morador, o qual nos forneceria água e eletricidade pelas próximas duas semanas, tempo que dispúnhamos para atingir nosso objetivo de abrir e encadenar uma linda linha na montanha.

A Pedra da Fortaleza vista de nossa base.

No dia 17 iniciamos a escalada numa rampa positiva que nos levaria até o início da “mão”. Nessas paredes grandes as proporções sempre nos enganam e o que pensávamos ser 50 metros nos resultaram em 100. Escalei esses dois primeiros esticões em livre com a furadeira a tiracolo, pelas minúsculas agarras; às vezes com os pés quebrando algum cristalzinho de rocha, o que sempre dá mais emoção. Aportamos na base da mão e o que vi era um diedro bem marcado, mas com vegetação nas fendas. Meu parceiro Willian Lacerda chegou e deliberamos sobre por onde ir e este divisou uma boa fissura que subia sobre a “mão” e não no diedro formado por essa e a parede. Essa é a magia da conquista, de podermos desenhar a linha. Nesse dia abrimos 4 esticões e deixamos as cordas fixas. No dia seguinte, a outra dupla, formada pelo Val e Tommy, pegou a ponta caliente da corda e abriu mais 4 esticões incríveis, mesclando fissuras e placas, atingindo um grande platô (P6); para, então, entrar no diedro um pouco sujo de mato e completar 8 esticões e aproximadamente 300 metros de via.

Faltavam só uns 30 metros para atingirmos o topo do “dedo” e para a nossa surpresa este último pináculo que formava o dedo indicador da mão era um pilar sinistramente encostado na parede e vazado de um lado para o outro. No início do esticão que abrimos nesse dia a fenda era boa e usamos peças móveis, mas depois ela se alargou e progressão tornou-se extenuante e com o uso de proteções fixas. No final da seção gritei para o parceiro que estava na ponta da corda sair em livre para ficar bonito nas imagens do drone. Ele usou de toda a sua a habilidade e também de um pouco de perrengue para montar naquele que seria nosso platô de bivaque. Atingimos a ponta do dedo! Falamos com a base pelo rádio e eles comemoraram conosco, bem como a plateia numerosa de moradores locais que da estrada assistiam ao embate.

Platô de bivaque e Tommy escalando a transversal.

Acima do “dedo” era o ponto crucial da via, pois havia a dúvida da continuidade das agarras. Sentamo-nos no platô razoável e comemos e bebemos algo. Equipei-me e fui, já saí com a furadeira e persegui as pequenas saliências oferecidas pela pedra. O calor estava insuportável, mais de 30 graus, com o sol nos fustigando o dia todo ali na face nordeste. De metro em metro busquei a continuação para podermos tentar em livre, e foi saindo. Depois o Tommy assumiu a ponta da corda e abriu mais um belo esticão e ficamos mais tranquilos, pois sabíamos que havia um caminho pelos muros da Fortaleza. No próximo dia, Tommy e Val subiram mais uma vez a renderam bem, terminando a transversal. Eu e Willian acordamos meio “bugados” e resolvemos descansar para subirmos com tudo no outro dia e já ficarmos nos porta ledges no topo do “dedo”, pois já estava ficando muito trabalhoso jumarear mais de 300 metros de cordas fixas para aí começar a escalar.

Diagonal na parede.

Havia 4 esticões completamente diagonais que nos levou até a base de uma linha que descia do topo e que pensávamos ser mais tranquila. Mas como o próprio nome da montanha sugere, não seria tão fácil assim. Ascendemos pelas cordas com um haulbag carregado de água, comida e chapeletas, pois a progressão exigiu muitas proteções fixas. Como estava fazendo um calor desgraçado, resolvi subir com pouco abrigo e um saco de dormir bem fino. Quando estávamos a um pouco mais de 100 metros de altura comecei a congelar, pois havia um vento patagônico. A noite no porta ledge não foi diferente, dormi com as costas geladas. Que desastre! No outro dia, acordamos cansados, mas tínhamos a nossa meta e partimos pelas cordas fixas transversais, as quais davam um grande trabalho, pois tínhamos de rapelar para tornar a jumarear inúmeras vezes. Nesse dia abrimos dois esticões e meio muito trabalhosos e verticais, com agarras pequenas. Já íamos pelo décimo sexto esticão, mas as defesas da Fortaleza ainda atrasavam nossa progressão. Descemos com últimos raios de luz e nosso acampamento de altura estava sendo fustigado por fortes ventos. Seria mais uma noite tensa. E para completar o cenário, um dos membros da equipe, o Murilo, acabara de receber a notícia de que sua esposa grávida de 8 meses estava no hospital com contrações esperando pelo diagnóstico do médico.

Noite na montanha.

Jantamos aquele miojo horrível, normal nessas ocasiões, tomamos um gole de cachaça, tocamos algumas músicas embaladas pelo ukulele, que também não falta nessas ocasiões, e nos internamos nos porta ledges. No outro dia, antes de amanhecer, os incansáveis guerreiros Val e Tommy, batalhavam pelas cordas fixas com o objetivo de vencer os muros finais da grande Fortaleza. Lá pelo meio do dia nos avisaram que devíamos subir e levar algo de abrigo, além de mais proteções, pois talvez terminassem a conquista noite adentro. Subimos a mil por hora eu, Willian e o Murilo, este último ainda sem uma definição sobre o desenrolar da história do seu primeiro filho, que queria nascer antes do tempo. Quando aportei na P18, o Tommy já estava encabeçando o que pensávamos ser o último esticão da via, mas não tínhamos a noção exata de quanto faltava para terminar a rota. De quando em quando perguntávamos como estava indo e este nos respondia que faltava mais um trecho vertical e provavelmente a parede cederia. Porém, isso se repetiu várias vezes. Até que ele gritou que bateria a parada. Subimos como máquinas e chegamos ao topo da Fortaleza com os últimos raios de luz do dia, num entardecer épico, um show de luzes. Todavia, o clima mostrava sinais de mudança e tínhamos previsão de chuva.

Montando o portaledge.

Reunimo-nos e nos abraçamos sobre o último platô de rocha do imenso paredão que nos consumiu por uma semana. Nossa alegria era muito grande. Fizemos uma homenagem ao futuro escalador prestes a nascer num cartaz improvisado escrito “Bem-vindo Lucca”, o que foi muito emocionante. Subimos a breve trilha, aberta pelos cabritos que fugiram da cidade, tornando-se selvagens e passando a viver lá no topo da pedra. Pensamos em passar uma noite gelada no topo, priorizando a segurança de rapelarmos mais descansados, mas como o clima estava estranho, decidimos descer naquela noite. Foi boa e foi ruim esta decisão.

Val e Tommy na parede.

Eu e o Willian, que estávamos mais descansados, ficamos por último para limpar a via, levando as cordas remanescentes da mega transversal. Só de pensar no procedimento já nos dava calafrios. Mochila pesada, cordas penduradas, rapela, ascende pela corda fixa, retira ela da proteção, coloca outra corda, rapela sem perder a fixa, torna a jumarear. Espera o parceiro conseguir chegar, com a corda enroscando em cada gravatá (tipo de bromélia de espinhos), puxa a corda. Repete. Quando chegamos no meio da transversal, além do vento patagônico, começou a chover, e o que estava tenso, ficou caótico. Em um momento pensamos que teríamos de abandonar as cordas, pois estas se enroscaram e mesmo nós dois com jumares não as conseguíamos recuperar. Com as últimas energias e algumas orações, elas vieram, e quase meia-noite atingimos os porta ledges. Nossas caras assustaram os companheiros, os quais correram fazer algo de comida embaixo de uma lona improvisada. Depois que respirei um pouco, entrei no porta ledge para fugir do vento. Por sorte, a chuva deu-nos uma trégua e pudemos descer no dia seguinte os 300 metros restantes sem sobressaltos. Abortamos a missão de tentar encadenar toda a via, pois a previsão era de mais chuva, o que de fato ocorreu.

Acampamento suspenso.

No dia posterior à descida, despedimo-nos de nossos anfitriões, os quais nos ofereceram um almoço com comida caseira inesquecível. Nesse último encontro, o seu Alzeir, sua esposa e filhos nos receberam como heróis e nos trataram como parte da família. Este também nos contou histórias aterradoras sobre a atuação das pedreiras e sobre o fato de que anos antes toda a comunidade se erguera contra a exploração da Pedra da Fortaleza e como conseguiram torná-la patrimônio histórico. Pessoas simples, mas de uma saberia muito grande, uniram-se e frustraram os planos dos poderosos da região de cortar a pedra e vender o seu granito. Depois de ouvir essa história, decidimos o nome da via: A Resistência. Afinal, nós montanhistas, também devemos repensar nosso papel e nos tornarmos resistência contra a destruição da natureza e contra a massificação do esporte e consequente perda da essência que é o companheirismo e não o individualismo.

No cume!

Escaladores: Edemilson Padilha, Valdesir Machado, Willian Lacerda e Thomás Kampf

Equipe de filmagem: Murilo Vargas e Luiz Maurício Leite

Texto: Edemilson Padilha @edpadilha

Fotos: Murilo Vargas @100limitefilmes

Pedra da Fortaleza – Linha da Via A Resistência

Croquis da via

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Sobre o autor

Edemilson Padilha

Edemilson Padilha é sócio fundador da Conquista Montanhismo, um dos principais da fabricantes de equipamentos de montanha do Brasil, localizado em Campo Largo PR. Conhecido e reconhecido também por suas Conquistas de vias de escaladas que estão entre as mais comprometedoras do país.

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