A Sereia do Marumby

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Apelidos foram coisas sérias no Marumbi de outrora e em determinada época até mereceram elaboradas cerimônias de batismo. Geralmente derivados de fatos ou associações cômicas eram depois assumidos com certo orgulho pelos batizados. A nova identidade conferida pelo ritual os fazia sentir-se aceitos e perfeitamente integrados a comunidade montanheira.

Devemos lembrar que até o final dos anos 1980 o montanhismo estava restrito quase exclusivamente às cercanias do conjunto de montanhas do Marumbi com uma tradição muito próxima de completar seu primeiro século. De fato, o montanhismo esportivo já era praticado no Paraná antes mesmo da primeira bola de futebol rolar por aqui e na década de 40, durante a segunda grande guerra, disputava com o esporte bretão as manchetes dos jornais. Foi a época de ouro das conquistas no conjunto do Marumbi que culminaram com o reconhecimento público do esporte.

Marumbinistas tornaram-se celebridades locais pela prática do marumbinismo, corruptela do termo alpinismo praticado numa só montanha, o Marumbi. Na base da montanha, junto à estação de trem, desenvolveu-se um povoado fervilhante nos finais de semana e uma cultura própria com ecos ainda fortes nos dias atuais. O marumbinismo elevava naturalmente o status do praticante e muitos se identificaram tanto com seus apelidos de montanha que acabaram por incorporá-los também na vida urbana e com o tempo quase esquecendo de seus verdadeiros nomes. Exemplos disso não nos faltam.

Ainda nos dias atuais humor e sátira no reino do Marumbi são implacáveis, os apelidos uma tradição e é do conhecimento geral que por ali até as pedras tem olhos, ouvidos e bocas bem ao contrário dos macaquinhos chineses. Nada passa despercebido, o segredo não existe e as histórias nascem, crescem e se espalham com a virulência das pandemias. Assim, como outras tantas, apareceu a lenda da Sereia do Marumbi que é contada enquanto se descansa num cume ou ao redor de um fogareiro depois de um dia cheio. Uma sereia, sabe-se desde Homero, é uma bela mulher com rabo de peixe que usa seus encantos naturais para enfeitiçar os homens.

Mesmo as trilhas mais primárias oferecem incríveis mirantes para belas fotos e fotógrafos amadores são o que não falta entre os iniciantes que todo ano inundam os clubes, mas poucos resistem até a temporada seguinte e são prontamente esquecidos. Não é o caso de Sylvia, montanhista chique, que o destino elevou ao Olimpo dos apelidados. Apesar de sempre armada com poderosa câmera fotográfica destacava-se mesmo é como modelo para fotos alheias que inundavam as redes sociais. Impecavelmente vestida para as academias de shoppings surgia fulgurante nas fotos de grupo, em poses inusitadas, ou em discreta solidão contracenando com fundos infinitos.

Um peixe fora d’água atraente aos olhos, mas de ideologia “politicamente correta” que a tornava incompatível com a cultura montanheira orgulhosamente incorreta. Piadas infames recebiam dela imediata reprimenda, palavrões não eram sequer tolerados na sua régia presença e o barro estava proibido de avançar para além do cano das botas.

No dia anterior já emitia discretos sinais para a vítima escolhida, mas a muvuca na casa do clube próximo a montanha inviabilizava qualquer iniciativa mais ousada e limitaram-se as conversas animadas e aos olhares ardentes. Então, ao amanhecer de um novo dia, partiram em dupla para escalar a “Passagem Noroeste” cheia de lances delicados e verticais onde a ajuda masculina é sempre bem-vinda. Na lida com as pedras, árvores e correntes foram adquirindo intimidade e a escalada tornou-se um jogo erótico de conseqüências previsíveis. Atingido os 1400 metros da Ponta do Tigre deixam-se levar pelo romantismo e aparente solidão desta saliência granítica com a mais bela vista dos vales abaixo. Entregues ao calor do sol e as intimidades recém adquiridas amam-se com paixão desenfreada.

Cada necessidade humana tem sua própria urgência e depois do amor aparece a fome que neste caso em especial foi devidamente saciada com a abertura de uma lata de sardinhas completando o recheio dos sanduíches.

Manhã preguiçosa, barriga cheia, temperatura agradável, isolamento e boa companhia feminina não tardam a despertar novas fantasias de luxúria e desejo. Filé mignon embalado a vácuo, aquela bundinha redonda rebolando tensa enquanto as mãos se agarravam nas correntes, pulando nas pedras ou esfregando-se nos troncos das arvores. Sempre perto e provocante enquanto a dona se entregava ao prazer, agora o tortura com flash backs irresistíveis.

– Quero teu rabinho também – sussurrou carinhosamente ao ouvido.
– Ficou maluco? Assim no seco nem pensar!

A necessidade é mãe da invenção, o instinto fala mais alto que a razão e o improviso, não poucas vezes, resolve a situação. Imediatamente a mente entra em atividade frenética e os olhos brilham de satisfação ao se fixarem na lata de sardinhas ainda contendo muito do óleo desprezado pelos sanduíches.

Óleo! Precioso óleo com cheiro de peixe, com gosto de peixe…

Os cantos dos lábios se curvam num sorriso malicioso e aquelas pedras milenares, que pensavam já ter visto tudo neste mundo, se curvam reverentes a criatividade elevada ao estado da arte e aprendem nova sacanagem.

Acima do Abrolhos como manda a tradição, Sylvia, agora imortalizada por seu apelido “Sereia do Marumby” integra-se com mérito ao panteão marumbinista.

Aviso: Este texto é ficção e não possui base em fatos ou pessoas reais, qualquer associação é mera coincidência.

 

 

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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