A Trilha das Torres

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Estes dias fiquei bastante contente ao saber que a vila de Paranapiacaba concorre a Patrimônio da Humanidade. E não é pra menos. Porta de entrada de trocentas trilhas na Serra do Mar a apenas 50kms da urbe paulistana, a charmosa vila inglesa passa atualmente por reformas com o objetivo de preencher os requisitos necessários da Unesco pra efetivação da declaração. Pra celebrar esta boa noticia com uma dose sagrada de mato, me mandei pra tranquila “Trilha das Torres”. Esta nada mais é q uma bucólica e cênica vereda de manutenção q palmilha as abruptas encostas da respeitável morraria situada ao norte do vilarejo, totalizando um trajeto de aproximadamente 14kms bem sussas.

O dia amanhecera lindo e o firmamento logo reluzia de tom azul inconfundível. Vestigio de nebulosidade? Nenhum. Foi nessa estupenda e promissora condição climática q chegamos a Paranapiacaba por volta das 10:30hr, sem pressa alguma. Aliás, chegamos até ali após o bem-sucedido transporte clandestino da pulguenta Chiara pelo transporte público paulistano. Enfurnada no interior da mochila de sua zelosa dona, a Carol, a espivetada basset manteve-se totalmente calma sem dar problema algum, tendo até o privilegio de apreciar a paisagem emoldurada pela janela através duma estratégica (e minúscula) abertura no zíper da semi-cargueira. Portanto a Chiara aprova o transporte coletivo do Metrô, da CPTM e da linha intermunicipal de Sto André. Mesmo q muquiada numa mochila.
Além da Carol e da elétrica cadelinha, a cia da vez incluía tb a Sophia e a Luzita, isto é, sempre em boa cia. Num piscar de olhos cruzamos a simpática vila inglesa, q por sua vez aparentava movimentação além do normal naquele dia lindo. Tapumes e muito material de construção espalha-se pelas ruas de paralelepípedo da vila, enqto inúmeras placas faziam questão de lembrar a restauração do lugar por conta de sua recente indicação a Patrimônio da Humanidade. Na biblioteca, garagem das locomotivas, galpões das oficinas de manutenção e almoxarifado da antiga ferrovia estão os reflexos das reformas em andamento.
Uma vez na bucólica Estrada do Taquarussu a pernada transcorreu de forma tranquila e mais desimpedida ainda, em meio a fragrância intensa de damas-da-noite e lírios-do-brejo q ornam a beira da via. O burburinho matinal da vila deu então lugar ao silêncio pautado pelos sons da mata e dos córregos a nossa volta, com direito até o sussurro de água despencando duma queda q atende pelo nome de “Cachu dos Namorados”, nalgum lugar da encosta a nossa esquerda. A conversa fluía solta entre os integrante humanos da trupo, pois o componente canino não queria nem saber. A Chiara, serelepe como ela só, queria somente cheirar td aquela profusão de odores novos ao seu focinho, além de demarcar continuamente nossa rota. Melhor GPS que a urina dela, impossível.
A pernada se mantém no mesmo compasso até q após 3kms percorridos sem gdes dificuldades, abandonamos a bucólica estrada em favor de uma óbvia entrada pela esquerda, q surge logo após o discreto marco q divide Sto André de Mogi das Cruzes. Estamos enfim numa tal “Trilha das Motos” (tb chamada de “Porteira Preta”), picada já percorrida anos atrás porém na direção nordeste. Agora tomaríamos a direção contrária a qq hora, ou seja, sudoeste. Pois bem, resumidamente a vereda leva jeitão de pequena e precária estrada em desuso, q ganha altitude suavemente. Claro, em desuso pra veículos maiores ou sem tração pq marcas de pneus de motos e magrelas estão presentes ao longo de td trajeto pelo seu chão de terra avermelhado, erodido, pedregoso, enlameado e bastante irregular. Na verdade, o emaranhado de picadas daquele serrote pertence a uma área de reflorestamentos q levam a setores provavelmente de corte de madeira, onde a “Trilha das Motos” é a espinha dorsal das demais.
Iniciada então a pernada pela dita cuja, sempre bordejando em nível a encosta da serra e tocando pro norte, constatamos a imperceptível variação de altitude. A vegetação inicial é um misto de primaria com secundaria, mas depois passa a ser predominantemente de bosques de  reflorestamento de eucaliptos. A preocupação inicial de água logo se dilui ao toparmos com uma bica encravada na encosta, despejando seu borbulhante e refrescante liquido por um cano de pvc disposto pra essa finalidade. A caminhada então prossegue de forma desimpedida, embalada pelo som de nossa conversa e do vento remexendo o arvoredo em volta. Pequenas frestas na vegetação permitem visualizar alguma coisa, desde os visus dos verdejantes contrafortes serranos opostos até a minúscula vila-presépio do Taquarussu, a leste, mocada no pé da serra.
Mas cerca de 2,5km após deixar a estrada e ganhar cerca de 250m de altitude a partir da vila, nos deparamos com uma bifurcação em cotovelo. Aqui abandonamos a “principal” e nos pirulitamos pela estreita via qse ramifica pela esquerda, tocando pela encosta agora no sentido oeste. A caminhada então se dá na sombra não de reflorestamento e sim de muita mata secundária. O corte vertical na encosta denuncia a origem antiga da via, ainda mais qdo surge um antigo forno carvoeiro sepultado por folhagem e alguma vegetação. Sim, antes de via de manutenção aquele agora picada já extraiu muita madeira pro desenvolvimento pré-industrial da Baixada Santista, a semelhança de boa parte das atuais veredas da Serra do Mar.
Pois bem, a caminhada mantem-se inalterada, agora com desnível imperceptível, uma vez que o ponto mais alto da pernada (quase mil metros!) já foi alcançado a algum tempo. Algum gigante da floresta vez ou outra surge tomando no caminho, mas nada q um simples desvio não resolva. Subitamente, surge um enorme deslizamento no meio da vereda q, da mesma forma q demais obstáculos, basta um desvio pra vencer. No entanto, a enorme janela na encosta desta vez permite um vislumbre mais generoso tanto dos contrafortes opostos de serra, verdejantes e imponentes, como das torres de alta tensão q são nosso destino. E a caminhada prossegue nesse ritmo tranquilo, novamente agraciada pela refrescante sombra do arvoredo a nossa volta por mais 2kms até encontrar de fato as torres.
Conforme nos aproximamos da tal linha das torres de alta tensão, tanto a trilha como a mata envolta mudam de aspecto. A vereda se estreita cada vez mais, dando as vezes lugar a uma funda vala erodida q mais lembra um mini-cânion; e a vegetação, antes espesso arvoredo, dá lugar a uma mata mais arbustiva e ressequida típica de encosta mais amplas e abertas, principalmente voçorocas de samambaias. Uma vez no sopé da primeira torre basta agora acompanhar a linha de alta tensão pela vereda em questão, agora sempre tocando na direção sudoeste, inipterruptamente, como q dando a volta completa pelo serrote anteriormente palmilhado.
A pernada agora, sempre sudoeste e suavemente em declive, alterna os largos e expostos visuais típicos de encosta com as súbitas mergulhadas no frescor da mata mais fechada, principalmente nas dobras serranas. Nestas ultimas é possível encontrar mais água correndo, um simplório correguinho acompanhando a vereda e alguns pontilhões q ajudam a transpor verdadeiros atoleiros. Mas no geral a caminhada é muito agradável e sussa. Mas no badalar da segunda torre nos permitimos um pit-stop de descanso – ainda mais sob os protestos duma já exaurida Sophia – a margem da vereda, com direito a breve exploração do sopé duma das torres. O visual descortinado é bem diferente das demais regiões da vila, mas igualmente bonito. Horas? Quase 13hrs da tarde.
A caminhada então prossegue no mesmo ritmo, alternando trechos abertos no ápice das encostas q bordejam o sopé das torres com outros mais fechados, lamacentos e frescos nas dobras, onde a Sophia até atolou os pés!  A Chiara, por sua vez, se diverte percorrendo o mesmo trajeto umas três vezes, despirocando na dianteira pra depois retornar ra conferir se o grupo q “ela guia” esta bem. E assim continuamos a pernada agora pela crista da serra ate tropeçar com a ultima torre, onde se tem uma vista bem mais interessante, incluindo uma perspectiva diferenciada da vila inglesa. Esta surge minúscula, ao sopé da Serra da Comunidade, tendo logo atrás, ao fundo, a geometria verticalizada e alva da cidade de São Paulo!
Mas é a partir da ultima torre q começa propriamente a descida, agora mergulhada na mais densa e espessa mata. É aqui q é preciso atentar a uma obvia vereda q nasce da principal, a esquerda, q logo tomamos. Não q faça diferença, mas a vereda tomada é um atalho q desce o morro diretamente, ao invés de dar voltas e voltas desnecessárias pela encosta do mesmo. E assim, perdemos rapidamente altitude naquela estreita e simpática vereda, com alguns poucos trechos onde as mãos firmadas no arvoredo ajudam a vencer trechos fáceis de desescalaminhada. Alguns marcos de ferro ao largo desta vereda denunciam provavelmente limites de propriedade.
E assim, quase num piscar de olhos, desembocamos na Av. Ford, isto é, a via de terra pela qual se acede a parte baixa da vila. Após andar mais um pouco por ela, cruzar o pontilhão sobre o Rio Grande e passar pela entrada da famosa “Trilha da Pontinha” (q precisa de monitor da vila pra ser percorrida!) chegamos em Paranapiacaba outra vez por volta das 15hr. Após uma sessão de fotos na garagem das enferrujadas composições, logicamente q estacionamos no Largo dos Padeiros afim de descansar e bebemorar a empreitada, além  claro, de apreciar o movimento da numerosa turistada q aquela altura fervilhava na vila. Entre goles de Itaipava e mastigando um delicioso “X-Miséria”, ficamos ali ate pouco antes do final de tarde, pois a gente zarpou dali antes do sol lançar seus últimos raios sobre a Torre do Relógio, o famoso Big-Ben.
Sim, esta despretensiosa caminhada foi mero pretexto pra voltar a pisar na simpática vila inglesa, q finalmente parece alcançar seu merecido reconhecimento. O local integra a lista indicativa brasileira de Patrimonio Mundial da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) e recebeu o incentivo de Programa de Aceleração do Crescimento – Cidades Históricas para que 250 imoveis sejam restaurados. Sim, pois pra receber este almejado titulo é preciso q o local esteja integro e original, além da participação ativa da sociedade, importantissima durante o processo. Por isso torço pra q esta indicação apenas envernize o óbvio de forma definitiva. Pois um patrimônio como Paranapiacaba não precisa, no fundo, de títulos pra ser valorizada. Precisa apenas gente que se importe de forma legitima e genuína com ela.
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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