A vista alegre da Cantareira

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O Parque Estadual da Cantareira foi uma das muitas unidades de conservação da cidade de São Paulo que sofreu as consequências do recente surto de febre amarela no país. Seu fechamento como ação preventiva da doença tem impedido os trilheiros de prestigiar sua vasta área, tão próxima quanto interessante, sempre á disposição dos paulistanos. No entanto, existem caminhos menos conhecidos, e mais acessíveis, que palmilham outras zonas desta mesma área de conservação. Caminhos como a “Trilha da Vista Alegre”, simpática vereda que bordeja a encosta serrana da porção da Cantareira quase vizinha ao Horto Florestal. Foi este o simplório rolezinho de quase 15kms que me ocorreu prum domingo de sol, calor e vontade de um banho refrescante pertinho da cidade.

Sem muita necessidade de levantar cedo, eu e a Lau chegamos pouco depois das 9hr na Estação Santana, após viagem rápida pela Linha Azul do Metrô. Dali nos pirulitamos pro terminal rodoviário logo ao lado, onde não demorou pra embarcar em um dos vários coletivos que circulam pela Av. Sta Inês, com horários bastante regulares. O busão praticamente tocou numa linha reta em direção á zona norte, no sopé da Cantareira, inicialmente pela Av. Voluntários da Pátria e depois pela Av. Sta Inês. Aos poucos, a silhueta emoldurada da serra pela janela vai tomando conta da paisagem, naquele dia que começou ligeiramente nublado mas com promessas de tempo limpo no decorrer do período.

Apesar da enorme distância a viagem é relativamente rápida, onde é necessário atentar no lugar pra saltar a partir do momento em que o latão cruza o verdejante Horto Florestal, onde faixas na entrada reforçam os avisos de proibição de acesso devido a febre amarela. Desembarcamos então no primeiro ponto após o latão deixar a Av. Sta Inês e tocar na direção sudoeste. Dali prosseguimos a pé ainda pela via principal já deixando os limites dos bairros Jd Peri Alto e Vila Pedra Branca, agora descendo em direção ao pé da serra.

Aviso

Quando a via asfaltada muda de nome, cruzamos por baixo das obras referentes ao Rodoanel Norte e, mais adiante, ignoramos a entrada da Sabesp. Segue-se então uma suave subidinha e logo na curva sgte é preciso atentar na margem esquerda a um precário portão trancado que, coberto de mato e muito lixo, pode passar despercebido. Uma placa indica ali ser a “Estrada da Vista Alegre” cujo acesso é em tese proibido, mas olhando bem ao lado do decrépito portal é encontrado um acesso pela lateral. Pronto, daqui em diante não tem mais erro. É preciso atentar bem esta entrada pois não raramente tem grupos de “noínhas” curtindo seus entorpecentes aqui. Não era o caso, mas fica o aviso. Outro aviso é evitar vir aqui em grupos grandes, pois é pedir pra chamar a atenção e, consequentemente, ser assaltado. Coisas de proximidade da urbe, infelizmente.

Na trilha

A vereda então mergulha floresta adentro, inicialmente descendo de forma suave pra estabilizar de vez sempre na direção oeste, ladeando em nível a encosta da serra. Bem batida, o caminho ora se alargava ou estreitava, mas sempre cercado de espessa e farta mata. Pra variar, a trilha nada mais é uma antiga estrada atualmente em desuso, pois tanto o corte vertical na encosta como, vestígios do antigo calçamento e o próprio nome denunciam isso. Existe um ou outro matinho tombado no trajeto, mas tudo de fácil transposição.

Pois bem, o caminho desvia então abruptamente pro norte, adentrando numa reentrância da serra onde logo se ouve o som de muita água correndo ao nosso lado, no fundo do vale. Mas bem no vértice deste pequeno vale tropeçamos com duas veredas em margens opostas da trilha, onde fizemos breves dois ataques: a breve vereda da esquerda desce forte e logo desemboca num enorme piscinão que logo de revela uma antiga e rústica represa, alimentada por uma pequena cascatinha onde a água cai por uma larga lajota rochosa. Ruínas duma escadaria levam pro lado oposto da encosta onde gigantes da floresta ergueem-se de forma imponente, observando os visitantes daquele improvável balneário artificial, onde só não entrei por ainda estar relativamente cedo pra isso.

Vestígio de antigo calçamento

Já a outra picada nascendo da direita adentra mais vale adentro – já bem mais precária alternando rochedos, chão e raízes – acompanhando o borbulhante córrego que alimenta o piscinão supracitado. Nós adentramos cerca de 300m pela picada, mas ela vai fundo, na direção norte. Na verdade a gente foi apenas até onde havia dois bonitos remansos rochosos a margem do rio, com cascatinhas, mirantinhos e banheiras naturebas viáveis prum bom tchibum. E acredite, sem ninguém ali naquele momento, que pelo que me recordo devia ser bem depois das 10:30hrs. Pausa pra breves paradas pra retomada de fôlego, vislumbres e muitos cliques.

Voltamos ao caminho principal e prosseguimos nossa andança ladeando a serra, agora tocando pra sudoeste. Este trecho se caracterizou pela presença cada vez maior de rochedos e pedras a margem da via. Enormes matacões vez ou outra se empilhavam do lado, formando muitas grotas e lapas, sendo que nas mais fundas era possível ouvir água correndo algum canto, no miolo do amontoado rochoso. Infelizmente pela proximidade da urbe alguns destes belos monumentos naturebas ostentam inscrições burrestres deixadas por algum vândalo querendo deixar sua marca de imbecilidade pra posteridade. Aqui existe também uma discreta picada á esquerda que desce forte, provavelmente sendo algum acesso á reserva pelo bairro ao sul, no caso, a perifa do Jd Peri Alto.

Piscinão represado

Depois de cerca de 6km de chinelada a vereda emerge finalmente no aberto, bem na beirada dum cocoruto serrano onde passam duas torres de alta tensão, apenas pra constatar o sol forte e céu azul reinante das 11:30hr. O lugar serve de belo mirante que além de privilegiar uma vista diferenciada da serra, escancara tanto as obras do Rodoanel naquele quadrante como destaca o Pico do Jaraguá, a oeste. Pausa pra apreciação de paisagem e retomada de fôlego, claro. Ah, e foi neste trecho que tropeçamos com mais gente no sentido contrário, no caso, uma dupla de corredores de montanha a quem acenamos cordialmente.

Dali a picada penetra novamente no frescor da mata tocando desta vez pro norte, quase que em linha reta, mas sempre com as mesmas características que antes. Mas logo que á esquerda surge mais uma vereda que deriva da principal, mas que nada mais leva ao que parece um pontilhão de concreto mas que na verdade é um estreito aqueoduto que se eleva sobre um correguinho no fundo do vale. Ainda no caminho principal e sempre pro norte, um pouco mais adiante ele cai noutro maior, cuja extremidade da esquerda (sul) se encontra barrada por um portão de ferro, onde uma placa indica proibição de acesso, ronda motorizada, etc. Depois soube que do portão pra baixo é o Parque Itinguçu, um condomínio residencial situado na encosta da Cantareira(!?). Mas peralá, isso pode? Um imóvel chique quase invadindo uma área de conservação?

Obstáculos

Sem alternativa, prosseguimos naquele caminho pela outra extremidade, ou seja, dando continuidade na direção norte, embalado pelo aroma dos araças espalhados pelo chão. Pelas frestas da mata visivelmente podíamos constatar que contornávamos o tal condomínio chique, agora pelo alto. Caminho largo, porém bem lamacento, esta rota logo começa a desviar lentamente pra oeste. Mas não demora pro som de muita água inundar nossos ouvidos conforme se avança e como que prevendo um piscinão, eis que ele logo surge bem a margem da via palmilhada. Uma piscininha relativamente rasa, entupida de blocos e cercada de rochedos no meio do mato surgia como oásis no calor daquele inicio de tarde. O lugar era abastecido pelas várias nascentes daquele setor da encosta serrana, pra depois cruzar a via e despencar mata abaixo, num ruído quase ensurdecedor.

Efeitos de luz

Pois bem, por ser perto das 13hrs e estar algo cansados, decidimos ali mesmo fazer um pit-stop mais demorado de banho, lanche e relax. Foi aí que apareceu mais gente, uma turminha jovem composta por moleques, meninas e até crianças. É, o sossego do lugar pra gente tinha terminado mas não prejudicara nosso banho refrescante, ainda bem. Foi aí que pude conversar com um deles afim de saber mais da trilha principal. Comentou que dali trilha principal findava no Rodoanel, de onde havia acesso aos bairros periféricos da Brazilândia, Jd Recanto, Jd Damasceno e Vista Alegre, de onde eles tinham vindo. Emendou inclusive que aquele piscinão, e outro mais encosta abaixo, foram modificados recentemente (derrubaram os muros da barragem e colocaram pedras) a mando do condomínio residencial de modo a desestimular a frequência de gente de fora aqueles balneários naturebas. Se esta afirmação é verdadeira não posso dizer, mas se for é uma forma claramente elitista de segregação pra manter afastada qualquer pessoa das proximidades do tal condomínio chique, no sopé da serra.

Muitas cascatinhas no caminho

Cachoeirinha

Muitos grotões

Mirante do Jaraguá

Antigo aqueoduto

Ficamos ali cerca de uma hora de boa, descansando, mas decidimos que era hora de partir quando vimos um negrume se formar lentamente no céu, típico desta época de verão. Como não estávamos nem um pingo afim de tomar chuva retomamos agora a chinelada pelo mesmo caminho, no sentido contrário. “Ainda bem que partimos do piscinão, pois eu já tava vendo alguma daquelas crianças levar um tombo feio nas pedras lisas de lá..”, emendou a Lau, preocupada com a falta de noção de alguns dos jovens presentes. “Será que estão vacinados?”, completou ela.

Pois bem, sem as paradas pra fotos e exploração, a volta foi praticamente muito mais rápida que a ida e em praticamente menos de hora e meia pisávamos outra vez no asfalto da Estr. Santa Inês, agora em direção á Vila Pedra Branca. O sol a muito tinha ido embora, e o firmamento ganhava um tom acizentado medonho, naquela iminência de chuva brava. Dito e feito, bastou tomar qualquer condução que fosse pro Metrô Santana que começou um pé dágua bravo. Por sorte, já tínhamos garantido numa vendinha nosso humilde prêmio na forma dumas brejas geladas, que bebericamos lentamente até chegar no Metrô.

Poção infelizmente “concretado”

Infelizmente o surto de febre amarela é uma realidade que se estende a algumas unidades de conservação do país, e a Cantareira é uma delas. Prova disso é que não vimos sinal de macacos, outrora sempre presentes e visíveis nesta serra, durante todo trajeto feito neste rolê dominical. Aliás, eu e a Lau só fizemos este bate-volta já devidamente vacinados contra a doença, visto que o parque está repleto de mosquitos. Por isso fica minha recomendação de vacinação aos trilheiros que tem mais frequência em áreas silvestres, independente de qual seja, apenas por prevenção. Fora isso, ainda  pretendo retornar pra Cantareira pra bisbilhotar com mais tempo as trocentas picadas que nascem a partir da “Trilha da Vista Alegre”. E quem sabe assim me fascinar ao encontrar algum novo poço ou cascatinha natureba nesta que é considerada a “maior floresta urbana do mundo”. E a apenas meia hora da caótica floresta urbana de Sampa.

 

 

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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