Agudo da Cotia de Ataque

1

Realizado pelos montanhistas Jonathan Bressan, Rogério Ferpa, Luciano Filizola e Márcio
Valente

Vista do cume do Agudo da Cotia com o Ciririca ao fundo.

Essa trip nasceu de um conjunto de fatores que foram se desenvolvendo até a decisão pelo
ataque. Tudo parte de quando o Luciano Filizola acampava pela primeira vez no Ciririca em
03.08.2016, onde a ideia inicial era chegar lá no primeiro dia, ficar no cume no segundo e no
terceiro retornar à Chácara do Bolinha. De espírito inquieto ele propôs aos parceiros da trip
aproveitar o segundo dia para fazer o Agudo da Cotia de ataque, que foi feito apenas à base de
água e um pacote de salgadinho estilo Pingo de Ouro. Todos esqueceram de levar comida
apesar de terem 2kg de pé de moleque. Desde então nutriu uma vontade de voltar apenas
para um ataque, sem bivak, com paradas em pontos estratégicos para pegar água, comer e dar
uma respirada. No dia 28.04.2018 o Jonathan Bressan, o Rogério Ferpa e o Luciano se
encontram no Ciririca, este por ocasião de sua primeira Travessia Bolinha X Marco 22 (por
cima) e eis que surge a proposta sem mais delongas: vamos fazer o Agudo da Cotia de ataque?
O Bressan e o Ferpa sem titubear: sim! Demorou! Cada grupo seguiu a sua jornada e a
consolidação da trip se deu através de uma mensagem via whats up. Bressan para o Luciano:
“presta atenção! Cotia de ataque no sábado. Ataque monstro. Vai ser épico!” Finalmente o
vácuo de quase dois anos estava prestes a ser deixado para trás; os dementes certos se
encontravam para realizar essa demencialidade.

Sabendo de antemão que um louco nunca diz não, o não menos louco do Luciano convida o
Márcio Valente que imediatamente aceita o embate. Estava formado o time. Os 4 saem na
sexta-feira, dia 06.07.2018 para a Chácara do Bolinha às 21:30. Lá montam acampamento para
tirar um ronco antes de sair para a arena. Às 2:30 da manhã de sábado, dia 07.07.2018 os
destemidos acordam, batem um rango reforçado e às 3:30 atravessam o portão de ferro
focados em seu objetivo. A descida desde o Morro do Cedro – porção final da crista do Tucum –
rumo à Cachoeira do Professor, é o momento em que um filme passa pela cabeça: como será
que estaremos aqui na volta? Sem delongas com elucubrações inúteis, o grupo chega ao
Professor com um problema bastante palpável para resolver: escassez de água. O Luciano
acampara no A2 vindo pelo Caratuva 36 horas antes dessa trip e testemunhou forte estiagem.
Na Cachoeira então, todos carregam de 3 a 4,5 litros pois não dava para saber o estado dos
córregos nos vales para o Cotia. Já debaixo da segunda placa do Ciririca, uma pausa para o café
da manhã, com direito a queijo e cracóvia trazidos pelo Bressan. Foi o que levantou o moral da
galera, principalmente um desavisado que trouxera broa preta e queijo light. Refeitos, inicia-se
a descida da piramba em direção aos Agudos, com suas 3 cordas que seriam amaldiçoadas e
xingadas na volta.

Cume do Agudo da Cotia.

No platô o visual era alucinante. Os 3 Agudos se mostram imponentes; sem uma nuvem
sequer, nem nos cumes, nem nos vales. Eternizado o momento, a trip continua e o vaticínio se
confirma: água apenas no último córrego antes da derradeira subida para o Cotia. Aquilo
parecia mais um oásis, pois estava muito quente e nada melhor que uma água gelada e limpa
como aquela para esfriar os radiadores. Na chegada ao Cotia um deles talvez tenha
esquentado demais e o Bressan caiu num sono pesado. No cume o cenário é fantástico, com
vistas para várias montanhas do Ibitiraquire, Farinha Seca e Marumbi. Pausa merecida para
recompor as energias, tirar muitas fotos, assinar o livro de registro e pensar um pouco na vida;
afinal, tinha aquela parede toda para subir até o Ciririca, sem falar no restante da pancada
bruta.

Aquela subida os pegou de chicote. Ouvia-se gritos de raiva, gemidos e xingamentos, cordas
sendo amaldiçoadas. Um verdadeiro teste de bravura e o alento provisório ao avistar a
segunda placa novamente. Eram 17 h. No cume do Ciririca fazia um frio que era potencializado
pelos fortes ventos, ignorado completamente pela contemplação do belíssimo pôr do sol. No
Professor os estoques de água foram refeitos e era chegada a hora de enfrentar a última
grande subida que, ao contrário da ida, ouvia-se agora um silêncio. Na bifurcação para o
Camapuã o Bressan tira um último coelho da sua cartola: dois pacotes de biscoito waffer
mantidos em segredo até então, salvando a todos – já quase sem comida. Na chegada ao
Bolinha às 22:30, uma farta janta com macarrão, bacon e calabresa saciava a fome implacável
que os assolava. De volta às barracas o sono veio como de assalto, merecido após essa
batalha.

Foi uma trip de extremos: calor, frio, escassez de água e comida. Por outro lado foi a realização
de um sonho que contou com a amizade e forte parceria de 4 loucos que mataram alguns
leões durante a empreitada. Foi uma verdadeira quiçaça na veia! Nas palavras do Bressan: foi
épico!

O trio na colina Verde.

Compartilhar

Sobre o autor

Luciano Filizola

Pianista profissional e montanhista. Quiçaça na veia!

1 comentário

  1. Trip insana e para poucos, parabéns ao grupo pela conquista. Cuidem bem do meu primo Bressan ( vulgo Jhow). Abraço a todos

Deixe seu comentário