Além do Salto Mãe Catira

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Sem nenhum objetivo em especial, fomos encontrar nosso destino numa pequena clareira entre uma árvore e uma pedra, bem pra lá do Salto Mãe Catira. Essa aventura é um oferecimento das Organizações Mãe Catira: canyon Mãe Catira, Salto Mãe Catira, rio Mãe Catira e morro Mãe Catira.


Reunidos na casa do Chico no
sábado de manhã, nem ele, nem a Bárbara e nem eu sabíamos para onde ir. Em
comum, tínhamos apenas o desejo de andar pela floresta da Serra do Mar.
Deixamos Curitiba pela BR 116, ainda sem saber ao certo para onde ir. No
caminho, optamos seguir pela estrada da Graciosa, e deixar para tomar a decisão
final no mirante do Alto da Serra.
Uma vez lá, mostrei a eles um
mapa da região e expliquei algumas opções. A que mais atraiu as atenções
consistia em alcançar as encostas do Arapongas e procurar por alguma trilha
que, partindo de uma das fazendas da região, percorresse a face Norte dessa
montanha. Decisão tomada, voltamos um pouco até a entrada da Casa de Pedra (o
sítio, não a academia de escalada), e deixamos o carro da Bá aos cuidados do
chacareiro, do qual nunca lembro o nome.
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O marco 22 da Graciosa foi
atingido rapidamente, e sem demora entramos na densa floresta atlântica. Com a
trilha bem aberta, o progresso foi célere. Quando alcançamos o primeiro trecho
onde se avista o rio Mãe Catira, já percebi que andar por seu leito seria
complicado, pois a grande quantidade de chuva que caíra durante a semana havia
elevado e muito o seu volume. Quando chegamos ao final da trilha, junto ao rio,
paramos para um lanche. Chico insistia em procurar por uma continuação da
trilha na margem oposta, coisa da qual eu nunca ouvira falar. Andamos um pouco,
subindo o Mãe Catira por seu leito, e logo o Chico se enveredou a andar pela
margem esquerda. Quando a vegetação se tornou muito densa, ele sugeriu subirmos
a encosta e seguirmos paralelo ao rio. Como nosso objetivo era a aventura em
seu estado mais puro, deixamos o Mãe Catira de lado e tocamos por dentro da
floresta, rasgando o mato com o peito.
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O som das corredeiras e pequenas
cachoeiras do rio nos acompanhava sempre, e encontramos uma crista boa para
caminhar, com vegetação favorável ao progresso. Porém, lá pelas tantas
encontramos um taquaral. Para evitar o desgaste físico e a perda de muito tempo
se enroscando nos bambus, fizemos um desvio, afastando-nos assim do rio. O
barulho do Mãe Catira ficou distante, e peguei a bússola para garantir a
orientação. Entretanto, o Salto Mãe Catira não estava mais muito longe, e
corríamos o risco de passar batido por ele. Só perceberíamos o erro se
encontrássemos um rio cortando nosso caminho, pois antes do Salto o rio corre
perpendicularmente ao nosso rumo.
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Subitamente, a crista em que
andávamos acabou numa íngreme descida, a qual terminou dentro de um rio que
cruzava nosso caminho. E agora, seria esse o Mãe Catira antes da cachoeira, ou
mais um afluente que deságua para baixo do Salto? Consultei a bússola e vi que
aquele rio corria para o Norte, portanto não poderia ser o Mãe Catira.
Decidimos fazer uma correção na direção, rumando para onde acreditávamos estar
a cachoeira. Em pouco tempo, alcançamos o Mãe Catira, exatamente onde há uma
clareira boa para acampar na margem do rio. Como ainda estava muito cedo para
armar a barraca, fomos adiante.
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No pé da cachoeira, fizemos uma
longa pausa para aproveitar a beleza do lugar. Com o forte e constante som da
queda d’água, quase entrei em transe meditando sobre como é maravilhoso ter
lugares lindos escondidos no meio dessa grande&nbsp,
floresta, a espera de alguém com espírito aventureiro disposto a
enfrentar todos os desafios para viver momentos inesquecíveis junto à natureza.
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Na subida ao topo da cachoeira
passamos por alguns momentos de tensão. Não encontramos logo o nível certo da
encosta e acabamos muito mais alto do que deveríamos. Além disso, o barranco
estava tomado por inúmeras espécies diferentes de taquarinhas e cipós, que
esfolavam a pele e se enroscavam nas mochilas, tornando o progresso um
verdadeiro sacrifício. Por fim chegamos ao alto da cascata, onde fizemos a
tradicional parada para um suco. A Bá e o Chico, que não conheciam a região,
estavam maravilhados com tanta beleza natural. Mas eles ficaram boquiabertos
quando passamos pelo canyon pouco acima da cascata. Formado pelo rio Mãe Catira
quando encontra um grande dique de diabásio, é uma formação única na região.
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Ali no canyon resolvemos seguir
para o Norte pelo meio do mato, até encontrar as encostas do Arapongas e
procurar alguma trilha que subisse esse morro, ou pelo menos contornasse ele
até o alto vale do rio Forquilha. No entanto, o que encontramos foi um inferno
feito por vários córregos subterrâneos. No seu caminho morro abaixo, eles
escavaram verdadeiro labirintos em três dimensões, com rochas gigantes
separadas por fendas profundas. Tudo isso recoberto por uma camada de lama,
musgo e limo lisos, que tornavam cada passo uma chance real de cair dentro de
uma das gretas. Para complicar ainda mais, por toda parte cresciam bambuzinhos
e outras plantas demoníacas cobertas de espinhos!
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Sobrevivemos a esse inferno, mas
perdemos um tempo precioso ali. Em breve escureceria, e precisávamos achar um
lugar para acampar. Mas o terreno ainda era inclinado, e a parte plana que
aparecia no mapa seguramente estava distante, e nem sabíamos se não seria um
grande banhado. Passamos por uma clareira produzida por uma grande árvore
caída, e pudemos ver a face Sudoeste do Arapongas se erguendo desafiadora a
nossa frente. Andando por uma curva de nível, achamos uma linha que subia a
encosta, onde o chão estava estranhamente batido. Seria a trilha para o
Arapongas, que desapareceu engolida pela floresta há muitos anos e cuja busca
foi razão de tantas expedições? Procurei nas árvores por alguma fita, marca de
facão ou qualquer outra marca humana, mas nada encontrei. Por enquanto o enigma
da trilha do Arapongas permanece.
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Subimos a encosta por essa
“trilha”, a qual logo desapareceu. Um pouco a frente, finalmente encontramos
uma pequena clareira plana, formada entre uma pedra e uma árvore. Como já
estava quase escurecendo, resolvemos não arriscar e acampar ali mesmo. No
espaço cabia exatamente a barraca da Bá, e sobrava um pouco para sentarmos na
frente. E o que fazer quando se está quebrado de tanto andar, esfolado pelo
bambus-fogo e sem saber com certeza onde está e como ir embora? Claro,
começamos a falar besteira! E o festival do besteirol foi até tarde da noite.
Hora era a narração da corrida de Fórmula 1 disputada pela nuvem de mosquitos
em torno de nossas orelhas, hora outra asneira qualquer. Tudo era motivo para
gargalhadas! Mas a grande piada foi mesmo a lenda do “Mede e Morde”.
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A noite foi inesquecível. Levarei
tempo para recolocar a coluna no lugar, após passar o tempo todo deitado torto,
desviando das raízes e tocos que forravam o chão! Lá pelas tantas o Chico
levantou para regar a moita, e finalmente encontrei a posição correta, que
encaixava as raízes entre as vértebras. Infelizmente eu teria que ficar sozinho
na barraca para dar certo, e quando ele retornou a tortura continuou. Como tudo
que é bom dura pouco, logo amanheceu. Cansados de tanta aventura, decidimos não
arriscar seguindo adiante, e procuramos logo um caminho de volta à Graciosa.
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Desmontamos o acampamento e
estudamos nossa rota. Se estivéssemos realmente onde eu pensava que estávamos,
então se descêssemos a encosta encontraríamos um pequeno afluente que deságua
logo acima da cachoeira. Tocamos morro abaixo, passando novamente pela
“trilha”, que também desaparecia encosta abaixo num taquaral. Passamos sem
problemas por ele, e logo a frente saímos numa crista bem pronunciada, com
barrancos bem íngremes em ambos os lados. Começamos a escutar o barulho do
córrego a nossa frente, e em poucos minutos estávamos andando dentro dele. Sem
dúvida nenhuma era o tal afluente, o que confirmava nossa posição da noite
anterior. Vinte minutos depois paramos para o tradicional lanche em cima da
cascata. Na base do salto ficamos novamente um tempão, afinal, já que é tão
difícil chegar até ali, todo minuto vale a pena!
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Dessa vez não podíamos nos
afastar do rio, pois se não encontrássemos o início da trilha, sabe lá Deus
quantos dias gastaríamos até a Graciosa. Como o nível da água baixara muito
durante a noite, a caminhada foi bem agradável. Por vezes andamos pela margem,
e quando o mato ficava muito fechado, voltávamos para dentro do rio. Enfim
chegamos a um belo poço formado na base de uma pequena cascatinha, onde paramos
para refrescar até a alma com um banho! A água gelada espetava como um monte de
agulhas, mas assim que o corpo se acostumou foi uma delícia. Acho que ficamos
quase duas horas por ali. Mesmo se ficasse um dia inteiro, seria pouco tempo!
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Logo reencontramos a trilha do
marco 22, e iniciamos nosso caminho de volta à civilização. Apesar da saudade
que já sinto desses lugares por onde andamos, é uma alegria saber que eles
existem e continuarão intocados, a nossa espera. Até a próxima vez!

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Sobre o autor

Mikael Arnemann

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