As Extinções em Massa

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Muitas foram as extinções em massa que nosso planeta sofreu – algumas devastadoras e outras restritas. Estas extinções costumam acelerar a evolução da vida, ao eliminar espécies dominantes e permitir a irradiação de espécies sobreviventes. É por isso que a vida sempre continuou depois delas. Pelo menos por enquanto.

A mais antiga era geológica é chamada de Pré-Cambriana, começando naturalmente na origem da Terra, há 4.5 bilhões de anos. Nela tiveram início a lua e os mares, bem como a atmosfera e o primeiro supercontinente. 
 
Foi nela que a vida surgiu, inicialmente sob forma de organismos unicelulares – até que vieram a adquirir membrana à volta de seu núcleo e a formar as primeiras bactérias, responsáveis pela formação do oxigênio livre. Este desenvolvimento foi lentíssimo, levou nada menos do que 3 bilhões de anos, num mundo que no início era quente, sólido e instável e, depois, aquático e gelado.
 
É no posterior período Cambriano que surgem dois supercontinentes, o maior deles chamado Gondwana, englobando África, Ásia, América do Sul e Antártida – já Laurentia incluía parte da América do Norte. Há ainda dois territórios menores, Báltica e Sibéria. O clima é quente e as terras ocupam as regiões tropicais e temperadas. É um mundo de rocha nua e estéril.
 
O mundo esquenta, os glaciares recuam, aparecem os organismos pluricelulares com carapaças externas – e ocorre a chamada explosão cambriana, com enorme aumento da quantidade, complexidade e variedade de vida. Surgem novos seres com formas de conchas, vermes, esponjas ou estrelas. É o reino dos anelídeos, trilobitas e artrópodes. 
 
Mas ocorre uma glaciação, talvez conjugada com a ressurgência das correntes de águas frias do mar. O oxigênio disponível é sequestrado. E o resultante esfriamento do clima bloqueia a maior parte da água salina e diminui as áreas de águas rasas. É o prenúncio da primeira grande extinção, que vem a seguir.  
 
No período seguinte, conhecido como Ordoviciano, o continente Gondwana (que continha a maior área terrestre) migrou para o polo sul, contribuindo para o esfriamento global, o aparecimento de geleiras e a nova redução do oxigênio. A extinção resultante ocorreu há 450 milhões de anos e foi a segunda maior da história. Desapareceram de 60% de todos os invertebrados marinhos.   
 
A segunda extinção ocorreu no período Devoniano, há 360 milhões de anos. Esta foi a idade dos peixes, que dominam os mares e adquirem pulmões, nadadeiras e mandíbulas. As plantas primitivas agora se desenvolvem em bosques de árvores, não há ainda os herbívoros para controla-las. A terra – antes rebaixada, desértica e invadida pelos mares – torna-se úmida e quente. Nesta época, Laurentia e Báltica se juntam e se aproximam de Gondwana e Sibéria, prenunciando a fusão continental.
 
Mas este mundo ameno acaba sendo sujeito a outro período glaciar – novamente o nível, a temperatura e o oxigênio dos mares sofrem drástica redução. Parecem ter havido também impactos de meteoros e diminuição do dióxido de carbono disponível. Acredita-se que 70% da vida marinha tenha desaparecido, embora os continentes tenham sido menos afetados. Mas esta extinção foi gradual, não decorreu de uma única catástrofe.   
 
Mas a vida continuou evoluindo, a Terra voltou a se aquecer, formaram-se grandes florestas com predomínio de coníferas e samambaias, surgiram os insetos e os anfíbios foram suplantados pelos répteis, que agora governam o mundo. 
 
E todos os continentes fundem-se num único, chamado de Pangeia. Com esta enorme massa territorial, seu interior se torna mais seco, o que favorece o crescimento dos répteis. Surgem entre estes os arcossauros, antecessores dos dinossauros, e os cinodontes, precursores dos mamíferos. Estamos agora no período Permiano, há 250 milhões de anos. 
 
Ocorreu então na Sibéria uma gigantesca erupção vulcânica – devido aos depósitos de carvão, houve liberação de gás carbônico e geração de forte efeito estufa. O metano, antes congelado no fundo dos mares frios, evaporou e contribuiu para a variação da temperatura, que aumentou inacreditáveis 10°C. Um gigantesco aquecimento global, com causas diferentes do atual.
 
Em paralelo, um asteroide colidiu com a terra, enclausurando o calor. A terceira extinção, chamada de Permiana, foi a maior delas: destruiu 70% da vida terrestre e 95% da marinha. Então, a vida só será possível por enquanto à volta dos polos.
 
Estamos agora há 200 milhões de anos, na passagem do período Triássico para o Jurássico. O cataclismo anterior empobreceu a vida, embora tenham começado a surgir as primeiras aves e mamíferos, junto com pequenos dinossauros. Pangeia é banhado por dois mares, Tétis a leste e Pantalassa em todo o resto. 
 
O clima quente e seco tornou-se mais úmido após a fissura que separou Pangeia em duas massas, novamente Gondwana ao sul e Laurásia ao norte.  Assim, as florestas voltaram a se expandir e apareceram as primeiras flores. Novos corais, peixes e moluscos habitam os mares.
 
E, de novo, o planeta é abalado pela queda de um asteroide no Canadá e por novo resfriamento global. Mais importante, ressurge um intenso vulcanismo pela divisão de Pangeia, que afasta a África da América e cria o Atlântico. Esta separação estabelece um isolamento geográfico propício à diversificação evolutiva, bem como zonas costeiras que aumentam os novos habitats. 
 
Além disso, as estações começaram a se ampliar e diferenciar. Enquanto 20% das famílias marinhas são dizimadas, os grandes répteis assumem a hegemonia da Terra: dinossauros na terra, pterossauros no ar e plessiosauros no mar.  
 
Seu reinado durou até 65 milhões de anos atrás, com a extinção K-T, abreviação de Cretáceo-Terciário (ou Palogeno).  Um gigantesco meteoro atingiu o Golfo do México, fazendo a atmosfera entrar em combustão, gerando enormes maremotos e formando supervulcões. 
 
A atmosfera se escureceu, a terra se resfriou, a fotossíntese se interrompeu e sucederam períodos de chuva ácida. Os grandes herbívoros sucumbiram e desapareceu 20% da vida, cedendo espaço para pequenos peixes, aves e mamíferos.
 
Os nichos ecológicos que ficaram vagos começaram a ser ocupados por mamíferos marsupiais e depois placentários, humildes animais pequenos, solitários e noturnos. 
 
Um desses mamíferos irá se desenvolver e eliminar as espécies rivais, domesticar animais e natureza, criar a linguagem e a escrita, fundar grandes impérios e, segundo se desconfia, levar o planeta à sexta extinção.
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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