Cambé: Parques e cachus

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Distante a menos de 20km de Londrina (PR), Cambé é um municipio situado a leste da “Capital do Café” que já teve suas terras totalmente cobertas de florestas onde já moraram diversos povos indígenas. Com a urbanização promovida pelo “homem branco” na década de 30, as florestas deram lugar a extensos campos destinados á agropecuária. Contudo, remanescentes da antiga vegetação nativa persistem isolados aqui e ali, garantidos como reservas. Eis a nossa visita e estes parques desconhecidos (senão esquecidos) com direito até incursão numa simpática cachoeirinha. Estas são mais algumas pequenas surpresas naturebas que o Terceiro Planalto de Guarapuava esconde em sua aparente monocromia horizontal.

Domingo de sol e tempo limpo, perguntei pra Lau o que conhecia de Cambé, vizinha de Londrina no setor oeste, e fiquei passado ao saber que sabia tanto quanto eu.. ou seja, nada. Uma visita a amigos ou outra coisa e nada mais aprofundado. Foi o que bastou pra buscar na net alguma pernada interessante por lá e pronto, descobri que o município guardava parques e quedas relativamente próximos. Pesquisa rotas, caminhos e pronto. Já tava decidido o que fazer naquele dia. Visitariamos o “Parque Ecológico Peroba Rosa” e o “Parque Histórico Municipal Danziger Hof”.

Assim, após tomar a devida (e regular) condução em frente ao terminal de integração central, o latão da Til rumou quase que em linha reta na direção de Cambé, rasgando o asfalto da BR-369. A horizontalidade da paisagem em volta so não era maior que a surpresa contida nos odores da viagem, que iam desde o de café torrado (ao passar pela fabrica da marca Cacique), soja moída e até churrasco.

Saltamos quase na entrada da cidade depois das 10hrs, mais precisamente na frente do supermercado Mufatto, cruzamos a linha férrea e nos pirulitamos indefinidamente pela Av. Antonio Raminelli rumo leste, agora descendo suavemente o que pareceu ser um fundo de vale. Lá pela metade, cortamos pro norte pelas simpáticas ruas residenciais do Parque Ana Rosa, já avistando a copa duma exuberante floresta que imaginei ser o nosso destino.

Dito e feito, lá pelas 11hr da matina chegamos numa região ocupando quase 3 quarteirões totalmente cercada e tomada de mata. Precisamos perguntar prum morador vizinho que ver que aquele ali era mesmo nosso destino, mas não do jeito que imaginávamos. Cercado de palanques de concreto e com entradas fechadas, aquele ali era o Parque Natural Municipal Peroba Rosa (conhecido pelos locais como “Mata do Ana Rosa”), largado e fechado ao público. Do lado de fora avistava-se belos exemplares de perobas e figueiras elevando-se sobre a verdejante mata cerrada, mas já com sinais de entulho jogado por irresponsáveis.

O lugar contrariava tudo o que encontrara a respeito dele na internet. Dizia que o parque seria revitalizado, com trilhas de caminhada, rampas de acessibilidade, etc. Mas a realidade era totalmente diferente, corroborada inclusive pelo senhor aquém pedi informação: “É, era pra ser uma área de lazer mas parece que ficou só no discurso… os governantes tem outras prioridades parece.. “, emendou. Detalhe é que essa revitalização era pra ocorrer a quase 4 anos atrás. Uma pena, pois a população do bairro que sai perdendo mais uma área de recreação e convívio com a natureza que leva o nome da árvore-simbolo do norte do Paraná, explorada á exaustão pra construir casas. Por se situar no perímetro urbano de Cambé, o parque tem sua importância por se situar próximo da nascente do Córrego Jacutinga, que cruza Londrina, e por ser um manancial de abastecimento de Cambé.

Resignados a apreciar o lugar por fora, contornamos todo o perímetro da suposta área de conservação, batemos algumas fotos e pulamos fora, frustrados. Voltamos pelo mesmo caminho, mas antes comemos um delicioso pastel numa feirinha situada num ginásio do trajeto. Adentramos na cidade, passamos pelo que sobrou da antiga estação ferroviária de Cambé e chegamos até o famoso “Calçadão” local, no centro. Ali, sob o forte sol a pino do meio-dia aos pés da simpática Paroquia Santo Antonio, descasamos a sombra do belo arvoredo daquele qe imaginei ser a “Av. Paulista” de Cambé.

Após recuperar o fôlego retomamos nossa pernada agora na direção sul, descendo toda extensão da Avenida Brasil. No caminho passamos pelo cemitério e pelo terminal rodoviário de Cambé até dar na saída do perímetro sul da cidade, á margem do asfalto da BR-369, que cruzamos cautelosamente. Do outro lado tomamos uma estrada de chão avermelhado e tocamos por ela, atravessando focos de mata mas principalmente cultivos e plantações. Esta estrada tem o nome de “Bratislava” por conta duma colônia tcheca do mesmo nome (que vem duma cidade da Eslováquia) que aqui instalou-se na década de 30, atraída pela cultura cafeeira.

Mas não andamos sequer um quilometro pela poeirenta via de chão que trombamos com nosso segundo destino, Parque Histórico Municipal Danziger Hof , marcado por um simpático portal de madeira que convidava a uma bonita floresta. Contudo, parece que os parques da região padecem de descaso e incoerência com os próprios objetivos, pois o portão estava igualmente trancado nos finais de semana. Contudo, um belo rombo no cercado do lado foi a saída marota pra não voltar de mãos abanando daquela excursão dominical.

O Parque Histórico Municipal Danziger Hof tem importância por ser parte da colônia Neo Danzig, núcleo de imigrantes alemães da cidade de Danzig. Ali, logo na entrada, está a bela casa da família Tkotz, construída no início da colonização, que foi adquirida pela prefeitura. Ela foi retirada da área urbana de Cambé e transportada para o parque histórico, onde serve de museu e onde são realizadas atividades culturais eventualmente. Outra casa presente é a da família Zifchak, sede do parque, que também foi adquirida pela prefeitura e transportada até ali. Estas duas simpáticas construções de madeira (de arquitetura típica europeia) são o diferencial histórico do lugar, que preserva não apenas a mata original do entorno como dá uma ideia de como eram as moradias da época dos pioneiros. Mas como frisei, era domingo (em tese único dia de visita no mero mortal) e estava tudo fechado. Algo recorrente com boa parte das áreas de conservação do norte paranaense.

Além do casario, o parque tem duas trilhas ecológicas (bem sinalizadas) que se interligam num circuito de menos de 3kms e que foi onde num piscar de olhos nos pirulitamos. A vereda é cercada de mata nativa em estado intermediário de conservação, bem roçada e onde se perder é impossível. Já logo de cara a rota desce suavemente no que parece ser um fundo suave de vale, onde é possivel escutar o rumorejo de água em abundância. Dito e feito, a vereda chega as margens do manso ribeirão São Domingos e passa a acompanhá-lo em nível pela sua margem esquerda, subindo seu curso. Este curso dágua tem relativa importância por ser afluente do Ribeirão Cafezal e cortar boa parte da cidade de Londrina, sem falar que ele permite que a vida animal transite pela margem indo de encontro a outros fragmentos florestais, como o Jardim Botânico e o Parque Municipal Arthur Thomas.

Pois bem, e assim comecamos a subir o rio sem alteração alguma de altitude, sempre envoltos pela pitoresca e cerrada mata arbustiva que é típica desta região. Qualquer semelhança com a Mata dos Godoy ou o Parque Estadual de Ibiporã não será mera coincidência. Dizem que a vida animal pulsa com força, mas desta vez não vimos nada e provavelmente sei o motivo. O barulho onipresente da rodovia bem ao lado do parque afugenta não os pássaros como representa um impacto a ser considerado em virtude da localização da área de preservação. Mas outro motivo do sumiço aparente dos bichos possa ser o boato da presença ilegal de caçadores e pescadores no lugar, coisa que não pudemos confirmar durante nossa visita.

Nossa pernada prossegue tranquila e imutável, ate que de repente uma breve ramificação da via principal nos leva as margens dum belo laguinho onde é represada a água do São Domingos. Garças e outras aves ariscas arriscam-se a meditar sobre a vegetação aquática mas somente ate nossa presença se confirmar da parte delas. Após alguns cliques do belo espelho dágua nossa pernada sofre uma mudança de direção e, mediante uma vereda mais pedregosa e levemente em ascensão, abandona o agora ruidoso ribeirão e começa a dar a volta como que retornando ao ponto de partida. Trajeto este que logo nivela e singra sinuosamente um trecho bem mais “selvagem” que o anterior, repleto de mato tombado, exemplares gigantes de canjerana e alecrim, além de maravilhosos túneis de bambus que mais pareciam ter sido feitos pela mão do homem.

Terminamos nossa pernada pouco mais de meia hora após ter adentrado no parque, visitando o circuito principal e o que parecia ser um que percorria metade dele. Ambos iniciando e findando na sede que, como já disse antes, estava fechada. Na sequência descansamos  numa área que devia ser comunitária mas era ornada por um belo mural azulejado com uma foto ampliada dos pioneiros do Danziger Hof. Na sequência não nos restou senão voltar ao centro de Cambé pelo mesmo caminho, amargando o forte sol das 15hrs na cachola e sem perspectiva alguma de carona. Mas e dai? Nada melhor do que parar brevemente num boteco, “hidratar” as idéias com breja gelada, e depois continuar indo de encontro ao Terminal Metropolitano de Cambé, situado na Praça Getúlio Vargas.

Na domingo seguinte retornamos a Cambé, mas desta vez atrás duma cascatinha situada a noroeste do município, quase na divisa com Rolândia. Por sua localização ser coisa de aproximados 12km distante do centro tivemos que levantar mais cedo, diferente da vez anterior. Assim sendo e tomando a mesma condução anterior, saltamos no Terminal Metropolitano de Cambé pouco depois das 9hrs. Cruzamos então a Praça Getúlio Vargas, desviando dos trocentos idosos e vira-latas tomando o sol agradável daquela manhã estupidamente limpa. Tocamos pela Av. Inglaterra todinha na direção desejada, mas percebemos que podíamos ter ido pela paralela, a Rua Portugal, pois a rota depois tocava naquela direção. Tudo bem, o dia estava apenas começando.

O asfalto logo deu logo lugar ao chão após passar pelo lado Estádio Municipal Jose Garbelini, onde tomamos a precária Rua Belo Horizonte, que ao virar pro norte cruza a linha férrea e ganha o singelo nome de “Estrada do Cateto”. Após a linha férrea nos vemos já além do perímetro urbano do município, pois a paisagem descortinada revela uma estrada interminável rasgando a horizontalidade de plantios e cultivos sem fim. Respiramos fundo e começamos oficialmente a chinelada propriamente dita, conversando trivialidades afim de passar o tempo naquela estrada tão avermelhada quanto poeirenta. E tome chão interminável sempre em linha reta, onde os tons do milho, trigo e café se reverzavam e onde até uma simpática corujinha (mimetizada na estrada) pareceu nos dar as boas-vindas. Quebrando a aparente monocromia daquele quadrante, fazendas isoladas pincelavam tons verdes e silos faiscavam ao sol daquela manhã.

Quem já andou por estas paragens sabe que os fundos de vale nem o parecem pela suavidade e amplitude que o terreno apresenta, á diferença do relevo abrupto da Serra do Mar. Assim, após cerca de hora em linha reta  – e descida imperceptível – cruzamos o primeiro grande curso dágua por sobre um velho pontilhão de madeira. Era o Ribeirão Barra Grande, que levava suas águas barrentas na direção leste. Aqui demos uns perdidos entre duas fazendas, onde estridentes cães anunciaram nossa presença (e assustaram a Lau), mas felizmente conseguimos encontrar a via que deixava o vale, subindo suavemente até a lombada de crista seguinte por entre belos exemplares de café, pro norte.

A vereda desembocou  na bucólica “Estrada de São Rafael”, onde bastou tocar sentido oeste, mas antes tivemos um efêmero pit-stop á sombra dumas goiabeiras que fizeram a alegria da Lau. Na sequência, pela estrada bastou andar coisa de um ou dois km (no máximo), uma vez que identifiquei a via que descia pro largo vale sgte, ao norte, onde se encontrava a tal queda almejada. Descemos então pela sinuosa via em meio a um vasto milharal, já ouvindo o rugido furioso de água correndo conforme nos aproximávamos. Daqui em diante era so seguir o som de água correndo, sem erro. O milho logo deu lugar a mata ciliar bem fechada, mas nos finalmentes encontrei sem gde dificuldade a vereda que se pirulitava pela estreita florestinha que recobria as margens daquele que correspondia ao Ribeirão Vermelho.

E em coisa de minutos pisávamos nos lajedos que cercavam a Cachu da São Rafael, nomenclatura que adotei pela diversidade de nomes que a queda recebe. A cachu tem menos de 2m de altura mas é bem larga entre suas margens. Dali despencavam as águas barrentas (havia chovido dia antes!) que davam ao rio um certo tom avermelhado e que quiçá seja motivo do nome do mesmo. Na base da queda havia um belo e enorme piscinão de tons rubros que por motivos de temperatura ambiente fria declinamos, mas creio que no verão o lugar deve ferver de gente pelo q sinais de fogueira indicavam. Fuxicando rio acima encontrei outra vereda recém-roçada, mas esta decerto era pra indicar a passagem pra motos (havia vestígios de enduros de trail) no trecho mais estreito e raso do rio. Mas como havia chovido dia antes, além de turvo o rio estava mais fundo e furioso, o que me fez declinar de atravessá-lo. Sinal de lixo? Nenhum. Horas? Quase 13hr!

Após um bom tempo de descanso, mastigar um delicioso lanche e, claro, vários cliques, levantamos o traseiro pra dar inicio ao longo retorno que nos aguardava. Ainda bem, pois os minúsculos insetos alados do lugar estavam ávidos por sangue fresco. Voltamos pelo mesmo caminho, embora houvesse vontade de ter tentando carona no sentido de Rolândia, na “Estrada de São Rafael”, onde havia um ou outro veiculo transitando. Contudo, a incerteza da mesma e a real possibilidade de andar bem mais que o caminho original diluiu esta idéia. Pois bem, como não havia pressa voltamos num compasso bem menor que na ida, principalmente pelas inúmeras paradas pra encher a mochila de milho fresco e literalmente “fazer a feira”. Foi ai que a Lau ensinou a este aqui que vos escreve qual espiga era boa pra colher e qual não o era. Vivendo e aprendendo..Chegamos no centro de Cambé no momento exato de tomar a condução de volta pra Londrina, lá pelas 16:30hr, mas não sem antes passar num boteco bem moquifo pra molhar a goela, claro. Enfim, um dia bem cheio e bastante produtivo no quesito pernada.

Cambé significa “passo do veado”, em tupi, uma vez que aquela região era abundante em caça dentro dos exuberantes bosques que outrora recobriram todo o município. Atualmente Cambé possui outros fragmentos florestais isolados. Atrativos mais próximos como o “Parque Zezão” e a “Mata dos Escoteiros”, e outros espalhados além do perímetro urbano, onde estão também algumas cachoeiras escondidas. Pra estes atrativos mais distantes, a disposição pra andar é apenas mais um tempero á aventura. Sim, sempre fui avesso a caminhadas por enfadonhas e poeirentas estradas de terra por julgá-las sem atrativo algum. Mas em Londrina reconsiderei meus conceitos ao me ver palmilhando muitas vias de chão, seja  atrás dalguma surpresa natureba escondida em fundos de vale ou procurando algum marco importante da colonização em meio a cultivos de perder a vista. E esse é o charme que distingue o Terceiro Planalto Paranaense de qualquer outro badalado destino outdoor no Brasil.

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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