Cerro Plata invernal – “O grande ataque”

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Nos Andes meridionais escalar no inverno é bem diferente do que no verão: o clima é muito mais instável e as temperaturas são consideravelmente mais baixas. Nas semanas que antecederam minha viagem para a Argentina acompanhei a previsão do tempo e, nos dias ruins, que eram bastante frequentes, o vento no cume do cerro Plata chegava a 100 km/h, com sensação térmica de -40o C, enquanto que no Aconcagua o vento era de 120 km/h no cume, com a sensação térmica a incríveis -52o C.

Cheguei a Vallecitos em uma terça-feira e minha ideia era subir rápido, para aproveitar uma suposta janela de tempo bom prevista para o sábado e tentar chegar ao cume do cerro Plata (5986/6000? m). Passei os dois primeiros dias no refúgio Mausy, localizado a uns 2900 m de altitude. Na terça-feira fiz uma caminhada de aclimatação subindo algumas montanhas acima de 3000 m: Andrecitos (3116 m), Arenales (3381 m), Lomas Blancas (3659 m) e dois cumes (cerro Estudiantes – 3700 m e cerro Cáucaso – 3800 m) da La Cadenita, que é a aresta que liga o Lomas Blancas ao cerro Agustín Álvares. Para a quarta-feira estava previsto um tempo bastante ruim. Mesmo assim acordei cedo e fui até Las Veguitas (3247 m), com a intenção de subir o cerro San Bernardo (4150 m). Mas, pouco depois das 09:00, quando eu já estava a uns 3600 m começando a subida final pelo “acarreo” que leva ao cume, a previsão se confirmou, o vento aumentou muito e começou a nevar, me obrigando a voltar ao refúgio.

Nesses dois primeiros dias tive uma amostra das dificuldades de se escalar nessa região durante o inverno. O branco predominava na paisagem, contrastando com o visual árido e de pouca neve do verão. As nevascas eram constantes, o vento bem mais forte e o frio intenso, mesmo durante o dia. Logo acima do refúgio Mausy já havia bastante neve acumulada no caminho, alternando trechos de neve fofa com um gelo traiçoeiro e escorregadio e fazendo com que se gastasse o dobro do tempo para se chegar a Las Veguitas.

Na quinta-feira o céu amanheceu limpo e preparei minha mochila com a intenção de subir direto para o acampamento El Salto (4283 m). A ideia era descansar durante a sexta-feira e atacar o cume na madrugada de sábado, aproveitando a janela de tempo bom. Havia nevado bastante até uns 100 m abaixo do refúgio. Em Las Veguitas encontrei com dois argentinos que também estavam subindo para El Salto. Chegamos a Piedra Grande (3571 m) às 14:00. Eu havia gasto mais de 4 horas até ali, sendo que, no verão, bem aclimatado, dá para fazer este trecho com carga em menos de 3 horas. Por sorte, na maior parte do caminho entre Las Veguitas e Piedra Grande a neve estava bem dura, permitindo um deslocamento rápido. Porém, a partir de Piedra Grande as condições começaram a piorar e tivemos que cruzar dois “neveros” de neve profunda, onde era preciso ter muito cuidado porque havia muitas pedras escondidas e o risco de se torcer um pé era grande.

Por volta das 16:00 chegamos na base do “acarreo” que conduz à subida final até El Salto, conhecida como Infiernillo, na verdade uma “morena” glaciar ou depósito de sedimentos, e encontramos outros dois amigos dos argentinos. Estávamos a uns 3800 m e havíamos gasto 2 horas para subir pouco mais de 200 m. Os argentinos resolveram acampar ali, um lugar bastante desconfortável e exposto aos ventos. Eu resolvi continuar, com a expectativa de que, ao chegar na crista do “acarreo”, as condições da neve melhorassem. No entanto, a subida estava totalmente obstruída e encontrei o trecho de neve mais profunda até então. Em alguns pontos me afundava quase até a cintura e, ao constatar que meu progresso era extremamente lento, resolvi voltar e me juntar aos argentinos.

Quando estava procurando um lugar mais plano para colocar a barraca começou um vento fortíssimo, me impedindo de montar a mesma. O jeito foi armá-la atrás de um grande “boulder”, um local desnivelado e cheio de pedras, mas que pelo menos me oferecia uma proteção mínima contra o vento. Mesmo assim foi uma luta para montar e fixar a barraca. O vento, além de forte, trazia muita neve e, em poucos minutos, a água que estava na garrafa pendurada no lado de fora de minha mochila congelou sob os efeitos gelados da ventania. Já era quase 17:30 quando, finalmente, pude entrar na barraca e aquecer minhas mãos, que já estavam duras da batalha contra o vento. Por volta das 21:00 o vento cessou totalmente. Saí da barraca e o céu estava limpo e repleto de estrelas. Dormi confiante na previsão de tempo bom para os próximos dias.

Na sexta-feira o dia amanheceu com céu azul e uma brisa suave. Nesta época do ano amanhece tarde, entre 08:15 e 08:30. Esperamos o sol esquentar um pouco e começamos a subida em direção a El Salto, eu e os quatro argentinos. Logo de cara tivemos que enfrentar o trecho de neve profunda que eu havia tentado ultrapassar na véspera. Mesmo nas primeiras horas do dia a neve permanecia solta e instável, não havendo se congelado com o frio da madrugada. Gastamos mais de uma hora para abrir a rota até o alto do “acarreo”, muito esforço para avançar poucos metros. O caminho, a partir de então, vai se tornando cada vez mais íngreme até chegar ao Infiernillo (o nome já diz tudo), que é o trecho mais inclinado antes de se chegar a El Salto. Alternando trechos sem neve com outros de neve fofa, avançamos lentamente. Na parte final do Infiernillo há uma pequena travessia horizontal, antecedendo uma forte subida em curva que dá acesso ao platô onde se localiza o acampamento de El Salto. Esse ponto estava totalmente tomado pela neve, transformando a trilha fácil do verão em uma pendente de uns 45o de inclinação bastante exposta. Para complicar, a neve estava congelada e era preciso entalhar alguns degraus para subir sem os crampons. Por diversas vezes a camada de gelo da superfície se rompia e a neve mais fofa que estava embaixo, misturada com pedra e areia, cedia e desmoronava, dificultando ainda mais a subida. Com o peso da mochila era preciso ter muito cuidado para não escorregar e rolar encosta abaixo. Precisamos de quase uma hora para abrir este outro pedaço da rota e chegamos a El Salto às 15:00. Havíamos gasto umas 5 horas para vencer pouco mais de 400 m de desnível (no verão seria possível fazer esse percurso em torno de uma hora e meia).

Mas os problemas estavam só começando. Nem bem chegamos e colocamos as mochilas no chão e começou a soprar um vento furioso, na verdade um “viento blanco” que nos despejava bastante neve e pedaços de gelo, além de pequenas pedras e poeira.     Tentei montar minha barraca e, após um grande esforço e muitas tentativas, consegui colocá-la de pé. Quando estava reforçando os pontos de fixação ouvi um barulho de algo se quebrando e percebi que uma das varetas havia se partido. O jeito foi colocar a barraca no chão, antes que o estrago fosse maior, e esperar uma melhora no vento (alguns dias depois fui para Uspallata, para uma saída da Escuela de Guías, e constatei que a barraca estava cheia de pequenos furos, provavelmente consequência dos projéteis de gelo e pedra arremessados pelo vento).

Dois dos argentinos desistiram e desceram para o refúgio San Bernardo. Os outros dois resolveram esperar um pouco mais junto comigo, mas acabaram por desistir também, retornando para o local que havíamos acampado na véspera. Eu fiquei aguardando até as 16:30, mas o vento não dava uma trégua. Pensei em dormir dentro da barraca desmontada em uma espécie de bivaque, mas como não tinha certeza se o vento me permitiria atacar o cume essa noite, achei que o desconforto não valeria a pena. Além de tudo, o frio estava aumentando e tomei a decisão de descer.

A descida foi bem mais rápida, com a rota já aberta. Cheguei ao local do acampamento intermediário uma hora depois e encontrei os argentinos montando a barraca com dificuldade, pois o vento também era forte por ali. Não tinha vontade de passar mais uma noite desconfortável nesse local e continuei a descer. Passei por Piedra Grande quase ao anoitecer e, então, tive a ideia de voltar ao refúgio Mausy, descansar um dia e atacar o cume diretamente de lá. Na verdade, essa era uma ideia antiga, mas nunca tive a intenção de fazer isso em condições invernais, já que o desnível é imenso, mais de 3000 m, além da longa distância (uns 13 km até o cume). Mas gostei tanto dessa possibilidade que não encontrei argumentos que me convencessem a ficar em Piedra Grande. Apertei o passo e, antes das 20:30, já estava no calor do refúgio preparando um macarrão. Havia sido um dia longo e desgastante, subindo com todo peso até El Salto e descendo novamente e, para conseguir colocar minha ideia em prática, precisaria descansar bem, já que havia forçado bastante na descida para chegar o quanto antes no refúgio.

No sábado procurei acordar mais tarde e me levantei depois das 09:00 da manhã. Passei o dia dentro do refúgio lendo e procurando me alimentar e me hidratar adequadamente. A previsão era de tempo bom para o domingo e, antes de escurecer, fui para meu quarto para tentar dormir um pouco. Pouco depois chegou um guia com alguns clientes e não consegui pegar no sono como gostaria, devido ao barulho, somente dei alguns cochilos. Lá pelas onze e meia da noite me levantei, fiz um lanche rápido, troquei de roupa, peguei minha mochila e, meia-noite e quinze, saí do refúgio com o objetivo de chegar ao cume do Plata, para espanto do grupo que ainda estava acordado, tomando vinho e comemorando sei lá o que. Seria um longo dia…

A noite estava linda, com o céu estrelado e sem ventos. Subi em ritmo forte, sabendo que uma boa velocidade seria fundamental para atingir meu objetivo principal. A rota agora estava aberta até El Salto, mas não sabia sobre suas condições a partir deste ponto. Se existissem muitos trechos complicados poderia não haver tempo suficiente para chegar até o cume. Por isso apertei o passo, aproveitando a neve mais dura durante as frias horas da noite. E que noite! Chegando em Las Veguitas vislumbrei a silhueta do Vallecitos ao longe, iluminada pela fraca luz da lua crescente. Mesmo de madrugada o branco da paisagem se destacava e Las Veguitas havia se transformado em uma grande planície de gelo. Atravessei esta planície e entrei na subida que leva até Piedra Grande, uma verdadeira “autoestrada” de neve congelada. Passei direto por Piedra Grande e cheguei ao acampamento intermediário, onde pensei encontrar os argentinos, em pouco mais de duas horas e meia, menos da metade do tempo que havia gasto para subir com peso, abrindo a rota. Os argentinos não estavam mais lá, provavelmente desistiram e desceram na véspera. Eu estava sozinho na montanha e o silêncio e a sensação de solidão se fizeram mais fortes.

O trecho de neve profunda que vinha a seguir continuava em péssimas condições, retardando um pouco meu ritmo. Após vencer este obstáculo acelerei novamente até a travessia do Infiernillo, que se mostrou mais complicada do que antes. O problema era que a rota que havíamos aberto estava novamente congelada e agora a neve estava duríssima, não me permitindo talhar alguns pontos de apoio com a bota para passar com segurança. O jeito foi sacar o piolet da mochila para esse trabalho para, literalmente, quebrar o gelo, além de utilizá-lo como ferramenta de segurança em caso de uma queda. Cheguei a El Salto às 04:30 e parei rapidamente para comer alguma coisa e me hidratar. À medida que eu subia e a noite avançava, o frio também aumentava. Por isso, coloquei minha jaqueta de pena de ganso que utilizei no Cho Oyu, no Himalaia, já me preparando para um possível aumento na força do vento com a proximidade do amanhecer. Pode parecer exagero, mas subir um “seis mil” invernal nessa região requer, geralmente, a utilização de roupas e acessórios usados na escalada de um “oito mil”.

Busquei o caminho para o acampamento La Hoyada (4660 m) e fui surpreendido por um grande “nevero” que, por sorte, estava com a neve dura e perfeita para um deslocamento rápido: mais uma “autoestrada” gelada me conduzindo montanha acima. Após deixar a neve para trás procurei sinais da trilha que no verão é bastante óbvia, mas que agora apresentava poucos vestígios. Encontrei alguns totens e segui em frente, chegando a La Hoyada por volta das 06:00. Em seguida vem uma subida forte, em direção à aresta que conduz à rota normal do cerro Lomas Amarillas e a trilha, então, vai progressivamente ganhando altura margeando a encosta à esquerda até o ponto em que, abruptamente, volta a subir fortemente para chegar ao colo entre os cerros Lomas Amarillas e Vallecitos.

Porém, após a primeira subida, a trilha desapareceu e me dei conta que o final da “quebrada de Vallecitos” estava totalmente tomado pela neve. Aquele trecho corresponde ao fundo da “panela” formada por três grandes montanhas, Vallecitos (5450 m), Rincón (5369 m) e Lomas Amarillas (5141 m), com a imponente parede da face leste do Vallecitos em destaque. Meu ritmo caiu bastante, pois a neve estava bastante profunda e instável. Procurei subir pela encosta à esquerda, onde supostamente estaria a trilha, e, na medida em que subia, a neve fofa dava lugar a uma neve bem dura e placas de gelo. Apesar da dificuldade de se caminhar neste local, devido à maior inclinação e à presença de grandes blocos de pedra, achei melhor do que me afundar na neve mais abaixo. Coloquei os crampons e segui lentamente, brigando por cada metro. Este trecho me tomou muito tempo e já era mais de 08:00 quando começou a clarear e pude perceber uma tênue linha na neve onde a trilha correta se encontrava. Busquei esta linha para chegar ao ponto correto de subida ao colo e, por volta das 08:30, cheguei a este ponto. O acesso ao colo estava em condições piores do que o fundo do vale e a neve chegava até o joelho, em uma inclinação de uns 45o. Devo ter gasto quase uma hora para vencer um trecho ridiculamente curto e, por volta das 09:30, cheguei ao colo Lomas Amarillas – Vallecitos.

Estava preocupado com o horário. Ainda tinha uns 200 m de subida pela aresta até o outro colo que separa o Vallecitos do Plata e, de lá, mais 1000 m até o cume. Como a aresta é bastante exposta, os ventos não permitem a acumulação de neve e o caminho estava fácil. Só então percebi que o tempo estava excelente, praticamente não havia vento nenhum. Esta é uma condição atípica no Cordón del Plata, principalmente no inverno, e um dos grandes problemas da ascensão ao cerro Plata é o vento fortíssimo que costuma varrer o colo Vallecitos – Plata que, por essa razão, é conhecido com o sugestivo nome de Portezuelo del Viento. Estava com sorte e minha motivação voltou a crescer. Subi a aresta rapidamente, desviando de alguns obstáculos rochosos, e só fui encontrar neve na parte final, imediatamente abaixo do colo. Este trecho se mostrou mais delicado, uma travessia em diagonal alternando neve dura e profunda que me retardou um pouco.

Cheguei ao colo Vallecitos – Plata pouco antes das 11:00 e o vento não passava de uma leve brisa, dando-me ao luxo de parar naquele local exposto para descansar um pouco, comer alguma coisa e me hidratar. Daqui em diante teria que subir muito rápido, pois não adiantava chegar ao cume e não ter tempo suficiente para descer as partes mais complicadas ainda de dia. Meu objetivo era estar de volta a La Hoyada até as 19:00, aproveitado a luz do dia para descer os dois colos. Para isso, deveria chegar ao cume até as 15:00 ou 15:30, no máximo, tendo que subir 1000 m em quatro horas.

Apertei o passo novamente e comecei a subir o mais rápido que pude, levando em conta que já havia subido 2100 m em onze horas intensas. O caminho agora segue uma pendente mais suave e longa e a distância até ao cume é de quase 3,5 km. O ganho de altitude no início é lento e o lado psicológico começa a falar mais alto: é preciso ter paciência e seguir adiante.

Finalmente, cheguei à subida final que termina no falso cume, um zigue-zague interminável por um “acarreo” instável de pedras soltas. Para chegar ao “acarreo” é preciso atravessar a parte baixa do glaciar, onde a neve estava profunda e difícil de ser percorrida. Eu torcia para que houvesse neve no “acarreo”, deixando-o um pouco mais sólido. Porém, após o grande esforço para atravessar o glaciar, constatei que não havia neve dali para cima e comecei a subir lentamente, buscando os trechos mais firmes e as curvas mais abertas que suavizavam a inclinação. Na metade do caminho mudei de ideia e optei por subir pelo glaciar, pois o progresso pelo “acarreo” estava bastante lento e desgastante. Por sorte, a neve na parte superior do glaciar parecia em melhores condições. Coloquei novamente os crampons e retomei a subida. Minha decisão se mostrou acertada e meu ritmo aumentou consideravelmente. Quando vislumbrei os restos do helicóptero nas proximidades do falso cume me senti aliviado. Contornei pela extremidade do glaciar e subi uma pequena e última rampa de neve para chegar ao cume verdadeiro com suas cruzes. Olhei no relógio e estava exatamente no horário limite: 15:30. Havia conseguido vencer o desafio que me havia proposto, subindo quase 3100 m até o cume em pouco mais de 15 horas.

Fiquei no cume por uns quinze minutos, curtindo o visual magnífico com aquele mundo de montanhas ao meu redor repleto de gigantes como o Aconcagua e o Tupungato, além do impressionante Macizo de La Jaula com as torres do Cordón del Peine em evidência. “Quantas vidas seriam necessárias para subir todos esses cumes?”, pensei. Uma longa descida me esperava e, após descansar um pouco e registrar o momento em algumas fotografias, preparei minha mochila para tomar o caminho de volta. O montanhismo descrito dessa maneira pode parecer algo irracional ou sem sentido: 15 horas de subida e “sofrimento” para apenas 15 minutos no cume! Mas, ao contrário, vejo isso como uma metáfora repleta de significação. É com ironia que agora me vem à cabeça algumas observações do narrador anônimo das Notas do subsolo, de Dostoievski, que transcrevo aqui: “E porque os senhores estão assim tão firme e solenemente convencidos de que apenas o que é normal e positivo, ou seja, o bem-estar, é vantajoso para o homem? A razão não estará cometendo um erro quanto às vantagens? Quem sabe o homem ame não apenas o bem-estar? Quem sabe ele ame igualmente o sofrimento? Quem sabe o sofrimento é para ele tão vantajoso quanto o bem-estar?”, ou ainda, “Eu, por exemplo, naturalmente quero viver para satisfazer toda a minha capacidade de vida, e não para satisfazer apenas minha capacidade racional, ou seja, talvez a vigésima parte de toda a minha capacidade de viver. Que sabe a razão? Ela sabe apenas aquilo que conseguiu conhecer (…); já a natureza humana, esta age como um todo, com tudo o que possui, seja consciente, seja inconsciente – e, mesmo mentindo, está vivendo”.

O cume é uma analogia perfeita para a impermanência e transitoriedade das coisas do mundo e o esforço se chegar lá nos ajuda na percepção desse sentido de contingência: mal atingimos o ponto mais alto e já iniciamos a descida, ninguém consegue permanecer no topo por muito tempo e toda glória é efêmera. E a glória no montanhismo não é diferente. Infelizmente, muitos montanhistas tentam, de forma arrogante, transformar em glória perene momentos de realização pessoal, enaltecendo desproporcionalmente seus feitos. O montanhismo, porém, é um esporte sem plateia, pódio ou aplausos, e sem vencidos ou vencedores. Somente vencemos a nós mesmos superando os desafios a que nos propomos, que são definidos por nossas limitações, daí o caráter efêmero de qualquer realização: percebemos que a vitória foi sobre um insignificante limite pessoal, que não é nada se comparado à grandeza da montanha.

Desci diretamente pelo glaciar até reencontrar a rota logo abaixo do “acarreo”. Chegando na trilha tirei os crampons e tentei caminhar o mais rápido possível os quase 3 km que me levariam de volta ao colo Vallecitos – Plata. O dia continuava sem ventos e passei pelo colo sem problemas. Optei por uma descida direta para o colo Vallecitos – Lomas Blancas, tentando evitar a travessia coberta de neve da trilha. A descida desse outro colo me preocupava, devido à grande quantidade de neve acumulada, mas acabou sendo bem rápida e tranquila. Atravessei o fundo da “panela” da quebrada Vallecitos aproveitando os vestígios da rota que eu havia aberto e cheguei a La Hoyada com as últimas luzes do dia, logo depois das 19:00. Pouco depois os vestígios da trilha desapareceram e continuei, já de noite, me orientando pelo rumo. Não existe risco de se perder nesse trecho, pois basta descer a quebrada para chegar a El Salto, mas tive uma interessante sensação de “estranhamento” descendo no escuro sem referências do caminho: de repente, as montanhas a minha volta me pareceram muito mais altas e imponentes do que na véspera. Em menos de uma hora cheguei a El Salto e resolvi fazer uma parada de descanso.

Já passava das 20:00 quando reiniciei a descida. Havia bebido o que me restava de água e teria que chegar a Las Veguitas para me reidratar novamente. Até então, estava bebendo pequenos goles de água em intervalos regulares. Mas foi só a água acabar para começar uma sede quase insuportável. Minha lanterna “comedora de pilhas” também começou a apresentar uma luz mais fraca, dificultando a visualização do caminho. Cansado, sedento e enxergando mal tive que diminuir o ritmo, gastando umas 3 horas até Las Veguitas, mais do que havia gasto dois dias atrás descendo com uns 20 quilos nas costas. Aquela planície congelada parecia interminável e fantasmagórica sob a luz tênue de minha lanterna quando, finalmente, ouvi o barulho da água corrente do rio. Enchi minha garrafa, sentei em uma pedra e bebi prazerosamente um litro de água. Ao fundo, como na véspera, a lua crescente realçava os contornos brancos do Cordón del Plata. Foi preciso quase uma hora para terminar a descida até o refúgio. Cheguei lá por volta de meia-noite e meia, completando mais de 24 horas de ataque ao cume, o mais longo que já havia feito!

 

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Sobre o autor

Marcelo Delvaux - Colunista

Marcelo Delvaux é montanhista e guia profissional de montanha pela EPGAMT de Mendoza, Argentina, onde vive atualmente. Praticante de escalada em rocha desde a década de 90 e de escalada em altitude desde 2001, já participou de diversas expedições na Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Guatemala e Tibete, virando adepto de um estilo rápido e leve. Acredita que a multidisciplinaridade é o caminho para o crescimento pessoal e sucesso profissional e busca a integração de áreas como montanhismo, filosofia e gestão de projetos em seus treinamentos de liderança, motivação e desenvolvimento humano.

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