Dois Animais

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São mais duas formações no sul de Minas, uma região vazia de gente, mas afortunada por seus incríveis visuais de vales e serras, com um magnífico cordão de montanhas.

Avanço agora até o município vizinho de Aiuruoca. Nosso destino é o Refúgio do Lado de Lá, a 20 km da vila.  Este é um local incrível, no alto de uma encosta e ao lado de um pequeno cânion. As construções foram feitas nas pedras do local, o que lhes confere um esplêndido aspecto rústico – e, ao proprietário, eternos problemas com as autoridades. É também um lugar de muitas e estranhas histórias.
 
O Tamanduá Bandeira (ou simplesmente Bandeira, para não confundi-lo com a Pedra do Tamanduá) é o ponto culminante desta região, do alto de seus quase 2.360 m. Apesar disto, possui um perfil suave, surgindo como um mero morro abaulado por cima dos campos à volta – que são chamados de Retiro dos Pedros, sendo mais elevados que o Papagaio. É por esta razão que nenhuma das montanhas próximas têm ascensões íngremes.  
 
A trilha é bem simples: caminhe rumo sul pelo pasto à frente, dando as costas para a Refúgio. Nos pontos altos de seu percurso, você verá as corcovas do Papagaio, afastando-se como ondas sucessivas rumo à sua parede terminal. O Bandeira fica exatamente a sul do Papagaio, a talvez 5 km em linha reta.  
 
Após um brejo, você encontrará formações rochosas que abrigam uma surpreendente gruta – suba então a sua encosta por uma trilha apenas esboçada. Você chegará ao cume após menos de 1½ horas de uma caminhada tranquila, com uma ascensão de 450m. 
 
Ele é uma corcova discreta, com uma vista muito bonita para a Serra Fina e as muitas montanhas da região a oeste, para o Papagaio ao sul e para os vales agrícolas a norte. Apesar na névoa, pude discernir a Pedra da Mina e a Pedra Selada, e dizem que o Agulhas é também visível. Existem duas outras montanhas próximas, o Tamanduá (2.030m) e o Canjica (2.140m), delas só o conjunto de pedras empilhadas da primeira sendo visto. 
 
Na volta, desça rumo oeste e passe num interessante local baixo chamado curral de pedra, que faz parte do Retiro dos Pedros.  Toda esta região é muito ampla e formosa, alternando campos e rochas, com um relevo ao mesmo tempo suave e movimentado e uma forte sensação de isolamento.
 
Aiuruoca é um lugar privilegiado, pois além do Papagaio contém o Vale do Matutu – que significa cabeceira das águas, em reconhecimento às dezenas de nascentes da região. A menos de 20 km da cidade por uma estrada horrível, você chegará a este vale encerrado por altas montanhas. 
 
Ele começa no prédio antigo do Casarão logo à sua entrada e mede cerca de 2 km. O vale é fechado pela Cachoeira do Fundo, cujo risco branco decora belamente suas verdes encostas e pode ser visto de longas distâncias. 
 
O Matutu também abriga uma comunidade adepta do Santo Daime. Este culto começou no Acre, a partir das visões do caboclo Irineu, que pregava o amor pela floresta e a ingestão nos rituais da bebida chamada ayahuasca. Ela produz uma expansão da consciência que leva, segundo dizem, a estados de vidência. Tempos depois, participei de um destes rituais, mas ficaram me devendo esta revelação. 
 
Após sua morte, Irineu foi substituído por um seringalista, que desenvolveu o conceito de uma comunidade sustentável e solidária. O Daime é uma seita eclética, mistura de espiritismo com catolicismo, como você verá se subir à direita do Casarão logo que chegar ao vale.
 
Já o Pico do Pinhal (ou Cabeça do Leão) é uma elevação que você verá à esquerda, quando estiver chegando lá. Com 1.620m de altitude, é o ponto culminante de uma serrinha, que corre vagamente no rumo norte-sul. É a mais acessível das montanhas da região – sua localização e altitude permitem que você atinja o cume em menos de 1½ horas, num desnível de apenas 400 metros. 
 
Ele em nada parecerá com um leão, a menos que você o veja dos altos da serra oposta, quando terá a impressão de um imponente felino de costas. Convém lembrar que o verdadeiro Cabeça de Leão fica no PN Itatiaia, como prosseguimento da formação do Maromba. 
 
A trilha sai do Casarão e sobe ao longo da crista da montanha. Depois de passar pelos pastos do vale e pelas matas de encosta, você cruzará uma colina coberta por gramíneas e subirá até a corcova do cume. Não é uma ascensão difícil ou íngreme, até pode ser feita a cavalo.
 
Não pare na primeira laje rochosa, vá até a terceira, onde terminará sua caminhada. Deste local, você terá ao norte uma vista esplêndida da parede rochosa do Papagaio, parecendo ameaçadora e imponente contemplando lá do alto o mosaico verde do vale.  
 
Olhando a sul, você verá depois do vale o Pico do Cangalha, a meio caminho da cidadezinha de Alagoa. A oeste, o Vale do Matutu, com suas casinhas lindamente espalhadas ao longo de muito verde. E o belo risco branco da Cachoeira do Fundo, dividindo as duas encostas do vale. É um privilégio ter toda essa variada beleza abraçando a sua visão.
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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