Elbrus a montanha mais alta da Europa: Parte 1

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Parti para mais uma viagem, mais uma das que ouvi alguém falar em uma das outras tantas que fiz… E como sempre, surgiu lá dentro do peito uma vontade de ir e os caminhos para fazê-la foram acontecendo. E então me preparei para ir com a mesma empresa de expedição de outras duas que já participei.

Faço esse tipo de viagens com frequência, desde o ano de 2006, quando numas férias da exaustiva residência de Ortopedia e Traumatologia,  cansada de ficar 30 dias em casa sem fazer nada diferente,  resolvi viajar sozinha pela primeira vez. E foi então que o mundo dos trekkings, mergulho e montanhas reapareceu para mim. Reapareceu pois na infância e adolescência eu já viajava com meus pais e irmãos para praias, fui Bandeirante e participei de viagens de acampamentos regionais e internacionais, e na faculdade algumas viagens com os amigos.
 
Nestes anos de viagens pelo mundo fui deixando de ter medo, ou aprendendo a lidar com ele, e uma coragem e vontade de conhecer novos lugares , pessoas e culturas foram crescendo em mim. Passei a não ter muito medo do que surge no caminho. Mas, dessa vez, algo estava diferente. Um misto de coragem e medo, que em outras ocasiões predominava a coragem, dessa vez tornou-se mais forte o medo. Antes de ir para algum lugar novo e sozinha sempre há um certo “medo”, principalmente quando no caminho , tem um grande trajeto de avião ( tenho um pouco de medo de avião ). Mas sempre que embarco e o avião decola, sinto um alívio… Pronto… Agora não há mais o que fazer, a vida está entregue às mãos de uma força maior, tenho que confiar nos pilotos, relaxo e a viagem começa. E sinto o prazer de estar a caminho do novo e desconhecido, pronta para o que acontecer.
 
O ano de 2014 foi intenso, muitos acontecimentos na vida profissional, projetos tidos como certos que não deram certo… Uma tentativa frustrada de viver de Teatro Musical ( uma paixão da infância ) e a mudança radical para um curso tradicional de teatro,  depois de 5 anos investindo nos musicais, levaram para um caminho onde  eu não sabia o que ia acontecer.
 
Nas outras viagens que fiz, nos mares, nas trilhas e países onde eu nem sabia o idioma,  não tive tanto medo do que iria encontrar. Simplesmente me entregava ao que fosse aparecendo na jornada e em todas elas, por mais que algum perrengue acontecesse, no final uma boa história saía e sempre algum aprendizado. Dessa vez em especial, algo estranho começou já na reserva da viagem.  Fechei a expedição para o Monte Elbrus na Rússia no começo de 2014. Parece que logo depois disso as notícias sobre o conflito na Península da Criméia começaram a ser mais frequentes na TV e jornais. A todo momento via-se que Rússia e Ucrânia estavam a ponto de começar uma guerra. Muitas pessoas do meu convívio me questionavam “o que você vai fazer num lugar onde há guerra?” . Eu com toda minha coragem, ou vontade de mostrar que posso ir até para perto da guerra, que algo maior vai me proteger, ia logo justificando que o conflito era longe de onde eu ia. Alguns estavam questionando até minha capacidade de escalar uma montanha, se eu tinha preparo para isso.
 
Num momento de fraqueza emocional, nem considerei o fato de que eu já viajava há 8 anos sozinha, fizera trekkings no Brasil, Argentina, Uruguai, Peru, Nepal, mergulhara no México, Egito, Maldivas, Galápagos, muitos lugares no Brasil, e já tinha viajado sozinha para França, Polônia, Áustria… Falava 4 idiomas e estava aprendendo Russo… Fazia atividade física diariamente, andava muito, ou seja, tinha preparo físico e experiência anterior em viagens para encarar mais essa. Já tinha passado por situações tensas em algumas das viagens, mas encontrara forças e a solução quando precisei. Enfim, muitas perguntas, somadas aos acontecimentos do semestre, deixaram minha mente e psicológico abalados, e passar a questionar se eu realmente tinha capacidade de ir, se eu tinha preparo mesmo, e a pergunta “que estou fazendo indo para o meio da guerra?” começou a ser frequente nos meus momentos de reflexão.
 
Será que eu daria conta? Era uma viagem como as outras, com o fator adicional de ser uma escalada onde usaríamos botas duplas e crampons, os quais, a não ser por uma breve experiência num glaciar na Patagônia Argentina em 2007, eu ainda não havia usado. Caminharíamos na neve, a Rússia é mais fria, apesar de no mês de setembro lá ser verão. A viagem se aproximava e junto com ela a situação na Península da Criméia ficou mais tensa.
 
Embarcaria em setembro, e  em agosto alguns incidentes com aviões me deixaram impressionada ( o medo do avião… mas mesmo assim enfrento, é o único jeito de chegar em lugares incríveis… ) um avião de civis foi abatido sobrevoando a Ucrânia, o avião de um candidato a presidência no Brasil caiu, sem contar um acidente com o metrô em Moscou. Nos e-mails trocados entre o grupo que participaria da expedição, algumas pessoas mostravam-se inseguras com as notícias, com o tipo de caminhada, equipamento, terreno que íamos encontrar por lá, e somado a essas questões ( que eu achava que eram só minhas ) uma demora na chegada dos papéis da viagem, e resposta da equipe responsável pela viagem, ajudaram a aumentar a tensão, emoção e dúvidas destes dias que antecederam a viagem.
 
A perda de uma grande amiga, que lutava há 2 anos contra um câncer, há 2 semanas de meu embarque, também me deixou reflexiva e desanimada. Mais pessoas questionando se eu tinha conhecimento e treino para escalar montanhas, somada aos acidentes aéreos, de metrô e conflitos na Rússia me deixaram ainda mais insegura e serviram para aumentar minha desconfiança quanto às minhas capacidades em fazer viagens de aventura. Não seria hora de parar com isso? Acho que eu não tenho preparo para isso… Só pessoas muito fortes vão para as montanhas… O que estou inventando? Pensei que este talvez seria o momento de sossegar, deixar de fazer atividades tão radicais. Bom, esses foram os pensamentos que me acompanharam durante as semanas que antecederam o embarque. Um medo de que acontecesse algo e eu tivesse que interromper novos projetos como o teatro, que pareciam ter engrenado fizeram pensar algumas vezes em não ir, mas ainda tinha um restinho de confiança lá no fundo que dizia “vá, toda vez ir foi a melhor opção, sempre é bom, mesmo se dá algo errado”.
 
Eu tinha certeza de que algo iria acontecer, que meu avião ia cair no mar, ou sobrevoar a Ucrânia e ser abatido ( apesar das rotas sobre a Ucrânia terem sido desviadas ). Tinha certeza de que estava indo para a Guerra ( apesar do local da escalada ser longe do local do conflito ), mas de qualquer forma, apesar do medo a vontade de ir era maior, eu queria ir. Então, reuni as minhas forças e fui. E tive na viagem a confirmação de que “se der medo vai com medo mesmo” é uma frase poderosa. A experiência dessa viagem fez com que eu vivesse na pele muitas das coisas que eu digo , e muitas das coisas que eu leio… A maior delas é a de que temos forças e podemos fazer o que temos vontade, que o medo faz parte mas não pode nos paralisar. Mesmo que tenha medo, ele não significa que você é excluído para tentar algo diferente, ou que não tem jeito para a coisa se tem medo. Algo muito importante que reforcei com essa viagem foi que nos lugares, nas cidades, nos países que visitamos, nem sempre as coisas são como os noticiários mostram. A guerra não estava tomando conta da Rússia. Contarei aqui a experiência da expedição, que me ajudou a ver e sentir o que eu escrevi acima.
 
Comecei a viagem sozinha, com aquele medo diferente. Na véspera do embarque trabalhei 24 horas no meu plantão quinzenal, antes de sair para as férias e a viagem. Não fui só pela montanha, a Rússia era um país que eu tinha muita vontade de conhecer. Meu nome tem origem Russa. Desde o começo do ano meu dupla de plantão estava dizendo que abandonaria o plantão por falta de condições de trabalho. Toda semana me “ameaçava” dizendo que ia sair, e nunca saía, até que nesse plantão, recebi a notícia de que ele não iria, e eu ficaria sozinha 24 horas num PS onde era para ter 3 ortopedistas para dar conta da função toda, e das cirurgias de urgência que chegavam a qualquer momento. Não havia me preparado psicologicamente para tal façanha. Foram 24 horas que me levaram de volta para a época da residência, toda aquela sensação de que fazemos , fazemos e quanto mais resolvemos, mais trabalho aparece e o tempo vai passando, e a fome apertando, e as tarefas só aumentado. Casos cirúrgicos, que tive que resolver sozinha, e outras funções que só consegui terminar as 3 horas da manhã. Saí exausta no domingo, em casa a mala ainda não estava organizada e eu correndo contra o tempo para arrumar tudo, e com a sensação de que algo me atrasava dessa vez. Malas prontas, segunda feira fui para o aeroporto. Cheguei muito antes, sozinha. No check-in identifiquei 3 pessoas que provavelmente deviam ser do grupo, me aproximei e perguntei aos três, que estavam um pouco atrapalhados com o terminal de auto atendimento onde se faz o check-in, se eram eles que iam para o Elbrus. Sim, eram eles. Pronto, meu medo de ficar sozinha passou, já estava agora com parte do grupo. Nesse momento começou a viagem.
 
Embarcamos, conversamos, conexão em Paris, e depois de algumas horas chegamos a São Petersburgo, Rússia. Finalmente agora era real, eu estava ali. Depois de meses e semanas pensando que ia acontecer algo , cheguei! Ninguém fala inglês direito, eu sabia ler e dizer alguma coisa, mas foi difícil a comunicação com o pessoal que fez nosso transporte até o hotel. Enfim chegamos ao hotel, e eu aguardava para conhecer quem iria dividir o quarto comigo. A única informação que eu tinha é de que a pessoa viajava há muito tempo com a empresa de turismo e estava acostumada a fazer esse tipo de viagem. Escolhi minha cama, e logo chegou minha companheira de expedição. Eu estava num momento de silêncio, analisando o semestre, meus medos, meus caminhos, minha vida, e esperava permanecer nesse momento de silêncio durante a viagem. Quando a minha companheira de quarto entrou, logo começou a falar. Em menos de meia hora contou me toda a sua vida. Falou sobre sua religião, seu trabalho, sua vida pessoal e sobre algo que me impressionou. Ela falou sobre seu medo de não conseguir subir a montanha pois alguns dias antes participou de um espetáculo de dança e estava tomando medicação para dores no joelho. Disse que numa conversa em sua cidade sobre que viagem devia fazer, amigos lhe aconselharam ir para a montanha, que ela tinha algo a aprender lá. Eu disse que também dançava e ela logo disse que iríamos nos entender, que seus amigos disseram que a pessoa que dividiria o quarto com ela era seu anjo da guarda. Me pus a pensar, meu Deus, eu queria ficar em silêncio e o Universo me manda aqui alguém que está verbalizando muitas das minhas questões e medos. Ela disse que fazia trabalhos espirituais ( Espiritualidade, uma questão que também ficou martelando na minha cabeça durante o semestre ) e que estava estudando para ser professora de yoga. E eu com meus medos de que algo ia acontecer nessa viagem pedi às forças divinas que por favor ela não fizesse nenhuma previsão espiritual sobre a minha vida, já me bastavam os diversos questionamentos sobre minha capacidade de ir para a montanha feito por outras pessoas e por mim mesma durante o semestre. Mas minha dupla de expedição não disse nada sobre mim, nem ficou me questionando. Aconteceu é que nos ajudamos a viagem toda, e nos tornamos grandes amigas durante a expedição.
 
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Sobre o autor

Tati Batalha - Colaboradora

Tatiana Batalha, natural de Mogi das Cruzes SP é médica ortopedista e montanhista, tenho escalado diversas montanhas como Aconcagua, Huayna Potosi, Acontango, Kilimanjaro e outras.

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