Escalando o Island Peak – Nepal

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Tudo começou no Peru. Meu parceiro de julho, o Craig, já estava tirando muito sarro de mim pois eu tinha dito que até o meio de julho tinha que decidir minha vida. O meio de julho chegou e a única coisa que eu consegui decidir é que seguiria viajando, o que não quer dizer muita coisa. Entre os amigos a piada se espalhou e em poucos dias começaram a surgir as sugestões de vir escalar no Himalaia. Pra mim parecia um pouco de loucura pois as passagens eram muito caras, a escalada aqui é cara e não faz muito meu estilo, e pra completar eu não tinha parceiro. De qualquer maneira, antes de descer pra praia fiz uma pesquisa de preços e encontrei algumas passagens por preços muito bons e não deu outra, voltei da praia, comentei sobre os preços com uma amiga que já veio pra cá inúmeras vezes, além de mais algumas pessoas, e todo mundo me disse “compra e vai!”. Dito e feito, eu tinha uma passagem pra passar 2 meses e meio na Ásia, e nenhum plano.

Meu conhecimento das montanhas do Himalaia era o de um leigo. O Craig tinha comentado do Cholatse, uma montanha técnica não muito alta (6440m) com uma parede bem grande pra ser escalada em 2 dias depois da aclimatação, e uma montanha pouco procurada pelos "turistas", mas suficientemente conhecida pra ter uma logística razoavelmente fácil de organizar. No final de agosto comecei então a procurar parceiros pro Cholatse, mas coloquei como segunda opção o Ama Dablam porque era mais conhecida e com certeza pra ela seria mais fácil achar parceiro. Pra ambos deixei bem claro que a ideia era escalar em estilo alpino, com logística até o campo base, e a partir daí atacar a montanha sem usar cordas fixas e sem suporte nenhum de sherpas. 

 
Em duas semanas tive uma enxurrada de respostas de todos os tipos – desde gente querendo compartilhar permisso pra outras montanhas até gente querendo apenas companhia pra trekking, e com todos os níveis de experiência. Um dos que me chamou atenção foi justamente o Ryan, que apesar de não ter muita experiência em altitude, já tinha escalado o El Cap e no maciço do Fitz Roy, portanto experiência suficiente pra dividir as responsabilidades da escalada. Iniciamos a troca de e-mails pra nos conhecermos em termos de experiência, e em pouco tempo decidimos escalar juntos o Ama Dablam. Daí pra frente fomos tomando decisões sobre equipamento, agência, itinerário, etc, e optamos por escalar o Island Peak antes pra aclimatar melhor e poder "sentir" a dinâmica da parceria.
 
No primeiro dia de outubro eu parti pra uma longa viagem até chegar em Kathmandu. Fiquei uns 6 dias pela cidade esperando o Ryan chegar, e nesses dias organizei bastante do que faltava além de terminar de comprar algumas coisas e visitar alguns locais turísticos. Passar esses dias em Thamel, um bairro turístico de Kathmandu extremamente ruidoso e caótico, foi um dos maiores choques culturais da minha vida, e em pouco tempo eu já estava pronta pra sair da bagunça. Com a chegada do Ryan finalizamos alguns detalhes e no dia 10 de outubro partimos pra Lukla.
 
O Trekking pelo vale do Khumbu
 
O vôo pra Lukla e principalmente o pouso já são eventos memoráveis. Em poucos minutos depois de sair de Kathmandu já é possível avistar um mar de montanhas gigantescas, de uma proporção que eu jamais tinha visto. Um amigo me disse antes de vir pra cá que depois do Himalaia as montanhas da Blanca iriam parecer anãs… de início não concordei mas não tem jeito, a imensidão das montanhas daqui é coisa de outro mundo. Depois de uns 25 minutos nos aproximamos do aeroporto de Lukla, conhecido pelo mundo como um dos aeroportos mais perigosos do mundo: a pista é uma rampa e quando se pousa se tem a impressão de que o avião vai se chocar contra a muralha no final. Me chamou atenção também que a faixa etária das pessoas pelo vale do Khumbu é relativamente alta, e eu diria que está na casa dos 40-60 anos. O dia que eu parar de escalar e marrar meu burrinho quero ser assim! Vi pouquíssimas pessoas mais jovens além da minha dupla e da dupla de espanhóis que estavam no mesmo hotel que eu.
 
De Lukla seguimos pra Phakding, e depois duas noites na encantadora Namche Bazaar. No dia de descanso que tivemos aí fomos até um mirante de onde tivemos a primeira visão do Ama Dablam e suas arestas que lembram braços em posição de abraço, além do Everest e Lhotse. Ainda visitamos um vilarejo chamado Khumjung onde existe uma escola fundada pelo Sir Edmund Hillary. Depois de lá fomos pra Pangboche, Dingboche e Chukkung, onde subimos o Chukkung Ri, um pequeno monte de 5550 m, pra aclimatar um pouco mais. Desse cume novamente tivemos uma visão da face norte do Ama Dablam, mas o mais impressionante sem dúvida era a parede sul do Nuptse. No dia seguinte partimos pro campo base. Vale notar aqui que desde Namche Bazaar o Ryan já estava com dores de cabeça e tontura, mas seguimos subindo.
 
Island Peak, 6189m 
 
Chegamos no acampamento base perto do final da tarde. O Ryan já não se sentia muito bem e confessou a nosso sirdar que sentia um pouco de dor no peito, fora a tosse que estava piorando, mesmo com medicação. Na mesma barraca refeitório que eu, um casal de espanhóis em lua de mel, e uma japonesa que nunca tinha subido uma montanha na vida. Fui até o começo da trilha pra averiguar um pouco e dar uma olhada na situação. Quando voltei jantamos, organizamos o equipamento e logo em seguida fomos dormir. 
 
Acordamos à 1 h da manhã, tomamos café e arrumamos tudo pra sair. Do começo da trilha até a geleira, e no que compõe a maior parte de desnível da via, vamos por trilha em terra com algumas pequenas escalaminhadas, num zig zag bastante entediante. O Ryan ia mais rápido porém parando muitas vezes e se queixando de dor de cabeça e tontura. Chegamos na geleira e começamos a nos equipar. Pergunto a ele se realmente quer subir, se está em condições, etc. Obviamente não estava, mas é complicado convencer um marmanjo de 35 anos de certas coisas. Seu estado estava tão questionável, que tive eu que levar a segunda corda e estacas pois ele já estava mais fraco que o desejável.
 
Na nossa frente, uma cordada de 8 pessoas com um sherpa em cada ponta (me lembrou o Equador). Na frente dessa cordada, outra de 6 pessoas. Ainda bem que a geleira é curta e as gretas óbvias, pois diminui as chances de acontecer besteira. A ideia inicial era escalar a headwall em simultâneo pra ir mais rápido, mas com o Ryan no estado que estava, decidi colocá-lo em seg pra evitar acidentes. Chegamos na base da parede e comecei a guiada, em 4 enfiadas até o cume. Tentava às vezes conversar com os sherpas pra ver pra qual lado era melhor eu escalar pra não atrapalhar os clientes deles mas mesmo assim fui hostilizada, me viravam a cara e um deles até puxou a corda quando eu estava guiando no meio da terceira enfiada, ainda sem proteção, só por estar por cima das cordas fixas, apesar de não haver nenhum cliente subindo naquele momento. 
 
No final da quarta enfiada já estávamos na aresta exposta do cume. Mandei o Ryan na frente com uma estaca pra nos ancorarmos por ali. Fomos então um de cada vez pro pequeno cume que estava cheio de gente, e eu batia mais uma vez um recorde de altitude. Me sentia super bem, forte, sem muito cansaço, e com controle sobre a situação. A escalada tinha sido prazerosa e eu diria que em termos de graduação, nesta temporada seria um AD- pelo tamanho e inclinação da parede (graduação válida apenas para escalada em livre).
 
Tiramos nossas fotos no cume e iniciamos a descida, que não foi fácil. Não só os sherpas faziam de tudo pra dificultar nossa descida, como o Ryan ia de mal a pior e mal podia dar um nó sozinho. Tive que supervisionar todo o procedimento de descida e ele fez inúmeros erros de logística, o que nos tomou bastante tempo remontando rapéis. Senti na pele o que deve ser para um guia ter que cuidar de um cliente em estado de incapacitação ou inexperiente. O Ryan é muito forte em rocha e big wall, mas neste dia por conta de mal de altitude, tomou uma decisão egoísta e irresponsável que colocou em risco a cordada inteira. Felizmente eu estava forte o suficiente pra assumir a responsabilidade pelos dois, mas desci ao campo base bastante brava com a situação e resolvida a ter uma conversa séria sobre a parceria, principalmente pro Ama Dablam, que seria uma escalada muito mais comprometedora.
 
Estivemos no cume às 10 h da manhã e chegamos no acampamento base às 15 h, onde comemos rapidamente e arrumamos tudo pra voltar pra Chukkung. Nesse dia, outra nevasca, e cheguei no vilarejo parecendo um picolé. No dia seguinte em teoria iríamos subir pro acampamento base do Ama Dablam, mas acordei decidida a descansar por um dia em altitude menor – o dia anterior me drenou demais a energia. No café da manhã, não foi necessário tocar no assunto da escalada com o Ryan, ele teve bom senso e me informou que tinha desistido do Ama Dablam, e que não tinha que nem passar perto de 6800 m. Por um lado senti alívio, pois não dá pra entrar numa via dessa pra escalar em livre sem estar super forte. Também senti alívio por ele finalmente admitir que estava doente e entender que já deveria ter descido pra uma altitude menor faz tempo. Por outro lado, fiquei apreensiva: eu iria ter que escalar o Ama Dablam em solitário.
 
 
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Sobre o autor

Cissa Carvalho - Colunista

Nômade por acaso, Cissa Carvalho nasceu em São Paulo, já morou no Alabama e na Amazônia, e atualmente reside na capital Paulista até que os ventos novamente a levem pra algum destino inusitado do planeta. Trilha desde pequena e conheceu as montanhas com vinte e poucos anos, mochilou a América do Sul, andou pelas montanhas brasileiras e nos últimos anos tem se dedicado ao montanhismo de altitude, e mais recentemente à escalada em rocha. É bacharel em design gráfico e pós-graduada em design editorial.

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