Explorando o Desfiladeiro do Sufoco

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Difícil dimensionar as possibilidades de exploração, estudos, esporte e cultura da nossa Serra do Mar. Observemos o caso do Marumbi que dispõe de registro escrito de trabalhos e atividades que vem desde 1879, sem falarmos das trilhas pré cabralinas até hoje utilizadas para o trekking.

Mesmo com todo tempo disponível, sempre aparecem novas conquistas e descobertas. O que dizer da região do Pico Paraná? Eis que agora aparece uma nova aventura. O maciço que abriga o Pico Paraná (Ibitiraquera) compõe-se das maiores culminâncias do estado e aquela serrania apresenta uma peculiaridade interessante: duas fileiras de cumeadas paralelas entre si e também com o litoral. A primeira fileira e elevações que ocorre ao longo da BR 116, constitui-se do Ferraria, Taipabuçu, Caratuva, itapiroca e Tucum. Já o outro segmento fronteiro ao referido, inclui o Ibitirati, Paraná, Camelos, Ciririca e Agudo da Cotia.

Separando os dois conjuntos aparece uma enorme canhada de setecentos metros e no vértice inferior as duas vertentes quase se tocam. Separadas por poucos metros, constituídas de profundos desfiladeiros. No encontro das duas encostas e dos desfiladeiros existe a única passagem aos escaladores.

Observando-se o Pico Paraná, do Caratuva, essa passagem estreita tem à sua esquerda o desfiladeiro do Sufoco que é onde acontece o presente relato.

No sábado, dia 8 de junho, com o auxílio do fusca trovão pilotado pela Jucimara, esposa do Kalinowski (Calabouço), o próprio acompanhado do Guilherme (Tapirus) e do Ernesto Goldweider, foram abandonados no sopé do Pico Paraná para serem recuperados no Cacatú.

Importante foi o desempenho radioamadorista da Adriana Gabardo (PY5-NT), fazendo a iumprescindível ponte entre os excursionistas e a Jucimara. Necessário ressaltar o apoio da retransmissão da ARPA.

Saída do rancho do Waldemiro (1), às 7:20 horas com mochilas de ataque, 55 metros de corda, 3 cadeirinhas (2), fitas de costura e freios. Em marcha forçada conseguiram alcançar o tal colo entre Caratuva e PP, às 10:30 horas e de cara uma descida vertical de quinze minutos e topar com o primeiro e início do rapel inaugural.

O enfrentamento do terreno desconhecido é que torna a experiência tentadora. Haja adrenalina. Nunca se sabe o que vem pela frente. Que tal se o rapel terminar em um ponto que não permita avançar nem recuar?

O grupo não dispunha de nenhuma informação, apenas rumores de que ouviram falar que o Estruminski e oi Fábio haviam feito (ou tentado) cada um por si, uma investida no vale. A falta de comunicação torna difícil o necessário registro para a historiografia do esporte.

Logo após a descida da parede com freio, começa a aumentar o espaço entre as duas encostas, que na parte superior alcançam 60 metros. Bastante coberta de mata frágil, mas que possibilitam as ancoragens dos sete rapeis necessários.

Muitas cachoeiras e negativos reforçam a aventura. O penúltimo lance de corda forçou-os a procurar escape pela margem direita, avanço difícil e uma transposição para o outro lado, sem possibilidade do cabo, apenas o apoio nos bambus e vencer um enorme bloco de pedra e, finalmente atingir o fundo do poço.

Às 17:40 horas, já na trilha próxima ao paredão do Ibitirati e obviamente bastante atrasados em relação ao horário do apanha pré estabelecido e aí foi fundamental o papel da Adriana, para ajustar as coisas.

Às 19:30 horas encerraram a epopéia, totalizando doze horas e trinta e oito minutos de aventura.

 

Publicado na Gazeta do Povo, 24 de agosto de 1996

Protagonistas: Kalinowski (Calabouço), Guilherme (Tapirus) e Ernesto Goldweider.

Locais visitados: Rancho do Waldemiro (1), Trilha do Pico Paraná, Fio de Ligação, Nascente do Rio Cotia, Disco Porto, Estrada da Conceição e Bairro Alto.

Data da aventura: 8 de junho ????

Referencias explicativas:

(1)   Fazenda Pico Paraná, Dílson

(2)   Arnés

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Sobre o autor

Vitamina - Colunista

VITAMINA – Henrique Paulo Schmidlin Como outros jovens da geração alemã de Curitiba dos anos de 1940, Henrique Paulo foi conhecer o Marumbi, escalou, e voltou uma, duas, muitas vezes. Tornou-se um dos mais completos escaladores das montanhas paranaenses. Alinhou-se entre os melhores escaladores de rocha de sua época e participou da abertura de vias que se tornaram clássicas, como a Passagem Oeste do Abrolhos e a Fenda Y, a primeira grande parede da face norte da Esfinge, cuja dificuldade técnica é respeitada ainda hoje, mesmo com emprego de modernos equipamentos. É dono de imenso currículo de primeiras chegadas em montanhas de nossas serras. De espírito inventivo, desenvolveu ferramentas, mochilas, sacos de dormir. Confeccionou suas próprias roupas para varar mata fechada, em lona grossa e forte, cheia de bolsos estratégicos para bússola, cadernetas, etc. Criou e incentivou várias modalidades esportivas serranas, destacando-se as provas Corrida Marumbi Morretes, Marumbi Orienteering, Corridas de Caiaques e Botes no Nhundiaquara, entre outras. Pratica vôo livre, paraglider. É uma fonte de referências. Aventureiro inveterado, viaja sempre com um caderninho na mão, onde anota e faz croquis detalhados. Documenta suas viagens e depois as encaderna meticulosamente. Dentro da tradição marumbinista foi batizado por Vitamina, por estar sempre roendo cenoura e outros energéticos naturais. É dono de grande resistência física e grande companheiro de aventuras serranas. Henrique Paulo Schmidlin nasceu em 7 de outubro de 1930, é advogado e por mais de uma década foi Curador do Patrimônio Natural do Paraná. Pela soma de sua biografia e personalidade, fundiu-se ao cargo, tornando-se ele próprio patrimônio do Estado, que lhe concedeu o título de Cidadão Benemérito do Paraná.

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