Fome no Roraima

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O Roraima é uma experiência necessária, se você gosta de natureza e de montanha. É um tepuy, como os venezuelanos chamam as formações tabulares, essas mesas rochosas com topos planos e paredes verticais. Elas são estruturas geologicamente antigas, porém fruto de relevos recentes. São as rochas duras que sobreviveram à erosão, contemplando de cima de seus platôs as verdes superfícies aplainadas lá em baixo.

Para os índios pemons, os tepuys são mundos à parte, ilhas paradas no tempo, sombrias e misteriosas, habitadas por espíritos. Acho que os índios não estão errados, pois o isolamento, a altitude, a insolação e a umidade criam um cosmo separado, cheio de estranhos vultos que nos assombram através da insistente neblina.
 
A porta de entrada do Roraima é a aldeia de Peraitepuy. Tem uma posição magnífica, no topo de uma colina que avista os majestosos tepuys do Kukenan e do Roraima, perfilados numa perspectiva estupenda, cheio de expectativa.  Os índios que lá habitam já estão infelizmente aculturados, como logo descobrimos.
 
Quando lá chegamos, queria conversar com meu amigo mineiro Marcelino Morais, que não via há tempos (você já o encontrou no relato sobre o Neblina). Fomos para um espaço coberto mas, logo em seguida, rolou uma música de rádio e umas índias (infelizmente velhas) vieram nos tirar para dançar. 
 
Sou péssimo dançarino, já fiz até curso de dança sem resultado, e pensei: Quem sabe o Marcelino me livra desta? Que engano, ele dançava ainda menos! Foi inesperado e constrangedor termos de fugir das índias, sob o olhar irônico dos seus pares. Fiquei pensando que nós parecíamos mais primitivos e atrasados do que eles. A tarde passou, acampamos na aldeia e, no dia seguinte, partimos para o Roraima – três dias depois, estávamos no alto.
 
É complicado você trazer seus mantimentos de longe, de forma que contratamos um agente em Boa Vista. Mas logo na trilha tivemos a horrível surpresa de descobrir que íamos ter apenas peixe seco durante todo o trek! Então, alguns de meus companheiros viviam famintos, mas eu consegui me controlar e guardar até o fim um saco de batatas fritas, seria um requinte de despedida, depois de quase uma semana de comida racionada.     
 
Vou degustá-lo na Pedra Macunaíma, pensei. O desenho e a posição diferentes desta pedra sinalizam o início da rampa de descida.  O terrível vento fez com que eu colocasse o petisco atrás de uma pedra. Virei-me e … o pacote tinha sumido! Certamente foi roubado por um índio traiçoeiro, que eu já tinha visto me espreitando. Mesmo sem este incidente, achei os índios retraídos, distantes e desconfiados.
 
Naturalmente desci com fome e horas depois – pois a descida é longa – cheguei mais faminto ainda em baixo. Lá havia um índio com um pacote de miojo que ele não queria comer. Se você misturar o miojo cru com o tempero em pó, fica até comível, disse Marcelino. Eu então me ofereci para aliviar o índio do peso do alimento indesejado. Foi a primeira vez que devorei comida que nem índio queria.   
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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