Garganta do Diabo em Dois Tempos

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Anubis, Saltão e Cachoeirão são as três grandes quedas próximas do desfiladeiro conhecido como “Garganta do Diabo”, antes do Rio da Onça prosseguir seu curso rumo o “Vale da Morte”. Três grandes quedas que sempre ignorei por algum motivo durante travessias neste fantástico vale, situado nas entranhas escarpadas da Serra do Mogi. Buscando sanar essa desfeita e curtindo estes dias quentes de verão com banhos refrescantes, voltei de forma despretensiosa às cachus do Anubis e Saltão, uma vez que o Cachoeirão descrevi já noutra ocasião. Dois momentos bem distintos nesta acidentada região serrana situada na divisa de Sto André e Paranapiacaba, com direito até mergulho no interior da “goela” deste endemoniado cânion.

O primeiro momento foi num domingo de sol forte e céu azul, ou seja, um final de semana promissor. Neste rolê tive a agradável compania da Lau, Priscila, Roberta e sua amiga italiana, a Marzia. Já logo de cara embarcamos no latão entupido de gente, e assim rumamos sentido o vilarejo de Paranapiacaba. A zona no coletivo já servia de amargo aperitivo do que viria pela frente, uma vez que boa parte daquela galera ia pro mesmo lugar que a gente. Por esta razão desembarcamos logo depois da farofa toda, as 9:30hrs, indo de encontro uma trilha paralela (e menos utilizada) que segue pro mesmo vale.
 
E lá fomos nós, alternando brejo e lama em meio aquela vasta planície que antecede a borda da serra. O inicio do dia é inspirador e a temperatura se mostra agradável, razão pela qual a caminhada se mantém num compasso razoável por um bom tempo. O ritmo só tem variação quando alcançamos o inicio do “Vale dos Cristais”, mais precisamente ao interceptar o Rio da Solvay, onde o silêncio que embalava nossa marcha desaparece ao tropeçar com outros 3 grupos enormes. O marasmo e lentidão na trilha ganha forma com um improvável “rush” na vereda, o que resulta um verdadeiro teste de paciêncompania prosseguir.
 
Ao chegar no “Lago Cristal” minhas suspeitas se confirmaram da pior forma possível. Uma multidão barulhenta se banhando no lugar lembrava mais o “Piscinão de Ramos” que o saudoso poço natural que a mto deixou de ser exclusivo aos adeptos duma boa caminhada. A cacofonia intermitente dum celular vomitando “pancadão” apressou nosso passo de tal forma, dando inicio agora á descida do rio propriamente dita logo após a “Cachu do Vale”. Acreditando que a muvuca se resumisse apenas ao planalto, fiquei perplexo ao constatar que ela se estendia tb rio abaixo. Não apenas na entrada da “Cachu Escondida” como nas primeiras quedas que antecedem o “Portal”, isso já na confluência dos rios no fundo do vale. “Caraca! O povão agora consegue chegar até aqui!!!”, esbravejei.
 
O calor sufocante e o ritmo puxado de desescalaminhada é sentido pela Lau, Roberta e Marzia, as 11:30hrs. Por este motivo elas decidem ficar a nossa espera num belo remanso do trajeto enquanto eu e a Pri continuamos o plano original, ou seja,  rumo “Garganta do Diabo”. Mas só depois da “Cachu do Portal” é que de fato as pessoas começam a rarear e a caminhada se torna mais gostosa, tendo como trilha sonora o furioso rugido das quedas borbulhantes que abundam por Todo esta extensão do “Rio da Onça”. Diferentemente da parte alta, aqui se vê um ou outro gato pingado justamente pela distâncompania e pelo terreno acidentado que não é qq um que se dispõe a encarar. Dali em diante bastou seguir se boa, costurando ambas margens, seja desescalando rochas e desviando dos obstáculos do caminho. Isso se traduz na sucessão interminável de enormes e esverdeados piscinões que fazem o farofado “Lago Cristal” parecer uma simplória poça.
 
E após constatar que o vale se estreita na mesma medida em que paredões passam a nos espremer cada vez mais, é que temos ciência da proximidade de nosso destino. E pouco antes das 13hrs a pernada nos leva até a beirada do alto dum enorme paredão, onde duas enormes muralhas convergem num respeitável vértice rochoso, afunilando o rio num gargalo de pedra por onde despenca numa vista maravilhosa. Estamos na “Garganta do Diabo”, local visitado noutras ocasiões mas que sempre desperta mesma fascinação. A impressão que se tem é que houve um terremoto e abriu uma gigantesca fenda rochosa cortada a prumo, no caso, cavada pelas raivosas águas do “Rio da Onça”, dividindo ambos paredões  e formando um estreito corredor de pedra de quase 20m verticais!! Não sei porque mas a visão me recordou, guardadas as devidas proporções, as muralhas do Cânion Xingó (AL). Contudo, as únicas diferenças que reparei desde minha última visita foi um grande deslizamento que removeu a farta sombra que havia á esquerda do desfiladeiro, e um volume menor de água despencando na cachu que se despeja do alto do cânion, mas ainda assim suficiente pra manter o encanto do lugar. 
 
Daqui já não há como seguir em frente pelo rio, não pelo menos sem equipamento, claro. Fim da linha? Não. Daqui basta procurar o melhor jeito de escalar o paredão da direita e tocar pra frente, e isso se consegue com oportunas agarras e apoios que servem a esse propósito. Uma vez no alto da crista florestada basta descer através duma íngreme e quase verticalizada vereda que desemboca numa oportuna, porém decrépita, área de acampamento onde cabem 3 barracas comodamente. Dali partem duas trilhas bem evidentes, uma a esquerda e outra a direita. Tomando esta última, a vereda se esgueira através da mata, descendo bem forte e nalguns momentos, verticalizada, onde qq apoio ou agarra impede que se derrape pelo limo ou lama ardilosa encosta abaixo. Descida adrenada mas nada excepcional.
 
A íngreme pirambeira desemboca novamente no leito rochoso do “Rio da Onça”, só que um tiquim depois do final da “Garganta”. A vista que se tem é belíssima e tinha passado desapercebida da ultima visita. Estamos na “Cachu do Salto” (ou do Pulo, aliás, não sei de onde tiram estes nomes!) onde uma queda razoável se despeja num enorme poço, acalmando as aguas do “Rio da Onça” antes de seguir seu furioso curso pelo desfiladeiro, no caso, o “Cachoeirão”. A queda em si é discreta mas o que confere charme ao lugar é seu contexto, no caso, um anfiteatro selvagem de pura rocha. Queria ter prosseguido, mas sentindo o calor e, principalmente, o peso do descondicionamento optamos por nos regatear ali naquele belíssimo remanso, isolado e bem diferente da muvuca rio acima. Pausa pra fotos, lanche e muito tchibum, claro!
 
Mas o sossego não demorou muito porque por volta das 14:15hr uma galera numerosa de jovens chegou ali, servindo de “bota fora”. “Putaqueopariu! Até aqui a galera ta chegando agora?!”, falei pra Pri, já reconsiderando seriamente visitas praquela região nos finais de semana. Diante do calor daquela tarde e da declividade que tínhamos pela frente, voltamos Todo bem devagar, sem pressa, e assim subimos Todo aquele belo rio que agora apresentava gente em boa parte do trajeto conforme ascendíamos. Essa era uma cena improvável anos atrás. Claro que tivemos várias paradas pra bebericar a água potável dos minúsculos afluentes do “Rio da Onça” e, posteriormente do “Rio da Solvay”, tds despencando das encostas de ambos lados do vale. Isso porque diante da muvuca no planalto não recomendo beber água dos rios principais.
 
Reencontramos as meninas lá pelas 15:30hrs e assim prosseguimos a subida do vale no mesmo compasso anterior, ou seja, sem pressa alguma. Mas mesmo se quiséssemos apressar o passo não conseguiríamos porque uma vez no alto do planalto, tropeçamos com o fluxo de Todo aquela farofa retornando. Eu que jurava já ter visto de tudo em trilha, mas “congestionamento” e trafego parado numa delas era primeira vez! A gente se desloca pro mato pra fugir desse estresse e encontra outro: o da irresponsabilidade, com gente com calçado (e conduta) imprópria mas principalmente lixo! Fomos e voltamos pela mesma trilha, mas esta apresentava-se bem diferente. Embalagens de bolachas, pets, papel de bala, papel higiênico, absorventes, latas de refrigerante, etc.. Todo dejeto imaginável. Algo realmente lamentável.
Chegamos no asfalto não apenas cansados, mas principalmente perplexos com o descaso dos visitantes perante o lugar, tanto que somente nesta visita fizemos nossa parte ao trazer uma sacola entupida de lixo. Nosso mas principalmente dos outros. É pouco mas é algo. Uma placa pichada e parcialmente quebrada relembra inutilmente a responsabilidade dos frequentadores em levar Todo lixo produzido de volta, em vão. Com uma súbita bruma tomando conta do asfalto, tomamos uma lotação que nos deixou oportunamente em Rio Grande da serra, onde anestesiamos nosso estresse e indignação com muitas cervejas antes de voltar pra Sampa. E o mais importante, foi essa visitação que envernizou de vez minha decisão de nunca mais pisar ali durante os finais de semana.
 
O segundo momento se deu quando retornei ao mesmo local, cerca de 3 semanas depois, com a diferença que o bate-volta foi numa quinta-feira, dia útil da semana. Pela disponibilidade, a única que topou me acompanhar desta vez foi a Cris Kinguti.
Desta vez começamos a andar na trilha por volta das 8:40hr. E pra não repetir Todo novamente, apenas menciono que refizemos Todo trajeto descrito até a clareira situada ao lado da “Garganta do Diabo”.Com a diferença que não encontramos vivalma em Todo trajeto, o que realmente torna a pernada muito mais agradável e a comunhão com a natureza, plena. Minto, tinha apenas um trio no “Lago Cristal”. Depois dele, o “Vale dos Cristais” era praticamente de domínio absoluto nosso.
 
Pois bem, da clareira de acampamento desta vez tomamos a vereda da esquerda, que mergulhou sinuosamente na mata, em nível, e nos levou na borda do desfiladeiro. Ali, no alto dum dos paredões de rocha se tem outra bela perspectiva do cânion e de Todo sua extensão. A picada acompanha o alto da muralha quase que sem apoio de tão estreita que é, e qq escorregão é queda de quase 30m, mas o arvoredo em volta garante os apoios necessários pra prosseguir. Contudo, não tarda pra picada abandonar o cânion e mergulhar outra vez na mata a direita. Ali, perde altitude vertiginosamente e há necessidade de se firmar no que tiver à mão. Rochas, galhos, raízes, cipós, etc. Enfim, qq coisa serve na desecalaminhada.
 
Uma vez lááá embaixo, as 11hrs e ao desembocar nas primeiras rampas rochosas, observamos o final do cânion fazendo uma curva fechada pra direita. E desescalaminhando o último trecho damos nas lajotas no leito do rio, que aqui marulha manso até se perder noutra curva, onde se enfia noutro vertiginoso cânion rumo “Vale da Morte”. Dali temos o primeiro contato visual da “Cachu Anubis”, ruidosa queda de menos de 20m de onde o Rio da Onça deságua após percorrer emparedado Todo extensão da “Garganta do Diabo”. Um conhecido a chamou de “Anubis” e, por não ter conhecimento de seu nome oficial, adotei essa denominação mesmo. Alcunha apropriada, diga-se de passagem, pois a cascata é digna tão de reverências quanto o deus egípcio que lhe empresta o nome. Entretanto, se alguém souber da verdadeira nomenclatura desta queda favor me corrija. Claro que ali tivemos um demorado pit-stop pra descanso, lanche e um tchibum refrescante. Enquanto isso, um bando de andorinhas parece nos dar as boas vindas dando inúmeros rasantes no ar e no rio. 
 
Revigorados e não satisfeitos, decidimos ter uma perspectiva privilegiada do alto da “Cachu Anubis”, isto é, da estreita boca do desfiladeiro. Pra isto basta escalar Todo de volta e tomar um desvio meio que óbvio. E após um tercho de desescalaminhada pelas aderências da rocha damos no alto da cachu, onde  temos de onde se tem uma vista fantástica tanto do poção na base da queda como do interior da “Garganta”. Não satisfeitos ainda decidimos adentrar no desfiladeiro, e pra isso bastou se esgueirar pelo estreito corredor de pedra ora caminhando com água na altura da coxa ora agarrado ás suas paredes laterais. Ali dentro é que se tem uma noção da grandiosidade claustrofóbica da natureza e do quão minúsculos/insignificantes  somos perante ela. E claro que tivemos mais um tchibum, agora dentro do “Gogó do Tinhoso”. Em tempo, o rio estava com volume menor de água e isso facilitou acesso ao interior do cânion com relativa segurança. E como nossa amiguinha logo percebeu, esta região so deve ser visitada com perspectiva de tempo ótimo, pois em dia de chuva torna-se extremamente perigosa.
 
De alma mais que lavada, um tempo depois retomamos a longa caminhada de volta rio acima. No alto do vale tivemos um breve pit-stop de descanso pra, logo na sequência, tocar em definitivo fora da trilha. Antes de pisar no asfalto, porém, uma última olhadela no sopé da torre de alta tensão contruida ano passado, cuja base agora serve de estacionamento ideal pra muvuca acessar o vale, nos finais de semana. Sim, ali naquele dia não havia ninguém, mas o fato não deixa de escancarar a contradição dos avanços da modernidade: se por um lado traz benefícios prum tanto; pra natureza só trouxe mais impacto e sujeira.
 
Diferentemente da vez anterior, desta vez deu gosto de bebemorar o final da empreitada no tradicional botequinho de Rio Grande da Serra, sem estresse ou desgosto algum. Entretanto, o fato é que a outrora tranquila e sossegada região serrana da Serra do Meio foi descoberta pela população, fato. A facilidade de acesso atualmente apenas agravou uma situação antes apenas latente; se antes o andarilho fazia uso necessariamente de transporte público pra chegar nela, agora ele pode ir no conforto do seu veiculo. Facilitou acesso, facilitou a entrada de Todo tipo de gente. E não apenas trilheiros responsáveis, únicos visitantes da região anos atrás. Pena. É nessas que vira e mexe me vejo torcendo pelo retorno de proibições ou fiscalizações ambientais mais rigorosas, mas a real é que a região está largada ao “deus-dará”. E eu que deixei de frequentar a região por um bom tempo – devido a exposição negativa que ganhava na mídia devido aos constantes resgates e acidentes – acho que devo continuar dando minha (minúscula) contribuição de dispersão do turismo. Como? Evitando novamente pisar nesta região espetacular da Serra do Mar por mais um tempo. Ou voltando apenas fora dos farofados finais de semana.
 
Jorge Soto
http://www.brasilvertical.com.br/antigo/l_trek.html
http://jorgebeer.multiply.com/photos
 
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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