Marmolejo: “a montanha invisível”

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Acordei com o “bip-bip” do relógio e, como de costume, a primeira coisa que fiz foi abrir a porta da barraca e dar uma espiadela no céu: a noite estrelada e sem ventos que se apresentou aos meus olhos ainda sonolentos era como o negativo de um dia perfeito, que se revelaria ao nascer do sol em todas as suas cores…

Acordei com o “bip-bip” do relógio e, como de costume, a primeira coisa que fiz foi abrir a porta da barraca e dar uma espiadela no céu: a noite estrelada e sem ventos que se apresentou aos meus olhos ainda sonolentos era como o negativo de um dia perfeito, que se revelaria ao nascer do sol em todas as suas cores. Preparei meu desjejum, leite quente com cereais e alguns biscoitos, e comecei a me vestir. A ideia era sair antes das 05:00 para tentar chegar ao cume até as 14:00 ou 15:00, no máximo. Teria um grande desnível para vencer, cerca de 1500 m, e calculei que gastaria uma hora e meia até a entrada do glaciar, onde está o Acampamento Avançado, a uns 4900 ou 5000 m, e depois mais 7 ou 8 horas até o cume. A descida seria bem mais rápida, umas 4 horas ou pouco mais que isso e, certamente, eu estaria de volta na barraca ainda com a luz do dia.

 

Menos de uma hora depois de me levantar eu já estava pronto para sair. Faltava somente colocar os “mitones”, que são as luvas impermeáveis que nos protegem do frio extremo das grandes altitudes. Quando tirei as luvas de dentro da mochila, tive a sensação de estar pegando em um objeto maciço: as luvas estavam congeladas, incrível! Tentei colocá-las assim mesmo e saí da barraca para fazer um teste. Em poucos minutos minhas mãos começaram a doer com o frio e percebi que assim não seria possível, era melhor perder um tempo para descongelar as luvas do que sofrer até o dia amanhecer. Resolvido o problema, saí novamente da barraca, pronto para iniciar o tão esperado ataque ao cume do Marmolejo, montanha que, até agora, eu ainda não tinha visto a cara. Mas uma nova surpresa me esperava: a rota estava coberta com a neve fresca que caiu durante o dia anterior e o trecho que eu havia percorrido até o canal com os penitentes estava muito mais difícil do que eu poderia imaginar. Mal havia iniciado minha jornada e o progresso já era lento. O primeiro obstáculo era subir até o topo de uma “morena” e a neve profunda, acumulada entre grandes rochas, transformou uma passagem bastante simples, que eu nem havia tomado conhecimento na véspera, em um exercício de esforço e paciência.

 

Devo ter gasto mais do que o dobro do tempo que precisei, no dia anterior, para chegar aos penitentes e iniciar a subida do trecho íngreme que me daria acesso ao glaciar. Devido à forte inclinação, havia menos neve nessa parte e consegui acelerar um pouco. Na metade da parede amanheceu o dia e percebi, preocupado, que estava mais lento do que o previsto. Por sorte, a neve mais acima estava quase perfeita e consegui imprimir um ritmo mais forte. Não havia sinal da rota, nem totens para orientar o caminho, e fui subindo seguindo o rumo mais lógico, no sentido da aresta onde me encontrava.

 

Já passavam das 07:00 quando avistei um cercado de pedras, me indicando que eu estava chegando ao Acampamento Avançado. Finalmente, enxerguei um amplo glaciar com uma montanha triangular ao fundo. Lá estava o gigante Marmolejo com o seu cume, aparentemente, bem próximo. Mas sabia que essa noção de proximidade não passava de uma “ilusão de ótica”. Com uma inclinação que, raramente, passava de 35o, e mais de 1100 m de desnível para subir, havia uma grande extensão de glaciar a ser percorrido até o cume. E as condições do glaciar não pareciam nada animadoras, já que um grande campo de penitentes cobria toda sua base.

 

Comecei a abrir caminho por entre os penitentes em direção à parte central do glaciar, uma tarefa irritante e cansativa que me fez lembrar algumas experiências anteriores em montanhas como o Sajama, na Bolívia, ou o Nevado Ampato, no Peru. Depois de muito esforço percebi que o glaciar não era contínuo, havia uma grande descida logo à frente, uma espécie de depressão que me separava do meu alvo: a aresta que se situava à esquerda da pirâmide do cume. Havia duas alternativas principais de ascensão, ou por essa aresta à esquerda, mais ou menos situada ao norte da montanha, ou por outra aresta mais ao sul. A primeira opção seria mais direta, mas eu teria que descer a depressão atravessando uma grande extensão de penitentes. Como havia gasto uns 45 minutos para vencer um trecho ínfimo até o ponto onde me encontrava, descartei essa possibilidade que demandaria um tempo excessivo. O jeito era regressar até o Acampamento Avançado e tentar contornar os penitentes pela direita, buscando a aresta mais ao sul. Perdi mais de uma hora nessa tentativa de passar por esses obstáculos de gelo e minha intuição me dizia que o dia seria longo e exaustivo. Seria necessário subir o mais rápido possível, sempre que as condições assim o permitissem.

 

A ideia de contornar o glaciar pela direita foi a mais acertada. Apesar de não ter me livrado totalmente dos penitentes, pelo menos nessa parte eles tinham um tamanho menor e estavam mais espaçados, facilitando meu avanço. O problema é que a distância parecia ser muito maior por esse lado. O glaciar também estava bem diferente do que havia visto em algumas fotos, quando estava pesquisando a rota. Conforme as indicações que eu consegui obter, quase não havia gretas na rota normal e o glaciar, supostamente, terminava uns 400 m acima do Acampamento Avançado, sendo o restante do trajeto formado por “acarreos” de pedras até o cume. Mas a visão que eu tinha a minha frente era bem diferente: a montanha parecia coberta por uma neve profunda e o glaciar estava repleto de gretas em sua base e na parte central. Para buscar a aresta ao sul, inevitavelmente, seria preciso “negociar” meu caminho por entre esses abismos gelados. Olhei para o cume e, apesar de passar das 09:00, como eu estava na face oeste, o sol ainda não havia despontado, projetando uma auréola brilhante em sua crista dando-lhe um aspecto fantasmagórico.

 

A depressão também era mais suave nesse lado do glaciar, facilitando minha descida. Em pouco tempo minha desconfiança se confirmou: a neve estava fofa e, a cada passo, eu afundava até o joelho. O sol chegou forte depois das 10:00 e meu ganho de altitude nas últimas 3 horas havia sido mínimo, já que tive que descer para subir novamente. Faltavam, ainda, quase 1000 m de desnível até o cume e começou a fazer calor, me obrigando a hidratar-me continuamente para conseguir manter o ritmo. Eu havia levado uns 4 litros de líquidos e já temia que não seriam suficientes. A subida passou a ser lenta e monótona: era um dia perfeito, com céu azul e poucos ventos. Mas a neve profunda e instável não ajudava e era preciso ter paciência para não desistir.

 

As próximas horas se passaram assim, sem muitas novidades: sol forte, claridade extrema, sede, neve fofa e um altímetro que teimava em não sair do lugar. Cada vez que olhava para o relógio, constatava que havia subido bem menos do que imaginava, ou gostaria. Mas era inevitável fazer uma projeção e, quando já era quase meio-dia calculei que, no ritmo em que eu subia, e se as condições da neve permanecessem daquele jeito, chegaria ao cume por volta das 17:00. Além da esperança de haver menos neve no alto da montanha, a previsão de tempo bom para todo o dia me motivava a continuar. Também sabia que a descida seria bem mais rápida, já que encontraria a rota aberta e, tendo luz até as 21:00, pelo menos, estaria dentro de uma margem de segurança razoável.

 

A monotonia só era quebrada quando encontrava alguma greta pela frente. Fiz um traçado perpendicular a esses obstáculos, evitando a possibilidade de caminhar, sem perceber, ao lado de uma greta coberta pelas nevascas dos dias anteriores. Havia três alternativas quando me aproximava de uma greta, contorná-la em sentido perpendicular, encontrar uma ponte de gelo para ultrapassá-la ou saltá-la. A primeira opção é a preferível, mas nem sempre possível, dependendo do comprimento da greta. As gretas que encontrei até o meio da tarde, de um modo geral, eram pequenas e pouco profundas, mas o grande risco que apresentavam era decorrente das péssimas condições da neve do glaciar. As bordas eram instáveis e quebradiças e, por todos os lados, já começavam a se formar os pináculos de gelo que dão origem aos penitentes. Mas, por volta das 15:00, cheguei a uma greta realmente grande e ameaçadora. Encontrei uma ponte de gelo para atravessá-la, mas que não inspirava nenhuma confiança. Arrisquei um passo nessa ponte e a mesma mostrou sua instabilidade, soltando pedaços de neve e gelo. Resolvi não me arriscar e fui buscar outro caminho, tendo que escolher entre subir ou descer para contornar a greta. Olhei para cima e vi um verdadeiro labirinto de gretas naquela direção. Para baixo, aparentemente, as chances eram melhores, mas não queria perder altitude e optei por subir. Após uns 15 minutos, por sorte, encontrei outra ponte de gelo mais sólida e consegui atravessá-la sem maiores sustos.

 

Continuei a subir e constatei que estava livre das gretas, que se concentravam no centro e na parte norte do glaciar. A inclinação se suavizava cada vez mais e me dei conta que me aproximava de um grande platô que, certamente, me levaria até o cume. O problema é que, enquanto eu me movia lentamente naquela sopa de neve, o apressadinho de meu relógio não queria me esperar e já havia completado mais uma volta: já eram 16:00. E o dedo-duro do altímetro acusava que ainda faltavam uns 300 m de desnível. Não é possível, pensei, o cume parece tão próximo! Ao invés de seguir o contorno mais óbvio pela aresta que formava o platô, busquei uma linha direta para o rumo onde imaginava que estaria o ponto culminante da montanha: em vão, pois isso significou afundar-me, cada vez mais, na neve fofa! Para complicar, a visibilidade começou a piorar e percebi que o cume estava sendo tomado por uma grande massa de nuvens baixas e pouco espessas. Mais abaixo o tempo estava excelente e não havia risco de que se deteriorasse, conforme os prognósticos que havia recebido para os próximos dias. Mas, à medida que subia, fui envolvido por uma espécie de neblina que me fechou totalmente a visão do cume.

 

A partir de então, minhas ações passaram a ser reguladas muito mais pela intuição do que pela razão. Mesmo mantendo os olhos fixos no altímetro e no relógio e fazendo cálculos mentais sobre o tempo de chegada ao cume e de retorno à minha barraca, sabia que já havia extrapolado os limites estabelecidos previamente e que era a intuição o que me conduzia adiante, mostrando-me se seria ou não capaz de concluir a subida e descer com segurança. E essa força intuitiva, por vezes, se apresentava como uma corrente dupla e antagônica, me impelindo a chegar ao cume e, ao mesmo tempo, a dar meia-volta e começar a descer.

 

Em uma breve parada para descanso percebi um detalhe que estava me incomodando: estava ventando! Mas não era o vento em si o motivo do incômodo e, sim, a possibilidade de que o mesmo removesse os sinais de minhas pegadas por entre a neve. Tais pegadas eram a minha “linha da vida”, garantindo minha passagem segura por entre as gretas. Se elas desaparecessem, teria que buscar novamente o caminho e a descida não seria assim tão rápida. Eram esses pensamentos, não sei se produzidos intuitivamente ou racionalmente, que me dominavam quando vislumbrei, um pouco adiante, algumas pedras que pareciam uma espécie de marco. Seria o cume? O altímetro já marcava mais de 6100 m. Como não conseguia enxergar quase nada além de uns 15 metros, não era possível dizer com certeza. Mas ao me aproximar desse suposto marco, constatei que era um falso cume e que a subida continuava levemente.

 

Essa experiência se repetiu pelo menos umas duas ou três vezes mais e a sensação angustiante de nunca chegar era realçada pela visibilidade quase nula. Até que alcancei uma espécie de rampa com uma subida mais forte que, finalmente, se mostrou (ou melhor, não mostrou nada, porque já não era possível enxergar além de uns 3 ou 4 metros) ser a derradeira. Agora estava em um pequeno platô com algumas pedras. Passei a buscar algum marco que me confirmasse que ali era o cume e, dando um giro de 360o, constatei que por todos os lados parecia haver descidas mais acentuadas e nenhuma subida. Enquanto a razão me dizia que finalmente havia chegado ao cume, o que parecia se confirmar pelo altímetro que já havia extrapolado a altura oficial do Marmolejo, a intuição me dizia para sair dali imediatamente. Sem possibilidade de fotografar ou filmar nada, comecei a descer o mais rápido que pude, como um fugitivo em busca de um lugar seguro.

 

Ao chegar ao final do platô e começar a baixar pelo glaciar propriamente dito, minhas preocupações se confirmaram e não encontrei mais minhas pegadas. Fui saltando as gretas que encontrava no caminho, valendo-me da vantagem de que, na descida, a borda oposta estava em um nível mais baixo, facilitando sua travessia. À medida que descia a visibilidade melhorava e, de repente, estava de frente para um sol cor de fogo que começava a se esconder por entre vales e montanhas, a oeste. Um espetáculo lindo e aterrador, ao mesmo tempo, já que me mostrava que, em pouco tempo, não haveria mais luz. Cheguei à depressão do glaciar já no lusco-fosco e respirei aliviado, pois dali em diante uma leve subida me levaria ao campo de penitentes onde minhas pegadas permaneciam. Bastaria contorná-lo para chegar ao Acampamento Avançado. Foi quando me lembrei de dois detalhes importantes: que minha água havia se acabado antes de chegar ao cume e que existe uma coisa chamada sede. E eu estava com muita, mas muita sede, e foi só eu relaxar e sair do estado de concentração extrema na qual eu me encontrava, ao descer pelo glaciar, para começar a sentir os efeitos da desidratação.

 

Continuei a caminhar e começaram a passar pela minha cabeça imagens e desejos de tudo quanto é tipo de bebida, até que alcancei os penitentes e tive a infeliz ideia de quebrar uns pedaços de gelo para colocá-los na boca. Digo que foi uma ideia infeliz porque, desidratado como estava, ao tomar essa espécie de picolé de penitente, meu estômago começou a “embrulhar” e, de repente, fiquei enjoado e pensei “ele está passando mal”. Sentei entre dois penitentes e senti um frio na espinha, e não foi por causa da superfície gelada onde me encontrava, mas por me dar conta do pensamento que me havia saído espontaneamente: “ele está passando mal”! Porque havia usado o pronome “ele” e não “eu”? Só então percebi que havia passado boa parte do dia dialogando comigo mesmo, não da forma como estamos acostumados, mas como se minha consciência visse minha pessoa como algo exterior a mim mesmo. Era algo estranhíssimo do qual eu não conseguia me libertar, eu realmente sentia uma dupla presença e a linguagem de meus pensamentos simplesmente expressava essa sensação ou percepção. Sempre fui fascinado pelas abordagens literárias do tema do “duplo”, tão bem explorado por alguns de meus autores favoritos como Edgar Allan Poe, Dostoievsky e Jorge Luiz Borges, dentre outros, e antes de ir para a montanha estava lendo, justamente, “O homem duplicado”, de José Saramago. Será que minha cabeça estava me pregando uma peça? De qualquer modo, pensei que era hora de descansar um pouco e me ajeitei entre os penitentes. E não é que o lugar era confortável? A camada de neve fresca que ocupava o lugar e o formato da crista que ligava as duas torres de gelo lembravam uma poltrona acolchoada. Como minha roupa impermeável me isolava do frio, pude relaxar tranquilamente por quase meia hora e esquecer um pouco a sede. Teria dado até para tirar um cochilo, mas me levantei animado ao me lembrar de que havia um litro de suco de laranja me esperando em minha barraca.

 

Comecei a contornar o campo de penitentes e o caminho de volta me pareceu mais longo do que quando passei por ali, pela manhã. Fiz mais uma pausa para descanso no Acampamento Avançado e o diálogo comigo mesmo continuava nos mesmos moldes de antes, não conseguia me libertar de meu “duplo”. Já havia chegado na parte mais fácil da descida e não tinha mais com que me preocupar, somente a sede é que me incomodava muito. A trilha que eu havia aberto na neve continuava bem marcada e desci rapidamente até a parede inclinada, o último obstáculo antes de chegar a minha barraca. Terminei a descida, atravessei o canal de penitentes e caminhei os metros finais meio trôpego, mas contente pela possibilidade de me hidratar.

 

A primeira coisa que fiz foi procurar a garrafa de suco e bebê-la avidamente. Já passava da meia-noite e, só então, percebi que não havia mais neve no entorno da barraca. O calor que fez durante o dia havia derretido tudo e, para conseguir água, teria que caminhar até o glaciar para buscar neve por lá. Preferi terminar de beber o suco e descansar, deixando isso para o dia seguinte. Por sorte, não senti sede durante a noite e acordei por volta das 09:30, com o sol esquentando minha barraca.

 

Passei a manhã me hidratando e preparando as coisas para tomar o rumo de volta. Como não daria tempo de sair da montanha naquele mesmo dia, não havia pressa, já que dali até o Acampamento Base eu gastaria, no máximo, umas 4 ou 5 horas. Comecei a descer por volta das 13:00 e a paisagem estava totalmente diferente, já que a neve não cobria mais o caminho, revelando aspectos da rota que eu não havia percebido antes.

 

Meus dois últimos dias na montanha não tiveram nenhum acontecimento digno de nota, mas talvez sejam esses momentos onde “nada acontece” os melhores, onde conseguimos curtir os pequenos detalhes que, quando estamos concentrados ou sob tensão, não podemos nos dar conta. A descida pela aresta, por exemplo, que durante a subida foi um verdadeiro martírio, agora era um passeio com direito a uma vista espetacular. Cheguei ao acampamento base pouco depois das 17:00. A temperatura durante a noite estava amena e agradável e dormi o “sono dos justos” totalmente relaxado, dando-me ao luxo de acordar, no dia seguinte, depois das 09:00 da manhã. O dia estava lindo, céu azul e ensolarado, e somente uns vinte e poucos quilômetros me separavam da civilização.

 

Ao descer pela quebrada percebi que o Estero Marmolejo estava mais cheio do que antes, provavelmente uma consequência do tempo quente dos dias anteriores. Como atravessei o rio ainda na parte da manhã, não encontrei muitas dificuldades, mas teria que cruzá-lo novamente na parte baixa do vale e essa detalhe era a única coisa que poderia me trazer alguma preocupação nesse dia tranquilo. Depois de algumas horas avistei o verde do Cajón de la Engorda” lá embaixo, no início da quebrada, e já comecei a sentir o gosto das cervejas que iria tomar em minha boca. Quando cheguei no início do Cajón, onde a quebrada do Estero Marmolejo se abre, peguei o telefone satelital e liguei para meu amigo Alexandre, em Santiago, avisando-o que em duas horas eu chegaria no “cabrerío” do início da trilha, onde ele havia me deixado 6 dias antes. Só havia me esquecido que ainda faltava a travessia do rio e, quando fui procurar o ponto por onde havia passado na subida, percebi que aqueles pequenos braços de água não existiam mais, tendo sido substituídos por uma única corrente caudalosa e nada convidativa.

 

Subi novamente a quebrada, buscando algum ponto onde o rio estivesse menos perigoso e, depois de algum tempo, encontrei um local onde o mesmo se bifurcava, com algumas pedras no meio. Pelo menos ali eu poderia dividir a travessia em duas partes, fazendo uma parada para recuperar as forças. Entrei em suas águas com botas e tudo, para não correr risco de escorregar. Ainda bem que optei por essa alternativa, porque estava difícil de suportar a força da correnteza, cansado como estava. Tomei um fôlego nas pedras, cruzei a segunda parte e pensei: “agora acabaram as dificuldades!”. Mas a coisa não poderia ser tão fácil e a descida bucólica dos últimos dois dias resolveu se transformar em algo menos monótono. Todos os afluentes pelos quais eu havia passado estavam transbordando de tão cheios, me obrigando a atravessá-los com esforço e cautela. E, por fim, quando já não havia mais nada para acontecer, começou a chover! Eu já estava com as botas e a calça molhadas e, agora, o resto do corpo começou a ficar encharcado. Meio a contragosto, parei para vestir minha jaqueta impermeável.

 

Finalmente, avistei os currais com as cabras: as duas horas que eu previ, inicialmente, haviam se transformado em três. Mas não havia sinal do 4×4 de meu amigo, será que ele tinha se atrasado? Chegando mais perto avistei, ao lado de um casebre, a frente de um carro com o símbolo de um Mercedes. “Será que o Alexandre veio de Mercedes até aqui?”, me perguntei, não poderia acreditar nisso. Foi quando um vulto de terno e gravata saiu atrás das cabras e veio em minha direção: era o Alexandre! Esse meu amigo é um executivo de uma multinacional e, ao receber minha ligação, interrompeu uma reunião e veio direto do trabalho, com roupa de trabalho e carro de trabalho. Ele me contou que havia acontecido um grande alude (avalanche de pedras e inundação) no Cajón del Maipo, que ficou isolado por uns dois dias, e que a estrada estava quase intransitável. E o maluco havia chegado ali de Mercedes! O abastecimento de água em Santiago havia sido interrompido por 24 horas, por conta do alude, fora o terremoto que se produziu uns dias atrás. E eu lá na montanha, sem saber nada disso. Muito mais seguro lá encima, pensei…

 

Mas o mais engraçado ainda estava por vir. Chegamos em Santiago depois das 22:00 e estávamos famintos. Como o Alexandre mora em um condomínio afastado da cidade, não daria tempo de ir a sua casa para tomar um banho e sair novamente. Quando me dei conta, ele estava entrando no estacionamento do Parque Arauco para irmos jantar. Diante dos meus protestos, ele riu e comentou: “relaxa que aqui ninguém repara nessas coisas”. Como não, se os chilenos em Santiago são tão formais… E como não reparar em um sujeito de terno, acompanhado por outro vestido com roupas de montanha em pleno calor de verão, barba mal feita, calça toda suja de barro e calçando um par de crocs? Mas a fome era maior do que qualquer escrúpulo e sentamos tranquilamente em um restaurante. Ante o olhar de interrogação do garçom, apontei para o Alexandre em seu impecável terno preto e soltei um infame “É o meu segurança”! Impossível pensar em um final mais divertido…

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Sobre o autor

Marcelo Delvaux - Colunista

Marcelo Delvaux é montanhista e guia profissional de montanha pela EPGAMT de Mendoza, Argentina, onde vive atualmente. Praticante de escalada em rocha desde a década de 90 e de escalada em altitude desde 2001, já participou de diversas expedições na Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Guatemala e Tibete, virando adepto de um estilo rápido e leve. Acredita que a multidisciplinaridade é o caminho para o crescimento pessoal e sucesso profissional e busca a integração de áreas como montanhismo, filosofia e gestão de projetos em seus treinamentos de liderança, motivação e desenvolvimento humano.

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