MEPA x MUPA

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Esta história começou devido ao nosso atraso relativo a escalada, no início dos
anos 80, mas por incrível que pareça, ainda é atual e não se restringe somente
ao Brasil. Quer ver?


MEPA foi um termo muito usado nos anos 80, e dissertado no Manifesto da Escalada Natural (1983), de autoria do Andre Ilha. MEPA quer dizer: máxima eliminação de pontos de apoio. Na prática isso foi um desafio lançado para os escaladores subirem as vias em livre, sem pisar ou segurar nos grampos, o que era comum no Brasil. Sexto grau era um nível elevado na época, e como você sabe, teoricamente não existia vias de sétimo grau por aqui, anterior a 1982. Como era normal pisar nos grampos, era até estranho inventar a tal da MEPA, que parecia uma tentativa de lançamento de moda, tal como o uso de magnésio, que também era bem estranho para a época.

Dai veio a contrapartida, a MUPA, que não sei exatamente de onde surgiu, mas quer dizer máxima utilização de pontos de apoio, ou seja: “grampos são agarras”. Obviamente isso foi uma resposta sarcástica das pessoas que desdenhavam (inveja + medo) dos escaladores que sobressaiam na época, no Rio de Janeiro, e traziam novidades: Alexandre Portela, Andre Ilha, Giovani Tartari, Marcelo Braga, Marcello Ramos, Sergio Tartari e Sergio Poyares, entre alguns outros que desapareceram. Mas também existia um time com excelentes escaladores que tinha outra filosofia, entre eles: Mário Arnauld e Mauricio Motta, que deram grandes contribuições, mas seguindo uma linha mais clássica. Aliás, escalada tradicional&nbsp, genuinamente brasileira nada tem a ver com proteção móvel.

Quando comecei a escalar fiz um ótimo curso básico no CEB, com excelentes escaladores da época (Juratan Câmara, Mário Arnauld, Pedro Caliano, etc.), e já tentávamos escalar em livre. Mas devido as brigas políticas em 1982, o clube rachou ao meio e os melhores escaladores saíram: uma parte dos dissidentes foi
para o CEG, e outra parte para o CERJ, para onde fui. No CERJ me enturmei com uns sujeitos que usavam a MUPA como excelência, mas ainda não existia tal termo.

O lema era: “Suba do jeito que der”. Enfim, aprendi na prática como dominar e laçar grampos, quando não éramos capazes de usar as agarras naturais. Fora do Rio de janeiro, os grampos são conhecidos como “P”. Bem, dominar grampos de vias “deitadas” era fácil, mas a dificuldade aumentava na medida que a parede ficava vertical. As vezes usávamos uma fita como estribo, para depois subir sobre o grampo e dominá-lo. Entretanto, alguns domínios de grampos eram tão difíceis que se o sujeito tentasse escalar em livre, talvez fosse mais fácil.

Cair dominando grampo chegava a ser comum nas vias mais difíceis. Para completar o&nbsp, currículo, precisávamos aprender a laçar os grampos. Ora, nas paredes deitadas isso era moleza, da mesma forma, a dificuldade aumentava quando ficava mais vertical. Dai reclamávamos quando o grampo era bem&nbsp, batido, o que dificultava as nossas tentativas. Estranho, não é? Os melhores grampos para serem laçados eram os que ficavam para fora, ou seja, eram os mal batidos. A situação ficava mais esquisita quando&nbsp, tínhamos que subir sobre um grampo, se equilibrar com um pé, puxar a corda e tentar laçar a proteção&nbsp, seguinte. Você consegue imaginar isso?

Obviamente, escalando paredes naqueles dias “ruins”, foram inúmeras as vezes que tive que laçar grampos. Muitos dos meus colegas “super escaladores” têm vergonha de admitir o uso de algumas roubadinhas, porque isso pode sujar a imagem deles!

Quer ver alguns escaladores de nono e décimo grau chorar de verdade? Coloque-os para guiar uma chaminé clássica de quarto grau, longa, com grampos lá na… Já vi isso algumas vezes (hahaha).
&nbsp,
Você pode rir e pensar o quanto esses “velhinhos” eram idiotas, mas… Em pleno ano de 2011, uma colega me pediu dicas sobre o melhor stick clip para comprar. Ela escalava vias decoradas de nono grau, mas não conseguia guiar à vista uma escaladazinha clássica de quarto grau, o que é comum entre muitos e muitos
escaladores! Enfim, respondi: “Mas para que comprar um treco desse, somente para costurar a primeira proteção?” – A resposta dela: “não apenas a primeira, mas também a segunda, a terceira… ” – Minha réplica: “Você devia aprender a laçar grampos e evitar as vias chapeletadas”. Eu não iria nunca perder essa zoação.
Ora, hoje as pessoas não dominam ou laçam grampos, elas costuram com uma vara longa para fazer a sequência difícil, ou exposta, com corda de cima. Aos olhos de um velho rabugento, isso é extremamente ridículo!

Acontece que nos anos 70 e inicio dos 80, para muitos, os grampos faziam, naturalmente, parte das agarras das escaladas. Eram usadas com a maior naturalidade. A graduação de muitas vias era considerada usando os grampos como apoio, e até hoje o grau de algumas vias continua o mesmo! Exemplo: normal da Agulha do Diabo, que é considerada como III Sup. Ora, somente o início em livre é sexto grau, e ainda tem a saída de uma chaminé que pode ser sétimo, feito em livre. Outro exemplo, Leste do Dedo de Deus, que consta como III. O início da variante Maria Cebola, saindo de cima de um tronco, pode ser sexto. Ainda tem outro lance mais acima que pode ser sexto ou sétimo. Enfim, há vários outros exemplos de vias que estão com a graduação subestimada porque os grampos foram considerados como “agarras” – Para você ter uma idéia, algumas vias de IV e V eram equipadas com cabo de aço (via ferrata) até os anos 70. Entretanto, o sistema de graduação antigo não é o mesmo dos dias atuais, ocorreram mudanças, mas de forma natural. Mesmo porque o material, as técnicas e a preparação física evoluíram.

Mas algumas coisas não mudaram nessas ultimas 3 décadas, por exemplo, as roubadinhas continuam as mesmas, o que mudou foi a tecnologia. No lugar de laçar grampo, costura-se debaixo com uma vara de 4 metros. Obviamente essas pessoas não escalam vias de quarto ou quinto grau onde a primeira costura fica a 10 m de altura, primeiro porque não sabem laçar, e segundo porque… Bem, a esta altura do texto e da via, você já sabe… Mas uma coisa não vai mudar nunca, o seu ego, não é mesmo? Sim, estou falando com você! Pare de ficar dando desculpas quando está escalando mal, existe uma lista enorme sobre as desculpas&nbsp, clássicas e as mais criativas. Ou você pensa que conseguiu ser original e criou uma nova!

Duvido, já usaram todas as desculpas nos diversos idiomas! Tenha coragem e apenas diga: “estou numa fase ruim, estou com medo e não estou escalando bem”. Se você vier com qualquer outra desculpa, mesmo que seja verdadeira, vai passar por enrolador.

Antonio Paulo Faria

P.S. Para os que não estão familiarizados com a evolução da escalada brasileira e quiserem entender melhor o texto, sugiro a leitura do livro Montanhismo Brasileiro: Paixão e Aventura.

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Sobre o autor

Antonio Paulo Faria - Colunista

Antonio Paulo escala há tanto tempo que parece que já nasceu escalando... 30 anos. Até o presente, abriu mais de 200 vias no Brasil e em alguns outros países. Ele gosta de escalar de tudo: blocos, vias esportivas, vias longas em montanhas, vias alpinas... Mas não gosta de artificiais, segundo ele "me parecem mais engenharia que escalar propriamente". Além disso, ele também gosta de esquiar, principalmente esqui alpino no qual pratica desde 1996. A escalada influenciou tanto sua minha vida que resolveu estudar geografia e geologia. Antonio Paulo se tornou doutor em 1996 e ensina em universidades desde 1992. Ele escreveu sobre escalada para muitas revistas nacionais e internacionais, capítulos de livros e inclusive um livro. Ou seja, ele vive a escalada.

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