Não crie expectativas, mas nunca desista dos seus sonhos – A Asa Esquerda – Parte 1

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O autor na aproximação ao Campo Base do Condoriri;

Após fortes emoções já no embarque, onde quase não embarcamos pela falta da carteirinha de vacinação que nunca havia sido pedida em viagem alguma (sempre há uma primeira vez), eu e o grande amigo e parceiro de escalada na Equipe Refúgio Serra Fina, Pieter Paul Claeys, partimos no dia 22/05 para Santiago, onde faríamos escala para enfim chegarmos à cidade de La Paz.

O autor e o Pieter aclimatando na cidade de El Alto;

Eu, pessoalmente, gosto muito da Bolívia. É a quarta vez que vou para lá e a terceira para escalar, e sempre aprendo muito com o seu povo e as suas montanhas toda vez que vou. E foi buscando isso que, após a escala de seis horas em Santiago, desembarcamos no dia 23/05 pela manhã no aeroporto de El Alto, um distrito que fica na parte alta da cidade, já a 4000 metros de altitude. Pegamos um táxi e descemos para La Paz que fica a aproximadamente 3600 m. s. n. m. Fomos para o hotel e descansamos.

No dia seguinte, o nosso parceiro e guia Pedro Quispe veio nos buscar para continuarmos o nosso processo de aclimatação à altitude. Demos uma volta de aproximadamente 18 Km começando por El Alto e finalmente descendo até o hotel em La Paz, enquanto bebíamos vários litros de água. Nesse dia discutimos a possibilidade de o nosso objetivo inicial: realizar uma travessia Chachacomani-Chearoco em estilo alpino.

Condoriri visto da laguna Chiarkota;

As condições para a aproximação ao campo alto do Chearoco e o caminho acima dele, de acordo com a rota planejada, não eram nada animadoras. Então, em comum acordo, decidimos mudar o nosso objetivo e assim
escalar primeiro a Asa Esquerda do Condoriri e logo em sequência o Nevado Chachacomani.

O autor e o Pieter na ascensão de aclimatação ao Chacaltaya;

No dia 25/06, fomos até Chacaltaya, uma montanha que possui uma estação de esqui desativada próxima a La Paz cujo ponto mais alto se encontra a 5400 m. s. n. m. Após uma trilha de aproximadamente 50 minutos, chegamos ao cume, que ventava um pouco e estava bem frio, e passamos  aproximadamente 2 horas lá em cima, regados a muita água, como de praxe.

Descemos, voltando novamente a La Paz, onde nos reuniríamos para acertar os últimos detalhes da expedição e ficamos sabendo que o nosso também grande amigo e parceiro na Equipe Refúgio Serra Fina, Maurício Anchovas, se juntaria a nós na última parte da viagem, em que, caso tudo saísse como planejado, pretendíamos escalar o Nevado Illimani.

A ótima notícia ajudou bastante a manter o clima positivo que desde o começo envolveu a todos. No outro dia havíamos programado que descansaríamos e arrumaríamos os equipamentos para, no dia seguinte, partir para a montanha. Acabamos aproveitando, pela manhã, para dar mais uma volta em El Alto e conhecer a tão falada feira do distrito, que é algo como a 25 de março com vários corredores.

Tivemos a impressão de que metade de La Paz ia comprar lá, pois estava bem cheio. Em todos esses dias de aclimatação uma gripe chata persistia em me acompanhar, o Pieter também teve algumas  indisposições estomacais, porém conseguimos melhorar e assim ficar prontos para iniciar a primeira parte das nossas escaladas.

Descansando no Campo Base do Condoriri ao chegar, com o Pieter;

No dia 27/05, coincidentemente meu aniversário, partimos para o Condoriri onde eu e o Pieter teríamos cada um os seus objetivos, portanto nessa parte inicial de escaladas não estaríamos juntos. Ele pretendia escalar o Pequeño Alpamayo e a Cabeza de Condor, duas montanhas que eu já havia escalado e que ele precisava visitar para resolver uma pendência anterior, e eu iria para a Asa Esquerda da Cabeza escalar uma das vias daquela parede, que para mim era um sonho.

A Asa Esquerda e a Cabeza de Condor à direita;

Aproximação à Asa Esquerda, no fim da madrugada próximo ao Campo Alto do Condoriri;

Após um bolo surpresa no Campo Base com direito a parabéns em três línguas, bilhetes da família e dos amigos que ficaram no Brasil e muitas risadas, todos jantamos e eu e o Pedro nos preparamos para dormir, pois acordaríamos as 2 horas para iniciar a subida de aproximação até a Asa Esquerda. Acordamos, tomamos café e partimos às 3:30 seguindo a trilha que leva até a mesma.

A trilha se inicia por uma encosta de terra por onde se sobe para uma crista que fica em uma moraina, e segue até um caminho onde há pedras médias empilhadas. A partir daí a trilha se torna íngreme, e um pouco antes de chegar a um muro de pedras ela passa a ser de terra fina e lisa, o que dificulta um pouco a progressão.

Depois dessa parte seguimos beirando o muro de pedras até chegar à primeira canaleta de neve, que conseguimos superar sem crampons e logo depois a segunda, também superada facilmente. Então é necessário “desescalar” um pequeno trecho em rocha para então chegar ao Campo Alto do Condoriri, que fica exatamente na frente da Asa Esquerda, separada por um platô de neve de uns 500 metros de extensão. Chegamos aproximadamente 7 horas e paramos para fazer um lanche rápido e iniciamos a aproximação final para a parede, onde escalaríamos uma via de aproximadamente 400 metros, a Franco-Italiana.

O autor na guiada da primeira enfiada;

Chegamos aproximadamente 8 horas na base dela. Uma vez na base, combinamos que alternaríamos as guiadas e a enfiada do crux ficaria a cargo do Pedro. Sendo assim, guiei um trecho de entre 40-50 metros onde havia uma camada de aproximadamente 30 cm de neve em pó, que já mostrava que seria a escalada não seria tão simples. Nesse trecho, pela condição da parede, optei por não colocar nenhuma estaca e tocar direto para o ponto onde seria montada a reunião (parada).

Lentamente fui progredindo e cheguei ao ponto de parada. Montei uma parada psicológica com uma estaca e assegurei o Pedro, que já tinha começado a subir em simultâneo. A próxima enfiada já era o crux: uma canaleta estreita de rocha com gelo vítreo (verglass) de uns 20 metros, provavelmente um dos piores tipos de condição que se pode encontrar em uma parede. O Pedro entrou e, com algum esforço, colocou dois parafusos de gelo no trecho em verglass.

O autor na sua batalha interna já no meio na parede;

Saindo do crux, escalou mais uns 15 m e montou o que provavelmente era a única parada razoável em toda a via, com mais um parafuso no gelo. Comecei a escalar. Nos trechos onde eu deveria sacar os parafusos, creio que acabei fazendo força demais e, ao chegar à parada, sentia as minhas panturrilhas completamente fadigadas. Nesse momento disse ao Pedro que precisava descansar para que pudesse guiar. Ele preferiu não esperar e tocou a próxima enfiada.

Enquanto o assegurava eu tentava descansar, mas não consegui me recuperar direito e quando subi, ainda estava um cansado. E a neve em pó na parede não ajudava muito na minha recuperação. Sendo assim, sabendo que tínhamos que sair da parede por cima, resolvi poupar energia indo como participante até que conseguisse me recuperar mais. Porém não foi isso o que aconteceu, e acabou que o Pedro guiou todas as enfiadas restantes, com a parede ora com neve em pó alta, ora com gelo.

Pedro Quispe e o autor tentando relaxar em meio ao comprometimento da via;

Conforme subíamos a inclinação aumentava e o esforço também, porém em alguns pequenos trechos a neve melhorava um pouco, e isso dava um pequeno refresco à exigência física da via. Outro fator importante: aproximadamente 70% da via era feito debaixo de um serac que fica no topo da Asa, então tínhamos que sair o quanto antes debaixo do serac para minimizar o risco de ser atingidos por blocos de gelo que eventualmente se
desprendessem e caíssem com a saída do sol e o consequente aumento da temperatura.

Vista do serac acima da via no centro superior à direita da foto;

Um pouco antes do início do crux já se percebe a qualidade do gelo;

Não percebi que esquentava cada vez mais e esqueci de tirar uma (ou mais) camadas de jaqueta que eu vestia. Esse calor acabou me fazendo sofrer mais ainda, e a cada enfiada eu só me concentrava em escalar direito e economizar energia para sair daquela parede o mais rápido possível. É impressionante o nível de concentração e comprometimento a que se pode chegar nessas situações. Nada te tira do foco. Não havia quase nenhum ponto bom para qualquer tipo de ancoragem, e não havia como descer. Tínhamos que sair por cima da via.

Na última enfiada enfrentamos o segundo crux da via: um trecho em neve e gelo de aproximadamente 85 graus de inclinação e 10 a 15 metros que terminava em uma pequena cornisa, onde deveríamos sair da via. O Pedro guiou essa enfiada e sofreu para vencer essa cornisa, tendo que se autorresgatar para sair.

Na minha vez, quando cheguei a ela, precisei descansar para conseguir sair, depois que derrubei praticamente metade da cornisa. O cume principal ainda ficava uns 40 metros acima, a 5580 m. s. n. m., andando, mas na situação em que estávamos sequer cogitamos ir até lá. Precisávamos de energia para a descida e para nós o
que importava mesmo era escalar a parede.

O autor tentando descansar para conseguir sair da via, no fim da parede;

Após comemorações, fotos e vídeos fizemos um lanche e descansamos alguns minutos, então começamos a nos preparar para a descida, que também não seria simples. Subimos por um bloco de rocha no cume secundário da Asa e desescalamos um trecho desse e de outros blocos de rocha para, enfim sair numa pendente de neve de uns 35 a 40 graus de inclinação razoavelmente aérea. Então andamos até a aresta que
fica à esquerda da Asa, por onde desceríamos.

Final da via Franco-Italiana;

A linha em vermelho é a via Franco-Italiana. A linha laranja é o caminho de descida, e o
ponto vermelho no meio da linha laranja é o local aproximado de onde foi possível rapelar;

Essa aresta era razoavelmente exposta (rs) até quase o seu final. Após isso desescalamos um trecho de neve em pó por uma canaleta em diagonal que fica do lado esquerdo da Asa. Isso tinha que ser feito rapidamente, pois estávamos expostos à queda de rochas naquela canaleta. Após desescalarmos aproximadamente 70% da canaleta, encontramos um grande bloco de rocha onde abandonamos uma fita e montamos um rapel para finalmente sair na base da parede.

Tínhamos que sair rápido da base pois as quedas de neve e gelo aumentavam na parede da Asa e não queríamos ser atingidos por nenhuma delas.

Foi o que fizemos. Finalmente, ao chegar ao platô, aproximadamente 17:30 hs, pudemos relaxar um pouco e após uma parada para tirar os equipamentos de escalada, uma barra de cereal e um chazinho continuamos a descida pelas canaletas e a trilha de terra e pedras, não sem apreciar um pôr-do-sol belíssimo, como são todos lá para aquelas bandas.

Vista da face oeste do Huayna Potosi no início do anoitecer, na descida;

Quando chegamos à moraina já estava escuro, e ao iniciarmos a descida encontramos os amigos José Mamani e Francisco “Pancho” Tinta, que haviam saído ao nosso encontro com mais chá e alguns chocolates. Aprendi uma grande lição nesse dia: temos que lutar bravamente pelos nossos objetivos, só assim o sucesso é factível.

Naquela parede, era a única saída. Não havia volta. Me senti extremamente grato àquela montanha pela lição de comprometimento que me havia ensinado. De qualquer jeito, me impressiona o fato de aquela belíssima parede ser tão pouco escalada em comparação com outras montanhas na mesma cadeia.

Pessoal reunido no Campo Base antes da saída, cada qual para a sua próxima aventura.

Não faço ideia de quantos brasileiros escalaram ali, mas acredito que bem poucos. Perguntei ao Pedro qual seria a graduação da via e ele me disse que naquelas condições era um D+ e, apesar de não termos escalado em trechos de rocha, pela mistura da neve com o gelo ela se equivalia a um M5.

Chegamos ao Campo Base às 20 horas e tínhamos programado acordar cedo no dia seguinte e levantar acampamento sentido Nevado Chachacomani. Mas, após 18 horas de jornada, o cansaço que eu sentia me fazia pensar seriamente em sugerir usar o dia de janela que tínhamos programado para descansar…

Continua…

O autor na aproximação à base da via Franco-Italiana;

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