A Natureza dos Cânions

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Começo aqui uma série de artigos onde comento sobre os cânions do sul do Brasil. Vou inicialmente falar sobre sua peculiar natureza.

Os Campos do Alto da Serra, RS

Os cânions brasileiros começam entre São Paulo e Paraná, mas só alcançam sua plena expressão nos dois outros Estados do Sul. A longa distância e o clima incerto não tornam fácil conhecê-los de uma só vez. No meu caso, foram algumas viagens ao longo de cinco anos, com diferentes cenários e histórias.
A parede que abriga os cânions é impressionante, a meu ver só comparável ao Espigão Mestre do Brasil Central. Corre por cerca de 300 km, desde Cambará do Sul (RS) até Urubici (SC). Apesar de imensa, não vislumbramos esta parede como uma extensão contínua, certamente devido a seu percurso escuro e sinuoso.

Vegetação de Campo e de Mata no Itaimbezinho, Cambará do Sul, RS

São 68 cânions ao longo da Serra Geral, com extensões que variam desde os 16 km do Josafaz – de longe o maior – até menos de 1 km das formações menores, às vezes gargantas pequenas que convergem para maiores. Noto que o maior cânion brasileiro é o de Guartelá (PR) com 32 km, porém situado fora desta parede. Existem na região três Parques Nacionais, somando quase 80 mil ha.
Além dos acessos principais asfaltados, há várias estradinhas emocionantes que conectam as vilas da planície lá embaixo com os campos altos da serra. Destas, só uma é pavimentada, a famosa Rio do Rastro. Acredito que tenham em média 20 km nos seus trechos serranos, cada qual acessando um cânion em particular: Itaimbezinho, Fortaleza, Realengo, Espraiado e Ronda-Funil (ver próxima coluna).
Foram dois os acontecimentos que explicaram a formação dos cânions. O primeiro deles teve alcance mundial, foi a separação do continente Gondwana, no qual América e África estavam unidas, com o consequente aparecimento do Oceano Atlântico.

Campos de Cima da Serra, São José dos Ausentes, RS

Ele gerou uma fenda pela qual emergiu lava basáltica, no maior derramamento deste tipo da geologia. Ao longo de uma dúzia de erupções, ela recobriu o grande deserto que era então o sul do Brasil, porém de maneira frágil, pois seu rápido resfriamento criou inúmeras trincas.
Em seguida, o centro da América do Sul sofreu um afundamento, criando a região do Pantanal, compensado pelo soerguimento ao sul, que formou o degrau da Serra Geral. Esta parede, junto com o conjunto de trincas, foi então erodida pelos cursos d´água, que escavaram os fundos e estreitos vales que originaram os cânions.
A existência dos paredões verticais das gargantas é responsável pela grande variação nos ecossistemas. Nos campos planos de cima da serra você atravessará as gramíneas nativas, com presença de arbustos, árvores modestas e às vezes araucárias. Já nas matas nebulares esparsas dos campos, você encontrará vegetações humildes, pequenas e retorcidas. E, nas partes úmidas, as turfas, compostas por musgos.

Vista da Vegetação da Parede de um Cânion

À medida que você descer as encostas, notará que a vegetação se torna mais exuberante, até se transformar na mata atlântica. Este ambiente peculiar levou a flora a evoluir isoladamente, gerando um grande endemismo.
Fala-se muito na região nos leões baios, na realidade pumas ou suçuaranas. Outros felinos são as jaguatiricas e as onças pintadas. Você provavelmente verá mais de uma vez as raposinhas graxains e o quatis, sempre à busca de pequenos furtos. Lobos, veados, bugios e capivaras são às vezes encontrados.
Há duas aves muito bonitas, comuns na região: as gralhas azuis e as curicacas, ambas com belo colorido e, no caso da segunda, com canto característico.

Parede dos Cânions vista do Alto da Serra, Cambará do Sul, RS

A serra tem um clima muito especial, devido a seu relevo. A diferença de temperatura entre as bordas frias nos campos (que estão em altitudes próximas a mil metros) e os fundos quentes dos cânions (na planície litorânea) faz surgir os nevoeiros. Aparecem rapidamente, frustrantes e desorientadores.
Embora ocorram em todas as estações, os nevoeiros são mais frequentes no verão, quando também chove muito – assim, esta é a estação a ser evitada.  No inverno, porém, o frio costuma ser intenso – já acampei uma vez com temperatura abaixo de zero (e a companhia de um cão enorme que invadia minha barraca, após ter se rolado na bosta de vaca). De toda a forma, escolha sempre as manhãs para suas caminhadas, pois a evaporação tende a ser menor, permitindo desfrutar os impressionantes visuais.






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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

1 comentário

  1. Geraldo Barfknecht em

    Caro Alberto, saudações. Aqui não é lugar para textos técnicos, mas perdoe-me, a abordagem é ligeira, de conhecimento público e infelizmente, reproduz alguns conceitos, que não ajudam. Mas abordar o tema, foi um ato nobre.Não se pode ressumir, que uma porção da placa subsidiu e outra subiu. As explicações, que os guias locais, dão passam longe da natureza, origem. Um exemplo? Se o Grupo Serra Geral, tem cerca de 1,200.000 Km2, mas não vamos falar em áreas, mas lhe pergunto, porque o RS tem os cânions, tão típicos, estreitos na essência, sem distinção com seus vértices, fechadíssimos e SC não? Mesmas rochas, tectônica, morfologia, etc. E o PR, não poderiam te-los. Nãos e preocupe, muito geólogos não tem ideia também. Sugestão deveras importante, tem que dar créditos as fotos, fontes e principalmente, texto que as identifique. Somente no texto, perdem-se. Lobos? Guarás?O Canídeo?

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