Noticias do Cho Oyo

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Por vinte e cinco anos venho percorrendo as montanhas do Himalaia e olhando os grandes e imponentes gigantes se elevando mais de 3.000 metros acima das lindas trilhas que por si só já estão normalmente muito acima do ponto culminante do Brasil. Nesses anos tive a oportunidade de vê-las todas de perto, todas as 14 montanhas com mais de 8.000 metros. De todas, claro, o Everest foi a que mais visitei, tendo guiado 41 grupos ao seu campo base. Com muita frequência, também cheguei próximo ao Cho Oyu, a sexta mais alta do planeta, já que um dos treks que guio, o Vale de Gokyo no Nepal, chega bem próximo ao seu campo base.


Sendo apaixonado por escalada em gelo e neve, nada mais natural do que sonhar em escalar uma delas. Nesses anos todos de guia de montanha por algumas vezes cheguei a considerar seriamente tomar esta decisão. Dai, por um ou outra razão, acabei desistindo. Não é um empreendimento facíl a ser considerado levianamente. Afinal é um comprometimento considerável em termos de tempo, usualmente mais do que um mês, de dinheiro com custos chegando na casa dos US$ 50.000 e exigindo um preparo físico imenso. Não é fácil reunir todas essas condições. Para complicar ainda mais, eu queria estar em uma expdição onde tivesse as pessoas certas ao meu lado, já que dividir algo desta magnitude exige um espirito de equipe, cooperação e muitas risadas para compensar o stress causado pelo cansaço crônico e os perigos enfrentados diariamente.

No ano passado, eu e a Andrea decidimos levar adiante este sonho e nesses 16 meses não fizemos outra coisa do que treinar e direcionar toda nossa vida no sentido de estarmos prontos para subir nosso primeiro 8.000 metros, o Cho Oyu. Esta linda montanha foi escolhida levando-se em conta o custo, uma das menos caras, seu grau de dificuldade menor, a facilidade de acesso, à apenas três dias de viagem por terra a partir de Katmandu e sua altitude, 8201 metros, não tão alta como Everest, Kanchenjunga, Lhotse e Makalu, mas mais alta do que muitas que são poucos metros acima da marca mágica dos 8.000. Os planos incluem escalar o Everest no próximo ano e considero que o Cho Oyu é a melhor montanha para adquirir a experiência que necessitamos para o Everest.

Nesses meses todos fizemos uma infinidade de trekkings de altitude sempre com mochilas pesadíssimas e escalamos bastante. No ano passado fomos ao Aconcagua, Huayna Potosi pela rota francesa, Pequeno Alpamayo, Sajama, Chimborazo e Cotopaxi. Neste ano subimos o McKinley, o Elbrus e o Kilimanjaro. Agora estamos prontos e em apenas 48 horas estaremos saindo para o Cho Oyu. Nem posso acreditar! Após vinte e tantos anos de sonhos finalmente as condições corretas aconteceram.

Gostaria de convidá-los para acompanhar-nos nesta jornada que, tenho certeza, não será fácil, mas espero que seja de crescimento interior, divertida e, claro, bem sucedida. Estaremos tentando enviar novidades a cada dois ou três dias por nosso sistema de comunicações. Digo que espero mandar, já que comunicação por satélite nem sempre funciona como gostaria. As fotos não serão muito frequentes, já que seu envio é bastante oneroso, me desculpo por isso. Apesar da Andrea ser a primeira mulher guatemalteca a ter subido o McKinley, a mais alta da América do Norte, possivelmente a primeira guatemalteca a ter subido o Aconcagua, Elbrus e Kilimanjaro e em breve se tornar a primeira centro americana a escalar um 8.000, os prometidos patrocínios não se concretizaram e nossas finanças estão um pouco abaladas.

30-08-09

O grande dia chegou! Ao primeiro toque do despertador saltei da cama completamente desperto e pronto para por o pé na estrada. Finalmente estávamos a caminho com planos de chegar a Nyalam no Tibete a 3750 mestros neste mesmo dia. Esse ambicioso plano foi literalmente por água abaixo duas horas depois com o primeiro desabamento que nos obrigou a carregar nossas coisas e tomar um outro transporte. Isso voltou a se repetir e ao invés das 4 horas previstas até a fronteira, evamos o dobro. Não havia maneira de seguir e passamos a noite em Kodari.

Passamos a tarde conversando e conhecendo uns aos outros. São três escaladores de Malta, o Richard, o Marco e o Gregory, quatro do Brasil, o Lui, o Felber, o Lucas e eu, uma da Guatemala, a Andrea e um escocês, nosso guia Victor Saunders. Além disso três sherpas, dois se chamam Dorje e um Padawa, o sardar e chefe da equipe nepalesa. Mais trade vamos encontrar com o agente de ção do governo chinês e os auxiliares de cozinha tibetanos.

O clima está super gostoso, descontraido e isso é um excelente sinal. Serão longos 45 e estar em boa companhia é fundamental.

31-08-09

Logo pela manhã passamos pela fronteira e enfrentamos a burocracia chinesa com Raios X, revistas minuciosas, buscas por fotos de Sua Santidade o Dalai Lama e duas horas de fila. Depois disso soubemos que a estrada a Nyalam está fechada durante o dia para reparos e só sairemos as 19 horas. Me sinto tranquilo com tudo isso e isso até me surpreende, pois sou muito ansioso quando desejo fortemente algo. Mas, estou curtindo cada segundo disso então tudo bem.

Manoel Morgado é médico e guia de montanha com mais dezoito anos
de experiência guiando grupos de brasileiros em viagens de trekking e
escalada em vários países do mundo. Se quiser saber mais sobre as
expedições organizadas e guiadas por Manoel Morgado visite o site www.manoelmorgado.com.br
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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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